O painel “Bioeconomia e Agro – O quanto o Agro pode ser Bioeconômico e o quanto a Bioeconomia pode ser Agro”, realizado no Seminário Internacional TXAI Amazônia no dia 25 de junho, propôs um debate direto e técnico sobre a integração entre agricultura e bioeconomia na região amazônica. Com moderação do médico veterinário Edivan Maciel de Azevedo, o encontro reuniu pesquisadores, empresários e especialistas de diferentes áreas para discutir os pontos de convergência entre produção agropecuária e práticas de baixo impacto ambiental.
O pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, Alfredo Homma, apresentou uma perspectiva crítica sobre os limites do extrativismo, afirmando que o setor não tem escala suficiente para atender ao mercado. “O extrativismo é viável quando o mercado é pequeno. Quando a demanda cresce, ele não sustenta”, alertou, citando como exemplo a domesticação de espécies como guaraná e pupunha, que migraram para outras regiões do país. Para Homma, é preciso enfrentar a “xenofobia botânica” contra produtos como dendê, soja e eucalipto, e investir em tecnologias que aumentem a produtividade da Amazônia já desmatada, sem ampliar o desmatamento.
Na sequência, o engenheiro George Paulus, do Instituto de Engenharia de São Paulo, defendeu a noção de “bioeconomias”, no plural, como forma de reconhecer a diversidade de práticas e atores envolvidos. Ele propôs substituir o conceito genérico de “sustentabilidade” por “bioimpacto”, mensurando o impacto ambiental das atividades de forma objetiva. “Toda atividade agropecuária terá impacto. A questão é medir, melhorar e distribuir melhor os ganhos”, afirmou, ressaltando que o desafio brasileiro é criar milhões de oportunidades com valor agregado, e não apenas gerar poucos milionários.
Já o empresário Marcelo Shama, presidente da Cooperativa Brasileira de Créditos de Carbono, trouxe uma perspectiva baseada na transição ecológica e tecnológica. Ele enfatizou que o mercado de carbono é uma ferramenta que pode ser usada tanto para regeneração quanto para exploração indevida, e defendeu sua regulamentação com critérios justos. “O agro precisa ser regenerativo, e a economia, circular. O Brasil pode ser celeiro, cérebro e pulmão do mundo, se conseguir conectar o campo, a floresta e a inovação”, declarou.
Fechando o primeiro ciclo de falas, o pesquisador da Embrapa Acre, Judson Valentim, destacou o paradoxo amazônico: grande estoque de recursos naturais convivendo com altos índices de pobreza. Segundo ele, “não há exemplo na história de pessoas pobres preservando uma grande riqueza natural por muito tempo”. Valentim apresentou soluções já desenvolvidas pela Embrapa, como manejo de açaizais nativos e recuperação de áreas degradadas para produção de mandioca, café e pecuária com alta produtividade em pequenas áreas. “Temos tecnologias para produzir com menos impacto e gerar renda real. Precisamos de políticas públicas estáveis, formação técnica e mecanismos de incentivo para quem produz com responsabilidade”, defendeu.
O painel gerou forte interação com o público, que questionou a concentração de investimentos e a dificuldade de acesso a mercados pelos pequenos produtores. Em resposta, os painelistas concordaram sobre a necessidade de ampliar a agregação de valor aos produtos da Amazônia e criar estruturas que assegurem que os benefícios da bioeconomia cheguem às comunidades locais. “O que falta é distribuição justa e continuidade das políticas”, sintetizou Judson Valentim.
Ao final, o mediador Edivan Maciel destacou a importância do diálogo. “Não se trata de eliminar o agro ou a bioeconomia. É preciso construir pontes. Esse painel mostrou que, apesar das diferenças, há espaço para convergência em torno de um modelo produtivo mais eficiente, justo e integrado à realidade amazônica.”
Em resumo, ficou evidente que a verdadeira transformação para a Amazônia passa pela superação da dicotomia entre produção agropecuária e conservação ambiental. Os participantes convergiram na ideia de que o futuro da região depende da capacidade de construir um modelo produtivo que seja simultaneamente eficiente, inclusivo e regenerativo. Agro e bioeconomia não são inimigos: podem ser aliados estratégicos quando guiados pela ciência, inovação, justiça social e respeito aos saberes tradicionais. O diálogo estabelecido entre especialistas, produtores, gestores públicos e comunidades tradicionais mostrou que há disposição para encontrar esse ponto de convergência.
A principal lição do encontro foi a de que a bioeconomia só cumprirá seu papel se for capaz de gerar renda real para quem preserva, investe e produz na Amazônia. Para isso, é preciso assegurar que os benefícios dos serviços ambientais, dos mercados de carbono e das cadeias sustentáveis cheguem efetivamente às populações locais. Como resumiu o mediador Edivan Maciel, “é preciso construir pontes”. O TXAI Amazônia, ao reunir diferentes vozes e experiências, deu um passo nesse sentido: mostrou que, mais do que um debate de conceitos, é hora de pensar em arranjos práticos e duradouros que permitam à floresta continuar sendo floresta — com gente vivendo bem dentro dela.