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A omissão da sociedade alimenta o feminicídio
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Redação
A omissão da sociedade alimenta o feminicídio e a voz das sobreviventes exige mudanças
Por Arison Jardim
O trabalho realizado durante a produção, gravação e edição do documentário Vozes do Silêncio ecoa na memória, como as águas de um rio que insistem, constante e sempre, em escavar suas margens e derrubar barrancos. Ouvir e ler relatos tão duros de vítimas de um ódio visceral, que domina nossa sociedade como uma praga silenciosa, nos faz perder a esperança. Ver os números, as estatísticas frias e os casos brutais, que só aumentam, reforçam esse sentimento de desamparo.
Confesso que ver a Medusa falar, e declamar, de como a arte ajuda a mudar sua vida faz voltar a iluminar alguns raios, rompendo a copa densa dessa angústia. Não só com sua arte, quem a acompanha vê sua força e determinação diariamente, em todas as frentes que encara. E esse pingo de luz ainda nos faz querer enfrentar sempre a violência que nos cerca.
Nessa reportagem, trazemos uma discussão que considero importante para contribuir nessa batalha constante que é ter vidas salvas, mentes sãs, almas em paz e o respeito com quem faz a história desse país. O objetivo final é: mostrar os números alarmantes, buscar explicar essa gênese do horror com quem estuda e explica as várias realidades e, no final, tentar ter um pouco mais de fôlego, chamando o máximo de leitores para a reflexão. Fica o alerta de gatilho, alguns trechos podem ser fortemente sensíveis para o leitor e leitora.
A Amazônia que Sangra: O Peso do Número
Essa nossa realidade amazônica, quando despida do verniz de suas belezas naturais e do folclore verde, expõe feridas profundas que escorrem e se traduzem em estatísticas cruéis. Conforme a pesquisa do Instituto Igarapé, enquanto o Brasil registrou um crescimento de 12% nos casos de feminicídio nos últimos cinco anos, a Amazônia Legal sofreu um aumento drástico e sangrento de 22%. Na mesma esteira de insegurança, o relatório DataSenado de 2023 revela o pulso do medo local: no Acre, 78% da população feminina afirma que a violência doméstica e familiar contra as mulheres aumentou nos últimos doze meses.
Esses números não são apenas papel; eles ganham nomes, feições, histórias e fins trágicos quando transpostos para o noticiário diário. Conforme aponta a reportagem do portal G1, o estado do Acre tem acompanhado, com pesar, seu ano mais letal desta década para as mulheres. Histórias de carne e osso, como a de Ivanilde Souza da Silva, deixam de ser meros dados matemáticos e viram um luto palpável nas varandas das nossas casas. Como relembra sua sobrinha, Elaine Thais: “Ela era uma pessoa batalhadora e sorridente, uma ótima mãe, uma pessoa maravilhosa. Onde ela chegava, cativava as pessoas”. O brilho vital de Ivanilde foi covardemente apagado por golpes desferidos pelo próprio companheiro, refletindo o desfecho extremo que espreita e ameaça dezenas de outras mulheres nos rincões do nosso estado.
Para entender a fundo a engrenagem desse terror contínuo, é preciso traduzir para o cotidiano um conceito que os pesquisadores e juristas chamam de hipervulnerabilidade. No papel das teses acadêmicas, a palavra explica a sobreposição de diferentes fragilidades sociais. Na vida real e no chão de terra batida das nossas periferias, ela significa que a mulher amazônida não enfrenta apenas o machismo. Ela é tragada por uma tempestade perfeita onde o ódio de gênero cruza diretamente com a pobreza aguda, com o isolamento geográfico e com a ausência quase total do Estado. Ser mulher, pertencer a uma classe desfavorecida e viver nas margens de um Brasil que historicamente vira as costas para o Norte cria uma teia de exclusão tão espessa que pedir ajuda se torna um ato quase inatingível. É essa hipervulnerabilidade silenciosa que amordaça a dor dentro de casa e que entrega ao agressor a certeza covarde, e quase sempre real, da impunidade.
A Gênese do Horror: Do Passado ao Presente
Desvendar a raiz turva desse ódio, é voltar os olhos para a própria formação da nossa terra e da nossa gente. O estudo publicado na Revista Extraprensa, “O Silenciamento Histórico das Mulheres da Amazônia Brasileira”, aponta que as características colonizadoras agressivas e o sistema de ocupação predatória forjaram um ambiente opressor, onde o silenciamento da mulher funcionou quase como uma política invisível de Estado. A perpetuação secular desses estereótipos históricos é o pilar estrutural apodrecido que, infelizmente, sustenta a violência até os dias de hoje.
Nesse contexto crônico de hipervulnerabilidade, a mulher amazônida foi historicamente empurrada para a margem da margem. Essa subalternidade, imposta pela poeira do tempo e enraizada no isolamento histórico dos seringais, reflete diretamente no interior abafado das casas contemporâneas. A opressão que antes se escondia na vastidão da mata, hoje ecoa nos bairros esquecidos das nossas cidades.
A poeta e ativista Medusa traz essa teoria dolorosa para o campo da vivência dura e real em seu depoimento no documentário Vozes do Silêncio:
Eu venho de uma família pobre, nascida e criada nas periferias de Rio Branco. A violência com os nossos corpos era muito normalizada. Ela é muito diária.
Com o olhar de quem presenciou a dor partilhando a mesma mesa, Medusa descreve a engrenagem machista moendo a carne de sua própria linhagem. Ela cresceu vendo a mãe e as tias serem sistematicamente agredidas, aprisionadas num labirinto de submissão invisível. Segundo a artista, o lugar imposto às mulheres de sua casa “era na cozinha”, restritas a lavar louça e roupa, destituídas de vontades próprias, pois “eram vistas somente como reprodutoras” de um sistema que lhes negava até a própria humanidade.
Essa invisibilidade forçada, transmitida como uma sina inescapável de mães para filhas nas periferias acreanas, é a exata tradução de um passado colonial que se recusa a morrer, alimentando o ciclo sombrio que só agora começa a ser desafiado.
A herança de submissão, que ecoa nas memórias de infância de Medusa e nas raízes coloniais da nossa terra, abandona o terreno das teorias quando as portas dos tribunais se abrem. O machismo estrutural que silenciou gerações deixa de ser apenas um fantasma invisível do passado para se materializar, com uma crueza insuportável, nas laudas dos processos.
Os Autos Sangram: Quando a Teoria Encontra o Tribunal
⚠️ Reforçamos aqui o alerta de gatilho!
Parte do processo de produção de nosso documentário foi fazer uma grande pesquisa e análise de depoimentos oficiais, o que conseguimos com o apoio do Poder Judiciário do Acre. Quando mergulhamos nesses densos processos judiciais, percebemos que a frieza burocrática do papel timbrado não consegue estancar o calor do sangue derramado no silêncio dos lares. Os depoimentos angustiados das vítimas e as justificações cínicas dos agressores traduzem, de forma trágica e literal, os conceitos acadêmicos de vulnerabilidade. Aqui, a dor perde o anonimato das estatísticas e ganha as feições do desespero diário.
O sentimento doentio de posse atua, quase sempre, como o rastilho de pólvora da barbárie na nossa região. A mulher, muitas vezes tratada como mera extensão da propriedade masculina, perde o direito mais sagrado: o de existir por si só. Os autos revelam feridas abertas e purulentas. É o caso da Vítima 4 (para preservar os nomes, usamos a nomenclatura de Vítima e Acusado), que viu o ex-marido ser tomado por uma fúria cega ao bisbilhotar mensagens antigas no seu celular. Sob a ponta de uma ameaça de morte que gelaria a espinha de qualquer um, foi obrigada a conduzir na contramão, desafiando os carros e a própria sorte, até ter o aparelho atirado contra o rosto, rasgando-lhe a sobrancelha num golpe de pura covardia.
A Vítima 5, por sua vez, recebeu a foto de uma arma de fogo na cintura do ex-companheiro, oprimida apenas porque ele “meteu na cabeça” que ela estaria com outra pessoa. Noutro processo sombrio, a Vítima 12 foi encurralada com uma faca e ameaçada de morte pelo ex-marido pelo simples “crime” de ter sido vista passando de carro acompanhada por outro rapaz.
Sabemos, por dolorosa experiência, que essa violência física raramente é um raio inesperado; ela é o desfecho aterrador de uma escalada de controle que começa por minar a alma, gota a gota. A Vítima 2 ilustra, com uma dor cortante, a quebra da submissão imposta pelo terror psicológico. Ela relata que o marido sempre gritava, enquanto ela “sempre se calava e pronto”, engolindo a própria voz como quem engole água barrenta para sobreviver. No dia em que reuniu a força para lhe responder e estancar o abuso, foi de imediato bombardeada com insultos — chamada de “quenga”, “puta” e “má mãe” —, um ataque moral que evoluiu, num ápice, para uma brutal sessão de enforcamento, puxões de cabelo e murros.
A Vítima 6 narra o mesmo rito macabro de aniquilação: o agressor iniciou a investida berrando “cala a boca sua merda, sua bosta, sua vagabunda” para, no segundo seguinte, passar a empurrá-la e chutá-la, como se não existisse ali um sopro de vida humana, mas apenas um obstáculo a ser varrido no seu caminho de ódio.
Esse rito de aniquilação, contudo, não se alimenta apenas do machismo herdado que permeia os autos. Onde a presença do Estado quase sempre míngua, a engrenagem do ódio encontra combustível farto e inflamável nas privações do dia a dia.
O Álcool, a Miséria e as Cinzas do Patrimônio
No duro contexto das margens amazônicas, a dependência econômica e a pobreza aguda, somadas à fuga entorpecente do álcool, atuam como catalisadores cruéis do ciclo ininterrupto de agressões. A miséria material que assombra as palafitas e as casas de madeira sem pintura torna-se cristalina, e trágica, no relato da Vítima 1. Ela foi golpeada violentamente com uma espátula, precisando levar três pontos que costuraram o couro cabeludo, mas não a dignidade. O motivo do ataque revela um cenário de desolação absoluta: a mulher ousou questionar o marido após ele ter vendido o botijão de gás — o coração pulsante daquela cozinha modesta — para comprar cachaça. O agressor, ao confessar a covardia diante da lei, lançou mão da velha desculpa esfarrapada do “desespero” e da bebedeira para tentar lavar as próprias mãos. Com uma banalidade semelhante que nos gela o estômago, o Acusado 9 tentou justificar o injustificável perante o juiz: “eu tinha chegado bebido; aí eu tava bêbado e agredi ela”, como se a garrafa fosse a verdadeira dona dos seus punhos cerrados.
Mas o terror imposto por esses homens não se contenta em ferir apenas a carne e o espírito. Quando o corpo da mulher já não basta para saciar a fúria dominadora, o agressor parte, sem o menor escrúpulo, para a aniquilação daquilo que garante a sobrevivência material da vítima. A violência patrimonial surge, então, como uma punição vil, covarde e calculada. Os autos do processo da Vítima 7 documentam essa vingança em chamas: sua casa inteira foi banhada a gasolina e incendiada após uma discussão, reduzindo a um monte de cinzas a geladeira suada de pagar, o fogão e todas as roupas de uso pessoal. O mesmo fogo criminoso e impiedoso, que não queima apenas móveis, mas transforma em fumaça a esperança de um recomeço, consumiu o colchão da Vítima 14. O ataque ocorreu no calar da noite, depois que o ex-companheiro invadiu sua residência pela janela, rasgando o que lhe restava de santuário e paz.
A Banalidade do Mal
Talvez o aspecto mais sombrio e revoltante das audiências nos tribunais seja o puro cinismo humano. A sociedade e os próprios algozes tendem a minimizar a violência sistêmica, tratando o espancamento brutal de uma mulher como um mero aborrecimento cotidiano, uma sujeira que a gente varre para debaixo do tapete. O Acusado 3, por exemplo, que invadiu a casa da ex-sogra e, num ato inominável, distribuiu socos e chutou a barriga da ex-cunhada, grávida de três meses, teve a audácia de afirmar em juízo que “só empurrou”, negando veementemente os golpes que a vítima presenciou. O Acusado 8 seguiu a mesma cartilha fétida do deboche, alegando que “não bateu”, apenas deu “uns empurrões”, optando por ignorar as marcas roxas de espancamento atestadas por laudo de corpo de delito.
Esse mesmo indivíduo (Acusado 8) escancara, sem pudor, outra tragédia que foi criminosamente normalizada na nossa região amazônica: a exploração infantil. Em seu depoimento frio, ele revelou, com a naturalidade de quem fala da chuva do dia, que foi morar com a vítima quando ela tinha apenas 13 anos de idade.
O trauma é, assim, semeado como uma praga para a próxima geração, e a tragédia frequentemente se reinicia com as dolorosas reconciliações movidas pela dependência e pelo pavor contínuo — como atestam, infelizmente, os processos da Vítima 1 e da Vítima 11, que informaram à Justiça que “se reconciliaram e hoje estão bem”, num eco que soa mais como sobrevivência do que como paz.
A Arte de Curar e a Coragem de Mudar
O ano de 2025 cravou uma ferida ainda mais funda na nossa história recente, provando que o silêncio custa caro demais. Segundo o doloroso levantamento do Feminicidômetro do Ministério Público Estadual, o Acre amargou um aumento brutal de 75% nos casos de feminicídio em relação ao ano anterior, totalizando 14 vidas ceifadas. 14 VIDAS! Retornamos, assim, ao sombrio topo do ranking nacional de letalidade para as mulheres, repetindo os picos assustadores de 2016 e 2018. Diante de estatísticas tão cruéis, que sangram nosso estado de ponta a ponta, trazer essas histórias para a superfície deixa de ser apenas um exercício jornalístico e passa a ser uma urgência de sobrevivência. É preciso iluminar os porões da nossa sociedade para conseguir enxergar e combater os perigos que ainda espreitam dentro de tantas casas.
Se a dor dessas mulheres tem raízes profundas, a cura também precisa ganhar espaço para brotar. A trajetória luminosa da pequena Cristina, a Medusa, é a prova viva e pulsante de que a denúncia e a arte são caminhos de salvação. Ao transformar o trauma herdado em poesia de combate, ela ressignificou o próprio destino e rasgou o roteiro invisível que aprisionava as mulheres de sua família por gerações. “Se eu não tivesse tido a arte, eu ia ser mais uma estatística do feminicídio”, confidencia a poeta. Assim como Medusa encontrou na força da palavra o remédio para estancar a própria dor, o compartilhamento sem amarras dessas realidades atua como o nosso antídoto coletivo contra a barbárie.
Ao expor a crueza dos autos judiciais e a lágrima das vítimas, o objetivo final nunca foi paralisar o leitor pelo medo, mas provocar o movimento.
Ao expor a crueza dos autos judiciais e a lágrima das vítimas, o objetivo final nunca foi paralisar o leitor pelo medo, mas provocar o movimento. É um chamado inegociável para que os homens encarem o espelho, repensem atitudes cristalizadas, desconstruam o machismo velado nas rodas de conversa e rompam a cumplicidade covarde diante do ciúme possessivo e dos “empurrões” alheios. A paz doméstica exige que a consciência masculina desperte.
E, acima de tudo, estas linhas são um abraço estendido para que as mulheres que ainda choram na calada da noite encontrem força para quebrar o ciclo. A arte de Medusa nos ensina que a culpa não é da vítima e que, por mais espessa que seja a escuridão, nenhuma mulher está sozinha. Dar o primeiro passo rumo à denúncia pode parecer assustador, mas é unindo essas vozes, antes silenciadas, que a nossa sociedade poderá dar o passo definitivo em direção a um futuro onde o amor não seja confundido com posse, e onde a paz deixe de ser um privilégio para ser, enfim, o nosso cotidiano.
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Design, ancestralidade e a disputa pelo valor da floresta
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4 horas agoon
23/04/2026By
Redação
Especial É Pop 🌿 Matéria Especial
Design, ancestralidade e a disputa pelo valor da floresta
José Luiz de Paula Jr., ecodesigner, educador e fundador do Instituto dos Sentidos. | Foto: Acervo pessoal
Falar com José Luiz de Paula Jr. é entrar em uma discussão que ultrapassa o design, a perfumaria e a estética dos produtos da floresta. O que ele coloca em primeiro plano é uma disputa mais profunda: quem nomeia, transforma, protege e se beneficia da biodiversidade amazônica.
Em sua leitura, não há bioeconomia possível sem reconhecimento do saber ancestral, repartição concreta de benefícios e permanência digna de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos em seus próprios territórios. Sua trajetória parte de uma memória íntima e anterior ao circuito internacional em que seu trabalho passou a circular. Antes dos prêmios, das vitrines e do reconhecimento fora do país, está a formação sensorial construída com o avô, Zé Vicente, entre o Vale do Paraíba e o asfalto de São Paulo.
É dessa experiência, ligada ao cultivo, ao cheiro das plantas e ao que ele define como “caminho da percepção natural”, que nasce uma compreensão do olfato não como ornamento, mas como linguagem, arquivo e ferramenta de leitura do mundo. Ao longo dos anos, José Luiz deslocou esse repertório para uma prática voltada às comunidades da Amazônia. Em vez de tratar design como acabamento ou embalagem, ele o apresenta como instrumento antropológico e econômico.
Em sua formulação, perfumes, frascos, cores, grafismos e conceitos de marca podem operar como tradução de identidades coletivas — desde que não apaguem a origem dos conhecimentos nem repitam a lógica histórica de extração sem retorno. O ponto central de sua fala está aí: agregar valor, sem retirar das comunidades o domínio sobre aquilo que produzem e sabem.
O jovem indígena não quer ser um urbano deslocado; ele quer ser um protagonista em sua própria terra. — José Luiz de Paula Jr.
Zé Vicente, avô de José Luiz. “Um homem da terra, do cultivo, das plantas.” | Foto: Acervo pessoal
Antes de falar de design e bioeconomia, você frequentemente menciona o avô, Zé Vicente. O que essa relação tem a ver com o trabalho que você desenvolve hoje?
“Minha formação sensorial começou com ele. Era um homem da terra, do cultivo, das plantas. Com ele aprendi que o olfato é o sentido mais primitivo e mais verdadeiro que temos. Antes de qualquer teoria de design, aprendi a ler o mundo pelo cheiro das coisas. Esse ‘caminho da percepção natural’ é o que me guia até hoje quando entro em uma aldeia ou em uma floresta.”
Você costuma dizer que o olfato é o “patrono da felicidade” e que o design deve acessar a memória afetiva. Como ocorre o seu processo de “escuta olfativa” para traduzir a identidade de um povo em produto?
“O design, para mim, só faz sentido se for um agente de transformação. Enxergo perfumes e embalagens como instrumentos antropológicos. Através do olfato, das cores e das formas, traduzimos o comportamento de grupos étnicos — sejam indígenas, quilombolas ou ribeirinhos. O corpo do indígena é mídia; ele comunica estado de espírito através da pintura. Já o olfato é o nosso sentido mais vital e primitivo, muitas vezes atrofiado pela vida urbana. Meu papel como designer é resgatar essa percepção. Quando entro na mata, não vejo apenas árvores; já visualizo cores, volumetrias e frascos que embalarão aquela essência.”
José Luiz em campo, no contato direto com comunidades tradicionais da Amazônia. | Foto: Acervo pessoal
Sua vivência nos beiradões e aldeias do Acre — com Ashaninka, Yawanawá e Shanenawa — gerou perfumes bioeconômicos que chegam à Europa. O que esses povos te ensinaram sobre o tempo das coisas e sobre o valor da “floresta em pé”?
“Em busca do que chamo de ‘Brasil Profundo’, fui parar no Vale do Juruá. Foi no convívio direto com os Ashaninkas, Puyanawas, Yawanawas e Shawandawas que descobri que é possível viver com pouco, desde que esse pouco seja preenchido por uma imensa plenitude. Ali, redescobri a liberdade e a ciência em sua forma mais pura. Precisamos superar o preconceito acadêmico de que o saber tradicional não é ciência. Quem detém o conhecimento milenar da floresta é cientista da vida. Aprendi com líderes como Benki e tantos outros que a natureza não precisa ser ‘salva’ por nossa soberba humana; ela é soberana e reage às nossas ações. Nós é que precisamos da floresta para sobreviver com dignidade e saúde. O planeta continuará aqui; a questão é se nós estaremos.”
Você trabalhou com o “mel roxo de açaí” em Moju, no Pará. Como o design atua para resgatar o orgulho da comunidade e transformá-lo em ferramenta de independência econômica?
“Minha missão mudou quando vi 2 litros de um mel precioso serem vendidos em uma garrafa de plástico por um valor irrisório. Ali, decidi que o design deveria servir a quem realmente precisa: as comunidades originárias. Redesenhamos o conceito, reduzimos para 150ml com alto valor agregado e estabelecemos um modelo onde 50% do lucro retorna diretamente para a comunidade. Isso não é caridade, é justiça econômica. Precisamos romper com o ‘colonialismo contemporâneo’, onde o conhecimento da floresta é explorado sem o devido retorno a seus guardiões.”
Bioeconomia sem inovação e partilha de benefícios é apenas uma palavra vazia. — José Luiz de Paula Jr.
A palavra “bioeconomia” virou moda em fóruns globais, muitas vezes esvaziada de seu sentido humano. Onde termina o mero extrativismo e onde começa a verdadeira bioeconomia?
“Bioeconomia sem inovação e partilha de benefícios é apenas uma palavra vazia. A Amazônia abriga 33 milhões de pessoas; é um universo que exige soluções que unam a ciência acadêmica ao saber ancestral para gerar escala com ética. Como educador, meu objetivo é levar a ‘escola de perfumaria’ e o conhecimento técnico para dentro das aldeias. Quero que a juventude indígena e quilombola possa transformar sua biodiversidade em riqueza, sem precisar abandonar sua cultura. Para isso, fundamos o Instituto dos Sentidos.”
Qual é o maior desafio para garantir que os jovens dessas comunidades enxerguem futuro no seu próprio território?
“O jovem indígena não quer ser um urbano deslocado; ele quer ser um protagonista em sua própria terra. Meus projetos são profundamente inspirados em figuras que são verdadeiras bibliotecas vivas, como o xamã Tatá Yawanawa, que fez sua passagem aos 104 anos, o cacique Antonio Ashaninka e Dona Peti, o cacique Joel Puyanawa, o cacique Biraci Brasil, Biraci Júnior e Anchieta Shawandawa. Lugar de jovem indígena, quilombola ou ribeirinho é na universidade, sim, mas para que ele retorne com ferramentas que potencializem o conhecimento de seus ancestrais.”
José Luiz de Paula Jr. | Foto: Acervo pessoal
No final de maio de 2026, Macapá sediará o 2º Fórum Internacional de Bioeconomia Amazônica (FIBAM). O que os empreendedores locais, cooperativas e investidores podem esperar?
“O FIBAM 2026 terá um papel estratégico e urgente na defesa do patrimônio biológico da região. Vamos enfrentar temas críticos, como a praga que atualmente está dizimando as lavouras de mandioca no Amapá — uma doença vinda da Guiana Francesa que ameaça a base da segurança alimentar do povo amazônida. No Fórum deste ano, estaremos reunindo especialistas brasileiros e franceses, integrando a ciência acadêmica, a Embrapa e o conhecimento das comunidades locais para resolver esta e outras questões de biobotânica amazônica. O Fórum é, acima de tudo, um ponto de convergência onde o capital consciente se une à ciência de ponta e ao saber ancestral.”
Como você enxerga o papel da Amazônia no novo cenário mundial — não mais como “pulmão” a ser explorado, mas como mente criativa e dona de suas próprias patentes?
“A palavra de ordem para o futuro da Amazônia é segurança jurídica. O conhecimento ancestral e as manifestações culturais também devem ser protegidos por mecanismos de propriedade intelectual. O grande desafio da Amazônia moderna é formar profissionais que dominem a linguagem da ciência avançada para validar o que as comunidades já sabem há milênios. Temos bioativos com grande poder farmacológico e alto potencial de patenteamento, com ações comprovadas inclusive na área da neurociência. Somente com ética e garantias jurídicas asseguraremos que a riqueza gerada pela biodiversidade beneficie, prioritariamente, os guardiões da floresta.”
A floresta não pode ser tratada apenas como fonte de matéria-prima, mas como território de conhecimento, cultura e geração de valor. — José Luiz de Paula Jr., ecodesigner e fundador do Instituto dos Sentidos
Entrevistado José Luiz de Paula Jr. — Ecodesigner, educador e fundador do Instituto dos Sentidos
Fotos Acervo pessoal de José Luiz de Paula Jr.
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No coração do Rio Moa, a escuta de Vitória Rodrigues encontra o Povo Nukini e transforma cuidado em presença
Published
1 mês agoon
22/03/2026By
Redação
Matéria especial
Acre • 22 de março de 2026
No chão da Aldeia Isã, o cuidado aparece sem pressa: conversa partilhada, infância em roda, alimento como memória e uma psicologia que volta ao território para construir vínculo com a própria gente.
Reportagem: Arison Jardim
Fotos: acervo de Vitória Rodrigues
Especial do É Pop
No dia 13 de março, na Aldeia Isã, em Mâncio Lima, a psicóloga clínica Vitória Rodrigues sentou no chão com crianças do povo Nukini para conversar sobre corpo, limites e respeito, e ali o cuidado ganhou a forma que a floresta entende: palavra dita sem pressa, presença partilhada e confiança construída no ritmo da comunidade. A cena não nasceu de uma visita apressada, dessas que entram, falam e vão embora. Nasceu de um retorno. Vitória saiu do Juruá para estudar Psicologia na Bahia, atravessou o peso da distância, enfrentou o susto acadêmico de quem percebe que o Brasil também cobra caro de quem vem das bordas, e voltou porque compreendeu que sua profissão só faria sentido inteiro perto da própria gente, dos rios, dos avós, das histórias e das urgências que moldaram sua formação humana antes mesmo da universidade.
Nas imagens que a jovem profissional compartilha em suas redes sociais, a aldeia aparece com a força tranquila de quem segue em pé. As crianças descem a escadaria que leva ao barranco do rio com o corpo solto de quem conhece o chão onde pisa. Mais adiante, as casas de madeira se alinham diante da mata fechada, com placas solares captando luz no meio do verde pesado do Moa. Sob uma árvore frondosa, meninos e meninas se juntam como se a comunidade inteira coubesse naquele círculo de sombra. Em outro canto, o terreiro abre espaço para o respiro largo do céu e para o tempo da convivência. Não há nada de exótico ali. Há vida organizada, infância correndo livre, tecnologia combinada com tradição e uma paisagem onde o cotidiano continua sendo a primeira escola.
Foi para esse chão que Vitória decidiu voltar. “Esse retorno é também um reencontro comigo mesma”, diz ela, numa frase que ajuda a entender que sua escolha profissional não nasceu apenas do diploma, mas da vida vivida antes dele. Ao sair do Acre para estudar, levou junto a memória da família, a experiência de quem cresceu atravessada pelos rios do Juruá e a consciência de que a distância também ensina. Na Bahia, encontrou outro Brasil, rompeu preconceitos e percebeu que a formação acadêmica, por si só, não bastava. O que ela buscava tinha outro tamanho. “Compreendo o cuidado psicológico como um espaço de presença e construção conjunta”, afirma. Nessa formulação, não cabe a psicologia isolada do mundo, fechada em consultório e apartada da vida concreta. O que existe é uma escuta que pisa no território e se deixa afetar por ele.
Esse entendimento ganha mais densidade quando ela própria nomeia o que a orienta. “Acredito que toda psicologia é, antes de tudo, social”, afirma. A frase, quando chega ao centro da Aldeia Isã, deixa de ser princípio abstrato e ganha corpo. Ali, cada conversa com uma mulher, cada roda com crianças, cada permanência ao lado das famílias pede que o cuidado considere o que atravessa uma comunidade indígena do alto Juruá: a memória coletiva, a relação com a terra, os modos de criação, a história da resistência, a delicadeza das infâncias e o direito de viver sem violência. Vitória também fala da base que sustenta sua prática: “Minha escuta se constrói a partir dessa compreensão, buscando acolher a singularidade de cada trajetória sem desconsiderar os cenários que a atravessam”. O que ela oferece, então, não é só atendimento. É presença ética onde a vida acontece.
Na Aldeia Isã, essa presença se espalhou de forma orgânica. A roda com as crianças sobre corpo, limites e respeito ocorreu sem o peso do tabu e sem a rigidez de quem fala de cima para baixo. Houve escuta, troca e cuidado com a linguagem. Pais e mães acompanharam de perto, atentos, como quem sabe que proteger também passa por aprender a conversar. Entre as mulheres, o trabalho seguiu pela mesma vereda: fortalecer a palavra, abrir espaço para o que muitas vezes fica represado no cotidiano e lembrar que saúde mental não é luxo de cidade, mas necessidade humana em qualquer latitude da floresta. Vitória não aparece como alguém que chega para ensinar tudo. Ela se coloca como quem constrói junto. “Ofereço um espaço ético e acolhedor para quem busca se aproximar de si, elaborar sofrimentos, fortalecer recursos internos e ampliar a compreensão sobre suas vivências”, resume.
Essa maneira de estar transforma até o que parece lateral em parte central da narrativa. A comida, por exemplo, que encanta quem sente saudade da própria casa, não entra como curiosidade de passagem. Ela entra como território. Quando Vitória posta a imagem de um buriti aberto na mão, com a polpa alaranjada e a casca escura, a imagem traz a textura dessa convivência. O prato de caranguejo servido com banana-da-terra, fumegando sobre a mesa de madeira, também diz muito sobre esse encontro e da experiência única que é viver na Amazônia. Comer ali é partilhar tempo. É admitir que a confiança não nasce só da conversa formal, mas do cotidiano.
Até a cuia cheia de larvas, alimento ancestral em muitos contextos amazônicos, ajuda a desmontar o olhar apressado de fora. Na floresta, comer é saber. Comer é memória. Comer é pertencimento. “Esses alimentos são entendidos como presentes da natureza e carregam a história de resistência do povo Nukini”, explica.
Para Vitória, é no cotidiano compartilhado que a relação profissional deixa de soar impositiva e passa a ser reconhecida como confiança, proximidade e aprendizado mútuo.
O espaço amplo, o céu pesado de chuva, a grama curta e as casas tradicionais compõem uma paisagem em que a vida corre sem apartar cultura, trabalho, espiritualidade e convivência. A aldeia não é cenário. É organismo vivo. E é justamente por isso que a presença de uma psicóloga que conhece o peso simbólico desse território pode produzir outro tipo de vínculo. Vitória não fala em neutralidade. Sua caminhada deixa claro que cuidar também é reconhecer história, desigualdade, pertencimento e potência.
“Hoje, eles estão organizados em seis aldeias: Haka, Pãna, Abacateral, Recanto Verde, Maloquinha e Inu Isã, sendo a sede a Aldeia Vaka Visu, localizada próxima à Serra do Divisor. São conhecidos como ‘povo da montanha’ ou ‘povo da onça’, e mantêm forte relação com a terra por meio do plantio e das práticas tradicionais”, diz Vitória. A fala dela abre a porteira certa para compreender quem são os Nukini. No alto rio Moa, no extremo oeste do Acre, no município de Mâncio Lima, esse povo carrega uma história marcada pela permanência. Os Nukini pertencem à família linguística Pano e seguem fincados num território onde floresta, água, roçado, memória e parentesco não vivem separados. A terra, ali, é caminho de transmissão entre os mais velhos e os mais novos, é o lugar onde a cultura não se apresenta em vitrine, mas respira no dia a dia.
A caminhada do povo Nukini atravessou a violência das frentes extrativistas, a pressão sobre o território, o peso dos antigos seringais e as muitas tentativas de apagar modos próprios de existir. Ainda assim, a comunidade seguiu de pé. Seguiu no modo de organizar a vida comunitária e no esforço cotidiano de proteger o que é seu. Quando Vitória se aproxima das mulheres e das crianças da Aldeia Isã com escuta e cuidado, ela não encontra um povo parado no tempo. Encontra um povo vivo, organizado, atravessado por desafios contemporâneos e, ao mesmo tempo, profundamente enraizado em saberes que não nasceram ontem.
É por isso que aquelas crianças sorrindo na beira do Moa dizem tanto. Elas não são apenas a imagem bonita de uma visita. Elas são a prova de continuidade de um povo que segue fazendo da floresta uma casa habitada. Entre a Serra do Divisor e o curso barrento do rio, o que se vê é uma forma de existência onde o futuro depende da memória e onde a memória só permanece viva porque ainda há território, comunidade e luta. Nesse chão, a volta de Vitória Rodrigues ganha outra dimensão. Não é somente o retorno de uma psicóloga ao Acre. É o encontro entre cuidado, identidade e resistência no coração de um povo que continua escrevendo sua própria história.
No coração do Rio Moa, a escuta de Vitória Rodrigues encontra o Povo Nukini e transforma cuidado em presença
Voltar para perto
Comer também é território
“Sentar junto para preparar alimentos, usar artesanato, brincar e conversar ajuda a construir o vínculo terapêutico.”
Um povo vivo no alto Rio Moa
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A fé cabocla rasga o varadouro para alcançar o sagrado; Nova Olinda, Juruá
Published
2 meses agoon
21/02/2026By
Redação
A fé cabocla rasga o varadouro para alcançar o sagrado
A travessia de lama, suor e silêncio nas barrancas do extremo oeste acreano, onde o povo da floresta forja os seus próprios milagres.
Fevereiro de 2026
Onde o Brasil ensaia o seu fim e o Peru se anuncia, o mapa abandona as linhas retas e passa a ser desenhado pelas curvas barrentas das águas. No extremo oeste do Acre, o município de Marechal Thaumaturgo não é apenas uma fronteira geopolítica; é uma trincheira viva da Amazônia profunda. Ali, a Reserva Extrativista do Alto Juruá e as Terras Indígenas formam um cinturão humano e verde, onde a cultura da floresta dita as horas e o isolamento não decreta o fim do mundo, mas a preservação de um. É neste beiradão de Brasil, a dezenas de quilômetros do asfalto, que repousa um dos maiores monumentos da religiosidade popular amazônica: o Santuário de Nova Olinda.
Para narrar essa travessia, emprestamos os olhos, o suor e os passos de Cleudon França, jornalista e memorialista que, entre os dias 12 e 15 de fevereiro deste ano, refez o duro trajeto até as margens sagradas do Igarapé São Luís. E é pelas palavras dele que somos guiados para a crueza e a beleza desse altar a céu aberto.
A Batalha Fluvial e o Pedágio da Correnteza
A peregrinação começa muito antes de o joelho dobrar; ela se inicia na proa do batelão. Partindo da sede de Marechal Thaumaturgo, rasga-se o Rio Juruá até adentrar os braços mais estreitos do seu afluente, o Rio Caipora. A navegação logo deixa de ser deslocamento e vira um enfrentamento físico.
A água amarelada e turva denuncia onde há pedra. Nas cachoeiras rasas e lajes expostas, a embarcação verde e amarela de madeira não avança sozinha. Os motores Honda calam ou são erguidos no braço. Os homens descem. Com a água batendo na cintura e fustigando as pernas, eles cravam os pés nas pedras escorregadias do leito. O esforço estampa-se nas veias saltadas e nas roupas encharcadas coladas ao corpo, enquanto empurram a canoa contra o volume espumante da corredeira.
Mais adiante, o desafio muda de forma: uma imensa árvore caída cruza o igarapé de margem a margem, um emaranhado de galhos secos e cipós barrando a passagem. A tripulação precisa escalar o tronco dentro d’água, negociando cada centímetro com a correnteza que não cede. O avanço é medido em poucos metros. Como resume Cleudon: “A floresta impõe regras invisíveis: quem não respeita, retorna. Quem persevera, chega transformado”.
Para narrar essa travessia, emprestamos os olhos, o suor e os passos de Cleudon França, jornalista e memorialista que, entre os dias 12 e 15 de fevereiro deste ano, refez o duro trajeto até as margens sagradas do Igarapé São Luís. E é pelas palavras dele que somos guiados para a crueza e a beleza desse altar a céu aberto.
O Varadouro, o Facão e a Gênese do Mito
Onde a água desiste, as pernas assumem. Deixando os barcos para trás, o promesseiro mergulha no varadouro, engolido pela imensidão da mata. A grandeza do Juruá reduz o homem à sua verdadeira dimensão: Cleudon, vestindo branco, de terço no peito, abre os braços diante de uma samaúma colossal, e ainda assim parece minúsculo diante daquele tronco que se ergue como uma muralha de casca e musgo, adornado por uma placa rústica com os dizeres NOVOLINDA.
Nesse ambiente de sombras alongadas, ladeiras escorregadias de argila e vales onde a lama suga as botas, a caminhada exige horas a fio. “Na trilha, não existe personagem: existe cansaço real, medo real, limite real”, atesta Cleudon sobre o trecho terrestre.
Mas por que se lançar a tamanho sacrifício? A resposta ecoa do tempo em que o sangue molhava aquela mesma terra. A tradição oral ensina que três irmãos vindos do Ceará foram emboscados ali por indígenas não contatados enquanto cortavam seringa. Dois tombaram mortos, e o terceiro, ferido, enterrou-se na areia da praia fazendo uma promessa desesperada a São Francisco. Mais de uma semana depois, quando o resgate os encontrou, os corpos dos caídos estavam em perfeita conservação.
Nascia ali o milagre. Para o nosso guia, recontar esse enredo é vital: “Ser ‘voz dessa última fronteira’ é compreender que a memória não é nostalgia — é responsabilidade”.
O Altar de Terra, Cera e Retratos
“O instante da chegada ao Santuário de Nova Olinda, acontece primeiro por dentro”, descreve Cleudon. Quando se alcança o terreno à beira do Igarapé São Luís, a exaustão se dissolve em um silêncio absoluto. “O coração se ajoelha antes mesmo do corpo”, confidencia. “A alma chora antes das palavras porque entende que atravessou algo maior do que rios e trilhas — atravessou limites invisíveis”.
O visual é arrebatador por sua crueza. Da terra úmida, erguem-se grossos troncos em forma de cruz. Eles sustentam o peso brutal de centenas de peças de roupas. São vestidos florais, camisas, toalhas coloridas e até um velho chapéu de feltro espetado na ponta. Cada farrapo desbotado pela chuva é o fantasma de uma doença curada.
A poucos passos, um barranco de terra escura, entrelaçado por raízes, foi transformado em um altar natural. A rocha é uma cascata congelada de parafina branca, derretida sob a chama viva de dezenas de velas acesas que o vento da mata não apaga.
Sob a proteção de um telhado de zinco, a Casa das Promessas guarda o relicário da fronteira. O ambiente é forrado de tinta verde e preenchido por um varal de roupas deixadas como oferenda. No centro, uma cruz de madeira desaparece sob grossos terços de contas pretas e miçangas cruzadas. Na parede ao fundo, a alma do Juruá se revela: um mosaico de fotografias 3×4, retratos de famílias, imagens de crianças e agricultores. Nas tábuas, nomes como “Hudson” e “Brandão da Silva” foram entalhados, marcando a fé na madeira.
O rito final é a própria água. Os promesseiros mergulham no igarapé para lavar as dores entranhadas. “As águas do Rio São Luís não são apenas correnteza — são espelho e rito”, aponta Cleudon. “Saí molhado por fora. Mas leve por dentro”.
O Panteão dos Seringais e a Fé Cabocla
O Santuário de Nova Olinda não é uma anomalia isolada no mapa acreano; ele é um fragmento de um mosaico muito maior. A ausência histórica de igrejas de alvenaria e do clero nas profundezas da Amazônia forjou uma fé que brota do barro e do sofrimento. Onde o Vaticano não chegou, o seringueiro e o indígena canonizaram os seus próprios mártires.
A crueldade do ciclo da borracha esculpiu figuras como Santa Raimunda do Bom Sucesso, no Seringal Cumaru, em Assis Brasil. Abandonada na mata em trabalho de parto, em 1910, ela morreu na raiz de uma imensa seringueira. A lenda de seu corpo inexplicavelmente pesado e do perfume celestial que tomou o seringal transformou-a no símbolo máximo contra a violência à mulher amazônida. Hoje, todo dia 15 de agosto, milhares de brasileiros e peruanos rompem varadouros na Reserva Extrativista Chico Mendes em uma gigantesca romaria transnacional para clamar por sua proteção.
Nas águas do Alto Rio Envira, a devoção volta-se para a Menina Santa de Feijó (Maria da Liberdade), vítima de uma morte brutal na floresta. Seu túmulo atrai fiéis de várias gerações que utilizam o barro sagrado do local para curar feridas. Protetora das parturientes, seu nome ecoa nos batelões de madeira que cortam as madrugadas escuras. Em Xapuri, no Seringal Boa Vista, a resistência veste a pele de São João do Guarani. Um seringueiro nordestino fulminado pela malária na solidão da mata virou o “Santo da Floresta”, arrastando há mais de um século uma devoção ininterrupta a cada mês de junho.
Quando não são os mártires do seringal, a fé segue os passos dos andarilhos. O grande quadro emoldurado que Cleudon encontrou no altar de Nova Olinda pertence ao Irmão José da Cruz, um missionário profético que, nos anos 1960, espalhou cruzeiros de madeira, benzeções e curas pelas barrancas do Juruá antes de desaparecer misteriosamente rumo ao Peru.
E nos centros urbanos, o sincretismo atinge a sua epifania. Em Rio Branco, nasceram as linhas ayahuasqueiras do Santo Daime (com Mestre Irineu) e da Barquinha (com Daniel Pereira de Mattos). É a consagração máxima da identidade acreana: a cruz do catolicismo popular nordestino mergulhada no cipó e na folha da ancestralidade indígena. Tudo isso enquanto milhares tomam as ruas de Xapuri todo 20 de janeiro para a apoteótica Procissão de São Sebastião, fundindo o secular e o divino.
O Panteão dos Seringais e a Fé Cabocla
Para decifrar esse panteão invisível que vai das margens do Rio Envira às barrancas de Marechal Thaumaturgo, precisamos de chaves que explicam a própria humanidade. O semioticista Roland Barthes nos diria que aquelas roupas amarradas na cruz e os terços pendurados na madeira de Nova Olinda não são restos deixados na mata; são signos poderosos. O tecido abandonou sua função utilitária de vestir o corpo e se tornou a própria dor exorcizada. É o mito que apropria e sacraliza o sofrimento, dando um sentido celestial à tragédia que a floresta e os homens impõem.
E mais, trazemos aqui o sociólogo Pierre Bourdieu pois, em um lapso de memória de antigas leituras, imaginamos que ele veria no devoto amazônico o senhor de seu próprio campo religioso. Desamparado pelas instituições eclesiásticas, o caboclo tomou para si o poder do sagrado: ele próprio benze, reza, ergue a igreja de zinco e acende a vela na rocha. Nesse “mercado de bens de salvação”, o capital simbólico exigido não é o dízimo financeiro, mas o suor. Arrastar a canoa nas cachoeiras do Caipora e afundar as pernas na lama por horas a fio é a moeda que “traz” a graça. É o habitus da floresta: a certeza visceral de que nada que vem sem dor é digno de milagre.
Quando Cleudon observa a imensidão verde após vencer a travessia com seu parceiro, ele nos entrega a bússola para entender o Juruá: “A amizade de verdade é subir a montanha juntos e celebrar lá no alto”. No isolamento da natureza, onde a mata devora as vaidades, o homem não encontra apenas a divindade. “O silêncio de Marechal Thaumaturgo ensina que o ser humano é frágil — mas não é pequeno”, conclui o nosso memorialista. No reflexo das águas turvas e nas cruzes pesadas do Acre, o amazônida não clama apenas por cura; ele consagra a sua infinita e teimosa capacidade de resistir.
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