Direto ao ponto

A esquerda acreana e a política que não pode ter dono

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Presidente estadual do PT, Cesário Braga, critica a condução da campanha de 2026 no Acre e defende maior participação da militância. Suas declarações também colocam em discussão a forma de exercer a liderança partidária.

Li e ouvi Cesário Braga em entrevista à jornalista Marcela Jansen, falando sobre o desempenho da esquerda nas eleições de 2026 no Acre. Criticou a concentração das decisões durante a campanha, falou da participação da militância e defendeu que a política não pode ter dono.

Cesário classificou como um desastre o resultado da eleição proporcional e atribuiu à estratégia adotada pelo candidato majoritário parte da responsabilidade pelo desempenho eleitoral. Segundo ele, no segundo turno, já sob a condução da direção estadual do PT, a campanha passou a contar com maior autonomia dos grupos envolvidos.

“A campanha tinha que perder o dono. Não pode ter dono”, afirmou.

Concordar com a necessidade de participação é fácil. Difícil é fazer isso funcionar quando entram em cena as divergências, os interesses de grupos e a disputa por espaços dentro do próprio partido.

Cesário conhece essa realidade. Agora está na presidência estadual do PT e ocupa também a posição de quem terá suas decisões observadas e questionadas. Liderança não se resume a apontar quem errou ou quem concentrou decisões. Exige, na prática, lidar com interesses e posições que nem sempre caminham na mesma direção.

O discurso contra uma campanha com dono tem seu valor. Mas seria uma contradição combater a concentração de poder com a mesma lógica de disputa por espaços que se pretende superar. Trocar os personagens, mantendo os métodos, não resolve o problema.

A avaliação sobre o desempenho da esquerda acreana não se limita à condução de uma campanha. Passa pelas candidaturas, alianças, organização partidária e pela relação construída com o eleitorado. A explicação apresentada por Cesário é parte dessa discussão, mas não esgota as razões do resultado eleitoral.

Nas declarações do dirigente, a crítica ao comando da campanha também expõe divergências entre lideranças da esquerda acreana. Resta saber se o discurso representa uma mudança na condução partidária ou apenas mais um capítulo das disputas internas, agora discutidas publicamente.

Aliás, a velha recomendação de lavar a roupa suja em casa parece não encontrar muito espaço no PT acreano. O Processo de Eleições Diretas (PED) de 2025, marcado por divergências públicas entre lideranças, já havia mostrado isso.

Cesário defende uma política mais participativa. Como presidente estadual, suas próprias decisões permitirão observar como esse discurso se traduz na condução do partido.

Porque liderança não é posse. E unidade não se faz dividindo para depois anunciar que é preciso juntar.

Uma campanha ou um partido sem dono exige mais do que um discurso. Exige disposição para dividir decisões, inclusive com quem pensa diferente.

Alexandre N Nobre

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