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Oxfam revela que 1% mais rico responde por 20% do aquecimento global e lucra com desastres climáticos

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Relatório mostra que grandes fortunas concentram parcela expressiva das emissões de carbono, enquanto populações pobres enfrentam os maiores prejuízos provocados pelas mudanças climáticas.

O 1% mais rico da população mundial é responsável por 20% do aquecimento global registrado desde 1990. O dado faz parte de um relatório divulgado pela organização internacional Oxfam, em outubro de 2026, que também denuncia como grandes investidores conseguem obter lucros tanto em atividades que contribuem para a crise climática quanto em negócios ligados à reconstrução de áreas atingidas por desastres naturais.

Intitulado O Fosso das Catástrofes, o estudo foi apresentado às vésperas da 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), marcada para novembro, na Turquia. A pesquisa relaciona a concentração de riqueza às emissões de carbono e aos impactos econômicos e sociais de fenômenos extremos, como enchentes, secas, incêndios florestais e ondas de calor.

Segundo a Oxfam, os 0,1% mais ricos da humanidade, aproximadamente 8 milhões de pessoas, produzem mais poluição por carbono do que os 3,5 bilhões de habitantes mais pobres do planeta somados. A diferença considera não apenas o consumo individual, mas também as emissões associadas aos investimentos financeiros dos grupos de maior renda.

O levantamento calcula que uma pessoa pertencente a essa parcela extremamente rica contribuiu quase 400 vezes mais para as atuais ondas de calor extremo do que alguém situado entre os 50% mais pobres da população mundial.

Os efeitos dessa desigualdade também aparecem nas projeções de mortalidade. A Oxfam estima que as emissões produzidas em apenas um ano pelo 1% mais rico poderão provocar, ao longo do tempo, cerca de 1,9 milhão de mortes adicionais relacionadas ao calor extremo. Aproximadamente 78% dessas mortes ocorreriam em países de renda baixa e média-baixa, que respondem por apenas 8% das emissões globais.

Na economia, os prejuízos associados às emissões desse grupo poderão alcançar US$ 53 trilhões até 2050. Os danos atingem principalmente regiões com menor capacidade financeira para construir sistemas de proteção, recuperar infraestrutura e atender famílias afetadas.

O relatório também examina os interesses econômicos envolvidos na crise ambiental. A organização identificou 217 empresas com atividades relacionadas tanto a setores que contribuem para o aquecimento global quanto a mercados de preparação, resposta e recuperação de desastres.

Entre os grandes investidores dessas companhias estão as gestoras financeiras BlackRock e Vanguard, que possuem participações em 92% das empresas analisadas. Os investimentos conjuntos ultrapassam US$ 1 trilhão.

A Oxfam calcula que o mercado mundial de recuperação de desastres, atualmente estimado em US$ 70 bilhões anuais, poderá movimentar US$ 92 bilhões por ano até 2029. O crescimento está relacionado à demanda por reconstrução de estradas, redes elétricas, sistemas de abastecimento, moradias e outros serviços essenciais após eventos climáticos extremos.

A crítica da organização está na possibilidade de um mesmo grupo de investidores obter rendimentos em empresas ligadas à exploração de combustíveis fósseis e em negócios que oferecem serviços para enfrentar as consequências do aquecimento global. Embora a reconstrução seja necessária, a sobreposição desses interesses levanta questionamentos sobre a distribuição dos ganhos e dos prejuízos.

O diretor executivo internacional da Oxfam, Amitabh Behar, criticou essa dinâmica ao afirmar que grandes agentes econômicos conseguem lucrar com a poluição, com os desastres e novamente com os processos de reconstrução.

Na Amazônia brasileira, as consequências das mudanças climáticas fazem parte da realidade de populações que dependem diretamente dos rios, das florestas e da produção rural. No Acre, as enchentes e os períodos de estiagem severa comprometem o transporte, o abastecimento de água, a agricultura familiar e o acesso de comunidades isoladas aos serviços públicos.

Em 2026, o estado enfrentou situações de emergência relacionadas às cheias dos rios e à seca. Em abril, seis municípios tiveram emergência declarada em razão das enchentes, que atingiram direta ou indiretamente mais de 40 mil pessoas. Em julho, a estiagem levou à declaração de emergência em todo o território acreano.

Os impactos são especialmente graves para famílias ribeirinhas, agricultores familiares, povos indígenas e moradores de áreas vulneráveis. A perda de plantações, a dificuldade de navegação e os danos às moradias afetam diretamente a renda e as condições de vida dessas populações.

Embora não seja possível atribuir um episódio isolado de enchente ou seca exclusivamente às emissões dos grupos mais ricos, o aquecimento provocado pelas atividades humanas contribui para modificar a frequência e a intensidade de determinados fenômenos climáticos. A desigualdade econômica amplia os riscos, principalmente onde faltam infraestrutura, saneamento e acesso adequado aos serviços públicos.

Diante desse cenário, a Oxfam defende a tributação das grandes fortunas, dos lucros das empresas de combustíveis fósseis e de bens de luxo com elevadas emissões de carbono, como jatos particulares. A organização também cobra maior participação dos países ricos no financiamento de medidas de adaptação climática nas regiões mais vulneráveis.

Entre as propostas está a ampliação de recursos públicos internacionais destinados à prevenção de desastres, à proteção das comunidades e à recuperação de áreas atingidas, sem aumentar o endividamento dos países de baixa renda.

A discussão chega à COP31 com uma questão que ultrapassa as metas de redução de carbono: quem deve arcar com os custos da crise climática. Para a Oxfam, enfrentar o aquecimento global exige responsabilizar proporcionalmente os maiores emissores e garantir que os recursos necessários à proteção da população não recaiam sobre aqueles que menos contribuíram para o problema.

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