A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública do Acre deflagrou a Operação Ashaninka após denúncia de invasão armada e ameaças contra lideranças indígenas na região do rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo, na fronteira do Brasil com o Peru.
Segundo informações divulgadas nesta sexta-feira, 10, a denúncia foi feita pela liderança indígena Francisco Piyãko. O relato aponta que, nos dias 5 e 6 de julho, um grupo armado teria entrado no território da Aldeia Apiwtxa, na Terra Indígena Ashaninka, à procura de lideranças e ameaçado moradores da comunidade.
A tensão teria começado depois que lideranças do povo Ashaninka decidiram restringir a passagem de não indígenas pelo território. A medida foi adotada como forma de enfrentamento ao tráfico de drogas, ao desmatamento ilegal e ao garimpo ilegal na região de fronteira.
A operação mobiliza equipes do Grupo Especial de Operações em Fronteira (Gefron), com apoio aéreo do Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer). Uma primeira equipe foi deslocada para a região no dia 7 de julho, após a comunicação da denúncia à Segurança Pública. Uma segunda equipe foi enviada no dia 9.
Desde então, os agentes realizam patrulhamento rural e fluvial, com apoio dos próprios indígenas, além de reuniões com lideranças e comunidades. Também houve articulação institucional com órgãos federais e o Ministério Público Federal.
Durante a chegada das equipes, Francisco Piyãko afirmou que a presença das forças de segurança transmite mais tranquilidade às famílias. “A gente está num momento de muita tensão por conta da invasão ao nosso território. Vocês chegaram de imediato e isso passa para a gente segurança”, disse.
A liderança também destacou que os indígenas decidiram permanecer no território, mesmo diante das ameaças. “Nós tomamos a decisão de que as lideranças não vão sair do seu território, fugir por medo desses criminosos”, afirmou.
A presença do Gefron deve continuar por tempo indeterminado. O coordenador do grupo, coronel Assis Santos, informou que o efetivo permanecerá na região para garantir a segurança dos moradores e reforçar o monitoramento da faixa de fronteira. Também há previsão de solicitação de apoio do Exército Brasileiro para ampliar o patrulhamento no rio Amônia, entre Marechal Thaumaturgo e a fronteira peruana.
A principal linha de apuração aponta que as ameaças possam estar relacionadas à atuação de grupos criminosos envolvidos com o tráfico de drogas na fronteira entre Brasil e Peru. O caso deve ser encaminhado às autoridades federais para continuidade das investigações.
A situação reacende um alerta que já vinha sendo levantado por lideranças indígenas e organizações do Alto Juruá. O documentário “Opirj – A luta na defesa dos direitos e da floresta”, lançado em 2025, reúne relatos, documentos e decisões judiciais sobre a atuação da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá na defesa dos territórios indígenas na fronteira Acre–Ucayali.
A produção mostra que a região do rio Amônia está inserida em uma área de pressão transfronteiriça, marcada por projetos de estradas, ramais oficiais e clandestinos, circulação irregular e avanço de atividades ilegais. Um dos pontos abordados é a proposta de rodovia entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa, no Peru, cujo processo foi suspenso pela Justiça Federal no Acre em 2023 até a realização de estudos e consulta a povos indígenas e comunidades tradicionais.
O documentário também cita a estrada UC-105, no lado peruano, entre Nueva Italia e Puerto Breu, como uma das principais preocupações das comunidades da região. Em documentos de organizações transfronteiriças, a reabertura ilegal desse ramal foi associada a riscos para territórios indígenas, povos em isolamento, pistas clandestinas e plantios ilícitos de coca.
A Apiwtxa já havia levado essas preocupações ao Ministério Público Federal. Em 2021, a Associação Ashaninka do Rio Amônia encaminhou um dossiê relatando impactos da UC-105 e pedindo providências diante das ameaças ao território. O material aparece no documentário como parte do histórico de mobilização indígena contra pressões que não se limitam à linha de fronteira entre Brasil e Peru.
A fala de Francisco Piyãko no documentário resume a leitura das lideranças sobre a ausência do Estado na região. “O direito dos povos indígenas está reconhecido na Constituição Brasileira e as comunidades não podem pagar o preço de o Estado não agir e defender os povos”, afirmou o coordenador da OPIRJ.
O Tribunal de Justiça do Acre (TJAC) realizou na quarta-feira (19), na aldeia Betel, na Terra Indígena Mamoadate, o segundo círculo de construção de paz com indígenas Jaminawa. A atividade, feita com apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), buscou fortalecer o diálogo, prevenir conflitos e ampliar a proteção de mulheres, crianças e adolescentes.
Durante a manhã, participantes discutiram os impactos dos conflitos nas famílias e na comunidade. O facilitador Fredson Pinheiro, do Centro de Justiça Restaurativa do TJAC, apresentou práticas baseadas no diálogo em círculo e relacionou o método às formas tradicionais de resolução de conflitos dos povos indígenas.
Indígenas também falaram sobre a necessidade de recuperar tradições e fortalecer a identidade Jaminawa. José Paulo Jaminawa afirmou que conflitos e episódios de violência prejudicam a vida comunitária e defendeu maior valorização dos conhecimentos transmitidos pelos mais antigos.
À tarde, a programação tratou das leis de proteção às mulheres, crianças e adolescentes, com atenção à Lei Maria da Penha. Foram discutidos tipos de violência, divisão das tarefas domésticas, criação dos filhos e violência patrimonial.
As participantes relataram situações envolvendo controle de benefícios financeiros e consumo de bebidas alcoólicas. O encontro também abordou alcoolismo, invasão de territórios por não indígenas, abuso de crianças e adolescentes, gravidez na adolescência e dificuldades relacionadas ao acesso ao salário-maternidade.
Um mês após cinco homens encapuzados e armados invadirem a aldeia Apiwtxa, famílias do povo Ashaninka ainda vivem sob tensão na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo, no interior do Acre. Operações policiais e o reforço do Exército ampliaram o patrulhamento na fronteira com o Peru, mas os suspeitos continuam foragidos e as lideranças cobram proteção permanente contra o avanço do crime organizado.
A invasão ocorreu nos dias 5 e 6 de julho. Os homens, que falavam espanhol e carregavam armas de grosso calibre, percorreram a comunidade à procura de lideranças indígenas e intimidaram moradores. A entrada do grupo ocorreu após os Ashaninka impedirem a circulação de embarcações suspeitas pelo Rio Amônia, uma das rotas usadas para transportar drogas produzidas no Peru até o território brasileiro.
Os envolvidos foram identificados, mas atravessaram a fronteira e permanecem no lado peruano. Nenhuma prisão foi diretamente relacionada à invasão. “Queriam nos matar”, afirmou a liderança Francisco Piyãko, coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá.
A primeira resposta ocorreu com o envio de agentes do Grupo Especial de Operações em Fronteira e de equipes do Centro Integrado de Operações Aéreas. Militares do Exército também passaram a patrulhar o Rio Amônia e o trecho entre Marechal Thaumaturgo e a fronteira, com ações por terra e pelos rios.
A fase batizada de Operação Ashaninka foi encerrada em 14 de julho, mas o patrulhamento continuou dentro de uma mobilização mais ampla. Entre os dias 19 e 25 de julho, a Polícia Federal coordenou a Operação Atalaia do Juruá, com participação de órgãos federais e estaduais.
A ação realizou 445 abordagens terrestres e fluviais, 241 fiscalizações, seis patrulhamentos aéreos, 15 visitas a aldeias e comunidades ribeirinhas e 21 fiscalizações ambientais. Cinco pessoas foram presas, uma arma de fogo foi apreendida e 50 autos de infração foram emitidos. Também ocorreram 34 apreensões, mas os resultados não foram associados diretamente às ameaças contra os Ashaninka.
Para as lideranças, operações temporárias não bastam para impedir novas invasões. A principal cobrança é pela manutenção de equipes de segurança na região, pelo uso permanente de inteligência e pela criação de uma estratégia conjunta entre Brasil e Peru.
A dificuldade de acesso aumenta a vulnerabilidade das comunidades. O deslocamento de Cruzeiro do Sul até os municípios da fronteira pode levar cerca de uma hora e meia em avião fretado ou até nove horas de barco. Depois das operações, parte dos agentes retorna às bases, deixando extensos trechos da floresta com pouca presença do Estado.
O narcotráfico atua na região ao lado de grupos envolvidos na extração ilegal de madeira, no garimpo e na abertura de estradas clandestinas. Rios, igarapés e caminhos pela mata são usados para atravessar a fronteira e transportar drogas, armas e produtos retirados ilegalmente da floresta.
A vigilância realizada pelos próprios indígenas transformou as lideranças em obstáculos para essas rotas. Os Ashaninka monitoram embarcações, protegem o território e comunicam atividades suspeitas às autoridades. Essa atuação passou a ser respondida com ameaças e tentativas de intimidação.
A Terra Indígena Kampa do Rio Amônia integra um corredor de aproximadamente 3,5 milhões de hectares de floresta amazônica, formado por terras indígenas e unidades de conservação. A comunidade Apiwtxa ganhou reconhecimento pela recuperação ambiental do Rio Amônia e pelo modelo de proteção territorial desenvolvido nas últimas décadas.
A SUMAÚMA publicou nesta segunda-feira, 3 de agosto de 2026, uma reportagem sobre a viagem de quatro lideranças Ashaninka a Brasília em busca de proteção contra o avanço do crime organizado na fronteira do Acre com o Peru. Assinada pelo jornalista Rafael Moro Martins, a apuração acompanha Francisco, Wewito, Moisés e Benki Piyãko pelos corredores do governo federal, onde eles tentam convencer o Estado brasileiro a manter uma presença permanente numa região tomada por narcotraficantes, madeireiros e garimpeiros ilegais.
A história começa na Aldeia Apiwtxa, dentro da Terra Indígena Kampa do Rio Amônea, no município acreano de Marechal Thaumaturgo. Foi ali que cinco homens mascarados, armados com metralhadoras e falando espanhol invadiram a comunidade à luz do dia. Procuravam Moisés Piyãko. Ele não estava em casa.
A ausência pode ter salvado a vida da liderança Ashaninka. “Queriam nos matar”, afirmou Francisco Piyãko durante uma pausa entre as reuniões realizadas em Brasília. Segundo ele, as ameaças já circulavam havia algum tempo. Os criminosos falavam abertamente sobre a intenção de matar as lideranças, confiantes de que não seriam alcançados pelas autoridades peruanas.
O grupo armado conhecia a floresta. Os Ashaninka reconheceram entre os invasores um homem nascido e residente no Peru. A suspeita é de que os cinco tenham atravessado cerca de 50 quilômetros de mata para chegar à principal aldeia da Terra Indígena Kampa do Rio Amônea. Não se tratava de uma passagem ocasional. A distância, o armamento e a precisão do caminho revelavam familiaridade com o território.
Quando a notícia da invasão chegou aos irmãos, Francisco e Wewito estavam a caminho de Lima, onde participariam de um fórum internacional sobre crime organizado. Os dois interromperam a viagem e retornaram. O Grupo Especial de Fronteira do Acre, o Gefron, e o Exército foram acionados.
Militares chegaram à região, mas a resposta expôs os limites da segurança pública numa das áreas mais isoladas do país. Ao saberem o calibre das armas usadas pelos invasores, integrantes do Exército disseram que precisariam de reforços para realizar uma operação de busca e captura.
A Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Acre informou que os invasores foram identificados e qualificados. Eles, porém, cruzaram a fronteira e permaneceram foragidos no território peruano. A chamada Operação Ashaninka foi encerrada em 14 de julho, embora o governo estadual tenha afirmado que outras ações continuavam com participação de órgãos estaduais, federais e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio.
O problema para as comunidades da fronteira está justamente na natureza temporária dessas operações. Equipes deixam Cruzeiro do Sul, viajam por até nove horas de barco pelo Rio Juruá ou usam aviões fretados para alcançar os municípios mais distantes. Depois das incursões, retornam às suas bases.
Uma carta assinada por três organizações Ashaninka relata que as operações costumam ocorrer apenas depois de denúncias ou durante investigações específicas. Fora a base do Exército em Marechal Thaumaturgo, não há permanência contínua de equipes nos locais ameaçados.
É nesse vazio que as organizações criminosas avançam. A fronteira amazônica entre Brasil e Peru reúne rios, trilhas e extensas áreas de floresta onde a presença estatal é escassa. Narcotraficantes usam as rotas para transportar drogas. Madeireiros retiram árvores de áreas protegidas. O garimpo ilegal começa a pressionar Terras Indígenas, reservas extrativistas e o Parque Nacional da Serra do Divisor.
Os Ashaninka já vinham alertando o poder público. Em março, um encontro realizado em Cruzeiro do Sul discutiu a expansão do crime organizado na presença de representantes do Ministério dos Povos Indígenas e do Exército. Mesmo assim, a invasão da Aldeia Apiwtxa marcou uma escalada. Pela primeira vez, homens fortemente armados entraram na principal comunidade da Terra Indígena Kampa do Rio Amônea para procurar diretamente uma de suas lideranças.