Mais um corpo estendido no chão de Rio Branco, não morto fisicamente, mas com a morte social decretada. O instinto de Sérgio Vale raspa a lente nas pedras irregulares da calçada para nos jogar na cara a falência do modelo de cidade, convertendo uma caixa de papelão esmagada em um monumento à exclusão. A fita adesiva azul tenta segurar os pedaços de um abrigo frágil, onde respira um homem de camisa amarela carimbada com números nas costas, tratado como sobra de uma lógica de consumo que o mastigou e cuspiu. A ausência de um rosto universaliza a tragédia diária dos invisíveis. Bem na porta dessa moradia efêmera, as sandálias verdes sujas de lama repousam milimetricamente alinhadas, guardando a decência dolorosa de quem ainda preserva o ritual de tirar os calçados para entrar em casa. Um pacote de biscoitos pela metade e um maço de papéis resumem os bens de uma vida inteira engolida pelo descaso das ruas.
Foto de Sérgio Vale – @sergiovaleac