No Brasil, sempre aparece um motivo para dizer que o ano ainda não começou. Primeiro é o Carnaval. Depois a Páscoa. Em seguida vêm as festas juninas. Quando se percebe, já tem férias, segundo semestre, Natal se aproximando e em ano eleitoral, político correndo atrás do tempo perdido.
É, em ano eleitoral, essa sensação fica ainda maior. E, quando tem Copa do Mundo no meio, a política precisa disputar atenção com quase tudo: futebol, arraial, igreja, família, rede social, festa de bairro, conversa de esquina e conta para pagar.
É nesse clima que a nova pesquisa Real Time Big Data no Acre deve ser lida. Não como sentença, nem como ponto final. O levantamento mostra um momento em que a política já se mexe nos bastidores, os grupos já fazem suas contas, os pré-candidatos tentam ocupar espaço, mas boa parte do eleitorado está de longe.
A eleição, por enquanto, ainda não pegou fogo.
Tem Copa, tem São João, tem roçado, tem comércio, tem gente trabalhando, tem família se organizando e tem muito eleitor que só vai parar para olhar política mais adiante. Os nomes aparecem quando são colocados na mesa, mas isso não quer dizer que a disputa já tenha tomado conta da rua, da feira, do bairro, da igreja ou da conversa espontânea do povo.
O ambiente, neste momento, parece mais importante do que o placar.
Mas há uma contradição que não pode passar despercebida.
O Acre foi, nos últimos ciclos eleitorais, um dos estados onde o discurso conservador, antipetista e moralizante encontrou terreno fértil. Pátria, família, Deus, bons costumes e combate à corrupção viraram palavras repetidas em palanques, redes sociais, igrejas e rodas de conversa.
Também se tornou comum ouvir que não se vota em “ladrão”, que não se protege “bandido de estimação” e que corrupção não pode ser tolerada.
Por isso, chama atenção que, dentro da amostra de 1.600 eleitores ouvidos pela pesquisa, apareça em posição de destaque para uma disputa majoritária um condenado pelo Superior Tribunal de Justiça a mais de 25 anos de prisão por crimes ligados a organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações. A defesa nega irregularidades e ainda pode recorrer. Mas o fato político está posto.
A questão, portanto, não é apenas eleitoral. É cultural.
Esse talvez seja o ponto mais sensível do levantamento. A pesquisa não mede apenas intenção de voto. Ela também expõe o espaço que existe entre aquilo que parte do eleitorado diz defender e aquilo que aceita na prática.
É cedo para cravar qualquer coisa. Mas não é cedo para observar o ambiente.
A política ainda tenta entrar de vez na rotina do eleitor. Enquanto isso, a Copa, os arraiais, o trabalho, a igreja e a vida real ocupam o centro da cena.
A eleição ainda não começou para muita gente.
Mas as contradições já entraram em campo.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil