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Design, ancestralidade e a disputa pelo valor da floresta

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Design, ancestralidade e a disputa pelo valor da floresta

📅 Publicado em: Abril de 2026 ✍️ Produção: Alexandre Nunes e Arison Jardim 🎙️ Entrevistado: José Luiz de Paula Jr.

José Luiz de Paula Jr., ecodesigner, educador e fundador do Instituto dos Sentidos. | Foto: Acervo pessoal

Falar com José Luiz de Paula Jr. é entrar em uma discussão que ultrapassa o design, a perfumaria e a estética dos produtos da floresta. O que ele coloca em primeiro plano é uma disputa mais profunda: quem nomeia, transforma, protege e se beneficia da biodiversidade amazônica.

Em sua leitura, não há bioeconomia possível sem reconhecimento do saber ancestral, repartição concreta de benefícios e permanência digna de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos em seus próprios territórios. Sua trajetória parte de uma memória íntima e anterior ao circuito internacional em que seu trabalho passou a circular. Antes dos prêmios, das vitrines e do reconhecimento fora do país, está a formação sensorial construída com o avô, Zé Vicente, entre o Vale do Paraíba e o asfalto de São Paulo.

É dessa experiência, ligada ao cultivo, ao cheiro das plantas e ao que ele define como “caminho da percepção natural”, que nasce uma compreensão do olfato não como ornamento, mas como linguagem, arquivo e ferramenta de leitura do mundo. Ao longo dos anos, José Luiz deslocou esse repertório para uma prática voltada às comunidades da Amazônia. Em vez de tratar design como acabamento ou embalagem, ele o apresenta como instrumento antropológico e econômico.

Fotos | José Luiz de Paula Jr.

Em sua formulação, perfumes, frascos, cores, grafismos e conceitos de marca podem operar como tradução de identidades coletivas — desde que não apaguem a origem dos conhecimentos nem repitam a lógica histórica de extração sem retorno. O ponto central de sua fala está aí: agregar valor, sem retirar das comunidades o domínio sobre aquilo que produzem e sabem.

O jovem indígena não quer ser um urbano deslocado; ele quer ser um protagonista em sua própria terra. — José Luiz de Paula Jr.

Bloco 1 — Olfato, memória e o avô Zé Vicente

Zé Vicente, avô de José Luiz. “Um homem da terra, do cultivo, das plantas.” | Foto: Acervo pessoal

Antes de falar de design e bioeconomia, você frequentemente menciona o avô, Zé Vicente. O que essa relação tem a ver com o trabalho que você desenvolve hoje?

“Minha formação sensorial começou com ele. Era um homem da terra, do cultivo, das plantas. Com ele aprendi que o olfato é o sentido mais primitivo e mais verdadeiro que temos. Antes de qualquer teoria de design, aprendi a ler o mundo pelo cheiro das coisas. Esse ‘caminho da percepção natural’ é o que me guia até hoje quando entro em uma aldeia ou em uma floresta.”

Você costuma dizer que o olfato é o “patrono da felicidade” e que o design deve acessar a memória afetiva. Como ocorre o seu processo de “escuta olfativa” para traduzir a identidade de um povo em produto?

“O design, para mim, só faz sentido se for um agente de transformação. Enxergo perfumes e embalagens como instrumentos antropológicos. Através do olfato, das cores e das formas, traduzimos o comportamento de grupos étnicos — sejam indígenas, quilombolas ou ribeirinhos. O corpo do indígena é mídia; ele comunica estado de espírito através da pintura. Já o olfato é o nosso sentido mais vital e primitivo, muitas vezes atrofiado pela vida urbana. Meu papel como designer é resgatar essa percepção. Quando entro na mata, não vejo apenas árvores; já visualizo cores, volumetrias e frascos que embalarão aquela essência.”

José Luiz em campo, no contato direto com comunidades tradicionais da Amazônia. | Foto: Acervo pessoal

Bloco 2 — O Acre, o Pará e a floresta em pé

Sua vivência nos beiradões e aldeias do Acre — com Ashaninka, Yawanawá e Shanenawa — gerou perfumes bioeconômicos que chegam à Europa. O que esses povos te ensinaram sobre o tempo das coisas e sobre o valor da “floresta em pé”?

“Em busca do que chamo de ‘Brasil Profundo’, fui parar no Vale do Juruá. Foi no convívio direto com os Ashaninkas, Puyanawas, Yawanawas e Shawandawas que descobri que é possível viver com pouco, desde que esse pouco seja preenchido por uma imensa plenitude. Ali, redescobri a liberdade e a ciência em sua forma mais pura. Precisamos superar o preconceito acadêmico de que o saber tradicional não é ciência. Quem detém o conhecimento milenar da floresta é cientista da vida. Aprendi com líderes como Benki e tantos outros que a natureza não precisa ser ‘salva’ por nossa soberba humana; ela é soberana e reage às nossas ações. Nós é que precisamos da floresta para sobreviver com dignidade e saúde. O planeta continuará aqui; a questão é se nós estaremos.”

Você trabalhou com o “mel roxo de açaí” em Moju, no Pará. Como o design atua para resgatar o orgulho da comunidade e transformá-lo em ferramenta de independência econômica?

“Minha missão mudou quando vi 2 litros de um mel precioso serem vendidos em uma garrafa de plástico por um valor irrisório. Ali, decidi que o design deveria servir a quem realmente precisa: as comunidades originárias. Redesenhamos o conceito, reduzimos para 150ml com alto valor agregado e estabelecemos um modelo onde 50% do lucro retorna diretamente para a comunidade. Isso não é caridade, é justiça econômica. Precisamos romper com o ‘colonialismo contemporâneo’, onde o conhecimento da floresta é explorado sem o devido retorno a seus guardiões.”

Bioeconomia sem inovação e partilha de benefícios é apenas uma palavra vazia. — José Luiz de Paula Jr.

Bloco 3 — A verdadeira bioeconomia

A palavra “bioeconomia” virou moda em fóruns globais, muitas vezes esvaziada de seu sentido humano. Onde termina o mero extrativismo e onde começa a verdadeira bioeconomia?

“Bioeconomia sem inovação e partilha de benefícios é apenas uma palavra vazia. A Amazônia abriga 33 milhões de pessoas; é um universo que exige soluções que unam a ciência acadêmica ao saber ancestral para gerar escala com ética. Como educador, meu objetivo é levar a ‘escola de perfumaria’ e o conhecimento técnico para dentro das aldeias. Quero que a juventude indígena e quilombola possa transformar sua biodiversidade em riqueza, sem precisar abandonar sua cultura. Para isso, fundamos o Instituto dos Sentidos.”

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Qual é o maior desafio para garantir que os jovens dessas comunidades enxerguem futuro no seu próprio território?

“O jovem indígena não quer ser um urbano deslocado; ele quer ser um protagonista em sua própria terra. Meus projetos são profundamente inspirados em figuras que são verdadeiras bibliotecas vivas, como o xamã Tatá Yawanawa, que fez sua passagem aos 104 anos, o cacique Antonio Ashaninka e Dona Peti, o cacique Joel Puyanawa, o cacique Biraci Brasil, Biraci Júnior e Anchieta Shawandawa. Lugar de jovem indígena, quilombola ou ribeirinho é na universidade, sim, mas para que ele retorne com ferramentas que potencializem o conhecimento de seus ancestrais.”

José Luiz de Paula Jr. | Foto: Acervo pessoal

Bloco 4 — O futuro e o FIBAM 2026

No final de maio de 2026, Macapá sediará o 2º Fórum Internacional de Bioeconomia Amazônica (FIBAM). O que os empreendedores locais, cooperativas e investidores podem esperar?

“O FIBAM 2026 terá um papel estratégico e urgente na defesa do patrimônio biológico da região. Vamos enfrentar temas críticos, como a praga que atualmente está dizimando as lavouras de mandioca no Amapá — uma doença vinda da Guiana Francesa que ameaça a base da segurança alimentar do povo amazônida. No Fórum deste ano, estaremos reunindo especialistas brasileiros e franceses, integrando a ciência acadêmica, a Embrapa e o conhecimento das comunidades locais para resolver esta e outras questões de biobotânica amazônica. O Fórum é, acima de tudo, um ponto de convergência onde o capital consciente se une à ciência de ponta e ao saber ancestral.”

Como você enxerga o papel da Amazônia no novo cenário mundial — não mais como “pulmão” a ser explorado, mas como mente criativa e dona de suas próprias patentes?

“A palavra de ordem para o futuro da Amazônia é segurança jurídica. O conhecimento ancestral e as manifestações culturais também devem ser protegidos por mecanismos de propriedade intelectual. O grande desafio da Amazônia moderna é formar profissionais que dominem a linguagem da ciência avançada para validar o que as comunidades já sabem há milênios. Temos bioativos com grande poder farmacológico e alto potencial de patenteamento, com ações comprovadas inclusive na área da neurociência. Somente com ética e garantias jurídicas asseguraremos que a riqueza gerada pela biodiversidade beneficie, prioritariamente, os guardiões da floresta.”

A floresta não pode ser tratada apenas como fonte de matéria-prima, mas como território de conhecimento, cultura e geração de valor. — José Luiz de Paula Jr., ecodesigner e fundador do Instituto dos Sentidos

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Produção Alexandre Nunes e Arison Jardim
Entrevistado José Luiz de Paula Jr. — Ecodesigner, educador e fundador do Instituto dos Sentidos
Fotos Acervo pessoal de José Luiz de Paula Jr.

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