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Editorial – A responsabilidade começa antes da tragédia

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Reduzir a maioridade penal substitui o que a sociedade deixou de fazer?

O ataque ocorrido no Instituto São José, em Rio Branco, não pode ser tratado como apenas mais uma notícia policial. É uma tragédia que atingiu famílias, educadores, alunos e toda a sociedade acreana. Duas trabalhadoras perderam a vida dentro de um ambiente que deveria ser de proteção, aprendizado e convivência. Outras pessoas ficaram feridas. Uma comunidade inteira ficou marcada.

Diante de um episódio tão grave, é natural que haja dor, revolta e indignação. Ninguém pode minimizar o sofrimento das vítimas, de seus familiares, dos profissionais da escola e dos estudantes que presenciaram ou foram afetados por essa violência. Mas justamente por ser uma tragédia tão profunda, a resposta da sociedade precisa ser mais do que simplesmente repetir discursos prontos.

Quando uma situação de violência envolvendo adolescentes acontece, a primeira reação costuma ser pedir punição mais dura. Fala-se em reduzir a maioridade penal, em expor menores, em atacar o Estatuto da Criança e do Adolescente, em endurecer leis, em castigar mais. Mas talvez a pergunta mais difícil não seja apenas qual punição deve ser aplicada depois, e sim: o que estamos ensinando antes?

Pouco se fala sobre família. Pouco se fala sobre escola. Pouco se fala sobre saúde mental, convivência, empatia, acesso a armas, cultura de violência, abandono emocional, responsabilidade dos adultos e prevenção. É como se a sociedade só enxergasse o adolescente no momento do crime, mas não quisesse enxergar a criança que existia antes dele.

Isso não é defender impunidade. Quem comete ato grave precisa responder, inclusive quando é adolescente. O ECA não é autorização para violência. O adolescente em conflito com a lei pode e deve ser responsabilizado dentro das medidas previstas. Mas responsabilização não é o mesmo que vingança. E endurecer o discurso depois da tragédia não substitui a obrigação de prevenir antes dela.

Também chama atenção como certos debates aparecem de forma conveniente. É fácil defender porte de armas, posse de armas e relativizar riscos dizendo que se trata de esporte, tiro esportivo, defesa pessoal ou liberdade individual. É fácil sustentar esse discurso quando a vítima é desconhecida, quando a dor aparece apenas como estatística ou manchete de jornal. Mas quando a arma chega à escola, quando a vítima tem nome, família, colegas e história, a conversa muda.

No caso do Instituto São José, a própria informação de que a arma teria vindo do ambiente familiar ou de um responsável legal precisa nos obrigar a discutir responsabilidade. Não basta perguntar apenas o que fazer com o adolescente depois do disparo. É preciso perguntar como uma arma chegou às mãos dele. Quem deveria impedir? Que controles falharam? Que sinais foram ignorados? Que ambiente permitiu que uma tragédia dessa dimensão se tornasse possível?

E aqui faço também uma autocrítica como pai. Todos temos uma rotina corrida e, muitas vezes, não conseguimos acompanhar tão de perto como gostaríamos o ambiente escolar, emocional e social dos nossos filhos. Eu mesmo me cobro constantemente: preciso estar mais presente, mais atento e mais alerta ao que acontece no ambiente de estudo e convivência dos meus filhos.

Faço este relato com muito respeito e cuidado, não para acusar uma escola específica ou pessoas específicas, mas para provocar reflexão. Meu filho fraturou a perna durante uma aula de Educação Física. Foi um momento traumático para todos nós. Imaginem o susto. E, naquela situação, percebi falhas que precisam ser discutidas com seriedade.

No momento do acidente, aparentemente não havia clareza suficiente sobre procedimentos básicos de emergência, como o acionamento do SAMU. Além disso, mesmo com meu filho com a perna fraturada, muitos alunos continuaram suas atividades como se nada tivesse acontecido. Não digo que fosse necessário criar um espetáculo, mas o mínimo esperado seria empatia, atenção e cuidado. Felizmente, alguns colegas mais próximos e o professor de Educação Física estiveram atentos e prontos para ajudar.

Durante a recuperação, outras situações também chamaram minha atenção. Algumas vezes, ao usar a rampa da entrada, meu filho precisava passar com dificuldade entre alunos sentados no chão aguardando os pais, sem que muitos se sensibilizassem em tirar as pernas da frente para abrir espaço. Em uma ocasião, um grupo chegou a questioná-lo se não seria melhor ele descer pela escada.

Por que trago isso para esta discussão? Porque a empatia não nasce pronta. Respeito não aparece por acaso. Solidariedade não pode ser apenas palavra bonita em cartaz de escola, sermão de igreja ou conversa de família. Precisa ser ensinada, praticada, cobrada e vivida todos os dias.

Se uma criança ou adolescente não consegue perceber a dificuldade de um colega com a perna fraturada, se não compreende que abrir espaço é uma forma mínima de cuidado, se não se sensibiliza diante da dor visível do outro, então há algo falhando na nossa formação humana. E essa falha não é apenas da escola. É da família, da comunidade, das igrejas, das instituições e de todos nós.

Por isso, quando um crime como o do Instituto São José acontece, precisamos ter coragem de ir além da reação imediata. Sim, é preciso justiça. Sim, é preciso apuração rigorosa. Sim, é preciso responsabilidade. Mas também é preciso perguntar que sociedade estamos construindo quando nossas crianças e adolescentes parecem cada vez mais expostos à violência, à indiferença, à solidão e à falta de limites.

Não podemos permitir que a tragédia seja usada apenas como palanque para discursos fáceis. Reduzir a maioridade penal pode parecer uma resposta forte, mas não responde sozinho ao problema. Expor adolescentes pode satisfazer a sede de punição de alguns, mas não reconstrói famílias, não protege escolas, não acolhe vítimas e não impede o próximo caso.

A sociedade não pode discutir violência apenas quando há sangue no chão. Precisa discutir antes: na escola, na família, nas igrejas, na política pública, no controle de armas, na saúde mental, no abandono social e na cultura que banaliza a morte.

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O que impede novas tragédias é um conjunto de responsabilidades: famílias mais presentes, escolas mais preparadas, protocolos de emergência claros, controle real do acesso a armas, acompanhamento psicológico, cultura de paz, diálogo, limites, empatia e políticas públicas sérias.

A violência não começa no disparo. Muitas vezes, ela começa antes: na ausência de escuta, na negligência, no abandono, na banalização da agressividade, na falta de cuidado com o outro, na irresponsabilidade com armas, na omissão dos adultos e na incapacidade de perceber sinais.

O crime no Instituto São José nos entristece profundamente. Mas também deve nos obrigar a amadurecer o debate. Não basta perguntar como punir depois. Precisamos perguntar como evitar antes.

Porque o discurso fácil que surge depois da tragédia, movido pela revolta e pelo desejo de castigo, não pode vencer o debate público. Esse tipo de discurso apenas alimenta o ódio, expõe dores e simplifica problemas profundos, enquanto se omite diante do que realmente poderia evitar novas tragédias: educação, cuidado, orientação, proteção, responsabilidade dos adultos e formação humana.

Foto: Sérgio Vale

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