A omissão da sociedade alimenta o feminicídio e a voz das sobreviventes exige mudanças
Por Arison Jardim
O trabalho realizado durante a produção, gravação e edição do documentário Vozes do Silêncio ecoa na memória, como as águas de um rio que insistem, constante e sempre, em escavar suas margens e derrubar barrancos. Ouvir e ler relatos tão duros de vítimas de um ódio visceral, que domina nossa sociedade como uma praga silenciosa, nos faz perder a esperança. Ver os números, as estatísticas frias e os casos brutais, que só aumentam, reforçam esse sentimento de desamparo.
Confesso que ver a Medusa falar, e declamar, de como a arte ajuda a mudar sua vida faz voltar a iluminar alguns raios, rompendo a copa densa dessa angústia. Não só com sua arte, quem a acompanha vê sua força e determinação diariamente, em todas as frentes que encara. E esse pingo de luz ainda nos faz querer enfrentar sempre a violência que nos cerca.
Nessa reportagem, trazemos uma discussão que considero importante para contribuir nessa batalha constante que é ter vidas salvas, mentes sãs, almas em paz e o respeito com quem faz a história desse país. O objetivo final é: mostrar os números alarmantes, buscar explicar essa gênese do horror com quem estuda e explica as várias realidades e, no final, tentar ter um pouco mais de fôlego, chamando o máximo de leitores para a reflexão. Fica o alerta de gatilho, alguns trechos podem ser fortemente sensíveis para o leitor e leitora.
A Amazônia que Sangra: O Peso do Número
Essa nossa realidade amazônica, quando despida do verniz de suas belezas naturais e do folclore verde, expõe feridas profundas que escorrem e se traduzem em estatísticas cruéis. Conforme a pesquisa do Instituto Igarapé, enquanto o Brasil registrou um crescimento de 12% nos casos de feminicídio nos últimos cinco anos, a Amazônia Legal sofreu um aumento drástico e sangrento de 22%. Na mesma esteira de insegurança, o relatório DataSenado de 2023 revela o pulso do medo local: no Acre, 78% da população feminina afirma que a violência doméstica e familiar contra as mulheres aumentou nos últimos doze meses.
Esses números não são apenas papel; eles ganham nomes, feições, histórias e fins trágicos quando transpostos para o noticiário diário. Conforme aponta a reportagem do portal G1, o estado do Acre tem acompanhado, com pesar, seu ano mais letal desta década para as mulheres. Histórias de carne e osso, como a de Ivanilde Souza da Silva, deixam de ser meros dados matemáticos e viram um luto palpável nas varandas das nossas casas. Como relembra sua sobrinha, Elaine Thais: “Ela era uma pessoa batalhadora e sorridente, uma ótima mãe, uma pessoa maravilhosa. Onde ela chegava, cativava as pessoas”. O brilho vital de Ivanilde foi covardemente apagado por golpes desferidos pelo próprio companheiro, refletindo o desfecho extremo que espreita e ameaça dezenas de outras mulheres nos rincões do nosso estado.
Para entender a fundo a engrenagem desse terror contínuo, é preciso traduzir para o cotidiano um conceito que os pesquisadores e juristas chamam de hipervulnerabilidade. No papel das teses acadêmicas, a palavra explica a sobreposição de diferentes fragilidades sociais. Na vida real e no chão de terra batida das nossas periferias, ela significa que a mulher amazônida não enfrenta apenas o machismo. Ela é tragada por uma tempestade perfeita onde o ódio de gênero cruza diretamente com a pobreza aguda, com o isolamento geográfico e com a ausência quase total do Estado. Ser mulher, pertencer a uma classe desfavorecida e viver nas margens de um Brasil que historicamente vira as costas para o Norte cria uma teia de exclusão tão espessa que pedir ajuda se torna um ato quase inatingível. É essa hipervulnerabilidade silenciosa que amordaça a dor dentro de casa e que entrega ao agressor a certeza covarde, e quase sempre real, da impunidade.
A Gênese do Horror: Do Passado ao Presente
Desvendar a raiz turva desse ódio, é voltar os olhos para a própria formação da nossa terra e da nossa gente. O estudo publicado na Revista Extraprensa, “O Silenciamento Histórico das Mulheres da Amazônia Brasileira”, aponta que as características colonizadoras agressivas e o sistema de ocupação predatória forjaram um ambiente opressor, onde o silenciamento da mulher funcionou quase como uma política invisível de Estado. A perpetuação secular desses estereótipos históricos é o pilar estrutural apodrecido que, infelizmente, sustenta a violência até os dias de hoje.
Nesse contexto crônico de hipervulnerabilidade, a mulher amazônida foi historicamente empurrada para a margem da margem. Essa subalternidade, imposta pela poeira do tempo e enraizada no isolamento histórico dos seringais, reflete diretamente no interior abafado das casas contemporâneas. A opressão que antes se escondia na vastidão da mata, hoje ecoa nos bairros esquecidos das nossas cidades.
A poeta e ativista Medusa traz essa teoria dolorosa para o campo da vivência dura e real em seu depoimento no documentário Vozes do Silêncio:
Eu venho de uma família pobre, nascida e criada nas periferias de Rio Branco. A violência com os nossos corpos era muito normalizada. Ela é muito diária.
Com o olhar de quem presenciou a dor partilhando a mesma mesa, Medusa descreve a engrenagem machista moendo a carne de sua própria linhagem. Ela cresceu vendo a mãe e as tias serem sistematicamente agredidas, aprisionadas num labirinto de submissão invisível. Segundo a artista, o lugar imposto às mulheres de sua casa “era na cozinha”, restritas a lavar louça e roupa, destituídas de vontades próprias, pois “eram vistas somente como reprodutoras” de um sistema que lhes negava até a própria humanidade.
Essa invisibilidade forçada, transmitida como uma sina inescapável de mães para filhas nas periferias acreanas, é a exata tradução de um passado colonial que se recusa a morrer, alimentando o ciclo sombrio que só agora começa a ser desafiado.
A herança de submissão, que ecoa nas memórias de infância de Medusa e nas raízes coloniais da nossa terra, abandona o terreno das teorias quando as portas dos tribunais se abrem. O machismo estrutural que silenciou gerações deixa de ser apenas um fantasma invisível do passado para se materializar, com uma crueza insuportável, nas laudas dos processos.
Os Autos Sangram: Quando a Teoria Encontra o Tribunal
⚠️ Reforçamos aqui o alerta de gatilho!
Parte do processo de produção de nosso documentário foi fazer uma grande pesquisa e análise de depoimentos oficiais, o que conseguimos com o apoio do Poder Judiciário do Acre. Quando mergulhamos nesses densos processos judiciais, percebemos que a frieza burocrática do papel timbrado não consegue estancar o calor do sangue derramado no silêncio dos lares. Os depoimentos angustiados das vítimas e as justificações cínicas dos agressores traduzem, de forma trágica e literal, os conceitos acadêmicos de vulnerabilidade. Aqui, a dor perde o anonimato das estatísticas e ganha as feições do desespero diário.
O sentimento doentio de posse atua, quase sempre, como o rastilho de pólvora da barbárie na nossa região. A mulher, muitas vezes tratada como mera extensão da propriedade masculina, perde o direito mais sagrado: o de existir por si só. Os autos revelam feridas abertas e purulentas. É o caso da Vítima 4 (para preservar os nomes, usamos a nomenclatura de Vítima e Acusado), que viu o ex-marido ser tomado por uma fúria cega ao bisbilhotar mensagens antigas no seu celular. Sob a ponta de uma ameaça de morte que gelaria a espinha de qualquer um, foi obrigada a conduzir na contramão, desafiando os carros e a própria sorte, até ter o aparelho atirado contra o rosto, rasgando-lhe a sobrancelha num golpe de pura covardia.
A Vítima 5, por sua vez, recebeu a foto de uma arma de fogo na cintura do ex-companheiro, oprimida apenas porque ele “meteu na cabeça” que ela estaria com outra pessoa. Noutro processo sombrio, a Vítima 12 foi encurralada com uma faca e ameaçada de morte pelo ex-marido pelo simples “crime” de ter sido vista passando de carro acompanhada por outro rapaz.
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Sabemos, por dolorosa experiência, que essa violência física raramente é um raio inesperado; ela é o desfecho aterrador de uma escalada de controle que começa por minar a alma, gota a gota. A Vítima 2 ilustra, com uma dor cortante, a quebra da submissão imposta pelo terror psicológico. Ela relata que o marido sempre gritava, enquanto ela “sempre se calava e pronto”, engolindo a própria voz como quem engole água barrenta para sobreviver. No dia em que reuniu a força para lhe responder e estancar o abuso, foi de imediato bombardeada com insultos — chamada de “quenga”, “puta” e “má mãe” —, um ataque moral que evoluiu, num ápice, para uma brutal sessão de enforcamento, puxões de cabelo e murros.
A Vítima 6 narra o mesmo rito macabro de aniquilação: o agressor iniciou a investida berrando “cala a boca sua merda, sua bosta, sua vagabunda” para, no segundo seguinte, passar a empurrá-la e chutá-la, como se não existisse ali um sopro de vida humana, mas apenas um obstáculo a ser varrido no seu caminho de ódio.
Esse rito de aniquilação, contudo, não se alimenta apenas do machismo herdado que permeia os autos. Onde a presença do Estado quase sempre míngua, a engrenagem do ódio encontra combustível farto e inflamável nas privações do dia a dia.
O Álcool, a Miséria e as Cinzas do Patrimônio
No duro contexto das margens amazônicas, a dependência econômica e a pobreza aguda, somadas à fuga entorpecente do álcool, atuam como catalisadores cruéis do ciclo ininterrupto de agressões. A miséria material que assombra as palafitas e as casas de madeira sem pintura torna-se cristalina, e trágica, no relato da Vítima 1. Ela foi golpeada violentamente com uma espátula, precisando levar três pontos que costuraram o couro cabeludo, mas não a dignidade. O motivo do ataque revela um cenário de desolação absoluta: a mulher ousou questionar o marido após ele ter vendido o botijão de gás — o coração pulsante daquela cozinha modesta — para comprar cachaça. O agressor, ao confessar a covardia diante da lei, lançou mão da velha desculpa esfarrapada do “desespero” e da bebedeira para tentar lavar as próprias mãos. Com uma banalidade semelhante que nos gela o estômago, o Acusado 9 tentou justificar o injustificável perante o juiz: “eu tinha chegado bebido; aí eu tava bêbado e agredi ela”, como se a garrafa fosse a verdadeira dona dos seus punhos cerrados.
Mas o terror imposto por esses homens não se contenta em ferir apenas a carne e o espírito. Quando o corpo da mulher já não basta para saciar a fúria dominadora, o agressor parte, sem o menor escrúpulo, para a aniquilação daquilo que garante a sobrevivência material da vítima. A violência patrimonial surge, então, como uma punição vil, covarde e calculada. Os autos do processo da Vítima 7 documentam essa vingança em chamas: sua casa inteira foi banhada a gasolina e incendiada após uma discussão, reduzindo a um monte de cinzas a geladeira suada de pagar, o fogão e todas as roupas de uso pessoal. O mesmo fogo criminoso e impiedoso, que não queima apenas móveis, mas transforma em fumaça a esperança de um recomeço, consumiu o colchão da Vítima 14. O ataque ocorreu no calar da noite, depois que o ex-companheiro invadiu sua residência pela janela, rasgando o que lhe restava de santuário e paz.
A Banalidade do Mal
Talvez o aspecto mais sombrio e revoltante das audiências nos tribunais seja o puro cinismo humano. A sociedade e os próprios algozes tendem a minimizar a violência sistêmica, tratando o espancamento brutal de uma mulher como um mero aborrecimento cotidiano, uma sujeira que a gente varre para debaixo do tapete. O Acusado 3, por exemplo, que invadiu a casa da ex-sogra e, num ato inominável, distribuiu socos e chutou a barriga da ex-cunhada, grávida de três meses, teve a audácia de afirmar em juízo que “só empurrou”, negando veementemente os golpes que a vítima presenciou. O Acusado 8 seguiu a mesma cartilha fétida do deboche, alegando que “não bateu”, apenas deu “uns empurrões”, optando por ignorar as marcas roxas de espancamento atestadas por laudo de corpo de delito.
Esse mesmo indivíduo (Acusado 8) escancara, sem pudor, outra tragédia que foi criminosamente normalizada na nossa região amazônica: a exploração infantil. Em seu depoimento frio, ele revelou, com a naturalidade de quem fala da chuva do dia, que foi morar com a vítima quando ela tinha apenas 13 anos de idade.
O trauma é, assim, semeado como uma praga para a próxima geração, e a tragédia frequentemente se reinicia com as dolorosas reconciliações movidas pela dependência e pelo pavor contínuo — como atestam, infelizmente, os processos da Vítima 1 e da Vítima 11, que informaram à Justiça que “se reconciliaram e hoje estão bem”, num eco que soa mais como sobrevivência do que como paz.
A Arte de Curar e a Coragem de Mudar
O ano de 2025 cravou uma ferida ainda mais funda na nossa história recente, provando que o silêncio custa caro demais. Segundo o doloroso levantamento do Feminicidômetro do Ministério Público Estadual, o Acre amargou um aumento brutal de 75% nos casos de feminicídio em relação ao ano anterior, totalizando 14 vidas ceifadas. 14 VIDAS! Retornamos, assim, ao sombrio topo do ranking nacional de letalidade para as mulheres, repetindo os picos assustadores de 2016 e 2018. Diante de estatísticas tão cruéis, que sangram nosso estado de ponta a ponta, trazer essas histórias para a superfície deixa de ser apenas um exercício jornalístico e passa a ser uma urgência de sobrevivência. É preciso iluminar os porões da nossa sociedade para conseguir enxergar e combater os perigos que ainda espreitam dentro de tantas casas.
Se a dor dessas mulheres tem raízes profundas, a cura também precisa ganhar espaço para brotar. A trajetória luminosa da pequena Cristina, a Medusa, é a prova viva e pulsante de que a denúncia e a arte são caminhos de salvação. Ao transformar o trauma herdado em poesia de combate, ela ressignificou o próprio destino e rasgou o roteiro invisível que aprisionava as mulheres de sua família por gerações. “Se eu não tivesse tido a arte, eu ia ser mais uma estatística do feminicídio”, confidencia a poeta. Assim como Medusa encontrou na força da palavra o remédio para estancar a própria dor, o compartilhamento sem amarras dessas realidades atua como o nosso antídoto coletivo contra a barbárie.
Ao expor a crueza dos autos judiciais e a lágrima das vítimas, o objetivo final nunca foi paralisar o leitor pelo medo, mas provocar o movimento.
Ao expor a crueza dos autos judiciais e a lágrima das vítimas, o objetivo final nunca foi paralisar o leitor pelo medo, mas provocar o movimento. É um chamado inegociável para que os homens encarem o espelho, repensem atitudes cristalizadas, desconstruam o machismo velado nas rodas de conversa e rompam a cumplicidade covarde diante do ciúme possessivo e dos “empurrões” alheios. A paz doméstica exige que a consciência masculina desperte.
E, acima de tudo, estas linhas são um abraço estendido para que as mulheres que ainda choram na calada da noite encontrem força para quebrar o ciclo. A arte de Medusa nos ensina que a culpa não é da vítima e que, por mais espessa que seja a escuridão, nenhuma mulher está sozinha. Dar o primeiro passo rumo à denúncia pode parecer assustador, mas é unindo essas vozes, antes silenciadas, que a nossa sociedade poderá dar o passo definitivo em direção a um futuro onde o amor não seja confundido com posse, e onde a paz deixe de ser um privilégio para ser, enfim, o nosso cotidiano.