MEIO AMBIENTE

“Curar nosso território é também fazer política” – Piyãko destaca experiência Ashaninka no Txai Amazônia

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Liderança relembra os 33 anos de demarcação da Terra Indígena Apiwtxa e aponta caminhos para uma bioeconomia com justiça territorial

Durante o painel de abertura do Seminário Internacional Txai Amazônia, o líder indígena Francisco Piyãko compartilhou a experiência do povo Ashaninka na Terra Indígena Apiwtxa, em Marechal Thaumaturgo (AC), ressaltando a importância da demarcação do território como base para a construção de um modelo próprio de desenvolvimento, cuidado ambiental e soberania alimentar.

“Anteontem a gente comemorou 33 anos da demarcação da nossa terra. Fizemos comida tradicional, brincadeira com as crianças, plantamos, rezamos. Foi uma festa linda. Ali celebramos a nossa retomada”, disse Piyãko.

Segundo ele, o processo de demarcação e posterior reconstrução do território Ashaninka foi um marco não apenas político, mas espiritual e civilizatório. “A gente fez o contrário do que vinha acontecendo. Quando éramos orientados por sistemas externos, a gente foi se distanciando da nossa forma de viver. Retomar nossa terra foi também retomar o nosso jeito de existir.”

Foto: Sérgio Vale

No centro do debate sobre bioeconomia e sociobiodiversidade, Piyãko defendeu que o exemplo de Apiwtxa mostra que é possível construir soluções reais, baseadas no equilíbrio com a natureza e na autonomia das comunidades. “Hoje, a nossa terra está viva. Produzimos comida sem veneno, protegemos a floresta, praticamos nossa espiritualidade. Esse é o nosso modelo de sustentabilidade.”

Ele reforçou que o conceito de abundância para os Ashaninka está ligado ao coletivo, e não à acumulação. Como exemplo, relatou um episódio vivido durante a cheia histórica do Rio Madeira, quando a crise de abastecimento atingiu centros urbanos do Acre. “Aqui em Rio Branco, os supermercados esvaziaram. As pessoas estavam desesperadas. Eu cheguei na minha aldeia e lá ninguém nem sabia o que estava acontecendo. Nosso estoque está nos roçados. Não precisamos de geladeira. Plantamos e colhemos o que precisamos, todo dia.”

Piyãko alertou, no entanto, que esse modo de vida está novamente ameaçado. “A floresta está doente, o clima está mudando. As ameaças não vêm só das motosserras ou dos agrotóxicos. Vêm das políticas que não nos incluem, das decisões que não nos escutam.”

Para o líder Ashaninka, curar o território é parte do enfrentamento à crise ambiental global. “Hoje, o desafio é manter o que conquistamos. Tirar de dentro do nosso território o que não é bom, o que ameaça. Curar nosso território é também fazer política. É proteger um lugar sagrado de viver.”

Ao final de sua fala, Piyãko fez um alerta direto sobre o lugar dos povos indígenas nas economias da floresta: “Nossa produção não entra na conta do agronegócio. Porque ela não é medida por volume ou lucro, mas por equilíbrio e permanência. E é isso que garante a vida.”

Foto capa: Arison Jardim

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