Em um canto discreto de Rio Branco, entre o meio-fio e um canteiro de terra ainda úmida, alguém tenta descansar do abandono de si. A cidade segue seu ritmo, carros passam, agendas se cumprem, decisões são tomadas. Mas ali, ao nível do chão, a vida acontece de outro jeito. A planta em primeiro plano quase encobre a cena, como se a paisagem tentasse esconder aquilo que se tornou comum demais: o corpo que encontra no espaço público o único lugar possível para dormir.
As cidades brasileiras vivem um tempo em que o concreto cresce mais rápido que as políticas de cuidado. O aumento da população em situação de rua deixou de ser exceção e passou a fazer parte da paisagem urbana. A cena não é apenas sobre uma pessoa deitada; é sobre um pacto social que precisa ser revisto. Apoiar essa pauta é reconhecer que moradia, saúde mental, trabalho e assistência social não são favores, mas estruturas básicas de dignidade. Enquanto houver alguém dormindo ao relento, a cidade inteira segue em vigília.
Foto: Sérgio Vale – @sergiovaleac