Connect with us

MEIO AMBIENTE

Branqueamento de corais mata 88% em Maragogi e expõe crise no litoral brasileiro

Published

on

Em Maragogi, no litoral de Alagoas, o calor atravessou a superfície do mar e atingiu um dos ecossistemas mais importantes do país. Entre janeiro e junho de 2024, 96% dos corais acompanhados por pesquisadores perderam a cor e 88% morreram. O desastre ocorreu durante o quarto evento global de branqueamento, provocado pela permanência da água em temperaturas acima do limite suportado pelos organismos. O dano não termina no fundo do oceano: alcança a pesca, o turismo, a alimentação das comunidades costeiras e a proteção das praias contra a força das ondas.

Debaixo d’água, o branqueamento começa com o rompimento de uma relação que mantém o coral vivo. O calor prolongado leva o organismo a expulsar as algas microscópicas que vivem em seus tecidos e fornecem grande parte da energia necessária à sua sobrevivência. Sem essas algas, a estrutura perde a coloração, enfraquece e passa a consumir as próprias reservas. Um coral branqueado ainda pode se recuperar caso a temperatura caia rapidamente. Quando o estresse continua ou retorna em intervalos curtos, a morte passa a ocupar o lugar onde antes havia abrigo, alimento e reprodução para outras espécies.

A dimensão do que aconteceu em Maragogi apareceu dentro do mais amplo levantamento já realizado sobre o branqueamento de corais no Brasil. Pesquisadores acompanharam 18 recifes distribuídos por nove estados, do Ceará a Santa Catarina, em uma faixa superior a quatro mil quilômetros entre a costa e ilhas oceânicas. Ao todo, 36% dos corais avaliados sofreram branqueamento. O trabalho reuniu o Instituto Coral Vivo, órgãos ambientais e 20 instituições brasileiras e estrangeiras, com métodos padronizados que permitiram comparar regiões submetidas a diferentes intensidades de calor.

O mapa brasileiro foi dividido pelo tempo de exposição. Em Caucaia, no Ceará, os recifes permaneceram 147 dias sob temperaturas anormais e acumularam 21,3 graus Celsius-semana, medida usada para calcular a intensidade e a duração do estresse térmico. Rio Grande do Norte, Pernambuco e Alagoas também passaram de 20 graus Celsius-semana e enfrentaram mais de quatro meses de calor excessivo. A média nacional chegou a 88 dias. No Rio de Janeiro e em São Paulo, o período ficou abaixo de dois meses e não houve perda de cobertura coralínea durante o levantamento.

A diferença entre os extremos ajuda a compreender por que o norte do Nordeste concentrou a maior mortalidade. A Costa dos Corais, unidade de conservação que se estende entre Pernambuco e Alagoas, sofreu o impacto mais severo. A Bahia e a parte central do litoral tiveram danos intermediários. O Sul e o Sudeste resistiram melhor naquele episódio, mas essa resistência não autoriza tranquilidade. Nessas regiões, a diversidade natural de corais já é menor, enquanto novas ondas de calor podem alcançar organismos que escaparam do evento anterior.

Duas espécies essenciais para a arquitetura dos recifes estiveram entre as maiores vítimas. O coral-de-fogo perdeu 54% de sua cobertura. O coral-vela, encontrado apenas em águas brasileiras e ameaçado de extinção, sofreu uma redução de 28%. São organismos que dão volume e complexidade ao recife. Nas cavidades formadas por suas estruturas, peixes encontram refúgio, pequenos animais se reproduzem e cadeias alimentares inteiras ganham sustentação. Quando essas espécies desaparecem, não morre apenas uma colônia. O recife perde parte da forma que permitia a existência de outras vidas.

Os números brasileiros fazem parte de uma crise planetária. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, calculou que o estresse térmico capaz de provocar branqueamento alcançou 84% das áreas de recifes do mundo entre o início de 2023 e meados de 2025. O fenômeno atingiu pelo menos 83 países e territórios nos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico. Em junho de 2026, a agência considerou que o quarto evento global provavelmente havia terminado em meados de 2025, mas deixou um aviso mais grave: os recifes entraram em uma época na qual o branqueamento poderá ocorrer quase todos os anos.

O encerramento formal de um evento global não devolve aos recifes o que foi perdido. Corais crescem lentamente, e a recuperação de uma estrutura destruída pode levar décadas. Antes que uma colônia consiga se recompor, uma nova onda de calor pode atingir a mesma área. A repetição encurta o intervalo disponível para reprodução, crescimento e renovação. O oceano permanece mais quente do que estava entre 25 e 30 anos atrás, quando ocorreu o primeiro branqueamento global registrado.

A crise também desmonta a ideia de que o oceano é um território distante, separado da rotina das cidades. Ele absorve aproximadamente 30% do dióxido de carbono liberado pelas atividades humanas, reduzindo a parcela que permanece na atmosfera. Esse serviço tem um preço: a água fica mais ácida, sua composição química muda e organismos que constroem esqueletos e conchas de carbonato de cálcio encontram condições cada vez mais difíceis para crescer. O aquecimento, a acidificação e a perda de oxigênio atuam ao mesmo tempo sobre ecossistemas já pressionados pela pesca excessiva, pela poluição e pela destruição de habitats costeiros.

Os recifes ocupam menos de 1% do fundo oceânico, mas abrigam aproximadamente um quarto da biodiversidade marinha conhecida. Funcionam como berçários, áreas de alimentação e refúgio para milhares de espécies. Também reduzem a energia das ondas antes que elas alcancem as praias, sustentam atividades pesqueiras e movimentam economias ligadas ao turismo. Em regiões como Abrolhos, no sul da Bahia, a formação recifal reúne espécies encontradas somente no Brasil e ocupa posição estratégica para a conservação do Atlântico Sul.

É nesse ponto que o coral morto deixa de ser apenas uma perda ambiental. Uma estrutura recifal degradada abriga menos peixes, oferece menor proteção ao litoral e perde capacidade de atrair visitantes. A queda da pesca pode alcançar famílias que dependem da captura diária para comer ou vender. A retração do turismo pode atingir barqueiros, guias, pousadas, restaurantes e vendedores que vivem da circulação de pessoas nas praias. A perda da barreira natural aumenta a exposição de casas, ruas e equipamentos públicos à erosão e às tempestades. O levantamento ecológico não calcula sozinho todo esse prejuízo econômico, mas delimita o tamanho da ameaça sobre atividades construídas ao redor dos recifes.

A oceanógrafa Flávia Guebert, diretora do Projeto Coral Vivo, resume o impasse em uma frase: “a ciência, sozinha, não é suficiente”. O conhecimento produzido nos mergulhos, laboratórios e imagens de satélite precisa chegar ao orçamento público, ao planejamento urbano, ao tratamento de esgoto, à fiscalização do turismo, ao controle da poluição e às políticas de redução das emissões. Sem essa passagem, o monitoramento registra a morte com precisão, mas não impede que o próximo verão repita o desastre.

A responsabilidade também alcança quem vive longe do litoral. No Acre, onde o mar parece uma realidade remota, a saúde do oceano interfere na regulação do clima que sustenta chuvas, rios, florestas e produção de alimentos. As emissões liberadas pelo uso de combustíveis fósseis e pela destruição da vegetação não respeitam fronteiras estaduais. O carbono lançado na atmosfera contribui para o aquecimento global; parte dele termina absorvida pelo oceano, alterando a temperatura e a química da água. A distância entre Rio Branco e os recifes do Nordeste não rompe essa ligação.

A resposta brasileira começou a ganhar recursos, embora o tamanho da crise exija continuidade. Em maio de 2026, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social aprovou R$ 6,6 milhões em recursos não reembolsáveis para o Coral Vivo Regenera, projeto com investimento total de R$ 14 milhões. As ações previstas alcançam nove unidades de conservação e áreas prioritárias entre a Bahia e o Ceará, incluindo Abrolhos, Fernando de Noronha e a Costa dos Corais. O programa reúne monitoramento, regeneração de corais, educação ambiental, turismo sustentável e alternativas de renda para comunidades tradicionais.

A restauração, porém, não substitui o combate às causas do aquecimento. Técnicas de cultivo e reintrodução podem ajudar populações atingidas, preservar diversidade genética e localizar organismos mais resistentes. Nenhum laboratório consegue reconstruir na velocidade necessária milhares de quilômetros de recifes submetidos continuamente a temperaturas extremas. Sem redução das emissões, saneamento, controle da ocupação costeira e proteção das unidades de conservação, projetos locais correm o risco de trabalhar contra uma corrente cada vez mais quente.

O pesquisador Miguel Mies, coordenador de pesquisa do Projeto Coral Vivo, afirma que o país se preparou depois da mortalidade registrada em 2019. Quando o calor retornou em 2024, a rede estava pronta para acompanhar o impacto em tempo real. O avanço permitiu saber onde os corais morreram, quais espécies sofreram mais e quais áreas resistiram. Também expôs uma pergunta que não pode permanecer no fundo do mar: o que o poder público fará antes da próxima onda de calor?

Em Maragogi, a resposta já não pode ser medida apenas pela beleza perdida. De cada cem corais acompanhados, 88 morreram. O vazio deixado por eles começa embaixo d’água, mas sobe até a praia, alcança a rede do pescador, o trabalho de quem recebe turistas, a casa protegida pelas formações recifais e a comida servida à mesa. O coral branco é o retrato visível de um oceano levado ao limite. Quando sua cor desaparece, o país recebe um aviso sobre o futuro das pessoas que dependem dele — inclusive aquelas que nunca viram o mar.

Fonte: O Eco – Foto: Agência Brasil

MEIO AMBIENTE

Brasil reduz emissão de gases de efeito estufa em 9% e registra menor nível desde 2012

Published

on

O Brasil registrou, em 2025, o menor volume de emissões líquidas de gases de efeito estufa dos últimos 13 anos. A redução foi de 9% em comparação com 2024, impulsionada principalmente pela queda do desmatamento. Os números foram divulgados nesta quarta-feira (21) pelo Observatório do Clima, na 14ª edição do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg).

O levantamento mostra que o país emitiu 1,41 bilhão de toneladas líquidas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) no ano passado, contra 1,489 bilhão em 2024. O resultado representa o menor patamar desde 2012 e dá continuidade à trajetória de redução das emissões brasileiras.

Considerando as emissões brutas, sem descontar o carbono absorvido pela vegetação em regeneração e pelas áreas protegidas, o volume passou de 2,19 bilhões para 2,06 bilhões de toneladas de CO₂e, uma redução de 6%. Esse também foi o menor resultado desde 2018.

A diminuição do desmatamento foi o principal fator responsável pela queda. As emissões brutas relacionadas às mudanças no uso da terra recuaram 15%, passando de 957 milhões de toneladas em 2024 para 814 milhões em 2025.

No cálculo das emissões líquidas desse setor, a redução chegou a 48%, com o volume caindo de 311 milhões para 162 milhões de toneladas. Foi o menor resultado registrado em toda a série histórica do Seeg.

De acordo com o coordenador do levantamento e pesquisador do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), David Tsai, o Brasil conseguiu reduzir em aproximadamente 25% suas emissões brutas nos últimos quatro anos. O movimento contrasta com o crescimento de dois terços registrado nos 13 anos anteriores.

Apesar da redução geral, outros setores da economia apresentaram pouca mudança. A agropecuária diminuiu suas emissões em apenas 0,1%, enquanto o setor de energia registrou crescimento de 1,2%, chegando a 427 milhões de toneladas de CO₂e.

A gestão de resíduos apresentou a maior alta proporcional, de 3,6%, passando de 92 milhões para 96 milhões de toneladas. As atividades industriais tiveram aumento de 0,2%.

Com o resultado de 2025, o Brasil se aproximou da meta climática estabelecida em seu primeiro compromisso internacional de redução de emissões, apresentado em 2015. O objetivo era limitar as emissões líquidas a 1,32 bilhão de toneladas, mas o país encerrou o período aproximadamente 85 milhões de toneladas acima do limite.

Para 2030, o compromisso brasileiro estabelece uma faixa de emissões entre 850 milhões e 1,05 bilhão de toneladas de CO₂e. O cumprimento dessa meta dependerá de novas reduções tanto no desmatamento quanto nas atividades agropecuárias, industriais, energéticas e de gestão de resíduos.

As estimativas preliminares para 2026 apontam continuidade da redução das emissões associadas ao desmatamento. Entretanto, o Observatório do Clima alerta que a queda concentrada na preservação das florestas não será suficiente para garantir, isoladamente, o cumprimento dos próximos compromissos climáticos do país.

Foto: Agência Brasil

Continue Reading

MEIO AMBIENTE

Liderança Ashaninka alerta para degradação de rios e invasão de nascentes no Acre

Published

on

A liderança indígena Moisés Piyãko, do povo Ashaninka, alertou nesta quarta-feira (21) para a degradação dos rios, a invasão de nascentes e os impactos das atividades ilegais na região de fronteira entre o Acre e o Peru. A manifestação faz parte da oitava edição do projeto Recado Selvagem, iniciativa que reúne conhecimentos indígenas e reflexões sobre a preservação ambiental.

Gravado às margens do Rio Amônia, no município de Marechal Thaumaturgo, o depoimento aborda os efeitos da poluição, do uso de produtos químicos, do desmatamento e da exploração ilegal dos recursos naturais sobre as comunidades que vivem na floresta.

“Um rio é como um povo”, afirma Moisés Piyãko, ao relacionar a preservação dos cursos d’água à sobrevivência das populações indígenas. Para a liderança, a destruição dos rios ameaça não apenas o meio ambiente, mas também os modos de vida, a cultura e os conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações.

Moisés também chama a atenção para os problemas ambientais que ultrapassam as fronteiras nacionais. Na região do Alto Juruá, o avanço de atividades ilegais e a presença de organizações criminosas preocupam comunidades indígenas brasileiras e peruanas, que dependem dos rios para alimentação, transporte e manutenção de seus territórios.

O alerta ocorre em um contexto de denúncias de invasões e ameaças contra os Ashaninka. Em julho deste ano, homens armados entraram na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo. O episódio levou representantes indígenas a Brasília para cobrar medidas de segurança e maior cooperação entre os governos do Brasil e do Peru.

A declaração integra o Ciclo das Águas, programa de estudos lançado em 2026 pela Associação Selvagem. A iniciativa reúne conteúdos educativos gratuitos e promove o diálogo entre conhecimentos indígenas, pesquisas científicas e ações de conservação ambiental.

O vídeo, intitulado “Águas transfronteiriças”, tem lançamento previsto para esta quarta-feira, às 18h, no horário de Brasília, no canal da Associação Selvagem no YouTube.

Moisés Piyãko também participa da Comissão Transfronteiriça Juruá-Yurúa-Alto Tamaya, articulação formada por organizações e comunidades indígenas dos dois países para discutir a proteção dos territórios, dos rios e da biodiversidade amazônica.

Continue Reading

MEIO AMBIENTE

Focos de incêndio na Amazônia quase dobram após o primeiro turno das eleições

Published

on

A Amazônia Legal registrou 3.695 focos de calor na semana seguinte ao primeiro turno das eleições de 2026, realizado em 4 de outubro. O número representa um aumento de 99,3% em relação aos 1.854 registros da semana anterior, conforme dados de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A maior concentração das queimadas ocorreu nos estados do Amazonas e do Pará.

O crescimento dos incêndios coincide com um período de seca agravado pelo fenômeno climático El Niño, que reduz as chuvas e aumenta a vulnerabilidade da vegetação ao fogo. Pesquisadores também apontam indícios de queimadas provocadas para ocupação irregular de terras públicas e avanço de atividades econômicas sobre áreas de floresta.

Entre as regiões mais afetadas estão os municípios próximos a Manaus, no Amazonas, e as áreas de Santarém, da rodovia BR-163, da Terra do Meio e da Transamazônica, no Pará.

A diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Ane Alencar, afirmou que o uso do fogo para renovação de pastagens, comum nesta época do ano, amplia o risco de incêndios florestais. A combinação de temperaturas elevadas, vegetação seca e queimadas pode favorecer a propagação das chamas para áreas preservadas.

Além das condições climáticas, os pesquisadores identificaram focos em regiões de florestas públicas, especialmente na margem direita do rio Amazonas, em frente a Manaus. A localização dessas ocorrências levanta suspeitas de tentativas de ocupação irregular e grilagem de terras.

O ministro interino do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou que as autoridades identificaram incêndios dentro de áreas de floresta preservada, o que reforça as suspeitas de atuação criminosa.

O governo federal investiga a possibilidade de ações coordenadas para provocar incêndios, em situação semelhante à registrada em 2019, quando uma série de queimadas no Pará ficou conhecida como Dia do Fogo.

O avanço das chamas também preocupa comunidades indígenas. Nas terras Menkragnoti e Baú, no Pará, integrantes do povo Kayapó acompanham o crescimento dos incêndios e do desmatamento no entorno de seus territórios.

Especialistas alertam que a continuidade da estiagem e o uso do fogo podem ampliar os danos ambientais nos próximos meses. Eles defendem medidas de fiscalização, combate às queimadas e responsabilização dos envolvidos em incêndios criminosos.

Continue Reading

Tendência