A entrada de homens armados na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo, transformou em ameaça concreta os alertas feitos há anos pelo líder Ashaninka Francisco Piyãko sobre o avanço de atividades ilegais na fronteira do Acre com o Peru. O grupo teria chegado à região da Aldeia Apiwtxa nos dias 5 e 6 de julho à procura de lideranças e ameaçado moradores, provocando o envio de equipes de segurança para uma das áreas mais isoladas do estado.
Francisco apresentou a denúncia que levou à mobilização da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública do Acre. A primeira equipe do Grupo Especial de Operações em Fronteira, o Gefron, seguiu para o rio Amônia em 7 de julho. Dois dias depois, uma segunda equipe chegou com apoio aéreo do Centro Integrado de Operações Aéreas, o Ciopaer.
A operação busca proteger as famílias, ouvir os moradores e impedir novas incursões. O episódio também expõe uma cobrança antiga de Francisco: as comunidades indígenas conhecem os rios, os caminhos e os movimentos dentro da floresta, mas não podem enfrentar sozinhas grupos armados, redes criminosas e interesses econômicos que atravessam a fronteira.
Essa preocupação ocupa o centro dos documentários “Povos do Juruá” e “Opirj – A luta na defesa dos direitos e da floresta”, publicados pelo Épop antes da invasão. Nas duas produções, Francisco descreve a defesa do território como uma luta pela sobrevivência das famílias e pela permanência das crianças nas aldeias.
“Graças à nossa coragem, creio que a gente tem um lugar ainda, nem que seja do tamanho da nossa força, mas é um lugar seguro para a gente morar com as nossas crianças”, afirma Francisco em “Povos do Juruá”.
A fala resume uma história marcada por invasões, exploração ilegal de madeira, conflitos territoriais e ausência do poder público. Para os Ashaninka, a terra não representa apenas um espaço demarcado no mapa. É onde estão as casas, a alimentação, a cultura, a memória e o futuro das novas gerações.
Dirigido por Arison Jardim e realizado pela Bari Comunicação, “Povos do Juruá” foi lançado em setembro de 2024 com apoio da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá, a Opirj, da Associação Ashaninka do Rio Amônia, a Apiwtxa, e da Asociación ProPurús, do Peru. Francisco conduz a narrativa sobre a organização dos povos indígenas e a criação de estratégias coletivas para proteger a floresta.
Um dos pontos mais sensíveis do documentário é a abertura de estradas em regiões próximas às terras indígenas. As propostas de ligação entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa e entre Nueva Italia e Puerto Breu são tratadas pelas lideranças como possíveis corredores para desmatamento, exploração de madeira, garimpo e narcotráfico.
“Essa estrada não foi feita para atender nós, o povo da floresta”, afirma Francisco.
A crítica não se limita à construção de uma rodovia. Francisco questiona quem será beneficiado pelas obras e quais atividades econômicas avançarão sobre a floresta depois da abertura dos acessos. Em áreas sem fiscalização permanente, estradas podem facilitar a entrada de invasores e aproximar grupos criminosos das aldeias.
“Proteger a floresta para nós é proteger a nossa própria vida”, diz o líder Ashaninka.
Depois da entrada do grupo armado no rio Amônia, a frase passou a representar também a segurança física das famílias. Defender a floresta significa impedir que o território seja transformado em rota criminosa e garantir que as lideranças não sejam perseguidas por denunciar invasões.
O documentário “Opirj – A luta na defesa dos direitos e da floresta”, lançado em setembro de 2025, aprofunda o debate político e jurídico. A produção reúne relatos, documentos e decisões relacionadas à atuação das organizações indígenas na fronteira entre o Acre e o departamento peruano de Ucayali.
Francisco cobra o cumprimento de direitos já previstos na legislação brasileira. “O direito dos povos indígenas está reconhecido na Constituição Brasileira e as comunidades não podem pagar o preço de o Estado não agir e defender os povos”, afirma.
Entre os casos tratados está o Edital nº 130/2021, do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, ligado aos estudos para uma rodovia entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa. Em junho de 2023, a Justiça Federal no Acre anulou o edital e suspendeu o licenciamento até a realização de estudos e da consulta aos povos indígenas e às comunidades tradicionais que poderiam ser atingidas.
Para Francisco, a consulta precisa ocorrer antes de qualquer decisão. Não pode servir apenas para comunicar uma obra já autorizada. As comunidades devem conhecer os riscos, apresentar suas posições e participar das escolhas que podem alterar seus territórios.
A pressão não termina na linha que separa Brasil e Peru. Parte das nascentes dos rios que atravessam o Acre está em território peruano, onde comunidades denunciam a expansão de estradas, concessões florestais, garimpo e exploração ilegal de madeira. Essas atividades afetam rios, florestas e povos dos dois países.
Em abril de 2025, organizações indígenas brasileiras e peruanas levaram essas preocupações a Brasília durante uma reunião da Comissão Transfronteiriça Yurúa–Juruá–Alto Tamaya. Uma carta foi entregue aos dois governos com cobranças por proteção territorial e cooperação entre as autoridades.
A invasão registrada em julho de 2026 não surgiu de forma isolada. Ela ocorreu dentro de uma região pressionada por estradas, exploração de recursos naturais e atividades criminosas. Francisco vinha advertindo que esse avanço poderia alcançar as aldeias e colocar lideranças em risco.
A presença do Gefron e do Ciopaer oferece uma resposta imediata. A proteção duradoura, porém, depende de fiscalização contínua, cooperação entre Brasil e Peru e presença permanente dos órgãos responsáveis pela segurança e pela defesa dos territórios indígenas.
Os dois documentários ajudam a compreender por que Francisco insiste que floresta, território e vida são partes da mesma luta. No rio Amônia, essa luta deixou de ser apenas uma discussão sobre projetos de desenvolvimento ou preservação ambiental. Homens armados chegaram à procura das pessoas que há anos denunciam o que avança pela fronteira.