MEIO AMBIENTE

Povo Nawa conquista delimitação de terra no Juruá e fortalece barreira contra desmatamento na fronteira

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Na última sexta-feira (13), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) deu um passo decisivo para a reparação histórica de uma das populações tradicionais mais impactadas pelo ciclo da borracha na Amazônia, aprovando as conclusões do Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID) da Terra Indígena (TI) Nawa.

Com a assinatura do Despacho Decisório pela presidenta da Funai, Joenia Wapichana, a área deixa o status burocrático de reivindicação fundiária “em estudo” e passa a ser reconhecida pelo Estado brasileiro como terra indígena de ocupação tradicional delimitada.

Foto: Funai

Os números da demarcação:

  • Área delimitada: 65.159,27 hectares.
  • Localização: Municípios de Mâncio Lima e Rodrigues Alves, no estado do Acre.
  • População: Mais de 300 pessoas, distribuídas em 96 famílias.

A professora e liderança Lucila da Costa Moreira Nawa resumiu o peso da decisão para a comunidade: “São mais de 20 anos para esse reconhecimento. É uma luta centenária do nosso povo e nunca baixamos a cabeça. Sempre corremos atrás dos nossos direitos”. Para o cacique Ilson Carneiro Nawa, o Railson, a assinatura representa um marco aguardado por gerações e uma vitória coletiva.

Lucila (Foto: Acervo Opirj)

O peso do passado: das “correrias” ao êxodo urbano

A aprovação do relatório coroa uma resistência que atravessa o tempo. De acordo com os registros em vídeo do cineasta e pesquisador Tarisson Nawa, o povo Nawa sofreu um violento processo de desterritorialização e apagamento impulsionado pela economia seringalista.

No passado, os indígenas viviam em grandes malocas organizadas no interior da floresta. Com a chegada dos patrões da borracha, a população foi alvo das chamadas “correrias”, expedições armadas que visavam exterminar lideranças e escravizar os sobreviventes para o trabalho pesado nos seringais. Submetidos a cobranças abusivas de renda pela borracha extraída e sofrendo ameaças de morte, muitos indígenas foram forçados a abandonar suas terras de origem.

Esse êxodo empurrou dezenas de famílias para as periferias de cidades acreanas. No contexto urbano, além da pobreza, enfrentaram um forte racismo estrutural que tentou invalidar a identidade dos indígenas que não viviam mais isolados na mata. Apesar desse cenário hostil, a cultura Nawa sobreviveu, sendo preservada especialmente pelas mulheres nas tradições da cerâmica, utilizando o barro e as cinzas da árvore carité, saberes que hoje são o pilar da retomada cultural nas escolas e nas aldeias.

A floresta como escudo: rodovias e as novas ameaças no Juruá

A regularização da TI Nawa, que agora avança para as próximas fases administrativas, ganha urgência diante do avanço de projetos de infraestrutura que ameaçam o Vale do Juruá, ela está encravada nos municípios de Mâncio Lima e Rodrigues Alves, estrategicamente posicionada em uma das áreas de maior pressão ambiental e cobiça da Amazônia atual.

O documentário Opirj – A luta na defesa dos direitos e da floresta, produzido pelo jornalista Arison Jardim, com apoio da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj) joga luz sobre as severas pressões de um modelo de desenvolvimento predatório nessa região da fronteira. O maior foco de tensão é a tentativa de construção de uma rodovia ligando Cruzeiro do Sul, no Acre, a Pucallpa, no Peru.

O trajeto previsto para a obra cortaria ao meio o Parque Nacional da Serra do Divisor, uma unidade de conservação de proteção integral reconhecida por abrigar uma das maiores biodiversidades do estado. O asfalto rasgaria um corredor ecológico vital, impactando diretamente um mosaico de terras indígenas no Vale do Juruá, incluindo as áreas de fronteira e o território de retomada do povo Nawa, além de atingir comunidades extrativistas e colocar em risco extremo populações indígenas em isolamento voluntário.

Estudos da Universidade Federal do Acre (Ufac), citados pelo documentário, alertam que a rodovia comprometeria de forma irreversível a conectividade da floresta. Ao invés de impulsionar o desenvolvimento econômico local, a obra funcionaria como um vetor rápido de degradação. O avanço da infraestrutura nessas condições facilita a grilagem de terras, a extração ilegal de madeira e abre rotas diretas para a expansão do narcotráfico, ameaçando cercar os territórios tradicionais recém-regularizados com violência e desmatamento.

Foto: Arison Jardim

Principais alertas levantados no documentário da Opirj:

  • Suspensão Judicial: Em 2023, a Justiça Federal do Acre suspendeu a contratação de estudos para a obra, acatando ação do Ministério Público Federal (MPF) e de organizações indígenas. A justificativa foi a ausência de consulta prévia, livre e informada, regra exigida pela Convenção 169 da OIT.
  • Riscos Comprovados: Estudos técnicos apontam que a estrada não possui viabilidade econômica e causaria prejuízos sociais estimados em mais de R$ 1 bilhão. Apenas no lado peruano, a previsão seria de 24 mil hectares de floresta desmatada.
  • Avanço do Crime: Experiências na fronteira peruana mostram que a abertura de estradas nessas condições atrai a exploração ilegal de madeira, a grilagem de terras e serve de rota logística para o narcotráfico, aumentando a violência contra as comunidades locais.

Como reforça o líder indígena Francisco Piyãko no documentário, a luta dos povos originários não é contra o progresso, mas a favor da legalidade e da vida. A demarcação de territórios como o do povo Nawa fortalece uma realidade cientificamente comprovada: as terras indígenas são hoje as áreas com a floresta mais bem protegida, servindo de barreira essencial contra o colapso ambiental na Amazônia.

Autodemarcação e gestão integrada: a linha de frente na proteção da vida

A longa espera pela assinatura da Funai não significou inércia para o povo Nawa. De acordo com levantamento e informações divulgadas pela Comissão Pró-Índios do Acre (CPI-Acre), desde 2021 a comunidade assumiu a linha de frente da defesa de suas terras por meio de um processo rigoroso de autodemarcação e monitoramento territorial. As expedições de vigilância, que chegam a durar semanas em bases construídas no interior da mata, ganharam recentemente o reforço estratégico de lideranças do povo vizinho Nukini.

A defesa dessa área, que tem relação direta com o Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD), evoluiu para uma gestão integrada. Desde 2023, os Nawa firmaram uma parceria tática com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Os indígenas passaram a instalar “armadilhas fotográficas” em pontos críticos do território. As câmeras escondidas servem a um duplo propósito: registrar a recuperação da fauna local e flagrar ilícitos, municiando a fiscalização contra a invasão de caçadores e madeireiros.

Foto enviada pelo grupo Nawa de monitoramento e vigilância

As incursões de monitoramento reforçaram também a urgência da proteção da região para além dos povos contatados. Durante as atividades de vigilância documentadas pela CPI-Acre, os Nawa relataram ter encontrado rastros recentes e ouvido assovios que confirmam a presença e o trânsito de grupos indígenas em isolamento voluntário dentro do território.

Diante das pressões do narcotráfico e das ameaças de grandes obras rodoviárias na fronteira com o Peru, a demarcação e a vigilância constante tornam-se uma questão de sobrevivência imediata. Como resumiu o cacique Railson Nawa à equipe da CPI-Acre, justificando a aliança entre os povos indígenas da região: “A proteção não é só do território, mas é da vida. Começa desde a nossa vida, se nós não proteger, vamos ser mortos”.

Foto de capa: Acervo Opirj

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