O Paraguai se tornou, nos últimos anos, um dos destinos preferidos de brasileiros insatisfeitos com a política e a economia do Brasil, especialmente entre apoiadores da direita e do bolsonarismo. Atraídos pela promessa de impostos baixos, menor intervenção do Estado e um governo conservador, milhares de brasileiros passaram a procurar residência no país vizinho. O cenário, apresentado por influenciadores como uma alternativa ao governo Lula, enfrenta agora um teste com a renúncia do presidente Santiago Peña, nesta quinta-feira (5), após o colapso de um dos maiores bancos digitais paraguaios.
A procura pelo Paraguai ganhou força nas redes sociais, onde brasileiros passaram a divulgar vídeos sobre as vantagens de viver no país. A expressão “nova Suíça da América do Sul” se popularizou entre os defensores da mudança. Em parte desses conteúdos, o Paraguai era apresentado como um exemplo de liberdade econômica, em contraste com o Brasil, frequentemente descrito por grupos bolsonaristas como um país de impostos elevados, excesso de regulamentação e restrições às liberdades individuais.
Em março deste ano, centenas de brasileiros passaram a madrugada em filas organizadas pelo serviço de imigração em Ciudad del Este, na fronteira com Foz do Iguaçu, para conseguir autorização de residência. Empresários, aposentados e famílias inteiras buscavam a documentação necessária para iniciar uma nova vida. Entre eles, havia pessoas que declaravam abertamente sua insatisfação com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e enxergavam no Paraguai um ambiente político mais próximo de suas convicções.
Um dos brasileiros que defenderam a mudança foi o empresário Dilberto Wegrnen, de 63 anos, morador de Cascavel, no Paraná. Crítico do governo Lula, ele afirmou que a carga tributária e a legislação trabalhista brasileira dificultavam a atividade empresarial. Em entrevista divulgada em maio, declarou: “Com Lula no poder, nós, empresários, não podemos mais trabalhar no Brasil”. Para ele, a economia paraguaia oferecia condições mais favoráveis para investir e contratar funcionários.
A empresária Delly Fragola, de 55 anos, proprietária de um salão de beleza em Anápolis, Goiás, também procurou residência no Paraguai acompanhada da filha e do genro. Ela descreveu o país como um “oásis de liberdade econômica”, por considerar que os impostos menores e as regras trabalhistas facilitariam a abertura e a manutenção de negócios.
O posicionamento político também pesou na decisão de outras famílias. A carioca Roberta Viegas, que se estabeleceu no Paraguai e passou a assessorar brasileiros interessados na mudança, relatou que a insatisfação com o ambiente político brasileiro influenciou sua decisão. “A gente não estava se sentindo bem no Brasil no cenário atual”, afirmou. Roberta chegou a estimar que praticamente todos os interessados atendidos por ela se identificavam com a direita, embora não exista levantamento oficial capaz de confirmar essa proporção entre os imigrantes.
Outro exemplo é o casal Miriam Costa e Guilherme Lopes, que deixou o Espírito Santo para morar em Ciudad del Este. Identificados com ideias libertárias e anarcocapitalistas, os dois defendem um modelo de governo com menos responsabilidades na prestação de serviços públicos. “A gente prefere um Estado menor, com menos intervenção na economia”, explicou Miriam. Para o casal, a possibilidade de decidir diretamente como gastar com educação e saúde representa uma vantagem do sistema paraguaio.
O modelo econômico do Paraguai ajuda a explicar essa atração. O país possui uma carga tributária equivalente a aproximadamente 14,5% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto no Brasil o percentual gira em torno de 32%. O sistema paraguaio adota alíquotas gerais de 10% para importantes tributos sobre consumo, renda pessoal e lucro empresarial. O país também oferece incentivos à instalação de indústrias pelo regime de maquila, além de custos competitivos de energia elétrica.
Essas condições contribuíram para o aumento dos pedidos de residência. Em 2025, o Paraguai concedeu cerca de 40,6 mil autorizações a estrangeiros, das quais 23.526 foram destinadas a brasileiros. Somente nos três primeiros meses de 2026, outras 9,2 mil autorizações foram emitidas para cidadãos do Brasil.
A reeleição de Lula, em 25 de outubro, voltou a impulsionar o interesse pelo país vizinho. Nas horas seguintes à divulgação do resultado eleitoral, as pesquisas na internet pela expressão “como morar no Paraguai” cresceram 1.700%, de acordo com dados do Google Trends. O governo paraguaio programou um novo mutirão de atendimento migratório em Ciudad del Este entre os dias 2 e 6 de novembro, justamente na semana em que a crise bancária atingiu o país.
Apesar da associação frequente entre esse movimento migratório e o bolsonarismo, os brasileiros que procuram o Paraguai possuem perfis diferentes. Há empresários interessados em reduzir custos, estudantes de medicina, profissionais que trabalham remotamente e famílias em busca de melhores condições de vida. A migração brasileira para o país também é muito anterior à atual disputa política, com comunidades formadas há décadas, especialmente nas regiões agrícolas próximas à fronteira.
A realidade paraguaia, porém, apresenta dificuldades que nem sempre aparecem nos conteúdos publicados nas redes sociais. A informalidade atinge aproximadamente 62,5% dos trabalhadores, enquanto a extrema pobreza alcança 4,1% da população. O sistema público de saúde enfrenta problemas de estrutura e abastecimento, e pacientes precisam, em determinadas situações, comprar medicamentos e materiais utilizados no próprio atendimento.
O vendedor Leonardo Ribeiro, que deixou o interior paulista para trabalhar em Ciudad del Este, é um dos brasileiros que passaram a questionar a imagem construída nas redes. Depois de conhecer a realidade local, afirmou que os vídeos haviam “dado uma magia a mais” ao país. Ele passou a considerar o retorno ao Brasil.
A diferença entre a expectativa e as condições encontradas também aparece nos dados migratórios. Apenas 19% das autorizações concedidas a brasileiros em 2025 foram de residência permanente. Embora esse percentual não permita concluir quantos efetivamente permanecerão no Paraguai, mostra que a maior parte das regularizações ainda está na modalidade temporária.
Agora, a crise bancária acrescenta uma nova preocupação ao país que vinha sendo apresentado como exemplo de estabilidade e segurança para investimentos.
O escândalo começou com a intervenção do Banco Central do Paraguai no Ueno Bank, uma das instituições financeiras de maior crescimento nos últimos anos. O banco possuía aproximadamente 3 milhões de clientes e administrava cerca de US$ 800 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos vinculados à previdência e à saúde.
As autoridades identificaram problemas graves de solvência, empréstimos a empresas ligadas aos controladores da instituição e inconsistências nos registros financeiros. Com a intervenção, milhões de clientes ficaram temporariamente sem acesso às contas, cartões e transferências. A situação provocou manifestações em Assunção e aumentou a pressão por uma investigação sobre as relações entre o banco, empresários e autoridades públicas.
O caso atingiu diretamente Santiago Peña, presidente conservador do Partido Colorado, que havia sido acionista do grupo empresarial controlador do banco até março de 2025. Parlamentares da oposição passaram a questionar possíveis conflitos de interesse e o papel do governo na fiscalização da instituição financeira. Peña negou irregularidades, mas perdeu apoio político enquanto avançavam as discussões sobre seu impeachment.
Nesta quinta-feira (5), o presidente apresentou sua renúncia. Em pronunciamento nas redes sociais, afirmou que deixava o cargo para preservar a estabilidade, a paz social e as instituições democráticas. A renúncia ainda depende de aceitação pelo Congresso. O vice-presidente Pedro Alliana é o sucessor previsto para completar o mandato até agosto de 2028.
O colapso do Ueno Bank provocou a saída do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, a detenção de oito dirigentes bancários e investigações sobre suspeitas de irregularidades financeiras. As autoridades trabalham para transferir contas e devolver recursos aos depositantes, enquanto cresce a preocupação com a fiscalização dos bancos e a segurança do dinheiro público.
A crise não significa que toda a economia paraguaia esteja em colapso, nem que os benefícios tributários deixaram de existir. O episódio, no entanto, expõe problemas de governança, fiscalização e relações entre interesses econômicos e poder político em um país que vinha atraindo investidores justamente pela promessa de previsibilidade.
Para os brasileiros que escolheram o Paraguai como alternativa ao Brasil, especialmente aqueles que fizeram da mudança uma manifestação de rejeição ao governo Lula, o momento abre uma discussão sobre os limites da imagem de prosperidade construída nas redes sociais.
O país que parte da direita brasileira passou a tratar como referência de liberdade econômica agora enfrenta uma crise de confiança bancária, manifestações populares e uma mudança abrupta na Presidência da República. A situação coloca em debate não apenas o funcionamento das instituições paraguaias, mas também a diferença entre as vantagens reais oferecidas por um país e a imagem política construída em torno dele.
Foto: 總統府, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons