Quando os pequenos bonecos surgirem sobre a tolda montada na Usina de Arte João Donato, o público de Rio Branco vai entrar em uma história conduzida pelas mãos de um artista que atravessa mais de quatro décadas preservando uma das tradições populares do país. O projeto Mamulengo Circuladô apresenta gratuitamente o espetáculo “O Romance do Vaqueiro Benedito” nos dias 8 e 9 de agosto, sábado e domingo, às 17h. A primeira sessão terá interpretação em Libras e a segunda contará com audiodescrição, abrindo a brincadeira para pessoas de todas as idades e diferentes formas de percepção.
A capital acreana é a segunda cidade da região Norte a receber a turnê amazônica, iniciada em Porto Velho, Rondônia, nos dias 24 e 25 de julho. Em Rio Branco, o mestre bonequeiro Chico Simões divide a cena com as musicistas Anna Göbel e Layza Almeida. Enquanto ele empresta voz e movimento aos personagens, a música executada ao vivo acompanha o improviso, responde às reações da plateia e ajuda a conduzir uma narrativa que nunca acontece duas vezes da mesma maneira.
No centro do enredo está Benedito, um vaqueiro que foge da fazenda do Capitão João Redondo ao lado de Margarida, sua companheira grávida, e do Boi Estrela. Ao chegarem à cidade, os três procuram abrigo entre os moradores. A fuga ganha novos caminhos quando a Cobra Grande e outros animais aparecem para proteger o casal. Entre perseguições, conflitos e celebrações, a criança nasce diante do público, que deixa de ocupar apenas as cadeiras e passa a interferir diretamente no ritmo da história.
Essa participação é parte da essência do mamulengo. O boneco não se limita a repetir um roteiro fechado. Ele conversa, provoca, canta, responde e transforma cada reação da plateia em matéria para a cena. A tolda, pequena estrutura atrás da qual o brincante movimenta os personagens, vira uma espécie de mundo em miniatura. É dali que surgem figuras populares capazes de tratar, com humor e confronto, de assuntos como autoridade, desigualdade, sobrevivência, solidariedade e resistência.
O formato adotado pelo Mamulengo Circuladô mistura apresentação artística e aula-espetáculo. Depois de cada sessão, Chico Simões vai conversar com o público sobre a fabricação dos bonecos, a criação dos personagens e a transmissão dos conhecimentos entre mestres e aprendizes. A proposta leva para o centro da conversa um saber que sobreviveu principalmente pela oralidade, pelo convívio e pela observação direta do trabalho de artistas populares.
Nascido na região Nordeste, o teatro popular de bonecos ganhou formas próprias ao viajar pelo Brasil. Dependendo do território, passou a ser chamado de Babau, João Redondo, Calunga ou Cassimiro Coco. As diferenças de nome convivem com uma base comum: bonecos manipulados por brincantes, música, improvisação e participação do público. O mamulengo recebeu o reconhecimento de patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan.
No Distrito Federal, onde o grupo Mamulengo Presepada foi criado, a tradição acompanha a história de Brasília desde os primeiros anos da construção da capital. Filhos de trabalhadores vindos de diferentes partes do país levaram consigo festas, músicas, personagens e formas de contar histórias. Chico Simões nasceu nesse encontro. Filho de paraibanos que migraram para Brasília, ele começou sua trajetória com os bonecos na década de 1980, durante viagens pelo Nordeste ao lado de Carlinhos Babau, da Carroça de Mamulengos.
Nesse percurso, conviveu com mestres como Chico de Daniel, Joaquim do Babau, Solón, Zé Lopes e Zé de Vina. A aprendizagem nasceu menos de salas formais e mais do cotidiano compartilhado com artistas que dominavam a construção, a voz, o movimento e o tempo da brincadeira. Em Taguatinga, Chico fundou o Mamulengo Presepada e o Ponto de Cultura Invenção Brasileira. Desde então, levou o teatro de bonecos a diferentes regiões brasileiras e a outros países.
A passagem por Rio Branco coloca o Acre dentro de uma circulação formada por oito apresentações em quatro estados amazônicos. Depois das sessões na Usina de Arte João Donato, a equipe segue para Cantá, em Roraima, onde se apresenta nos dias 20 e 21 de agosto. A etapa termina em Macapá, no Amapá, nos dias 27 e 28.
Criado em 2024, o Mamulengo Circuladô já percorreu oito municípios das regiões Sul e Sudeste. A entrada na Amazônia amplia o alcance do projeto e cria encontros entre uma manifestação de origem nordestina e públicos que vivem realidades culturais próprias. Esse deslocamento não transforma a tradição em peça de museu. Ao contrário, permite que ela continue viva, sujeita ao improviso, às perguntas das crianças, às respostas dos adultos e às particularidades de cada cidade.
A sessão de sábado, dia 8, terá interpretação em Libras. No domingo, dia 9, o espetáculo contará com audiodescrição. As duas apresentações começam às 17h, têm classificação livre e entrada gratuita. O projeto recebe apoio do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal, o FAC-DF, e mantém informações pelas redes sociais @btmsolucoes e @mamulengo.presepada.
Foto: Davi Mello / Com informações da assessoria