Fenômenos atingiram Paraná e Santa Catarina, enquanto vendavais, granizo e chuvas intensas provocaram estragos no Rio Grande do Sul. Órgãos meteorológicos mantêm alertas para novos temporais e risco de enchentes.
A primeira semana de novembro de 2026 está sendo marcada por uma sequência de desastres naturais na Região Sul do Brasil. Entre domingo (1º) e esta quinta-feira (5), tempestades provocaram destruição em centenas de municípios, deixaram milhares de famílias afetadas e causaram pelo menos uma morte. Três tornados foram confirmados no período, um no Paraná e dois em Santa Catarina. A combinação de calor, umidade, sistemas de baixa pressão e frentes frias criou condições favoráveis à formação de tempestades severas.
Um dos episódios mais intensos ocorreu na madrugada de segunda-feira (2), em Maringá, no noroeste do Paraná. O Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) confirmou que a cidade foi atingida por um tornado de categoria F2 na escala Fujita, com ventos estimados entre 180 e 250 quilômetros por hora. O fenômeno percorreu aproximadamente 15 quilômetros, arrancou telhados, derrubou árvores, destruiu estruturas e provocou interrupções no fornecimento de energia elétrica.
A força do tornado foi suficiente para arremessar telhas a mais de 1.300 metros de distância. A avaliação da intensidade foi realizada a partir de imagens de radar, registros dos danos e inspeções de campo feitas por meteorologistas. Até quarta-feira (4), 38 municípios paranaenses haviam comunicado ocorrências relacionadas a vendavais, granizo, enxurradas e alagamentos.
Em Santa Catarina, outros dois tornados foram confirmados pela Defesa Civil na manhã de quarta-feira (4). O primeiro atingiu Chapecó, por volta das 10h30, e provocou danos ao Aeroporto Serafim Enoss Bertaso, comprometendo estruturas metálicas, vidraças e áreas do terminal. As operações aéreas foram suspensas. Uma estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou rajadas de 126 quilômetros por hora na cidade.
Poucos minutos depois, às 10h48, um segundo tornado atingiu a região de Xanxerê, também no oeste catarinense. O fenômeno provocou destelhamentos, quedas de árvores, danos à rede elétrica e transtornos no trânsito. Em outras localidades de Santa Catarina, as rajadas chegaram a 131 quilômetros por hora em Caçador e 128 quilômetros por hora em Palmitos.
O balanço divulgado pela Defesa Civil catarinense na noite de quarta-feira apontava 98 municípios atingidos, 4.796 residências afetadas e 23 cidades em situação de emergência. Havia 56 pessoas desabrigadas e outras 208 desalojadas.
A tragédia mais grave registrada no estado ocorreu em Rio Negrinho, no Planalto Norte. Um trabalhador de 20 anos morreu após a cobertura de um posto de combustíveis desabar durante o temporal. O rapaz chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos.
As tempestades também provocaram enchentes e mobilizaram equipes de resgate. Em Rio do Sul, bombeiros retiraram 30 pessoas que ficaram ilhadas em uma escola. Em Lages, outras 76 pessoas precisaram ser resgatadas depois que a água avançou sobre diferentes pontos da cidade.
No Rio Grande do Sul, os temporais atingiram principalmente as regiões Norte, Noroeste e Central. Até a noite de quarta-feira, a Defesa Civil contabilizava 47.096 pessoas afetadas, 24 feridos e danos humanos ou materiais em 102 municípios. O levantamento registrava ainda 93 desabrigados e 234 desalojados.
Nova Prata esteve entre as cidades mais prejudicadas, com 15 feridos e aproximadamente 2.700 residências danificadas. Em Espumoso, as tempestades atingiram milhares de moradores, enquanto Passo Fundo enfrentou chuva intensa, granizo, interrupções no fornecimento de energia e bloqueios de ruas.
O volume de precipitação também chamou a atenção dos meteorologistas. Em Paim Filho, no Rio Grande do Sul, o acumulado chegou a 175,4 milímetros em aproximadamente 24 horas. Em diversas cidades gaúchas e catarinenses, a chuva ultrapassou os 100 milímetros em um único dia, quantidade suficiente para provocar enxurradas, transbordamento de córregos e elevação rápida do nível dos rios.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) classificou como alto o risco de ocorrências hidrológicas nas regiões de Ijuí e Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e Chapecó, em Santa Catarina. O órgão também alertou para a possibilidade de deslizamentos em áreas de encosta, especialmente nas regiões de Blumenau e Lages, onde a chuva intensa pode comprometer a estabilidade do solo.
A explicação para a sucessão de tempestades está nas condições atmosféricas que se formaram sobre o centro-sul da América do Sul. Uma corrente de ar quente e úmido, transportada das regiões tropicais em direção ao Sul do Brasil, encontrou condições associadas à aproximação de ar mais frio. Ao mesmo tempo, a intensificação de sistemas de baixa pressão e a passagem de frentes frias favoreceram o desenvolvimento de nuvens de tempestade.
Outro fator importante foi a diferença de velocidade e direção dos ventos entre as camadas mais baixas e mais altas da atmosfera, fenômeno conhecido como cisalhamento do vento. Essa condição pode favorecer a rotação de tempestades organizadas, chamadas de supercélulas, capazes de produzir tornados, granizo de grande tamanho e rajadas destrutivas.
A formação de um ciclone extratropical na costa da Região Sul, entre quarta-feira (4) e quinta-feira (5), também integra o cenário de instabilidade previsto pelos meteorologistas. A presença desse sistema, porém, não significa que todos os tornados tenham sido provocados diretamente pelo ciclone. Cada ocorrência depende das condições específicas da tempestade que a originou.
Diante da gravidade das previsões, o Inmet emitiu aviso vermelho, de grande perigo, para áreas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e sul do Paraná na quarta-feira. O alerta previa chuva superior a 60 milímetros por hora ou 100 milímetros por dia, ventos acima de 100 quilômetros por hora e queda de granizo.
Nesta quinta-feira (5), a instabilidade mais intensa tende a se concentrar no Paraná, onde permanece o risco de pancadas de chuva acompanhadas de trovoadas. Em Santa Catarina, a previsão aponta melhora gradual do tempo, mas a preocupação continua nas áreas afetadas por alagamentos e pela elevação dos rios.
A trégua pode ser curta. A Epagri/Ciram prevê novas condições de temporais isolados em Santa Catarina entre sexta-feira (6) e sábado (7), com a formação de outra frente fria. No sábado, as rajadas podem alcançar entre 50 e 80 quilômetros por hora em áreas do litoral catarinense.
A Defesa Civil recomenda que moradores de regiões sob alerta evitem deslocamentos durante tempestades, não atravessem ruas alagadas e procurem abrigo em locais seguros, longe de janelas, árvores, postes e estruturas metálicas. Em situações de risco de tornado, a orientação é permanecer em um cômodo interno de uma construção resistente. Moradores de encostas também devem observar sinais de movimentação do terreno e deixar imediatamente o local diante de ameaça de deslizamento.
Os alertas podem ser recebidos gratuitamente pelo celular, mediante cadastro do CEP por mensagem de texto para o número 40199. Em caso de emergência, a população deve procurar a Defesa Civil pelo telefone 199 ou o Corpo de Bombeiros pelo 193.
A sequência de tornados, vendavais e enchentes reforça a necessidade de monitoramento meteorológico permanente, sistemas eficientes de alerta e planejamento das cidades para reduzir a exposição da população aos desastres. Embora tempestades severas façam parte da dinâmica atmosférica do Sul do Brasil, os prejuízos desta semana mostram a dimensão dos riscos enfrentados pelas comunidades atingidas.
Foto: Ari Dias/AEN