O Levante Feminista Contra o Feminicídio, o Lesbocídio e o Transfeminicídio divulgou nesta terça-feira, 7, uma nota pública cobrando resposta imediata do Estado após dois feminicídios em menos de 48 horas no Acre. A manifestação foi motivada pelas mortes de uma mulher de 44 anos, na zona rural de Cruzeiro do Sul, no domingo, 5, e de Maria Ferreira da Silva Almeida, de 49, na estrada entre Manoel Urbano e Feijó, na segunda-feira, 6. Nos dois casos, os homens apontados como autores morreram depois dos crimes.
Na nota, o movimento afirma que as mortes não podem ser tratadas como episódios isolados e cobra prioridade absoluta no enfrentamento à violência de gênero. O ponto mais sensível da denúncia está no primeiro caso. A vítima havia procurado a delegacia dias antes para pedir medida protetiva contra o ex-companheiro. Para o Levante, não basta a existência formal da medida. “É urgente transformar proteção formal em proteção efetiva”, diz o texto.
Em Cruzeiro do Sul, a investigação aponta que a vítima decidiu encerrar um casamento de cerca de 30 anos e passou a ser alvo de tentativas insistentes de reaproximação. Segundo a apuração policial, ela buscou a delegacia, pediu proteção e recusou acolhimento em abrigo. Em Manoel Urbano, a Polícia Civil apontou ciúmes como motivação para o assassinato de Maria Ferreira, morta a facadas pelo marido, um bombeiro da reserva. A filha do casal presenciou o crime.
A nova sequência de mortes atinge um estado que já vinha sob pressão pelos números da violência letal contra mulheres. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que o Acre terminou 2025 com a maior taxa de feminicídios do país, 3,2 casos por 100 mil mulheres, e 14 vítimas no ano. Em março, ao abrir a Semana Justiça pela Paz em Casa, o próprio Tribunal de Justiça do Acre tratou o cenário como um alerta para reforço urgente das políticas de prevenção, proteção e conscientização.
O contraste está no fato de que a estrutura institucional existe, mas segue sem garantir proteção plena. O Judiciário acreano informou neste ano que tem o menor tempo médio do país para analisar medidas protetivas de urgência. A Patrulha Maria da Penha, segundo o governo estadual, já atua em oito municípios e monitora cerca de 400 mulheres. A Secretaria de Estado da Mulher afirma manter ações em todos os 22 municípios acreanos e ampliar o atendimento no interior. Ainda assim, os dois crimes desta semana expõem o limite da rede quando a ameaça avança mais rápido do que a resposta pública.
Esse descompasso não é exclusivo do Acre. Nota técnica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que, em 16 unidades da federação analisadas, 148 mulheres foram mortas mesmo com medida protetiva vigente entre 2021 e 2025. O mesmo estudo aponta que cidades de pequeno porte concentram taxas mais altas de feminicídio e menor cobertura de serviços especializados, um dado que ajuda a explicar a vulnerabilidade de mulheres fora dos grandes centros.
Foi nesse ponto que o Levante Feminista concentrou sua cobrança. Para o movimento, cada feminicídio revela uma falha grave do poder público em assegurar às mulheres o direito à vida, à liberdade e à segurança. A nota pede investigação rigorosa, resposta pública imediata e compromisso permanente com a prevenção. No Acre, onde os primeiros meses de 2026 vinham sendo citados por autoridades como um período sem feminicídios consumados, as mortes desta semana encerram a trégua estatística e recolocam no centro do debate a distância entre a proteção prevista no papel e a proteção que chega, de fato, à mulher ameaçada.
Confira a nota completa:
NOTA PÚBLICA DE INDIGNAÇÃO E DENÚNCIA DO LEVANTE FEMINISTA CONTRA O FEMINICÍDIO, LESBOCÍDIO E TRANSFEMINICÍDIO
Em menos de 48 horas, o Acre registrou dois feminicídios e dois suicídios ocorridos em contextos marcados pela violência de gênero. São mortes que exigem investigação, responsabilidade pública e resposta imediata do Estado.
Causa indignação o silêncio das autoridades diante da sucessão dessas mortes. O enfrentamento ao feminicídio exige prioridade absoluta, respostas públicas imediatas e compromisso permanente com a prevenção e o enfrentamento de todas as formas de violência contra as mulheres.
É especialmente grave que a primeira vítima de feminicídio do ano estivesse amparada por medidas protetivas de urgência. O caso evidencia que a concessão da medida protetiva é vital, mas, por si só, não basta.
É urgente transformar proteção formal em proteção efetiva. Toda mulher sob ameaça deve permanecer viva.
O Levante Feminista reafirma que cada feminicídio constitui uma grave violação dos direitos humanos. Cada vida interrompida denuncia o fracasso do Estado em garantir às mulheres o direito fundamental à vida, à liberdade e à segurança.
Nenhuma a menos. Vivas, livres e protegidas.