A travessia de lama, suor e silêncio nas barrancas do extremo oeste acreano, onde o povo da floresta forja os seus próprios milagres.
Onde o Brasil ensaia o seu fim e o Peru se anuncia, o mapa abandona as linhas retas e passa a ser desenhado pelas curvas barrentas das águas. No extremo oeste do Acre, o município de Marechal Thaumaturgo não é apenas uma fronteira geopolítica; é uma trincheira viva da Amazônia profunda. Ali, a Reserva Extrativista do Alto Juruá e as Terras Indígenas formam um cinturão humano e verde, onde a cultura da floresta dita as horas e o isolamento não decreta o fim do mundo, mas a preservação de um. É neste beiradão de Brasil, a dezenas de quilômetros do asfalto, que repousa um dos maiores monumentos da religiosidade popular amazônica: o Santuário de Nova Olinda.
Para narrar essa travessia, emprestamos os olhos, o suor e os passos de Cleudon França, jornalista e memorialista que, entre os dias 12 e 15 de fevereiro deste ano, refez o duro trajeto até as margens sagradas do Igarapé São Luís. E é pelas palavras dele que somos guiados para a crueza e a beleza desse altar a céu aberto.
A peregrinação começa muito antes de o joelho dobrar; ela se inicia na proa do batelão. Partindo da sede de Marechal Thaumaturgo, rasga-se o Rio Juruá até adentrar os braços mais estreitos do seu afluente, o Rio Caipora. A navegação logo deixa de ser deslocamento e vira um enfrentamento físico.
A água amarelada e turva denuncia onde há pedra. Nas cachoeiras rasas e lajes expostas, a embarcação verde e amarela de madeira não avança sozinha. Os motores Honda calam ou são erguidos no braço. Os homens descem. Com a água batendo na cintura e fustigando as pernas, eles cravam os pés nas pedras escorregadias do leito. O esforço estampa-se nas veias saltadas e nas roupas encharcadas coladas ao corpo, enquanto empurram a canoa contra o volume espumante da corredeira.
Mais adiante, o desafio muda de forma: uma imensa árvore caída cruza o igarapé de margem a margem, um emaranhado de galhos secos e cipós barrando a passagem. A tripulação precisa escalar o tronco dentro d’água, negociando cada centímetro com a correnteza que não cede. O avanço é medido em poucos metros. Como resume Cleudon: “A floresta impõe regras invisíveis: quem não respeita, retorna. Quem persevera, chega transformado”.
Para narrar essa travessia, emprestamos os olhos, o suor e os passos de Cleudon França, jornalista e memorialista que, entre os dias 12 e 15 de fevereiro deste ano, refez o duro trajeto até as margens sagradas do Igarapé São Luís. E é pelas palavras dele que somos guiados para a crueza e a beleza desse altar a céu aberto.
Onde a água desiste, as pernas assumem. Deixando os barcos para trás, o promesseiro mergulha no varadouro, engolido pela imensidão da mata. A grandeza do Juruá reduz o homem à sua verdadeira dimensão: Cleudon, vestindo branco, de terço no peito, abre os braços diante de uma samaúma colossal, e ainda assim parece minúsculo diante daquele tronco que se ergue como uma muralha de casca e musgo, adornado por uma placa rústica com os dizeres NOVOLINDA.
Nesse ambiente de sombras alongadas, ladeiras escorregadias de argila e vales onde a lama suga as botas, a caminhada exige horas a fio. “Na trilha, não existe personagem: existe cansaço real, medo real, limite real”, atesta Cleudon sobre o trecho terrestre.
Mas por que se lançar a tamanho sacrifício? A resposta ecoa do tempo em que o sangue molhava aquela mesma terra. A tradição oral ensina que três irmãos vindos do Ceará foram emboscados ali por indígenas não contatados enquanto cortavam seringa. Dois tombaram mortos, e o terceiro, ferido, enterrou-se na areia da praia fazendo uma promessa desesperada a São Francisco. Mais de uma semana depois, quando o resgate os encontrou, os corpos dos caídos estavam em perfeita conservação.
Nascia ali o milagre. Para o nosso guia, recontar esse enredo é vital: “Ser ‘voz dessa última fronteira’ é compreender que a memória não é nostalgia — é responsabilidade”.
“O instante da chegada ao Santuário de Nova Olinda, acontece primeiro por dentro”, descreve Cleudon. Quando se alcança o terreno à beira do Igarapé São Luís, a exaustão se dissolve em um silêncio absoluto. “O coração se ajoelha antes mesmo do corpo”, confidencia. “A alma chora antes das palavras porque entende que atravessou algo maior do que rios e trilhas — atravessou limites invisíveis”.
O visual é arrebatador por sua crueza. Da terra úmida, erguem-se grossos troncos em forma de cruz. Eles sustentam o peso brutal de centenas de peças de roupas. São vestidos florais, camisas, toalhas coloridas e até um velho chapéu de feltro espetado na ponta. Cada farrapo desbotado pela chuva é o fantasma de uma doença curada.
A poucos passos, um barranco de terra escura, entrelaçado por raízes, foi transformado em um altar natural. A rocha é uma cascata congelada de parafina branca, derretida sob a chama viva de dezenas de velas acesas que o vento da mata não apaga.
Sob a proteção de um telhado de zinco, a Casa das Promessas guarda o relicário da fronteira. O ambiente é forrado de tinta verde e preenchido por um varal de roupas deixadas como oferenda. No centro, uma cruz de madeira desaparece sob grossos terços de contas pretas e miçangas cruzadas. Na parede ao fundo, a alma do Juruá se revela: um mosaico de fotografias 3×4, retratos de famílias, imagens de crianças e agricultores. Nas tábuas, nomes como “Hudson” e “Brandão da Silva” foram entalhados, marcando a fé na madeira.
O rito final é a própria água. Os promesseiros mergulham no igarapé para lavar as dores entranhadas. “As águas do Rio São Luís não são apenas correnteza — são espelho e rito”, aponta Cleudon. “Saí molhado por fora. Mas leve por dentro”.
O Santuário de Nova Olinda não é uma anomalia isolada no mapa acreano; ele é um fragmento de um mosaico muito maior. A ausência histórica de igrejas de alvenaria e do clero nas profundezas da Amazônia forjou uma fé que brota do barro e do sofrimento. Onde o Vaticano não chegou, o seringueiro e o indígena canonizaram os seus próprios mártires.
A crueldade do ciclo da borracha esculpiu figuras como Santa Raimunda do Bom Sucesso, no Seringal Cumaru, em Assis Brasil. Abandonada na mata em trabalho de parto, em 1910, ela morreu na raiz de uma imensa seringueira. A lenda de seu corpo inexplicavelmente pesado e do perfume celestial que tomou o seringal transformou-a no símbolo máximo contra a violência à mulher amazônida. Hoje, todo dia 15 de agosto, milhares de brasileiros e peruanos rompem varadouros na Reserva Extrativista Chico Mendes em uma gigantesca romaria transnacional para clamar por sua proteção.
Nas águas do Alto Rio Envira, a devoção volta-se para a Menina Santa de Feijó (Maria da Liberdade), vítima de uma morte brutal na floresta. Seu túmulo atrai fiéis de várias gerações que utilizam o barro sagrado do local para curar feridas. Protetora das parturientes, seu nome ecoa nos batelões de madeira que cortam as madrugadas escuras. Em Xapuri, no Seringal Boa Vista, a resistência veste a pele de São João do Guarani. Um seringueiro nordestino fulminado pela malária na solidão da mata virou o “Santo da Floresta”, arrastando há mais de um século uma devoção ininterrupta a cada mês de junho.
Quando não são os mártires do seringal, a fé segue os passos dos andarilhos. O grande quadro emoldurado que Cleudon encontrou no altar de Nova Olinda pertence ao Irmão José da Cruz, um missionário profético que, nos anos 1960, espalhou cruzeiros de madeira, benzeções e curas pelas barrancas do Juruá antes de desaparecer misteriosamente rumo ao Peru.
E nos centros urbanos, o sincretismo atinge a sua epifania. Em Rio Branco, nasceram as linhas ayahuasqueiras do Santo Daime (com Mestre Irineu) e da Barquinha (com Daniel Pereira de Mattos). É a consagração máxima da identidade acreana: a cruz do catolicismo popular nordestino mergulhada no cipó e na folha da ancestralidade indígena. Tudo isso enquanto milhares tomam as ruas de Xapuri todo 20 de janeiro para a apoteótica Procissão de São Sebastião, fundindo o secular e o divino.
Para decifrar esse panteão invisível que vai das margens do Rio Envira às barrancas de Marechal Thaumaturgo, precisamos de chaves que explicam a própria humanidade. O semioticista Roland Barthes nos diria que aquelas roupas amarradas na cruz e os terços pendurados na madeira de Nova Olinda não são restos deixados na mata; são signos poderosos. O tecido abandonou sua função utilitária de vestir o corpo e se tornou a própria dor exorcizada. É o mito que apropria e sacraliza o sofrimento, dando um sentido celestial à tragédia que a floresta e os homens impõem.
E mais, trazemos aqui o sociólogo Pierre Bourdieu pois, em um lapso de memória de antigas leituras, imaginamos que ele veria no devoto amazônico o senhor de seu próprio campo religioso. Desamparado pelas instituições eclesiásticas, o caboclo tomou para si o poder do sagrado: ele próprio benze, reza, ergue a igreja de zinco e acende a vela na rocha. Nesse “mercado de bens de salvação”, o capital simbólico exigido não é o dízimo financeiro, mas o suor. Arrastar a canoa nas cachoeiras do Caipora e afundar as pernas na lama por horas a fio é a moeda que “traz” a graça. É o habitus da floresta: a certeza visceral de que nada que vem sem dor é digno de milagre.
Quando Cleudon observa a imensidão verde após vencer a travessia com seu parceiro, ele nos entrega a bússola para entender o Juruá: “A amizade de verdade é subir a montanha juntos e celebrar lá no alto”. No isolamento da natureza, onde a mata devora as vaidades, o homem não encontra apenas a divindade. “O silêncio de Marechal Thaumaturgo ensina que o ser humano é frágil — mas não é pequeno”, conclui o nosso memorialista. No reflexo das águas turvas e nas cruzes pesadas do Acre, o amazônida não clama apenas por cura; ele consagra a sua infinita e teimosa capacidade de resistir.