Uma pesquisa internacional identificou duas novas espécies de bugios na Amazônia brasileira e ampliou o conhecimento sobre a diversidade desses primatas na América Latina. O estudo, publicado em 30 de outubro na revista científica Communications Biology, utilizou análises genéticas para diferenciar populações que até então não eram reconhecidas como espécies distintas.
As novas espécies são o bugio-vermelho-do-Pantepui (Alouatta iroi) e o bugio-vermelho-do-Mato-Grosso (Alouatta matogrossensis). A descoberta faz parte de uma investigação conduzida por 41 pesquisadores de diferentes países, sob a liderança de cientistas da Universidade de Salford, na Inglaterra.
O bugio-vermelho-do-Pantepui habita uma região do Escudo das Guianas, entre o norte do Amazonas, a Venezuela e a Guiana. Sua distribuição está associada a áreas delimitadas pelos rios Negro, Branco e Cauaburi, onde as características geográficas contribuíram para o isolamento e a diferenciação genética dos animais.
Já o bugio-vermelho-do-Mato-Grosso ocorre entre os rios Madeira e Teles Pires, em uma faixa que se estende de Rondônia a Mato Grosso, alcançando áreas de transição entre a Amazônia e o Cerrado.
A localização dessa segunda espécie preocupa os pesquisadores. Parte de seu território está no chamado Arco do Desmatamento, região marcada pela expansão da agropecuária e pela perda de cobertura florestal. Os cientistas consideram possível que o animal seja classificado como criticamente em perigo de extinção, embora ainda seja necessária uma avaliação formal de seu estado de conservação.
O primatólogo Fabiano Melo, professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e um dos autores da pesquisa, defende medidas urgentes para proteger a espécie. A prioridade é avaliar o tamanho das populações e estabelecer estratégias para evitar que a destruição do habitat comprometa sua sobrevivência.
O bugio-vermelho-do-Pantepui também enfrenta riscos, apesar de viver em uma região relativamente preservada. Entre as preocupações estão os possíveis impactos da implantação da Usina Hidrelétrica Bem-Querer, no Rio Branco, em Roraima, além das consequências futuras das mudanças climáticas.
Para chegar aos resultados, os cientistas combinaram o sequenciamento completo do genoma dos animais com estudos sobre características físicas e distribuição geográfica. O trabalho também investigou como grandes rios amazônicos e mudanças na vegetação contribuíram para separar populações ao longo da evolução.
Com a revisão, o gênero Alouatta, que reúne os bugios, passa a contar com 16 espécies e duas subespécies reconhecidas na América Central e na América do Sul. A pesquisa também deixou de reconhecer o bugio-vermelho-do-rio-purus (Alouatta puruensis) como uma espécie independente.
Conhecidos também como guaribas ou barbados, os bugios estão entre os primatas mais característicos das florestas brasileiras, especialmente por suas vocalizações, que podem ser ouvidas a grandes distâncias.
A descoberta reforça a necessidade de ampliar os estudos sobre a biodiversidade amazônica. Além de identificar espécies até então desconhecidas pela classificação científica, o levantamento oferece informações para orientar políticas de conservação em regiões pressionadas pelo desmatamento e por outras alterações ambientais.
Fonte: O Eco – Foto: Bruno Rennó