O Supremo Tribunal Federal declarou inconstitucional a Lei Estadual nº 6.463/2023, do Amazonas, que proibia debates sobre identidade de gênero e vedava o uso de linguagem neutra em escolas públicas e privadas. A decisão foi tomada na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7644, relatada pelo ministro Flávio Dino, e teve o acórdão publicado no Diário Oficial da União em 24 de abril de 2026, o que retirou a norma do ordenamento e derrubou as punições previstas contra instituições de ensino.
No julgamento, o STF concluiu que o Amazonas invadiu competência privativa da União ao legislar sobre diretrizes e bases da educação nacional, ao interferir em parâmetros de conteúdo pedagógico e em regras aplicáveis ao currículo. O tribunal também reafirmou que estados não podem impor normas próprias para disciplinar o uso da língua no ambiente escolar quando isso se conecta a diretrizes educacionais gerais definidas em âmbito federal.
A lei amazonense havia sido aprovada em 2023 e previa sanções administrativas às escolas que descumprissem as proibições. Com a decisão, redes públicas e privadas deixam de estar submetidas às restrições e penalidades criadas pela norma, e o tema volta a ficar sob as regras e diretrizes nacionais que orientam a educação básica.
A derrubada da lei se insere em uma sequência de decisões do Supremo contra iniciativas estaduais e municipais que tentam restringir discussões sobre gênero e sexualidade ou proibir a chamada “linguagem neutra” no ensino, com base no entendimento de que essas matérias não podem ser reguladas por legislação local quando atingem a estrutura curricular e a autonomia pedagógica prevista nas normas nacionais.
Pesquisas em educação e direitos humanos associam esse tipo de iniciativa a efeitos práticos no cotidiano escolar. Um dos principais apontamentos é o aumento de autocensura de professores e gestores diante do risco de punições, com redução do espaço para debates e para ações de prevenção de discriminação e violência. Em paralelo, estudos acadêmicos sobre linguagem e psicologia social têm descrito que escolhas linguísticas influenciam percepções e estereótipos, o que ajuda a explicar por que regras sobre formas de tratamento e pronomes se tornam alvo de disputas políticas e acabam judicializadas. Na área de saúde pública, análises sobre ambientes institucionais mais restritivos para pessoas LGBT+ também discutem efeitos indiretos sobre o bem-estar de jovens, especialmente quando há diminuição de apoio e aumento de estigma no entorno escolar.