Por trás da neblina da manhã acreana e do peso secular da castanha, uma nova juventude seringueira recusa o êxodo e empunha a tecnologia para transformar o legado de sangue dos empates em orçamento e política pública.
O silêncio absoluto da Amazônia é um mito urbano. A floresta é barulhenta, viva, um motor biológico que não desliga. Mas na Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, há um novo ruído se misturando ao canto dos pássaros e ao estalo dos ouriços de castanha caindo no chão úmido: o som das notificações de celular.
Para quem assiste de longe, acomodado na imagem romântica (e muitas vezes engessada) do seringueiro isolado no tempo, a cena pode parecer um choque de realidades. Para Rian Barros, é apenas a sobrevivência mudando de marcha. Filho de Raimundão Mendes de Barros — lenda viva dos históricos empates que, na base do corpo a corpo, frearam as motosserras ao lado do primo Chico Mendes —, Rian carrega um sobrenome que pesa como a própria história do estado.
Hoje, como Secretário da Juventude do PT e liderança que não arreda o pé do chão de terra, ele personifica a ponte entre a trincheira do passado e as batalhas do século XXI.
“Ser filho do Raimundão aqui dentro da Resex não é só orgulho, é uma responsabilidade muito grande”, ele me diz. A voz carrega a firmeza de quem não aprendeu política nos livros, mas na poeira dos ramais. “Eu cresci ouvindo história de resistência, de enfrentamento, de gente que peitou fazendeiro pra garantir esse chão que a gente pisa hoje. Essa terra não foi de graça. Foi conquistada na luta, com suor, sangue e vidas.”
Essa memória, no entanto, é uma planta que exige rega diária. Rian sabe que o esquecimento é o primeiro sintoma da perda de direitos. A juventude da floresta entende parte da dimensão histórica de onde pisa, mas, nas palavras dele, “resgatar essa memória é manter a chama acesa e a luta mais viva do que nunca”.
A Gênese de Sangue: O Preço de Quase 1 Milhão de Hectares
Criada em março de 1990, a Reserva Extrativista Chico Mendes não foi uma concessão diplomática do Estado, mas o resultado de mais de uma década de sangue derramado.
Com 970 mil hectares abraçando sete municípios do Acre, ela nasceu da luta de Chico Mendes e seus companheiros, com a carne e a coragem dos “empates” — barricadas humanas onde seringueiros davam as mãos para formar escudos contra tratores e motosserras.
O objetivo era frear o trator da ditadura que vendia a Amazônia para a agropecuária do Sul. A Resex foi concebida sob uma premissa revolucionária: provar que as populações tradicionais poderiam prosperar mantendo a floresta de pé. Uma utopia que, trinta anos depois, colide com a dureza do mercado.
Resex Chico Mendes, entre Brasileia e Assis Brasil (Foto: Arison Jardim)
O peso do ouriço e a borracha que pisa em Paris
A modernidade não apagou a dureza do ofício. O extrativismo não é um passeio no parque; é uma coreografia bruta com a natureza. A coleta da castanha-do-brasil dita o ritmo econômico e o desgaste físico de quem vive sob a copa das árvores.
Rian, durante a coleta da castanha neste ano (Foto: Arquivo Pessoal)
“Quem tá no mato sabe que a castanha não é fácil. É peso nas costas, é chuva, é risco de cobra, é andar muito dentro da mata, é trabalho duro”, descreve Rian, dissipando qualquer verniz poético sobre a lida diária.
A saída para não ser esmagado pela engrenagem do mercado contínua sendo a mesma cartilha escrita por seus antecessores: o associativismo. A cooperativa funciona como um escudo.
“Sozinho o produtor é pequeno, mas juntos a gente fica forte. A organização coletiva ainda é nossa melhor defesa contra atravessador que quer pagar mixaria.”
Mas a economia da floresta se ramificou. A borracha, o ouro branco que já definiu os rumos do Acre, ressurge não mais como commodity de exploração desenfreada, mas como artigo de luxo ético. “A borracha continua viva, é nossa tradição. Hoje ela ganha força de novo porque o mundo começa a entender que a floresta em pé vale mais do que derrubada”, reflete. A prova material disso calça os pés de europeus: a parceria da comunidade com a marca francesa Vert (Veja) transformou o látex acreano em tênis de alto valor agregado, numa relação que finalmente remunera a conservação.
Quem é Raimundão: O Corpo que Parou a Motosserra
Para entender o peso dos passos de Rian, é preciso olhar para as pegadas de seu pai. Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, não é apenas o primo de Chico Mendes; ele é a memória viva e pulsante de uma época em que a defesa da Amazônia não era feita em conferências internacionais, mas com o próprio corpo na frente de tratores.
Nas décadas de 1970 e 1980, Raimundão foi um dos grandes fiadores dos “empates” — a tática desesperada e corajosa em que famílias de seringueiros davam as mãos para formar escudos humanos contra o avanço das motosserras e da pistolagem.
Sobrevivente de uma geração de líderes rurais que pagou com a vida pela ousadia de defender a floresta em pé, ele viu a Reserva Extrativista nascer do luto e da luta. Hoje, como um dos maiores guardiões do território, Raimundão é o patriarca da Resex, a ponte histórica que ensina a nova geração a não esquecer o preço do chão que pisam.
Guardião da memória: Raimundão resistiu na linha de frente dos empates e segue como uma das maiores referências da Resex Chico Mendes (Foto: Arison Jardim)
O Ciberespaço e o Ecoturismo como Trincheiras
O grande paradoxo que Rian ajuda a desconstruir é a falsa ideia de que a preservação exige isolamento. A nova geração de extrativistas recusa o papel de peça de museu antropológico. Eles querem a floresta intacta, mas querem Wi-Fi debaixo da sumaúma.
“Tem gente que acha que viver na reserva é viver atrasado, isso não é verdade. A gente tem celular, internet, usa rede social e continua sendo extrativista. Uma coisa não apaga a outra”, decreta. A conexão não dilui a identidade; ela a amplifica.
“Ser moderno não é deixar de ser seringueiro, é usar o que tem hoje pra defender o que é nosso. A tecnologia ajuda a vender melhor, denunciar injustiças e organizar a nossa juventude.”
Essa mesma lente pragmática é apontada para o turismo. O ecoturismo que desponta na Resex Chico Mendes é recebido pelos jovens não apenas como um complemento ao balanço financeiro no fim do mês, mas como uma vitrine ideológica. “Trazer gente de fora pra conhecer a Resex não é só dinheiro. É mostrar nossa realidade, nossa luta, nosso jeito de viver. Pra juventude, é renda, mas também é consciência.”
Operação Suçuarana (2025): Táticas de Guerrilha na Mata
A tensão entre a preservação e o avanço da ilegalidade atingiu um ponto de ruptura histórico em meados de 2025. O ICMBio, amparado por decisões judiciais, deflagrou a “Operação Suçuarana” para a retirada de centenas de cabeças de gado irregulares do interior da reserva.
A resposta dos invasores foi inédita e assustadora: agentes de fiscalização enfrentaram táticas de guerrilha. Criminosos incendiaram pontes, bloquearam ramais, cortaram cercas e atacaram acampamentos oficiais.
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O episódio escancarou para o país uma nova e sombria realidade acreana: a simbiose violenta entre o crime ambiental, a grilagem de terras e o avanço do crime organizado nos territórios de floresta.
Amar, Mudar e Permanecer
Nada disso, contudo, blinda a reserva do fenômeno silencioso que esvazia o interior do Brasil: o êxodo rural. Os jovens partem. Vão inchar as periferias de Rio Branco ou de cidades menores, seduzidos pela promessa de uma vida menos ríspida. Mas Rian faz uma correção cirúrgica nessa narrativa: “O jovem não sai porque quer, infelizmente ele sai porque precisa.”
A cura para o êxodo não é o discurso, é o asfalto, o cabo de fibra ótica, o preço justo. “A boa maioria não quer trocar sua terra pra ir morar na cidade. O que falta muitas vezes não é vontade, é política pública chegando de verdade”, pontua.
Em seu perfil digital, Rian empunha um verso clássico de Belchior: “Amar e mudar as coisas me interessa mais”. Na boca de um político urbano, seria apenas marketing. No chão da Resex, é um manifesto de sobrevivência.
“Não é só frase de efeito, é uma postura”, explica Rian, destrinchando sua visão de futuro para a próxima década.
“Amar a floresta não é romantizar, é defender, é cobrar e se organizar. Porque amar sem mudar é acomodação, e mudar sem amar vira política fria, que não entende o povo.”
Seu sonho para os próximos dez anos passa longe de utopias inatingíveis. Ele quer o básico bem feito: cooperativas transparentes, turismo estruturado, ramais trafegáveis e uma juventude que escolha ficar por ter oportunidade.
No fim da conversa, a mensagem que ecoa de Rian Barros é um recado direto a quem olha para a Amazônia apenas como um santuário intocável. “Isso não vai acontecer na base do discurso bonito, mas sim quando a gente transformar amor pelo nosso território em pressão, em projeto, em orçamento, em política pública concreta.” O filho de Raimundão sabe melhor do que ninguém: a floresta só fica em pé se quem vive sob a sombra de suas árvores também estiver de pé. E com dignidade.
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