Pesquisadoras brasileiras identificaram uma nova espécie de borboleta na Amazônia com um comportamento ecológico inédito, envolvendo uma complexa interação com formigas e cochonilhas. O achado ocorreu na Reserva Particular do Patrimônio Natural do Cristalino, localizada em Alta Floresta (MT), e foi registrado por uma equipe vinculada à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e ao Instituto Federal de São Paulo (IFSP).
A borboleta batizada como Annulata kaminskii é a segunda espécie descoberta na reserva, que abriga mais de mil espécies de borboletas. O estudo que documenta o comportamento foi publicado na revista científica Neotropical Entomology, e contou com a participação de quatro pesquisadores, incluindo Luísa Mota e Noemy Seraphim.
Segundo a pesquisa, as lagartas da A. kaminskii se alimentam do néctar e da cera produzidos por cochonilhas que vivem em bambuzais. Após consumir essa substância, as lagartas secretam outro tipo de néctar, que é aproveitado por formigas da região. Em troca, as formigas passam a proteger tanto as lagartas quanto as cochonilhas contra possíveis predadores.
De acordo com Luísa Mota, a maioria das lagartas se alimenta diretamente de folhas, mas neste caso, a espécie depende exclusivamente das secreções das cochonilhas, o que representa uma forma de alimentação extremamente especializada. A pesquisadora ressalta que esse tipo de interação tripla, envolvendo quatro níveis ecológicos — borboleta, formigas, cochonilhas e o bambuzal —, é raro e não havia sido descrito antes.
A relação simbiótica observada reforça a singularidade da fauna amazônica e destaca a importância da conservação da floresta. “Encontramos um sistema que nunca tinha sido registrado, com uma interação muito específica e delicada”, afirma Noemy Seraphim. A borboleta homenageia Lucas Kaminski, pesquisador da Universidade Federal de Alagoas, especialista em relações entre formigas e borboletas.
O comportamento ecológico observado é tão dependente do ambiente natural que os cientistas não conseguiram reproduzir com sucesso o ciclo de vida das lagartas em laboratório. As tentativas de criá-las fora do habitat resultaram em sobrevivência por apenas duas semanas. Análises genéticas confirmaram que se tratava de uma espécie distinta, mas a ausência do néctar produzido pelas cochonilhas impediu o desenvolvimento completo das lagartas.
Com informações da FolhaPress