Connect with us

MEIO AMBIENTE

Oxfam revela que 1% mais rico responde por 20% do aquecimento global e lucra com desastres climáticos

Published

on

Relatório mostra que grandes fortunas concentram parcela expressiva das emissões de carbono, enquanto populações pobres enfrentam os maiores prejuízos provocados pelas mudanças climáticas.

O 1% mais rico da população mundial é responsável por 20% do aquecimento global registrado desde 1990. O dado faz parte de um relatório divulgado pela organização internacional Oxfam, em outubro de 2026, que também denuncia como grandes investidores conseguem obter lucros tanto em atividades que contribuem para a crise climática quanto em negócios ligados à reconstrução de áreas atingidas por desastres naturais.

Intitulado O Fosso das Catástrofes, o estudo foi apresentado às vésperas da 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), marcada para novembro, na Turquia. A pesquisa relaciona a concentração de riqueza às emissões de carbono e aos impactos econômicos e sociais de fenômenos extremos, como enchentes, secas, incêndios florestais e ondas de calor.

Segundo a Oxfam, os 0,1% mais ricos da humanidade, aproximadamente 8 milhões de pessoas, produzem mais poluição por carbono do que os 3,5 bilhões de habitantes mais pobres do planeta somados. A diferença considera não apenas o consumo individual, mas também as emissões associadas aos investimentos financeiros dos grupos de maior renda.

O levantamento calcula que uma pessoa pertencente a essa parcela extremamente rica contribuiu quase 400 vezes mais para as atuais ondas de calor extremo do que alguém situado entre os 50% mais pobres da população mundial.

Os efeitos dessa desigualdade também aparecem nas projeções de mortalidade. A Oxfam estima que as emissões produzidas em apenas um ano pelo 1% mais rico poderão provocar, ao longo do tempo, cerca de 1,9 milhão de mortes adicionais relacionadas ao calor extremo. Aproximadamente 78% dessas mortes ocorreriam em países de renda baixa e média-baixa, que respondem por apenas 8% das emissões globais.

Na economia, os prejuízos associados às emissões desse grupo poderão alcançar US$ 53 trilhões até 2050. Os danos atingem principalmente regiões com menor capacidade financeira para construir sistemas de proteção, recuperar infraestrutura e atender famílias afetadas.

O relatório também examina os interesses econômicos envolvidos na crise ambiental. A organização identificou 217 empresas com atividades relacionadas tanto a setores que contribuem para o aquecimento global quanto a mercados de preparação, resposta e recuperação de desastres.

Entre os grandes investidores dessas companhias estão as gestoras financeiras BlackRock e Vanguard, que possuem participações em 92% das empresas analisadas. Os investimentos conjuntos ultrapassam US$ 1 trilhão.

A Oxfam calcula que o mercado mundial de recuperação de desastres, atualmente estimado em US$ 70 bilhões anuais, poderá movimentar US$ 92 bilhões por ano até 2029. O crescimento está relacionado à demanda por reconstrução de estradas, redes elétricas, sistemas de abastecimento, moradias e outros serviços essenciais após eventos climáticos extremos.

A crítica da organização está na possibilidade de um mesmo grupo de investidores obter rendimentos em empresas ligadas à exploração de combustíveis fósseis e em negócios que oferecem serviços para enfrentar as consequências do aquecimento global. Embora a reconstrução seja necessária, a sobreposição desses interesses levanta questionamentos sobre a distribuição dos ganhos e dos prejuízos.

O diretor executivo internacional da Oxfam, Amitabh Behar, criticou essa dinâmica ao afirmar que grandes agentes econômicos conseguem lucrar com a poluição, com os desastres e novamente com os processos de reconstrução.

Na Amazônia brasileira, as consequências das mudanças climáticas fazem parte da realidade de populações que dependem diretamente dos rios, das florestas e da produção rural. No Acre, as enchentes e os períodos de estiagem severa comprometem o transporte, o abastecimento de água, a agricultura familiar e o acesso de comunidades isoladas aos serviços públicos.

Em 2026, o estado enfrentou situações de emergência relacionadas às cheias dos rios e à seca. Em abril, seis municípios tiveram emergência declarada em razão das enchentes, que atingiram direta ou indiretamente mais de 40 mil pessoas. Em julho, a estiagem levou à declaração de emergência em todo o território acreano.

Os impactos são especialmente graves para famílias ribeirinhas, agricultores familiares, povos indígenas e moradores de áreas vulneráveis. A perda de plantações, a dificuldade de navegação e os danos às moradias afetam diretamente a renda e as condições de vida dessas populações.

Embora não seja possível atribuir um episódio isolado de enchente ou seca exclusivamente às emissões dos grupos mais ricos, o aquecimento provocado pelas atividades humanas contribui para modificar a frequência e a intensidade de determinados fenômenos climáticos. A desigualdade econômica amplia os riscos, principalmente onde faltam infraestrutura, saneamento e acesso adequado aos serviços públicos.

Diante desse cenário, a Oxfam defende a tributação das grandes fortunas, dos lucros das empresas de combustíveis fósseis e de bens de luxo com elevadas emissões de carbono, como jatos particulares. A organização também cobra maior participação dos países ricos no financiamento de medidas de adaptação climática nas regiões mais vulneráveis.

Entre as propostas está a ampliação de recursos públicos internacionais destinados à prevenção de desastres, à proteção das comunidades e à recuperação de áreas atingidas, sem aumentar o endividamento dos países de baixa renda.

A discussão chega à COP31 com uma questão que ultrapassa as metas de redução de carbono: quem deve arcar com os custos da crise climática. Para a Oxfam, enfrentar o aquecimento global exige responsabilizar proporcionalmente os maiores emissores e garantir que os recursos necessários à proteção da população não recaiam sobre aqueles que menos contribuíram para o problema.

MEIO AMBIENTE

Sul do Brasil registra três tornados, destruição e uma morte em semana de tempestades extremas

Published

on

Fenômenos atingiram Paraná e Santa Catarina, enquanto vendavais, granizo e chuvas intensas provocaram estragos no Rio Grande do Sul. Órgãos meteorológicos mantêm alertas para novos temporais e risco de enchentes.

A primeira semana de novembro de 2026 está sendo marcada por uma sequência de desastres naturais na Região Sul do Brasil. Entre domingo (1º) e esta quinta-feira (5), tempestades provocaram destruição em centenas de municípios, deixaram milhares de famílias afetadas e causaram pelo menos uma morte. Três tornados foram confirmados no período, um no Paraná e dois em Santa Catarina. A combinação de calor, umidade, sistemas de baixa pressão e frentes frias criou condições favoráveis à formação de tempestades severas.

Um dos episódios mais intensos ocorreu na madrugada de segunda-feira (2), em Maringá, no noroeste do Paraná. O Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) confirmou que a cidade foi atingida por um tornado de categoria F2 na escala Fujita, com ventos estimados entre 180 e 250 quilômetros por hora. O fenômeno percorreu aproximadamente 15 quilômetros, arrancou telhados, derrubou árvores, destruiu estruturas e provocou interrupções no fornecimento de energia elétrica.

A força do tornado foi suficiente para arremessar telhas a mais de 1.300 metros de distância. A avaliação da intensidade foi realizada a partir de imagens de radar, registros dos danos e inspeções de campo feitas por meteorologistas. Até quarta-feira (4), 38 municípios paranaenses haviam comunicado ocorrências relacionadas a vendavais, granizo, enxurradas e alagamentos.

Em Santa Catarina, outros dois tornados foram confirmados pela Defesa Civil na manhã de quarta-feira (4). O primeiro atingiu Chapecó, por volta das 10h30, e provocou danos ao Aeroporto Serafim Enoss Bertaso, comprometendo estruturas metálicas, vidraças e áreas do terminal. As operações aéreas foram suspensas. Uma estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou rajadas de 126 quilômetros por hora na cidade.

Poucos minutos depois, às 10h48, um segundo tornado atingiu a região de Xanxerê, também no oeste catarinense. O fenômeno provocou destelhamentos, quedas de árvores, danos à rede elétrica e transtornos no trânsito. Em outras localidades de Santa Catarina, as rajadas chegaram a 131 quilômetros por hora em Caçador e 128 quilômetros por hora em Palmitos.

O balanço divulgado pela Defesa Civil catarinense na noite de quarta-feira apontava 98 municípios atingidos, 4.796 residências afetadas e 23 cidades em situação de emergência. Havia 56 pessoas desabrigadas e outras 208 desalojadas.

A tragédia mais grave registrada no estado ocorreu em Rio Negrinho, no Planalto Norte. Um trabalhador de 20 anos morreu após a cobertura de um posto de combustíveis desabar durante o temporal. O rapaz chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos.

As tempestades também provocaram enchentes e mobilizaram equipes de resgate. Em Rio do Sul, bombeiros retiraram 30 pessoas que ficaram ilhadas em uma escola. Em Lages, outras 76 pessoas precisaram ser resgatadas depois que a água avançou sobre diferentes pontos da cidade.

No Rio Grande do Sul, os temporais atingiram principalmente as regiões Norte, Noroeste e Central. Até a noite de quarta-feira, a Defesa Civil contabilizava 47.096 pessoas afetadas, 24 feridos e danos humanos ou materiais em 102 municípios. O levantamento registrava ainda 93 desabrigados e 234 desalojados.

Nova Prata esteve entre as cidades mais prejudicadas, com 15 feridos e aproximadamente 2.700 residências danificadas. Em Espumoso, as tempestades atingiram milhares de moradores, enquanto Passo Fundo enfrentou chuva intensa, granizo, interrupções no fornecimento de energia e bloqueios de ruas.

O volume de precipitação também chamou a atenção dos meteorologistas. Em Paim Filho, no Rio Grande do Sul, o acumulado chegou a 175,4 milímetros em aproximadamente 24 horas. Em diversas cidades gaúchas e catarinenses, a chuva ultrapassou os 100 milímetros em um único dia, quantidade suficiente para provocar enxurradas, transbordamento de córregos e elevação rápida do nível dos rios.

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) classificou como alto o risco de ocorrências hidrológicas nas regiões de Ijuí e Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e Chapecó, em Santa Catarina. O órgão também alertou para a possibilidade de deslizamentos em áreas de encosta, especialmente nas regiões de Blumenau e Lages, onde a chuva intensa pode comprometer a estabilidade do solo.

A explicação para a sucessão de tempestades está nas condições atmosféricas que se formaram sobre o centro-sul da América do Sul. Uma corrente de ar quente e úmido, transportada das regiões tropicais em direção ao Sul do Brasil, encontrou condições associadas à aproximação de ar mais frio. Ao mesmo tempo, a intensificação de sistemas de baixa pressão e a passagem de frentes frias favoreceram o desenvolvimento de nuvens de tempestade.

Outro fator importante foi a diferença de velocidade e direção dos ventos entre as camadas mais baixas e mais altas da atmosfera, fenômeno conhecido como cisalhamento do vento. Essa condição pode favorecer a rotação de tempestades organizadas, chamadas de supercélulas, capazes de produzir tornados, granizo de grande tamanho e rajadas destrutivas.

A formação de um ciclone extratropical na costa da Região Sul, entre quarta-feira (4) e quinta-feira (5), também integra o cenário de instabilidade previsto pelos meteorologistas. A presença desse sistema, porém, não significa que todos os tornados tenham sido provocados diretamente pelo ciclone. Cada ocorrência depende das condições específicas da tempestade que a originou.

Diante da gravidade das previsões, o Inmet emitiu aviso vermelho, de grande perigo, para áreas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e sul do Paraná na quarta-feira. O alerta previa chuva superior a 60 milímetros por hora ou 100 milímetros por dia, ventos acima de 100 quilômetros por hora e queda de granizo.

Nesta quinta-feira (5), a instabilidade mais intensa tende a se concentrar no Paraná, onde permanece o risco de pancadas de chuva acompanhadas de trovoadas. Em Santa Catarina, a previsão aponta melhora gradual do tempo, mas a preocupação continua nas áreas afetadas por alagamentos e pela elevação dos rios.

A trégua pode ser curta. A Epagri/Ciram prevê novas condições de temporais isolados em Santa Catarina entre sexta-feira (6) e sábado (7), com a formação de outra frente fria. No sábado, as rajadas podem alcançar entre 50 e 80 quilômetros por hora em áreas do litoral catarinense.

A Defesa Civil recomenda que moradores de regiões sob alerta evitem deslocamentos durante tempestades, não atravessem ruas alagadas e procurem abrigo em locais seguros, longe de janelas, árvores, postes e estruturas metálicas. Em situações de risco de tornado, a orientação é permanecer em um cômodo interno de uma construção resistente. Moradores de encostas também devem observar sinais de movimentação do terreno e deixar imediatamente o local diante de ameaça de deslizamento.

Os alertas podem ser recebidos gratuitamente pelo celular, mediante cadastro do CEP por mensagem de texto para o número 40199. Em caso de emergência, a população deve procurar a Defesa Civil pelo telefone 199 ou o Corpo de Bombeiros pelo 193.

A sequência de tornados, vendavais e enchentes reforça a necessidade de monitoramento meteorológico permanente, sistemas eficientes de alerta e planejamento das cidades para reduzir a exposição da população aos desastres. Embora tempestades severas façam parte da dinâmica atmosférica do Sul do Brasil, os prejuízos desta semana mostram a dimensão dos riscos enfrentados pelas comunidades atingidas.

Foto: Ari Dias/AEN

Continue Reading

MEIO AMBIENTE

Pesquisa descobre duas novas espécies de bugios na Amazônia e alerta para risco de extinção

Published

on

Uma pesquisa internacional identificou duas novas espécies de bugios na Amazônia brasileira e ampliou o conhecimento sobre a diversidade desses primatas na América Latina. O estudo, publicado em 30 de outubro na revista científica Communications Biology, utilizou análises genéticas para diferenciar populações que até então não eram reconhecidas como espécies distintas.

As novas espécies são o bugio-vermelho-do-Pantepui (Alouatta iroi) e o bugio-vermelho-do-Mato-Grosso (Alouatta matogrossensis). A descoberta faz parte de uma investigação conduzida por 41 pesquisadores de diferentes países, sob a liderança de cientistas da Universidade de Salford, na Inglaterra.

O bugio-vermelho-do-Pantepui habita uma região do Escudo das Guianas, entre o norte do Amazonas, a Venezuela e a Guiana. Sua distribuição está associada a áreas delimitadas pelos rios Negro, Branco e Cauaburi, onde as características geográficas contribuíram para o isolamento e a diferenciação genética dos animais.

Já o bugio-vermelho-do-Mato-Grosso ocorre entre os rios Madeira e Teles Pires, em uma faixa que se estende de Rondônia a Mato Grosso, alcançando áreas de transição entre a Amazônia e o Cerrado.

A localização dessa segunda espécie preocupa os pesquisadores. Parte de seu território está no chamado Arco do Desmatamento, região marcada pela expansão da agropecuária e pela perda de cobertura florestal. Os cientistas consideram possível que o animal seja classificado como criticamente em perigo de extinção, embora ainda seja necessária uma avaliação formal de seu estado de conservação.

O primatólogo Fabiano Melo, professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e um dos autores da pesquisa, defende medidas urgentes para proteger a espécie. A prioridade é avaliar o tamanho das populações e estabelecer estratégias para evitar que a destruição do habitat comprometa sua sobrevivência.

O bugio-vermelho-do-Pantepui também enfrenta riscos, apesar de viver em uma região relativamente preservada. Entre as preocupações estão os possíveis impactos da implantação da Usina Hidrelétrica Bem-Querer, no Rio Branco, em Roraima, além das consequências futuras das mudanças climáticas.

Para chegar aos resultados, os cientistas combinaram o sequenciamento completo do genoma dos animais com estudos sobre características físicas e distribuição geográfica. O trabalho também investigou como grandes rios amazônicos e mudanças na vegetação contribuíram para separar populações ao longo da evolução.

Com a revisão, o gênero Alouatta, que reúne os bugios, passa a contar com 16 espécies e duas subespécies reconhecidas na América Central e na América do Sul. A pesquisa também deixou de reconhecer o bugio-vermelho-do-rio-purus (Alouatta puruensis) como uma espécie independente.

Conhecidos também como guaribas ou barbados, os bugios estão entre os primatas mais característicos das florestas brasileiras, especialmente por suas vocalizações, que podem ser ouvidas a grandes distâncias.

A descoberta reforça a necessidade de ampliar os estudos sobre a biodiversidade amazônica. Além de identificar espécies até então desconhecidas pela classificação científica, o levantamento oferece informações para orientar políticas de conservação em regiões pressionadas pelo desmatamento e por outras alterações ambientais.

Fonte: O Eco – Foto: Bruno Rennó

Continue Reading

Amazônia

Crime organizado transforma a Amazônia em território de exploração humana e desafia acordo histórico da ONU

Published

on

Trabalhadores submetidos a condições semelhantes à escravidão, mulheres exploradas sexualmente e comunidades indígenas ameaçadas por organizações criminosas fazem parte de uma realidade que vai muito além da destruição das florestas. Uma reportagem do jornalista ambiental peruano Iván Brehaut, publicada em 31 de outubro na plataforma La Mula, expõe como o garimpo ilegal, o narcotráfico e a exploração clandestina dos recursos naturais estão associados à violência e ao controle de territórios amazônicos. O trabalho também questiona se a recente vitória diplomática obtida em Viena, na Áustria, será capaz de mudar a situação enfrentada por essas populações.

A reportagem, intitulada Delitos ambientais transnacionais: o que vem depois da vitória de Viena?, parte de uma contradição que acompanha há décadas o debate internacional sobre a Amazônia. Enquanto governos e organismos multilaterais discutem o avanço do desmatamento, a perda da biodiversidade e a exploração ilegal de minerais, milhares de pessoas convivem com formas de violência que nem sempre aparecem nas estatísticas ambientais.

Brehaut chama atenção para uma dimensão frequentemente esquecida: por trás das máquinas que revolvem os leitos dos rios e das redes que transportam madeira, ouro e drogas, existem trabalhadores submetidos a condições degradantes, famílias ameaçadas e comunidades que perderam parte do controle sobre seus próprios territórios.

Uma das formas de exploração começa com ofertas de emprego dirigidas a moradores de regiões pobres. Ao chegar aos acampamentos clandestinos, os trabalhadores passam a acumular dívidas pelo transporte, alimentação e equipamentos utilizados. Os valores cobrados podem tornar impossível o desligamento da atividade, enquanto ameaças e a presença de homens armados impedem a saída.

É uma forma contemporânea de servidão por dívida, associada a práticas históricas de exploração na Amazônia. Em vez de contratos regulares e relações de trabalho protegidas pela legislação, essas organizações estabelecem mecanismos de dependência econômica e coerção.

A violência também atinge mulheres e adolescentes. Nas proximidades das áreas de mineração clandestina, estabelecimentos comerciais podem funcionar como pontos de aliciamento para exploração sexual e outras formas de submissão. O isolamento geográfico, a precariedade dos serviços públicos e a influência das organizações criminosas dificultam denúncias e a proteção das vítimas.

O problema não termina quando as forças de segurança realizam operações contra os acampamentos. A destruição de equipamentos e estruturas ilegais pode interromper temporariamente a atividade, mas, sem alternativas econômicas e proteção às pessoas exploradas, as redes criminosas conseguem reorganizar suas operações. Trabalhadores submetidos à coerção ainda correm o risco de ser tratados como responsáveis pelos delitos dos quais também são vítimas.

A dimensão dessa crise ultrapassa as fronteiras de um único país. No Peru, na Colômbia, no Equador e no Brasil, o avanço das atividades ilícitas combina mineração clandestina, desmatamento, tráfico de drogas e ocupação de terras indígenas. Em diferentes regiões, esses mercados compartilham corredores logísticos, financiadores, estruturas de corrupção e mecanismos de lavagem de dinheiro.

Os impactos também aparecem nos números apresentados por Brehaut. Na Colômbia, o cultivo de coca alcançou 261 mil hectares, enquanto a mineração aluvial não autorizada atingiu mais de 118 mil hectares. No Peru, a pressão do narcotráfico sobre territórios indígenas convive com o avanço da mineração de ouro sobre rios e florestas.

Mas a violência não se resume às dimensões das áreas ocupadas. O povo Kakataibo, na Amazônia peruana, convive há anos com ameaças de organizações ligadas ao narcotráfico e à exploração ilegal de madeira. Segundo os levantamentos reunidos na reportagem, seis lideranças indígenas foram assassinadas em um período de sete anos.

Entre os casos documentados está o de Mariano Isacama Feliciano, liderança Kakataibo encontrada morta em julho de 2024, após denunciar atividades relacionadas ao narcotráfico em seu território. O caso provocou manifestações de organizações indígenas peruanas e novos pedidos de investigação e proteção aos defensores ambientais.

Diante da insuficiência da presença estatal, comunidades indígenas passaram a organizar sistemas próprios de vigilância e proteção. A Guarda Kakataibo realiza patrulhamentos territoriais e ações de identificação de atividades ilícitas em áreas de floresta onde a chegada das autoridades pode exigir dias de deslocamento.

Marcelo Odicio, presidente da Federação Nativa de Comunidades Kakataibo (FENACOKA), relatou a Brehaut a atuação de homens e mulheres na proteção das aldeias, mesmo diante de grupos criminosos com maior capacidade de armamento.

Outra experiência apresentada na reportagem é a utilização de tecnologia pelas organizações indígenas. A Organização Regional Aidesep Ucayali (ORAU) desenvolveu a plataforma Imenko Tsiroti, utilizada para reunir informações territoriais e registros sobre ameaças e atividades ilegais.

Jamer López, presidente da entidade, explicou que os dados permitem às comunidades procurar as autoridades com informações produzidas diretamente nas áreas de conflito. O monitoramento combina conhecimento do território, registros de campo e ferramentas tecnológicas, oferecendo subsídios para identificar pistas clandestinas, invasões e novas frentes de desmatamento.

No território do povo Wampís, na região amazônica peruana, a organização de defesa territorial conhecida como Charip, palavra associada ao relâmpago, também realiza atividades de vigilância. Galois Flores, representante do Governo Territorial Autônomo da Nação Wampís, levou essa experiência às discussões internacionais sobre o combate aos crimes ambientais.

Essas iniciativas enfrentam uma contradição. As comunidades possuem conhecimento detalhado dos rios, caminhos e áreas utilizadas pelas organizações ilegais, mas frequentemente não dispõem de recursos, garantias de segurança e respaldo institucional compatíveis com os riscos assumidos.

A discussão ganhou dimensão internacional durante a 13ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, realizada de 19 a 23 de outubro de 2026, em Viena.

Em uma votação considerada histórica, 83 países apoiaram a abertura de negociações para elaborar um protocolo internacional específico sobre crimes ambientais. Outros 12 votaram contra e 27 se abstiveram. A iniciativa foi impulsionada pelo Brasil, com participação de países amazônicos e de outras regiões.

O objetivo é ampliar os instrumentos jurídicos utilizados no enfrentamento de organizações que atuam simultaneamente em diferentes países, especialmente no tráfico de animais e plantas silvestres, na exploração ilegal de minerais, no comércio clandestino de madeira e no tráfico de resíduos.

A Convenção de Palermo, adotada em 2000, possui protocolos específicos para combater o tráfico de pessoas, o contrabando de migrantes e o tráfico ilícito de armas de fogo. A proposta discutida em Viena busca acrescentar um instrumento voltado às atividades criminosas que afetam o meio ambiente.

Para Álvaro Másquez, advogado do Instituto de Defesa Legal do Peru e assessor jurídico da Guarda Indígena Kakataibo, a decisão representa um avanço importante no reconhecimento internacional da gravidade desses delitos.

Entrevistado por Brehaut, Másquez valoriza principalmente o protagonismo de países amazônicos como Brasil, Peru e Colômbia na construção da proposta. Ele também defende que a participação indígena seja incorporada ao processo de elaboração do novo instrumento.

O papel das lideranças indígenas foi uma das características da mobilização em Viena. Uma delegação formada por representantes de povos do Brasil, Peru, Colômbia e Equador participou das discussões e manteve encontros com autoridades e organismos internacionais.

De acordo com a organização Amazon Watch, dez lideranças indígenas integraram a mobilização que contribuiu para a aprovação da resolução. Ao longo da conferência, defenderam uma estratégia de segurança capaz de alcançar os financiadores e compradores das mercadorias ilegais, e não apenas os trabalhadores encontrados nas áreas de extração.

Entre as reivindicações estão o fortalecimento dos mecanismos de rastreabilidade do ouro e da madeira, o combate à lavagem de dinheiro, a recuperação de recursos provenientes de atividades criminosas e o apoio institucional às organizações indígenas responsáveis pela vigilância territorial.

As lideranças também defendem que as decisões sobre segurança na Amazônia sejam construídas com a participação das populações diretamente afetadas. Essa posição não elimina a responsabilidade dos Estados pela proteção dos territórios, mas exige que os governos reconheçam os conhecimentos e as organizações locais.

Durante a conferência, o relator especial das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, Albert Barume, tratou da relação entre segurança e autodeterminação. Para o representante da ONU, a capacidade de uma comunidade decidir sobre o próprio futuro fica comprometida quando organizações externas controlam seu território pela violência.

A discussão alcança diretamente a realidade das regiões de fronteira da Amazônia brasileira. No Acre, sobretudo no Vale do Juruá, povos indígenas compartilham relações históricas, culturais e territoriais com comunidades do Peru. Rios e caminhos tradicionais atravessam áreas onde a fiscalização estatal enfrenta dificuldades logísticas.

Na conferência, a experiência de cooperação entre povos indígenas da fronteira também esteve representada. Francisco Piyãko, liderança Ashaninka do Acre, apresentou iniciativas de articulação transfronteiriça envolvendo comunidades indígenas do Brasil e do Peru, segundo a Amazon Watch. Essas experiências mostram que a proteção territorial exige comunicação e cooperação entre populações separadas por limites nacionais, mas conectadas pela mesma floresta.

A perspectiva apresentada por Brehaut amplia o debate sobre segurança pública na Amazônia. O enfrentamento das organizações criminosas não depende exclusivamente da presença de tropas e de operações policiais. Envolve a investigação das estruturas financeiras, a proteção das vítimas de exploração, o controle das cadeias comerciais e a capacidade de impedir que atividades ilegais se restabeleçam depois das ações repressivas.

O acordo de Viena, entretanto, ainda está distante de produzir efeitos concretos. A decisão aprovada pelos países não criou imediatamente um novo tratado internacional, mas autorizou sua negociação.

Um comitê especial deverá realizar quatro sessões para preparar uma proposta de protocolo, com expectativa de apresentação na próxima Conferência das Partes, prevista para outubro de 2028. Posteriormente, ainda serão necessárias decisões sobre sua adoção e os procedimentos de adesão e implementação pelos países.

O processo também enfrentará disputas sobre o alcance das obrigações internacionais, os mecanismos de cooperação jurídica e a participação das organizações indígenas. Embora a resolução reconheça a contribuição dos povos originários no combate aos crimes ambientais, ainda não estabelece um mecanismo definitivo para garantir sua presença nas negociações.

Essa diferença entre reconhecimento político e participação efetiva constitui um dos principais desafios levantados pela mobilização indígena. As comunidades que diariamente registram invasões, enfrentam ameaças e produzem informações sobre a presença de organizações criminosas querem participar da definição das medidas que poderão afetar diretamente suas vidas.

A reportagem de Iván Brehaut coloca esse impasse no centro do debate. A vitória diplomática representa uma oportunidade para fortalecer o combate internacional aos crimes ambientais, mas não resolve, por si só, os problemas de violência, desigualdade e ausência de proteção estatal que sustentam a expansão das economias ilegais.

A possibilidade de responsabilizar grandes financiadores, identificar a origem de mercadorias e ampliar a cooperação entre autoridades poderá modificar a capacidade de enfrentamento dessas organizações. Porém, os resultados dependerão da execução das medidas e da disposição dos governos de alcançar os interesses econômicos que mantêm essas atividades.

Para os povos indígenas da Amazônia, a urgência é diferente do calendário diplomático. Enquanto os países negociam novos instrumentos jurídicos, comunidades continuam expostas às ameaças de grupos armados, à contaminação dos rios e à ocupação ilegal de seus territórios.

A questão que permanece depois de Viena, portanto, não é apenas quando o novo protocolo será aprovado, mas se ele conseguirá transformar compromissos internacionais em medidas capazes de proteger a floresta e as pessoas que vivem nela.

Fonte: La Mula

Continue Reading

Tendência