Cruzeiro do Sul é uma cidade singular. É a capital do Juruá, o segundo maior colégio eleitoral do Acre e um território que costuma exercer papel decisivo na política estadual. Foi nesse cenário que, em 2024, acompanhei de perto uma das eleições municipais mais disputadas da história recente do município.
Vi o esforço das pessoas, a mobilização das lideranças, a militância nas ruas e a construção de uma frente política ampla. Por isso, ao observar o cenário atual, às portas de uma nova eleição estadual, é impossível não questionar o significado das escolhas que estão sendo feitas.
Zequinha Lima foi reeleito com 24.478 votos, equivalentes a 50,20% dos votos válidos. Jéssica Sales recebeu 24.281 votos, ou 49,80%. A diferença foi de apenas 197 votos. Não foi uma vitória folgada, individual ou construída isoladamente. Foi uma vitória coletiva, alcançada no limite e decidida por uma margem menor do que a população de muitas comunidades rurais de Cruzeiro do Sul.
Agora, em 29 de junho de 2026, Zequinha anunciou apoio ao senador Alan Rick na disputa pelo governo do Acre. Com isso, afastou-se do projeto eleitoral da governadora Mailza Assis, embora ambos filiados ao Progressistas. Zequinha afirmou que Alan representa o melhor projeto para o estado, alegou que vinha sofrendo tentativas de isolamento e declarou que não recebeu de Mailza o mesmo respeito que teria oferecido a ela. Ao mesmo tempo, manteve seu apoio a Gladson Cameli para o Senado.
Todo agente político possui liberdade para mudar de posição. Lealdade democrática não significa obediência cega, submissão permanente ou impossibilidade de discordar. O problema não está apenas em mudar de caminho. Está em esclarecer por que o caminho anterior, apresentado ao eleitor como uma união em defesa de Cruzeiro do Sul, deixou de ser adequado menos de dois anos depois da eleição.
A justificativa de que determinado candidato representa “o melhor projeto” é insuficiente quando não vem acompanhada de propostas, compromissos públicos e resultados esperados para a população.
Na política, gratidão não pode significar dependência eterna. Mas também não pode ser tratada como uma palavra descartável depois que a eleição termina.
Quem vence por apenas 197 votos precisa reconhecer que cada apoio foi determinante. Nenhuma liderança, partido, militante ou profissional pode reivindicar sozinho a propriedade daquela vitória. Da mesma maneira, o prefeito não pode ser tratado como propriedade do grupo que o apoiou.
Existe, porém, uma diferença entre independência e apagamento da história.
A autonomia política permite que Zequinha escolha outro palanque. A responsabilidade pública exige que ele reconheça as mãos que ajudaram a sustentá-lo quando sua reeleição estava ameaçada. Confiança não se rompe apenas quando alguém muda de candidato. Rompe-se principalmente quando as razões da mudança não são apresentadas com clareza suficiente.
A ironia política é evidente: a candidata derrotada por Zequinha passou a ocupar espaço justamente no grupo do qual o prefeito decidiu se afastar.
Enquanto as lideranças organizam seus palanques, a população continua avaliando ruas, unidades de saúde, escolas, limpeza pública, ramais e serviços básicos.
Reportagens locais vêm registrando reclamações sobre infraestrutura urbana, manutenção das vias e diferença entre anúncios e entregas. Esses registros não substituem uma pesquisa completa de opinião pública, mas mostram que existe cobrança social e que ela não pode ser ignorada.
Os 197 votos de diferença demonstram que quase metade do eleitorado preferia outra administração. Isso, por si só, deveria impor humildade, diálogo permanente e atenção redobrada às cobranças da sociedade.
Quem é, afinal, a grande liderança do Juruá?
Parte da imprensa política local apresenta Gladson Cameli como a principal liderança regional e atribui a ele papel decisivo na reta final da eleição de 2024. Sua participação foi relevante, mas a vitória de Zequinha Lima não pode ser creditada a uma única liderança. A campanha reuniu a então vice-governadora Mailza Assis, deputados federais e estaduais, entre eles Clodoaldo Rodrigues, Pedro Longo e Nicolau Júnior, além da vice Delcimar Leite, de Valéria Lima (eleita a vereadora mais votada do município) e de uma extensa rede de aliados dos setores político, empresarial e religioso, bem como lideranças comunitárias de bairros, ramais e comunidades. A lista de apoios é ampla e praticamente interminável, o que reforça um fato incontestável: a vitória foi resultado de uma construção coletiva, e não da força isolada de qualquer liderança.
Por fim, pude constatar, sem recorrer ao clichê, que a maior liderança do Juruá é o próprio eleitorado. Foram os eleitores que decidiram a eleição por uma diferença de apenas 197 votos. São eles que utilizam os serviços públicos, enfrentam diariamente os problemas da cidade e arcam com as consequências das alianças e das rupturas políticas. Lideranças passam por partidos, mudam de palanque e organizam seus interesses. A população permanece.
Zequinha tem o direito de escolher seu palanque. A população tem o direito de perguntar quais compromissos, interesses e projetos estão por trás dessa escolha. E, principalmente, tem o direito de decidir se o novo caminho representa Cruzeiro do Sul ou apenas só uma movimentação no tabuleiro eleitoral.
Por isso, o debate não deve ser apenas sobre quem Zequinha apoiará em 2026. A questão central é saber se ele está honrando a confiança recebida em 2024.
A política permite novos caminhos. Mas lealdade, compromisso, transparência, confiança e gratidão exigem que ninguém apague as pontes depois de atravessá-las.
Aos pré-candidatos e aos que já se consideram eleitos, fica o lembrete: todos têm a sua chance. Entre traídos, traidores, promessas e interesses, existe uma força maior, o povo. E, no fim, é o povo quem decide.
Com o fim das apostas on-line, o dinheiro pode voltar a render no orçamento das famílias. Mas as dívidas e os problemas de saúde não desaparecem da noite para o dia.
No Acre, como em qualquer lugar para quem vive do salário, ele costuma terminar antes do mês, surgiu uma expectativa: com o fim das bets, quem sabe o dinheiro volte a aparecer no supermercado e, principalmente, a sobrar no bolso do trabalhador.
A conta é simples. Os cinquenta reais, que antes desapareciam na aposta de um escanteio podem agora comprar arroz, feijão ou ajudar a pagar a conta de luz.
Os primeiros números após a proibição das bets mostram crescimento nas vendas dos supermercados. Segundo levantamento da NielsenIQ, divulgado pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o faturamento do setor cresceu 7,4% entre 5 e 11 de outubro, em comparação com o mesmo período de 2025.
Sai o bilhete da aposta, entra a lista de compras.
Só que a vida não se resolve tão facilmente.
Em setembro, o governo federal editou uma medida provisória proibindo a exploração das bets. Em outubro, as plataformas autorizadas saíram do ar. A proibição chegou. As dívidas, naturalmente, não receberam o mesmo comunicado.
O banco continua cobrando, o cartão não esqueceu a fatura e o empréstimo feito na esperança de recuperar o dinheiro perdido segue firme, com juros e vencimento.
Durante muito tempo, as apostas foram apresentadas como diversão, emoção e possibilidade de ganho. Para muita gente, porém, a promessa de dinheiro fácil acabou se transformando numa armadilha.
Começava com dez reais. Depois vinte. Mais cinquenta para tentar recuperar o prejuízo. Quando o cidadão percebia, já não jogava por diversão. Apostava na esperança de recuperar o que havia perdido.
E o problema não ficava restrito ao celular.
Chegava à mesa da família, nas compras reduzidas, nas contas atrasadas e nas discussões dentro de casa. Afinal, quando o dinheiro da alimentação vira aposta, quem perde não é apenas quem apertou o botão.
Existe ainda uma questão que não pode ficar de fora dessa discussão: a saúde pública.
O jogo compulsivo não é simplesmente falta de juízo. É um problema de saúde que pode exigir acompanhamento profissional e comprometer a vida emocional, familiar e financeira. Tirar as plataformas do ar não elimina a dependência, assim como parar de apostar não apaga os prejuízos acumulados.
Mas é um grande começo.
Quem deixa de apostar interrompe uma sequência de possíveis perdas. Aqueles cinquenta reais que antes desapareciam podem permanecer na conta, ajudar nas despesas ou até virar uma pequena reserva.
É assim que o dinheiro começa a render. Não pela promessa de multiplicação milagrosa, mas porque simplesmente deixou de desaparecer.
O comércio também pode sentir essa mudança. Dinheiro que permanece com as famílias tem mais chance de circular nas compras do dia a dia. Ainda é cedo, porém, para saber quanto disso chegará aos caixas dos supermercados.
E não podemos esquecer que as apostas clandestinas continuam sendo um risco. Combater o problema exige fiscalização, educação financeira e atendimento para quem desenvolveu dependência.
No futebol, uma derrota pode ser esquecida na rodada seguinte. Na vida real, o prejuízo pode durar anos.
A ironia é que, depois de tanta gente tentar fazer o dinheiro render apostando, talvez a melhor maneira de preservar o salário seja justamente parar de jogar.
Porque as bets podem ter saído de campo, mas o boleto continua escalado como titular absoluto.
A reforma administrativa anunciada como possibilidade pelo prefeito Alysson Bestene abre uma discussão que vai além da criação de secretarias e das mudanças no primeiro escalão da Prefeitura de Rio Branco.
É legítimo e natural que o prefeito reorganize sua equipe e estabeleça novas prioridades. Mas há uma dimensão política que não pode ser ignorada: parte dos atuais auxiliares participou da construção do projeto que elegeu Bocalom e Alysson em 2024.
Isso não garante permanência a ninguém. Entretanto, mudanças administrativas também exigem diálogo, reconhecimento e capacidade de articulação política.
A questão é que a reforma pode representar algo maior do que uma reorganização de cargos.
A criação de uma Secretaria da Mulher, já mencionada por Alysson, poderia vir acompanhada de uma estrutura voltada à juventude, inteligência artificial, empreendedorismo, economia criativa e economia solidária.
O impacto estaria na conexão dessas políticas com a realidade econômica e social de Rio Branco.
Para os jovens, significaria ampliar oportunidades de qualificação, acesso à tecnologia e inserção no mercado de trabalho. Para as mulheres, fortalecer a autonomia econômica, o empreendedorismo e as políticas de proteção. Para os pequenos empreendedores e trabalhadores da economia criativa e solidária, abrir caminhos para capacitação, inovação, geração de renda e acesso a mercados.
A inteligência artificial, em particular, já transforma profissões, empresas e serviços públicos. Incorporá-la ao planejamento municipal permitiria preparar a população para essas mudanças e melhorar a eficiência da própria Prefeitura.
Rio Branco já possui uma secretaria com atribuições relacionadas ao desenvolvimento econômico, tecnologia e inovação. Portanto, o desafio não é simplesmente criar novas estruturas, mas avaliar como integrar essas agendas, com competências definidas e responsabilidade fiscal.
Uma reforma com esse alcance demonstraria que Alysson está atento não apenas às demandas imediatas de Rio Branco, mas também às transformações em curso no Acre, no Brasil e no mundo.
Há ainda a possibilidade de aproximação com políticas nacionais de economia solidária, inovação e inclusão produtiva, ampliando oportunidades de cooperação institucional e acesso a programas federais.
Alysson tem a prerrogativa de promover mudanças e a oportunidade de estabelecer prioridades próprias. O desafio é conciliar esse movimento com o reconhecimento da construção política que o levou à Prefeitura.
No fim, a reforma administrativa não deveria ser medida apenas por quem entra ou sai do governo, mas pelas políticas que consegue estruturar, pelas oportunidades que pode gerar e pelos resultados que entrega à população.
Modernizar a Prefeitura e preservar a capacidade de articulação política não são objetivos incompatíveis. Esse é o equilíbrio que a reforma precisa buscar.
No Acre, a eleição também acontece fora dos palanques. No mercadinho, no açougue, na panificadora, na banca de tacacá ou de quibe, sempre aparece alguém disposto a dar o resultado antes da apuração.
É igual futebol. O time leva vantagem, a torcida começa a cantar vitória, alguém já pede a conta e vai embora antes do apito final. Depois, se o placar muda, a culpa é do juiz.
Na política acreana, o campeonato está parecido.
Alan Rick já é tratado como derrotado em algumas rodas de conversa. Mailza Assis, como vencedora. Há quem comemore, quem lamente e quem já pense em 2027.
Mailza terminou o primeiro turno à frente. É fato. Mas vantagem no placar não é súmula assinada.
E o futebol, convenhamos, está cheio de histórias de equipes que comemoraram antes da hora.
O mais interessante é que essa pressa em conhecer o vencedor não se limita ao governo estadual. Até na disputa presidencial, onde muitos consideram previsível o comportamento do eleitor acreano, Lula pode surpreender expectativas.
E quem conhece a política por estas bandas sabe que certeza demais costuma dar trabalho. Já vi a cidade amanhecer vermelha e anoitecer azul. E vice-versa.
Afinal, pesquisa não vota, palanque não vota e conversa de esquina, por mais animada que seja, também não.
Domingo, cada eleitor terá seu momento diante da urna, longe da arquibancada e dos comentaristas.
Quem quiser cantar vitória, que cante.
Só não esqueça que o árbitro ainda está com o apito na boca.
Porque, se tem uma coisa que aprendi acompanhando a política por estas bandas, é que o povo do Acre pode ser um monte de coisa. Otário é que não é.