Macadame: a solução de engenharia que pode mudar o futuro da BR-364 no Acre
O DNIT adotou o macadame hidráulico como principal solução estrutural para a rodovia — e a mudança vai muito além do asfalto.
Foto: Sérgio Vale / Secom · Cedida (DNIT)
🛣️
400 km
sobre tabatinga
do trecho central da BR-364 assentados sobre o solo mais instável do país
📅
10 anos
durabilidade comprovada
trechos com macadame de 2015–2016 seguem em boa trafegabilidade
⚙️
Macadame
hidráulico
pedra britada compactada que distribui tensões e drena internamente
A reconstrução da BR-364 no Acre avança para uma nova etapa baseada em engenharia adaptada às condições amazônicas. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) adotou o macadame hidráulico como principal solução estrutural para garantir maior eficiência e durabilidade à rodovia federal.
Segundo o superintendente regional do DNIT no Acre, engenheiro civil Ricardo Araújo, a escolha da técnica representa uma mudança significativa na forma de construir e manter estradas na região.
“Quando o terreno natural não oferece resistência suficiente, a engenharia precisa suplementar essa deficiência com mais estrutura.”
— Ricardo Araújo, superintendente regional do DNIT no Acre
Grande parte do trecho central da BR-364, aproximadamente 400 quilômetros, está assentada sobre a tabatinga — um solo silto-argiloso altamente expansivo, sensível à água e considerado um dos mais complexos do país para obras rodoviárias.
Estudos técnicos indicam que essa formação pode atingir centenas de metros de profundidade, e não há solos bons nas proximidades, impossibilitando soluções tradicionais. Além disso, a tabatinga não pode ser melhorada por meio de simples adição de cal ou cimento, dada a sua composição química peculiar.
🌎 O problema do solo
Foto: Sérgio Vale / Secom · Cedida (DNIT)
📍 Por que a tabatinga destrói a pista
O inimigo invisível que nasce no subleito
Solo silto-argiloso altamente expansivo e instável
Perde resistência com umidade — incha no inverno, racha no verão
Recalque profundo atinge o pavimento por cima
O buraco aparece na superfície — mas o problema nasce embaixo
Não pode ser tratada com cal ou cimento por sua composição química
🗺️ O solo importa
Extensão do problema ao longo da rodovia
Extensão da tabatinga no trecho central. Cedida (DNIT)
A tabatinga é capaz de “engolir” um trator (Foto: Sérgio Vale, em 2008)
Nesse tipo de terreno, o problema não começa no asfalto, mas no subleito — a base natural da estrada. Durante o verão amazônico, o solo perde umidade, retrai e cria fissuras profundas. No inverno, absorve grandes volumes de água, expandindo e perdendo resistência. O resultado é o recalque diferencial.
Historicamente, muitas rodovias amazônicas foram dimensionadas com métodos desenvolvidos para outras regiões do Brasil, sem considerar as características geológicas locais. Isso gerou estruturas insuficientes e um ciclo vicioso de degradação.
“O buraco aparece na superfície, mas o problema está embaixo. Se a deficiência estrutural continua, tapar o buraco resolve hoje e ele volta no mês seguinte.”
— Ricardo Araújo, DNIT Acre
Por que o macadame é diferente
O macadame hidráulico surge como resposta direta a essa deficiência estrutural. A técnica consiste na execução de uma base formada por camadas espessas de pedra britada, estabilizada granulometricamente e compactada. Essa estrutura funciona como uma camada rígida e drenante que substitui a função que o solo deveria exercer, mas não consegue.
“Na engenharia rodoviária, esse mecanismo é conhecido como distribuição de tensões: o peso dos veículos deixa de chegar concentrado ao subleito e passa a ser dissipado pela camada de pedra, evitando que o pavimento afunde na lama profunda”, ressalta Araújo.
Além disso, o macadame atua como camada drenante. A drenagem interna permite que a água atravesse a estrutura sem comprometer a pista — fator essencial em áreas de várzea e clima extremo como o Acre. “Na prática, o macadame funciona como um ‘escudo estrutural’ entre o pavimento e a tabatinga.”
Infográfico técnico
Como o macadame protege a BR-364 — comparativo de estruturas
❌ Pavimento tradicional (sem macadame)
Asfalto
Camada superficial — aguenta sozinha
Frágil
Solo-brita ou solo local
Perde resistência com umidade
Instável
Tabatinga
Seca e racha no verão; incha e cede no inverno
Crítico
Resultado
Recalque → buraco → tapa-buraco → buraco volta
Ciclo vicioso
✅ Com macadame hidráulico
Asfalto
Suportado por uma base robusta abaixo
Protegido
Pedra britada compactada
Distribui tensões; água escoa pelos vazios
Escudo
Tabatinga isolada
Não recebe cargas; não expande sob o pavimento
Controlada
Resultado
Até 10 anos de trafegabilidade — manutenção drasticamente reduzida
Durável
Representação esquemática. Fonte: DNIT / declarações do eng. Ricardo Araújo (texto da matéria).
⚙️ Infografia técnica · Como o macadame protege a BR-364
Esquema das camadas estruturais do macadame hidráulico. Cedida (DNIT)
O antídoto para o ciclo de buracos
Especialistas do DNIT definem o macadame hidráulico como o “antídoto” para o problema histórico da BR-364. Estradas com deficiência estrutural entram em um ciclo contínuo e oneroso: buracos são tapados repetidamente, mas a origem do problema persiste.
A reconstrução estrutural exige investimento inicial mais alto, porém diminui de forma significativa os gastos ao longo do tempo. Trechos recuperados com macadame podem reduzir despesas anuais de manutenção de centenas de milhares de reais para valores muito menores.
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Diagrama do problema
O ciclo vicioso do pavimento sem base estrutural — clique em cada etapa
👆 Passe o mouse (ou toque) em cada etapa do ciclo para ver a explicação.
Fonte: declarações do eng. Ricardo Araújo, DNIT Acre (texto da matéria).
“Estradas mal estruturadas custam caro para sempre. Quando corrigimos a origem do problema, a rodovia passa a exigir muito menos intervenção.”
— Ricardo Araújo, DNIT Acre
Evidência prática na própria BR-364
Trecho em terraplenagem e drenagem durante as obras da BR-364. Foto: Sérgio Vale / Secom
A eficácia do método já pode ser observada na própria BR-364. Trechos executados em macadame hidráulico entre 2015 e 2016 permanecem em boas condições de trafegabilidade quase dez anos depois, mesmo submetidos aos rigorosos ciclos de chuva amazônica.
Esses resultados reforçaram a decisão técnica de adotar o macadame como padrão estrutural nos novos projetos executivos. “Hoje já temos trechos executados com macadame que continuam bons, mesmo enfrentando inverno rigoroso. Isso mostra que a técnica funciona para a realidade do Acre”, afirma o engenheiro.
Análise comparativa (ilustrativa)
Custo acumulado de manutenção ao longo do tempo
Pavimento sem base estrutural adequada
Pavimento com macadame hidráulico
Valores ilustrativos baseados em dados relativos citados pelo DNIT. O macadame pode reduzir despesas anuais de manutenção de centenas de milhares de reais para valores significativamente menores.
O engenheiro explica que, mesmo diante da complexa logística de transporte de pedra — necessária porque o Acre não dispõe deste material — os estudos apontam que a durabilidade obtida compensa o custo adicional.
O dilema entre manter e reconstruir
Máquinas trabalham na abertura e preparação de trecho da BR-364. Foto: Sérgio Vale
O DNIT reconhece que a BR-364 vive hoje um paradoxo operacional. Enquanto a solução definitiva exige reconstrução estrutural, a rodovia não pode ser interrompida — representa a única ligação terrestre contínua entre municípios acreanos. Sem manutenção emergencial, parte do estado poderia enfrentar isolamento severo.
Assim, os serviços de tapa-buracos e conservação continuam sendo executados como medida de sobrevivência operacional.
“A BR-364 é uma rodovia social, dependemos dela no dia a dia. Precisamos mantê-la aberta, fazendo manutenção, tapando buracos e melhorando os pontos críticos, enquanto avançamos para uma solução mais duradoura.”
— Ricardo Araújo, DNIT Acre
Intervenção emergencial em trecho crítico da BR-364. Cedida (DNIT)Estrutura de drenagem em construção no trecho da BR-364 em Feijó. Foto: Sérgio Vale / Secom
Engenharia adaptada à Amazônia
A adoção do macadame representa uma mudança de paradigma na infraestrutura rodoviária do estado. Em vez de tentar adaptar modelos tradicionais à região amazônica, o projeto passa a considerar as características naturais do território.
O método é especialmente indicado para áreas com solo úmido, tráfego intenso e regimes climáticos extremos — exatamente as condições encontradas no interior do Acre.
Para Araújo, o impacto vai além da engenharia rodoviária. “A BR-364 é uma rodovia estratégica para o Acre. Ela conecta municípios, garante o deslocamento da população, o transporte de pacientes, o abastecimento das cidades e o funcionamento dos serviços públicos.”
Trecho pavimentado e em operação da BR-364. Foto: Sérgio Vale / Secom · Cedida (DNIT)
“Quando fortalecemos a estrutura da estrada, estamos conectando pessoas, reduzindo o isolamento e assegurando melhores condições de vida.”
— Ricardo Araújo, DNIT Acre