A operação da Polícia Federal contra o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas, ganhou efeito imediato no Acre. Ciro é uma das principais lideranças nacionais do PP, partido da governadora Mailza Assis Cameli, e vinha atuando como um dos fiadores políticos da pré-candidatura dela ao governo em 2026.
Nesta quinta-feira, Ciro foi alvo da 5ª fase da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional no caso Banco Master. Segundo a PF, a apuração mira uma possível relação entre a atuação parlamentar do senador e interesses do banqueiro Daniel Vorcaro. A defesa de Ciro nega irregularidades.
A investigação aponta que Ciro teria recebido pagamentos mensais de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em troca de atuação política favorável ao banco. Também entrou no radar dos investigadores uma proposta apresentada no Congresso para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, medida que poderia beneficiar bancos médios.
No Acre, o caso tem peso porque Ciro não é apenas um dirigente partidário distante. Ele esteve diretamente ligado às articulações nacionais de Mailza. Em fevereiro, recebeu a então vice-governadora em Brasília, declarou apoio à sua pré-candidatura e tratou o projeto acreano como prioridade do Progressistas.
O desgaste chega em um momento delicado para o grupo governista no Acre. Um dia antes da operação contra Ciro, o Superior Tribunal de Justiça condenou o ex-governador Gladson Cameli a 25 anos e nove meses de prisão por crimes como organização criminosa, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e fraude em licitação. O STJ também fixou indenização de R$ 11,7 milhões ao Estado do Acre. (Superior Tribunal de Justiça)
Gladson foi o principal construtor da chegada de Mailza ao poder estadual. A governadora herdou a estrutura política do grupo que venceu as últimas eleições no Acre e agora tenta transformar essa continuidade em projeto próprio para 2026. A condenação do ex-governador, somada à operação contra Ciro, coloca dois dos principais pilares políticos da pré-candidatura sob forte desgaste público.
Os Rueda na equação
Embora o foco principal da crise esteja em Ciro Nogueira e Gladson Cameli, há outro elemento no entorno do projeto de Mailza: a família Rueda. Antônio Rueda, presidente nacional do União Brasil, é uma das lideranças da federação formada por União Brasil e Progressistas. Ele apareceu ao lado de Gladson, Ciro e Mailza nas articulações nacionais da União Progressista, quando o grupo confirmou a governadora como nome para a disputa no Acre.
No Acre, o sobrenome Rueda está presente diretamente no governo. Fábio Rueda, irmão de Antônio Rueda, foi secretário da Representação do Governo do Acre em Brasília, presidente do União Brasil em Rio Branco, suplente de deputado federal e se movimenta para disputar uma vaga na Câmara pelo Acre.
Antônio Rueda também passou a ser citado em reportagens sobre o Banco Master. A revista Piauí revelou que ele e a irmã atuaram como advogados do banco de Daniel Vorcaro, informação admitida por Rueda, que afirma que a atuação foi regular. O Metrópoles também publicou que Rueda teria dito a interlocutores que poderia ganhar bilhões com a venda do Banco Master ao BRB.
Além disso, a CNN informou que o nome de Antônio Rueda passou a constar em investigação da PF sobre a Operação Carbono Oculto, relacionada à infiltração do PCC nos setores financeiro e de combustíveis. A suspeita mencionada na apuração envolve possível propriedade oculta de jatos executivos. Rueda nega ser dono das aeronaves e repudia qualquer vínculo com ilícitos.
Esse ponto não desloca o centro da questão, mas amplia a pressão política sobre a base de Mailza. A pré-candidatura da governadora está organizada dentro de uma federação comandada nacionalmente por Ciro Nogueira e Antônio Rueda, enquanto no Acre tem como principal referência política Gladson Cameli, agora condenado pelo STJ.
Não há acusação contra Mailza nesses casos. Mas o impacto político é inevitável. A governadora tenta se apresentar como continuidade administrativa e, ao mesmo tempo, como nome próprio para 2026. O problema é que essa continuidade vem acompanhada do desgaste de seus principais padrinhos.
Para a oposição, o cenário abre uma linha de ataque direta: questionar se Mailza representa renovação ou apenas a permanência do mesmo grupo político que agora aparece associado a condenações, operações policiais e escândalos nacionais. Para o governo, o desafio será tentar separar a imagem da governadora das crises que atingem justamente os nomes que ajudaram a sustentar sua chegada ao Palácio Rio Branco.