Mulheres de comunidades tradicionais do Pará ampliaram a produção agroflorestal, organizaram associações e criaram mecanismos de acompanhamento das safras para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. As ações alcançam territórios ribeirinhos, quilombolas, indígenas e de agricultores familiares, onde secas prolongadas e chuvas fora de época reduzem alimentos, comprometem colheitas e ameaçam a renda das famílias.
Na comunidade de Pirocaba, em Abaetetuba, no nordeste paraense, as alterações no clima já afetam a colheita do açaí. O fruto passou a amadurecer de forma diferente e pode secar antes de atingir o ponto considerado ideal pelas agricultoras. Para evitar perdas, as famílias precisam antecipar a retirada dos cachos, mesmo quando os frutos ainda não chegaram à fase conhecida como “tuíra”.
A resposta das comunidades ganhou força com um projeto iniciado em 2023 pela FASE Amazônia em 14 municípios do Pará. O trabalho envolve a implantação de sistemas agroflorestais, a formação de lideranças femininas, a defesa da regularização dos territórios e a criação de alternativas para vender a produção em feiras e programas públicos.
Os sistemas agroflorestais combinam árvores, frutas, mandioca e culturas de ciclo curto na mesma área. A diversificação reduz a dependência de um único produto, mantém o solo protegido e amplia a oferta de alimentos durante o ano. As famílias passaram a produzir diferentes frutas, verduras e derivados da mandioca, em vez de concentrar as atividades apenas em culturas tradicionais.
O acompanhamento das mudanças é feito por meio de cadernetas agroecológicas. As mulheres registram o que produziram, as dificuldades encontradas e os fatores que prejudicaram cada etapa do ciclo agrícola. As anotações ajudam a comparar períodos, identificar perdas relacionadas ao clima e planejar novas formas de cultivo.
Em Igarapé-Miri, a organização comunitária também abriu espaço para o beneficiamento e a comercialização dos alimentos. Produtos como farinha, beiju, tucupi e maniçoba passaram a ser vendidos em feiras locais e fornecidos para a alimentação escolar. A atividade aumenta a renda e fortalece a participação das agricultoras nas decisões econômicas das famílias.
A atuação coletiva também mudou a percepção sobre o trabalho feminino no campo. As cadernetas e a venda direta tornaram mais visível a contribuição das mulheres para o sustento das casas. Além de preservar os territórios, os projetos ampliaram a autonomia financeira e a segurança alimentar das comunidades.
Fonte: Agência Brasil