A entrada do Comando Vermelho na cadeia do ouro em Ucayali, no leste do Peru, expôs uma nova etapa do garimpo ilegal na fronteira com o Acre, com facções disputando uma economia que combina alto valor, baixa rastreabilidade e facilidade de lavagem. A Folha de S.Paulo apurou que a mineração em áreas remotas voltou a crescer na região, em meio a pouca fiscalização, degradação ambiental acelerada e mudança no fluxo do metal, que deixou de abastecer o comércio local e passou a seguir por rotas que permitem “legalizar” a origem do ouro.
Em Pucallpa, capital de Ucayali, a transformação já aparece no cotidiano do mercado. A reportagem registrou a percepção de escassez de ouro no comércio tradicional e ouviu um joalheiro que resumiu a virada: “Não tem mais tanto ouro quanto antes”. O relato vem acompanhado de uma explicação recorrente entre compradores e autoridades na cidade: parte do metal extraído no rio Abujão deixou de circular no circuito local e passou a ser escoada para fora, alimentando um caminho em que o ouro entra em cadeias com aparência formal.
O contexto econômico ajuda a entender por que o garimpo virou alvo preferencial. A Folha destacou que, em 2025, a mineração respondeu por 67,5% do valor total exportado pelo Peru, cerca de US$ 63 bilhões, e que, no mercado clandestino, as exportações de ouro ilegal podem ter ultrapassado US$ 12 bilhões, segundo o Instituto Peruano de Economia. A cifra coloca o ouro em um patamar de protagonismo entre as economias ilícitas e reforça o peso do metal como ativo que pode circular com menos barreiras do que drogas, justamente por ter portas de entrada no mercado legal.
Documentário da OPIRJ registra luta contra estradas e ameaças na fronteira
O debate sobre o avanço do desmatamento, das estradas ilegais e das economias ilícitas na fronteira entre Acre e Ucayali também está no documentário “Opirj – A luta na defesa dos direitos e da floresta”, lançado em 22 de setembro. A produção reúne relatos, documentos e registros da atuação da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá na defesa dos territórios indígenas e da floresta na região transfronteiriça.
O filme aborda a mobilização contra a proposta de rodovia entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa, trata da estrada ilegal UC-105, entre Nueva Italia e Puerto Breu, e recupera decisões judiciais, estudos econômicos e alertas de lideranças sobre os impactos das vias em áreas indígenas, unidades de conservação e territórios de povos isolados. O documentário está disponível no canal do Épop no YouTube.
Canal Épop no YouTube · Documentário OPIRJ
A reportagem também situou que a presença do Comando Vermelho no Peru não começou agora. Desde meados de 2015, a facção se expandiu pelo Amazonas, na disputa com o PCC e grupos locais, e se aproximou de rotas de fronteira ligadas a drogas e madeira. O que muda, segundo a apuração, é a consolidação do ouro como frente de lucro e de lavagem, com vantagens operacionais para organizações criminosas. A cientista política Omayra Peña Jimenez disse à Folha que o ouro se tornou mais atraente do que a cocaína por combinar alta de preço com um mercado formal que facilita a camuflagem da origem, e afirmou que grupos criminosos enxergaram no metal uma oportunidade de investimento que também permite lavagem de dinheiro.
No Abujão, afluente na região de Pucallpa, a mineração não é novidade, mas o avanço recente redesenhou a escala da pressão. A Folha relatou que o garimpo existe desde os anos 1980 e voltou a crescer com força nos últimos sete anos, impulsionado pela valorização do ouro, pela migração de criminosos após operações em outras áreas e pela redução da presença do Estado durante a pandemia. O biólogo Sidney Novoa, da Conservación Amazónica, disse que áreas de mineração que haviam sido abandonadas passaram a ser reativadas e que a retomada ganhou tração a partir de 2022.
A facção entra no enredo a partir de relatos e informações de inteligência citadas por autoridades. O procurador de meio ambiente de Pucallpa, José Luis Guzman, afirmou à Folha que passou a ouvir menções ao Comando Vermelho em depoimentos e apurações e descreveu uma mudança no fluxo: antes de 2020, garimpeiros chegavam do Abujão com pepitas; agora, o ouro teria deixado de abastecer joalheiros e compradores locais e passou a ser enviado a mineradoras com concessão, onde o metal ganha aparência de origem legal. Guzman afirmou que “o grosso do dinheiro vai para o Brasil” e que o grupo não investe na região, exceto em consumo imediato.
Segundo ele, a resposta oficial não acompanhou o ritmo do avanço. A Folha registrou que Guzman citou uma operação em 2020 para prender garimpeiros no Abujão, mas disse que o único flagrante foi revertido quando criminosos reagiram com tiros e que, após o recuo para planejar uma ação mais forte, a nova operação não ocorreu. No intervalo, a mineração se expandiu e passou a ameaçar áreas protegidas e territórios indígenas, incluindo a área de conservação Tamaya-Abujão, a reserva indígena Isconahua e o Parque Nacional Sierra del Divisor.
Os efeitos se acumulam em quem vive à margem do rio. A reportagem ouviu moradores que relataram piora na água e mudanças no tecido social, com aumento de prostituição e tráfico de pessoas, além de crescimento da violência e da intimidação armada. Andrés Gonzalez Torres, engenheiro nascido na comunidade de Santa Rosa de Tamaya Tipishca, disse que “a mineração degradou a qualidade da água” e associou a contaminação ao adoecimento de pessoas da região. Ele também descreveu a sensação de domínio armado em áreas sem fiscalização, com a presença de estranhos associada à entrada de armas e à imposição de regras de fora para dentro.
O avanço do ouro ilegal em Ucayali encaixa numa lógica que atravessa a fronteira do Acre: quando a fiscalização falha, a economia clandestina se expande, se especializa e passa a operar como cadeia, do abastecimento ao escoamento. É a mesma engrenagem que o Épop mostrou na reportagem publicada ontem sobre a pressão em Ucayali e o risco de interiorização do problema por rios e estradas, com alertas no eixo Yurúa–Juruá e no corredor da UC-105. A entrada do Comando Vermelho no circuito do ouro reforça essa leitura ao dar nome e método a um processo que, na prática, encurta a distância entre garimpo, lavagem e crime organizado em uma fronteira onde o custo de presença do Estado ainda é alto e o impacto ambiental é imediato.
🌿 Contexto relacionado · Meio Ambiente
Garimpo em Ucayali avança por rios e estradas no Yurúa — e acende alerta no Juruá, na fronteira do Acre
A expansão do garimpo ilegal de ouro no leste do Peru pressiona a fronteira acreana por duas rotas complementares:
a logística terrestre — mais visível em Madre de Dios — e a dinâmica fluvial em Ucayali, onde dragas e acampamentos
aparecem em afluentes remotos e se aproximam do vale do Juruá.
- O Peru realizou 243 operações contra mineração ilegal entre janeiro e fevereiro de 2026, sem conter o deslocamento do garimpo para rios de difícil acesso.
- Em Ucayali, a mineração se espalha por afluentes do rio Abujao — padrão que pulveriza o impacto e dificulta o monitoramento.
- A estrada UC-105 (Nueva Italia–Puerto Breu), no distrito de Yurúa, é apontada por satélite como vetor de desmatamento e economias ilegais a poucos quilômetros do Brasil.
- A Comissão Transfronteiriça Yurúa/Alto Tamaya/Alto Juruá pede posto de controle no Hito 38 e guarda indígena binacional para conter o avanço.
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Fonte: É Pop · Redação · Publicado em maio de 2026