A revisão do Plano de Uso da Reserva Extrativista Chico Mendes abriu, no Acre, uma disputa que vai muito além de uma mudança de regra: ela coloca frente a frente a sobrevivência econômica das famílias extrativistas e o risco de a maior referência da luta pela floresta em pé virar passagem para derrubada, grilagem, queimadas, invasões e pecuária ilegal. O alerta ganhou voz nas redes de Rogério Mendes, fundador do Eco Tour Resex, ambientalista, fotógrafo da reserva e jovem que construiu sua identidade pública dentro da floresta, entre trilhas, comunidades, memória seringueira e defesa da Amazônia viva.
Rogério não fala da floresta como cenário. Ele vive dela, fotografa suas trilhas, conduz visitantes, apresenta a rotina dos seringais e tenta fazer do turismo de base comunitária uma renda possível para quem quer permanecer no território sem trocar castanha, borracha, roçado, memória e cultura por pasto. Não é a fala distante de quem observa a Reserva Chico Mendes pelo mapa, mas de quem enxerga no Plano de Uso uma regra capaz de mudar a vida concreta de uma colocação inteira.
“Não podemos aceitar que uma mudança tão importante seja usada para atender interesses políticos, abrir caminho para irregularidades ou permitir que a destruição avance sobre áreas que pertencem à floresta, às famílias extrativistas e às futuras gerações”, escreveu Rogério. Em outra passagem, ele resumiu o sentido profundo da reserva: “A floresta não é um obstáculo: ela é vida, alimento, cultura, trabalho, memória e fonte de renda para milhares de famílias.”
A Resex Chico Mendes nasceu em 12 de março de 1990, pouco mais de um ano depois do assassinato de Chico Mendes, como resposta concreta à luta dos seringueiros contra a expulsão das famílias da mata e contra a transformação dos seringais em fazendas. A unidade federal administrada pelo ICMBio ocupa mais de 930 mil hectares no Acre e se tornou uma das referências mais conhecidas do Brasil quando o assunto é conservação com presença humana, trabalho tradicional e uso sustentável dos recursos naturais.
A importância da reserva está no que ela representa. Ali, a floresta não foi pensada como lugar vazio, trancado contra gente pobre, mas como casa, trabalho, cultura e sustento de populações tradicionais. A ideia de reserva extrativista nasceu da percepção de Chico Mendes e dos seringueiros de que preservar a Amazônia exigia manter vivas as pessoas que sabiam viver dela sem destruí-la. Por isso, mexer no Plano de Uso da Resex Chico Mendes não é apenas revisar um documento administrativo. É tocar no pacto político, social e ambiental que deu origem a uma das maiores conquistas dos povos da floresta no Brasil.
O Plano de Uso é a regra de convivência desse território. Ele define o que pode, o que não pode, como se produz, como se protege, como se evita que a necessidade de renda vire licença para devastar. O primeiro Plano de Utilização da Resex foi aprovado em 1995, quando associações, sindicatos, cooperativas e lideranças extrativistas ainda buscavam transformar em norma aquilo que já existia como acordo comunitário. Em 2006, uma nova etapa de revisão passou por oficinas nas comunidades e tentou atualizar a vida real dos moradores dentro das exigências de proteção da unidade.
Essa memória importa porque a revisão atual não pode nascer apenas de pressão política, medo ou improviso. Ela precisa começar pela pergunta que Chico Mendes deixou como herança: como garantir renda para quem vive na floresta sem destruir a base que sustenta essa vida? Rogério reconhece a necessidade de alternativas econômicas. Ele fala em valorização do extrativismo, produção sustentável, turismo de base comunitária, artesanato, agroflorestas, manejo responsável e políticas públicas que cheguem aos moradores. Mas traça uma linha que não pode ser apagada: nenhuma saída pode ser construída à custa de mais derrubada, invasões, queimadas, grilagem ou práticas ilícitas.
A tensão não é imaginária. A Resex Chico Mendes aparece há anos entre as áreas protegidas mais pressionadas pelo desmatamento na Amazônia. O avanço de pastagens, a presença de gado em áreas irregulares, a dificuldade de fiscalização, os conflitos fundiários e a ausência de alternativas econômicas suficientes criaram um cenário em que a floresta em pé precisa disputar espaço todos os dias com interesses que enxergam a reserva como terra disponível para ocupação, exploração e lucro rápido.
A Operação Suçuarana tornou essa ferida mais visível. A retirada de gado criado ilegalmente dentro da reserva expôs uma disputa que já estava instalada no território havia anos. De um lado, órgãos ambientais e decisões judiciais cobrando o cumprimento das regras de proteção. De outro, produtores, ocupantes e lideranças políticas pressionando por mudanças no Plano de Uso. No meio, famílias extrativistas que precisam viver, produzir, circular, escoar sua produção, educar os filhos e garantir renda sem serem confundidas com invasores ou usadas como escudo por quem quer enfraquecer a reserva.
Há ainda um problema antigo no chão da Resex: a falta de delimitação clara das colocações. Sem mapa, o morador tradicional fica inseguro, o invasor ganha brecha, a fiscalização se torna mais conflituosa e a regra perde força exatamente onde deveria proteger. O mapeamento das áreas de uso e ocupação, com participação comunitária, pode reduzir conflitos, separar direito de abuso e dar mais segurança às famílias que vivem no território de forma legítima.
Rogério toca nesse ponto quando defende que a revisão não seja feita contra quem mora na reserva, mas com quem carrega a floresta nas costas todos os dias. “Reajustar o Plano de Uso deve significar melhorar as condições de vida das famílias sem destruir nenhum palmo de floresta”, escreveu. A frase tem o peso de uma cobrança simples: regra nova só faz sentido se trouxer mais segurança, mais renda e mais presença do poder público, não se servir para apagar limites, enfraquecer acordos comunitários ou transformar irregularidade em direito adquirido.
No manifesto, ele amarra a revisão do plano à defesa direta do território. “Deve significar fortalecer a fiscalização, garantir participação popular, respeitar os acordos comunitários e proteger o território contra qualquer tentativa de enfraquecer sua função socioambiental.” É uma fala que corta o caminho do falso dilema. Rogério não nega que a vida na Resex precisa melhorar. Ao contrário, cobra alternativas econômicas reais. Mas coloca a floresta como limite inegociável, porque sem ela desaparecem também a renda, a cultura e a memória que sustentam as famílias extrativistas.
A defesa dele ganha força quando deixa de tratar a reserva como abstração e a chama pelo nome mais íntimo. “Defender a Reserva é defender a nossa casa. Defender a floresta em pé é defender renda, dignidade, cultura, clima e futuro.” Nessa formulação, a discussão deixa de ser apenas técnica. O Plano de Uso passa a carregar uma pergunta concreta: que tipo de casa o Acre quer deixar para as famílias que permaneceram no território depois de décadas de conflito, abandono e resistência?
Rogério fecha o manifesto sem margem para ambiguidade. “Não queremos uma reserva enfraquecida. Queremos uma reserva viva, protegida, respeitada e capaz de gerar renda para as famílias sem abandonar o compromisso maior: manter a floresta em pé!” A frase resume o ponto central da revisão. O problema não é atualizar a norma. O risco é usar a atualização para trocar o projeto histórico da Resex por um arranjo de ocasião, feito para acomodar pressão política, ocupação irregular e destruição já consumada.
É defesa de casa. A Resex Chico Mendes não é um pedaço qualquer do Acre. É um território nascido do sangue de uma geração que enfrentou pistoleiro, fazendeiro e abandono para provar que desenvolvimento não precisa ser sinônimo de devastação. Se a revisão do Plano de Uso fortalecer as comunidades e fechar a porta para invasão, grilagem, fogo e gado ilegal, ela honrará Chico Mendes. Se fizer o contrário, trocará uma história mundial por uma conta curta demais para o futuro da Amazônia.
O avanço das queimadas no Amazonas levou o governo federal a mobilizar aeronaves e equipes de combate aos incêndios florestais neste domingo (11). O estado registrou 1.380 focos de fogo nos dez primeiros dias de outubro, um aumento de 271% em comparação com o mesmo período de 2025. Enquanto os incêndios avançam, Manaus enfrenta níveis graves de poluição atmosférica, que provocaram a suspensão de aulas e alertas de risco à saúde da população.
A operação federal prevê o envio de dois aviões KC-390 da Força Aérea Brasileira (FAB), com chegada prevista para este domingo e início das operações na segunda-feira (12). O reforço inclui ainda quatro aeronaves Air Tractor, dois helicópteros e uma equipe de 30 profissionais enviada pelo governo de São Paulo, formada por 25 bombeiros militares e cinco integrantes da Defesa Civil.
Atualmente, 290 brigadistas federais atuam no Amazonas. O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional reconheceu, no sábado (10), a situação de emergência decretada pelo governo estadual em 36 municípios, medida que permite acelerar o repasse de recursos federais para enfrentar os incêndios.
O ministro Waldez Góes esteve no Amazonas para acompanhar a mobilização e garantiu apoio à operação. “Não vai faltar nada: equipamentos, veículos, homens, recursos, tudo o que for preciso será disponibilizado”, declarou.
A situação também preocupa pelas consequências diretas para a saúde. Na sexta-feira (9), Manaus registrou uma concentração de 196,4 microgramas por metro cúbico de partículas finas em suspensão no ar, conhecidas como MP2,5. O índice ultrapassa os limites considerados seguros e representa risco principalmente para crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias.
O monitoramento realizado por pesquisadores da Universidade do Estado do Amazonas identificou concentrações ainda mais elevadas. Na madrugada de sexta-feira, um dos registros chegou a 344,5 microgramas por metro cúbico, valor superior à faixa classificada como péssima nos parâmetros de qualidade do ar.
A fumaça provocou mudanças no funcionamento de serviços públicos. A Prefeitura de Manaus suspendeu as aulas da rede municipal na sexta-feira, assim como as atividades presenciais em repartições administrativas. A Universidade Federal do Amazonas, a Universidade do Estado do Amazonas e o Instituto Federal do Amazonas também interromperam atividades presenciais na capital.
As autoridades de saúde recomendaram que a população evite exercícios físicos ao ar livre, aumente a ingestão de água e utilize máscaras PFF2 quando houver exposição à fumaça. Entre os efeitos da poluição estão irritação nos olhos, tosse, dificuldade para respirar e agravamento de doenças respiratórias.
Os números do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) mostram a dimensão do avanço do fogo. Entre 1º e 10 de outubro de 2025, o Amazonas havia registrado 372 focos. No mesmo intervalo deste ano, foram contabilizados 1.380 registros, dos quais 1.186 ocorreram em áreas públicas.
O levantamento também identificou 246 focos em assentamentos federais, 116 em terras indígenas e 97 em unidades de conservação. Outros 174 registros foram associados ao desmatamento.
O governador Roberto Cidade afirmou que parte da fumaça que atinge o Amazonas também é transportada de outros estados, ampliando os efeitos da crise ambiental sobre a população.
Desde 2024, o governo federal disponibilizou R$ 45 milhões ao Amazonas por meio do projeto ProAmazon, destinados à estruturação do Corpo de Bombeiros e ao enfrentamento dos incêndios florestais. Desse montante, R$ 34,7 milhões já foram liberados.
A intensificação das queimadas coloca novamente a região amazônica diante dos impactos simultâneos da destruição da vegetação e da deterioração da qualidade do ar. Além das áreas diretamente atingidas pelo fogo, a dispersão da fumaça pode alcançar municípios distantes dos incêndios, ampliando a exposição da população à poluição atmosférica.
O Acre registrou um aumento de 11% na área sob alerta de desmatamento em setembro de 2026, na comparação com o mesmo mês do ano passado. Os dados foram divulgados na sexta-feira (9) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), por meio do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter).
A área identificada pelos satélites passou de 22,16 quilômetros quadrados, em setembro de 2025, para 24,59 quilômetros quadrados em setembro deste ano. A diferença foi de 2,43 quilômetros quadrados de vegetação sob alerta.
O aumento no Acre acompanhou o comportamento registrado em toda a Amazônia. No bioma, os alertas passaram de 327 quilômetros quadrados, em setembro de 2025, para 350 quilômetros quadrados no mesmo mês de 2026.
Apesar da elevação mensal, a Amazônia apresentou o segundo menor resultado para setembro nos últimos dez anos. O Pará concentrou a maior extensão sob alerta, com 177 quilômetros quadrados, seguido por Mato Grosso, com 59 quilômetros quadrados, e Amazonas, com 51 quilômetros quadrados.
No acumulado de janeiro a setembro, o cenário foi de redução. A área sob alerta de desmatamento na Amazônia caiu 27%, passando de 3.272 quilômetros quadrados em 2025 para 2.392 quilômetros quadrados em 2026.
O Deter utiliza imagens de satélite para identificar alterações na cobertura vegetal e fornecer informações às equipes de fiscalização ambiental. Os alertas permitem localizar áreas com possíveis ocorrências de desmatamento, mas não representam, necessariamente, a extensão definitiva da floresta derrubada.
As populações monitoradas de animais silvestres na América Latina e no Caribe registraram uma redução média de 95% entre 1970 e 2022, a maior queda entre as regiões do planeta. Os números fazem parte do Relatório Planeta Vivo 2026, divulgado nesta quinta-feira (8) pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), em parceria com a Sociedade Zoológica de Londres (ZSL).
Em escala mundial, o levantamento aponta uma redução média de 73% na abundância das populações de vertebrados selvagens ao longo dos 52 anos analisados, o equivalente a uma taxa média anual de 2,5%, conforme o estudo. Foram examinadas 35.803 populações de 5.790 espécies de mamíferos, aves, peixes, répteis e anfíbios.
Os percentuais não significam que 73% dos animais do planeta desapareceram ou que 95% das espécies latino-americanas foram extintas. O índice mede a variação média no tamanho das populações acompanhadas pelos pesquisadores, permitindo avaliar como a quantidade de indivíduos de determinadas espécies mudou ao longo do período.
Os ambientes de água doce, como rios e lagos, apresentaram o maior declínio global, com redução média de 85% nas populações monitoradas. Nos ecossistemas terrestres, a queda chegou a 69%, enquanto nos ambientes marinhos foi de 59%.
Entre as ameaças identificadas estão a transformação dos habitats naturais, a construção de barragens, os desvios de cursos d’água e outras intervenções que prejudicam a reprodução e a migração dos animais. No caso dos peixes, a interrupção de rotas migratórias pode comprometer a sobrevivência de populações inteiras.
Além da América Latina e do Caribe, a África apresentou redução média de 80% nas populações analisadas. Na Ásia e na região do Pacífico, a queda foi de 49%. A América do Norte registrou 28%, enquanto Europa e Ásia Central tiveram redução de 23%.
A diretora-geral do WWF Internacional, Kirsten Schuijt, afirmou que o atual modelo de crescimento econômico tem contribuído para a degradação dos ecossistemas e defendeu mudanças estruturais na produção de alimentos, na geração de energia e no financiamento das atividades econômicas.
“Parar e reverter essa tendência exigirá transformações em sistemas inteiros – desde como produzimos energia e alimentos até como financiamos nossas economias”, afirmou.
O relatório também relaciona a redução da biodiversidade a riscos econômicos. Cerca de US$ 58 trilhões do Produto Interno Bruto (PIB) mundial de 2023 estavam associados a atividades que dependem, de alguma forma, dos recursos e serviços oferecidos pela natureza.
Apesar das perdas, o levantamento apresenta experiências de recuperação de espécies. No Brasil, a população de onças-pintadas acompanhada por ações de conservação na Mata Atlântica cresceu 280% entre 2019 e 2025, resultado de iniciativas envolvendo governos, organizações ambientais e produtores rurais.
Outro exemplo é o da tartaruga-verde, que passou da categoria de ameaçada para pouco preocupante em 2025, após cinco décadas de esforços de conservação desenvolvidos em mais de 80 países.
Para a especialista em conservação do WWF-Brasil, Helga Correa, essas experiências demonstram que a redução das populações de animais pode ser revertida com políticas permanentes de proteção ambiental.
“Isso exige ações de conservação contínuas e em escala, com proteção e restauração dos ecossistemas e enfrentamento das causas da perda de biodiversidade”, afirmou.
Os resultados do relatório devem integrar as discussões da 17ª Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP17), marcada para começar em 19 de outubro, em Yerevan, na Armênia. O encontro reunirá representantes de diferentes países para discutir medidas de proteção dos ecossistemas e financiamento da conservação ambiental.