O avanço do desmatamento na Amazônia está associado à redução das chuvas na Bacia do Rio Iguaçu, no Paraná, área responsável por parcela expressiva da produção agrícola e de energia do estado. A relação foi encontrada por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) após a análise de dados de desmatamento e precipitação registrados entre 2011 e 2023.
O trabalho foi publicado em 24 de julho de 2026 no Brazilian Journal of Biology. Os pesquisadores cruzaram informações mensais de perda de floresta na Amazônia com registros de chuva de 64 estações meteorológicas instaladas na região da Bacia do Iguaçu. Foram usados dados de monitoramento do Prodes, do Imazon, do Instituto Nacional de Meteorologia, da Copel e do Instituto Água e Terra.
A análise encontrou uma correlação negativa e estatisticamente significativa entre o desmatamento amazônico e a quantidade de chuva registrada na bacia. O coeficiente calculado foi de -0,285, com nível de significância inferior a 0,001. Embora a intensidade da correlação seja considerada fraca, o resultado mostra que períodos de maior perda de floresta estiveram associados a volumes menores de precipitação no Paraná durante os anos avaliados.
A Bacia do Rio Iguaçu ocupa cerca de 69,3 mil quilômetros quadrados e tem peso direto na economia paranaense. A região responde por aproximadamente 60% da produção de grãos e 23% da produção pecuária do Paraná. As hidrelétricas instaladas na bacia também representam cerca de 41% da geração hidrelétrica estadual. Alterações persistentes no regime de chuvas podem, portanto, atingir simultaneamente a agricultura, a criação de animais e o abastecimento de energia.
A conexão ocorre pelo papel da Floresta Amazônica no transporte de umidade pela América do Sul. Parte da água retirada do solo pelas árvores retorna à atmosfera por evapotranspiração. Essa umidade é carregada por correntes atmosféricas em direção a outras regiões do continente, processo associado aos chamados rios voadores. A redução da cobertura florestal interfere nesse ciclo e pode diminuir o volume de água transportado para o Centro-Sul do país.
Os pesquisadores também avaliaram a influência de El Niño e La Niña sobre as chuvas. O El Niño costuma favorecer precipitações maiores na Bacia do Iguaçu, ao mesmo tempo em que pode deixar partes da Amazônia mais secas. A La Niña produz efeitos diferentes, com condições mais úmidas na região amazônica e tendência de redução das chuvas em áreas do Sul do Brasil. Mesmo com essa variabilidade natural, o trabalho relaciona a evolução do desmatamento principalmente a fatores humanos, políticos e institucionais.
Uma tentativa de identificar efeitos do desmatamento sobre as chuvas com intervalo de um ano não apresentou resultado estatisticamente significativo. Para os pesquisadores, isso significa que, dentro do período analisado, a associação aparece principalmente entre dados registrados no mesmo ano ou que o conjunto de informações disponível ainda não permite identificar uma defasagem anual.
A perda da floresta amazônica amplia a preocupação com a segurança hídrica de regiões distantes da própria Amazônia. No Paraná, onde parte relevante da produção de soja, milho e outros grãos depende da regularidade das chuvas, mudanças na distribuição da precipitação podem aumentar a exposição das lavouras a períodos de estiagem e elevar riscos econômicos. O mesmo problema alcança reservatórios e usinas hidrelétricas que dependem do volume de água dos rios.
Os resultados reforçam que a conservação da Amazônia também interfere na disponibilidade de água em áreas produtoras localizadas a milhares de quilômetros da floresta. A manutenção do regime de chuvas no Sul do Brasil passa, assim, a fazer parte da discussão sobre políticas de combate ao desmatamento, planejamento agrícola, produção de energia e adaptação às mudanças climáticas.
Fonte: Brazilian Journal of Biology , ((o))eco – Foto: Agência Brasil