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MEIO AMBIENTE

El Niño ganha força e coloca o mundo em alerta para calor, seca e chuvas extremas

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O El Niño voltou ao centro do mapa climático mundial em julho de 2026, com o Pacífico Equatorial mais quente, previsões convergentes de fortalecimento rápido e risco ampliado de eventos extremos em vários continentes. A atualização mais recente da Organização Meteorológica Mundial colocou o fenômeno em uma nova escala de preocupação: as condições já se formaram no Pacífico tropical e devem ganhar força entre julho e setembro, antes de atingir o período de maior influência entre novembro de 2026 e fevereiro de 2027.

A mudança nasce longe das cidades, dos roçados, dos portos e das redes elétricas, mas chega a todos esses lugares. No centro e no leste do Pacífico Equatorial, a água mais quente do que o normal altera ventos, desloca áreas de chuva, muda o comportamento de massas de ar e empurra o clima global para um período de maior instabilidade. O El Niño não cria sozinho cada seca, cada enchente ou cada onda de calor, mas aumenta a chance de que esses eventos apareçam com mais força em regiões já vulneráveis.

A Organização Meteorológica Mundial informou em 3 de julho que modelos de centros climáticos internacionais apontam aquecimento consistente do Pacífico Equatorial central e oriental, com anomalias médias sazonais da temperatura da superfície do mar acima de 2°C em áreas-chave de monitoramento. Esse patamar sustenta a previsão de um evento forte. A NOAA, agência climática dos Estados Unidos, também mantém o sistema em El Niño Advisory, classificação usada quando o fenômeno já está presente e deve continuar. No boletim de junho, o Climate Prediction Center calculou 63% de chance de um El Niño muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.

O termo “super El Niño” passou a circular em manchetes, conversas políticas e alertas públicos, mas a expressão não pertence à classificação operacional da Organização Meteorológica Mundial. A categoria técnica trabalha com eventos fracos, moderados, fortes ou muito fortes. Essa distinção evita um erro comum em momentos de alarme climático: transformar probabilidade em sentença. Um El Niño muito forte eleva o risco global, mas seus impactos mudam conforme a região, a estação do ano, a duração do fenômeno e a interação com outros sistemas, como o Dipolo do Oceano Índico, o Atlântico Tropical e padrões atmosféricos locais.

Ainda assim, o recado global é direto. A secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial, Celeste Saulo, afirmou que as condições de El Niño já estão em curso e devem se fortalecer rapidamente. “Isso vai intensificar as chances de seca e chuva intensa, além do risco de ondas de calor em terra e ondas de calor marinhas em muitas regiões do mundo”, disse. A frase resume o tamanho do problema: o mesmo fenômeno pode deixar uma área sem chuva e empurrar outra para precipitações acima do normal.

Entre julho e setembro, a previsão global aponta maior probabilidade de chuva acima da média no Pacífico Equatorial central e oriental. Ao mesmo tempo, partes do Oceano Índico tropical, do subcontinente indiano e da Austrália aparecem sob risco maior de chuva abaixo do normal. Na África Equatorial, o desenho é desigual: áreas próximas ao norte do Golfo da Guiné tendem a receber mais chuva, enquanto o Chifre da África aparece em cenário mais seco. Na América Central, no Caribe e no noroeste da América do Sul, a previsão favorece chuva abaixo da média. No sudoeste dos Estados Unidos, o sinal aponta maior chance de um período mais úmido.

A Europa entra no boletim com um padrão menos seguro, mas também dividido. As projeções sugerem maior possibilidade de chuva acima da média no sul do continente e chuva abaixo da média no norte. A própria Organização Meteorológica Mundial trata a confiança para a Europa como menor do que em outras regiões, um lembrete de que a influência do El Niño não se espalha pelo planeta em linha reta. O fenômeno conversa com oceanos, relevo, frentes frias, massas de ar e sistemas regionais que podem reforçar ou suavizar seus efeitos.

O calor aparece como a ameaça mais ampla. A atualização global prevê probabilidade muito alta de temperaturas acima da média na maior parte das áreas terrestres entre 60 graus sul e 60 graus norte, faixa que concentra quase toda a população mundial fora das regiões polares. Nos oceanos, o Pacífico Equatorial carrega a marca principal do El Niño, mas o Índico e o Atlântico Tropical também aparecem mais quentes do que o normal. Esse detalhe pesa porque mares aquecidos alimentam umidade, calor e energia nos sistemas meteorológicos.

Na prática, o novo alerta desloca o debate climático para a preparação. Agricultura, saúde pública, abastecimento de água, geração de energia, transporte, defesa civil e segurança alimentar entram na mesma equação. Em países dependentes de regimes regulares de chuva, um El Niño forte pode mexer no calendário de plantio, no preço dos alimentos e na pressão sobre reservatórios. Em áreas urbanas, ondas de calor aumentam internações, sobrecarregam redes elétricas e atingem com mais violência trabalhadores expostos, idosos, crianças e moradores de bairros com pouca arborização.

No Brasil, o boletim conjunto de Inmet, Inpe, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil Nacional coloca o país dentro desse tabuleiro global. A previsão para julho, agosto e setembro aponta, de forma geral, chuva acima da média em áreas do Sul e chuva abaixo da média no centro-norte. O documento também trabalha com alta probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre, quadro que pode ampliar ondas de calor e incêndios florestais.

A Amazônia aparece em uma zona sensível desse mapa. O risco não se resume ao termômetro. Em áreas do centro-norte brasileiro, menos chuva e calor persistente podem alongar a estiagem, reduzir níveis de rios, dificultar transporte fluvial, pressionar comunidades ribeirinhas, ampliar queimadas e espalhar fumaça sobre cidades. Quando o El Niño se fortalece, a crise não chega apenas pelo céu sem nuvens. Ela passa pela água que baixa, pelo solo que resseca, pela floresta que perde umidade e pelo ar que se torna mais pesado.

O alerta de julho também muda a responsabilidade política. O fenômeno ainda deve atingir o pico entre o fim de 2026 e o início de 2027, mas os efeitos preparatórios já batem à porta de governos, produtores, serviços de saúde e sistemas de proteção civil. Esperar o auge para reagir significa administrar a emergência quando a margem de manobra já ficou pequena. A atualização global deixa uma mensagem incômoda: o mundo sabe com meses de antecedência que o risco está aumentando. A diferença entre alerta e desastre dependerá da velocidade com que essa informação sair dos boletins técnicos e entrar no planejamento real das cidades, dos campos e das comunidades mais expostas.

Imagem de capa: Mapa da temperatura média global para maio. Crédito: Berkeley Earth

Acre

Ibama confirma destruição de motos e equipamentos em operação no Antimary

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O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) confirmou neste domingo (23) a inutilização de motocicletas e outros equipamentos durante uma operação de fiscalização ambiental na região do Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Antimary. A ação ocorreu no Ramal dos Paulistas, na área de divisa entre Boca do Acre, no Amazonas, e Porto Acre, no Acre.

A confirmação ocorreu após imagens de motocicletas destruídas e estruturas em chamas circularem nas redes sociais e provocarem reação de moradores e produtores rurais. Os registros mostram bens atingidos durante a fiscalização realizada na região.

A Associação Sem Fronteiras, que representa famílias do assentamento, cobrou esclarecimentos sobre a operação. A presidente da entidade, Lucilene da Cruz, afirmou que os moradores não pretendem impedir fiscalizações ambientais, mas questionam a destruição de casas, veículos, equipamentos e outros bens durante as ações.

Moradores também relataram o recolhimento de aparelhos celulares de pessoas que registravam a operação e afirmaram que veículos particulares teriam sido utilizados durante a ação. A entidade defende que eventuais infrações ambientais sejam individualizadas e que a responsabilização recaia sobre os responsáveis pelos ilícitos.

A inutilização de veículos e equipamentos usados em infrações ambientais está prevista nas normas administrativas do Ibama. A medida pode alcançar máquinas, veículos, embarcações, instrumentos e outros bens empregados na prática do ilícito. O procedimento precisa ser formalizado, acompanhado de relatório elaborado por servidores e de registros das condições dos bens antes e depois da destruição.

As regras também permitem a destruição ou inutilização quando o transporte e a guarda dos bens forem inviáveis ou quando houver risco de reutilização, danos ao meio ambiente ou comprometimento da segurança de moradores e agentes públicos envolvidos na fiscalização.

O episódio ocorre enquanto o Congresso discute mudanças nas regras para medidas cautelares adotadas em fiscalizações ambientais. A Câmara dos Deputados aprovou em maio o Projeto de Lei 2.564/2025, que modifica a Lei de Crimes Ambientais e restringe determinadas medidas antes da conclusão do processo administrativo. A proposta chegou ao Senado em junho e, em 18 de agosto, foi encaminhada à relatoria do senador Jaques Wagner na Comissão de Constituição e Justiça.

O PAE Antimary é alvo recorrente de ações contra desmatamento e ocupações irregulares. A situação fundiária da região também é motivo de disputa há anos, com famílias buscando regularização e órgãos federais atuando no combate a crimes ambientais em áreas públicas.

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Acre

Acre passa a exigir aval do Iphan em licenciamento de áreas com sítios arqueológicos

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O Acre passou a adotar nesta quinta-feira, 20 de agosto, novas regras para o licenciamento ambiental de empreendimentos e atividades localizados em áreas com sítios arqueológicos ou outros bens de interesse arqueológico. A Resolução Cemaf nº 2, de 12 de agosto de 2026, entrou em vigor com a publicação no Diário Oficial do Estado e cria procedimentos de prevenção, proteção, monitoramento e responsabilização para reduzir riscos ao patrimônio arqueológico.

A norma vale para processos de licenciamento protocolados a partir da publicação e considera tanto a Área Diretamente Afetada, onde ocorre a intervenção do empreendimento, quanto a Área de Influência Direta, sujeita aos impactos ambientais provocados pela atividade.

Uma das principais mudanças é a exigência de anuência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) sobre a existência de bens arqueológicos ou de interesse cultural na área do empreendimento. O documento passa a integrar o processo de licenciamento ambiental.

A manifestação do Iphan poderá determinar a realização de estudos arqueológicos específicos e a adoção de medidas preventivas, mitigadoras ou compensatórias. Caso não sejam encontrados bens arqueológicos na área diretamente afetada, o licenciamento poderá seguir normalmente.

Quando houver sítios arqueológicos na área do projeto ou em sua zona de influência direta, poderão ser adotadas medidas de proteção, inclusive cercamento. A extensão e o formato dessas medidas dependerão de diagnóstico elaborado por profissional habilitado e das orientações técnicas do Iphan.

A resolução também estabelece restrições para atividades capazes de danificar sítios arqueológicos. Entre elas estão abertura de ramais e estradas, gradeamento do solo, instalação de currais, bebedouros e determinadas cercas, plantio de culturas agrícolas ou florestais, construção de residências, açudes e barragens, desmatamento, instalação de redes elétricas e exploração mineral.

A exploração turística também dependerá de preparação prévia do sítio. Estruturas destinadas ao turismo não poderão ser instaladas antes da realização das pesquisas necessárias.

A pecuária deverá ser evitada diretamente sobre os sítios arqueológicos. A atividade poderá ocorrer em determinadas situações, mas sem confinamento de animais, instalação de equipamentos que causem danos ou trânsito de gado em manada durante a troca de pastagem.

Outro ponto da norma determina a paralisação imediata das intervenções quando forem encontrados vestígios arqueológicos durante a implantação, operação ou desativação de um empreendimento. O responsável deverá comunicar o achado ao órgão ambiental e ao Iphan antes da retomada das atividades no local.

Novas descobertas também deverão ser comunicadas imediatamente ao Iphan pelo responsável pelo achado ou pelo proprietário do imóvel. Até uma decisão do instituto, o ocupante da área ficará responsável pela conservação provisória do sítio.

O órgão ambiental estadual poderá manter uma base de dados própria com informações sobre sítios arqueológicos para apoiar o licenciamento e a gestão territorial. A previsão é de disponibilização digital das informações, respeitadas as normas aplicáveis, para auxiliar na definição de áreas prioritárias de preservação e nas ações de monitoramento.

Nos casos envolvendo pequenos produtores ou agricultores familiares, a Fundação de Cultura Elias Mansour poderá oferecer apoio ou assistência técnica para o cumprimento das exigências relacionadas à proteção arqueológica. A responsabilidade pelas providências necessárias ao licenciamento e à conservação dos sítios, porém, continua sendo do empreendedor ou proprietário.

A fiscalização poderá envolver vistorias presenciais, análise geoespacial e acompanhamento das condições dos sítios. Quando houver comprovação de alteração de patrimônio arqueológico, a fiscalização deverá ter tratamento prioritário. O descumprimento das regras poderá resultar em sanções administrativas, civis e penais.

A nova regulamentação substitui a Resolução Cemact nº 001, de janeiro de 2012. A atualização vinha sendo discutida no Conselho Estadual de Meio Ambiente e Floresta desde o primeiro semestre e foi aprovada pelo colegiado em 12 de agosto.

O debate também ocorre após questionamentos judiciais sobre normas estaduais anteriores. Em 2025, uma ação civil pública apontou problemas em regras que permitiam a tramitação de licenciamentos sem a participação adequada do Iphan e relacionou a situação a danos registrados em sítios arqueológicos do Acre.

Os geoglifos estão entre os principais bens arqueológicos abrangidos pela nova resolução. Essas estruturas são formadas por grandes valetas e muretas geométricas construídas por populações antigas e são encontradas principalmente no leste acreano. Além das estruturas de terra, os sítios podem reunir fragmentos de cerâmica, caminhos, montículos, objetos de pedra e outros vestígios da ocupação humana na Amazônia.

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MEIO AMBIENTE

Frigoríficos da Amazônia abateram 134 mil animais ligados a irregularidades socioambientais

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Frigoríficos instalados em seis estados da Amazônia Legal abateram ou exportaram 134.630 cabeças de gado provenientes de propriedades com irregularidades socioambientais em 2023 e 2024. O levantamento, divulgado nesta quinta-feira (20) pelo Ministério Público Federal (MPF), identificou animais associados a fazendas com desmatamento ilegal, trabalho em condições análogas à escravidão ou indícios de lavagem de gado.

As auditorias analisaram compras realizadas por frigoríficos no Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins. Foram encontradas inconformidades em todos os estados avaliados. O trabalho integra o terceiro ciclo unificado de fiscalização do TAC da Carne, acordo firmado entre o MPF e empresas do setor frigorífico para impedir a entrada de gado de origem irregular na cadeia de produção.

Entre os seis estados, apenas o Tocantins permaneceu, na média, dentro da margem considerada aceitável pelo MPF, de até 4% de irregularidades na amostra analisada. Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará e Rondônia ficaram acima desse patamar. Mato Grosso e Pará têm peso relevante no levantamento por concentrarem alguns dos maiores rebanhos bovinos do país.

A análise por unidade frigorífica apresentou resultado diferente. Trinta e duas unidades ficaram dentro do limite de até 4% de inconformidades. Procuradores envolvidos no trabalho afirmaram que a maior parte da produção pecuária monitorada atende às regras e que a fiscalização busca identificar os pontos da cadeia onde permanecem problemas ambientais e trabalhistas.

O TAC da Carne foi criado para ampliar o controle sobre fornecedores dos frigoríficos que operam na Amazônia. Entre as práticas que podem impedir uma propriedade de fornecer animais estão o desmatamento ilegal e o uso de mão de obra em condições análogas à escravidão. As auditorias também procuram identificar mecanismos usados para ocultar a verdadeira origem dos animais, prática conhecida como lavagem de gado.

Esse tipo de operação ocorre quando animais criados em uma propriedade irregular passam por outra fazenda antes de chegar ao frigorífico. A transferência pode dificultar a identificação da origem do rebanho e é um dos principais desafios dos sistemas de rastreabilidade da pecuária brasileira.

O terceiro ciclo de auditorias teve apoio da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) na organização das informações. A participação da universidade buscou padronizar dados enviados pelos estados, já que cada unidade da Federação utiliza sistemas próprios de controle de rebanho e de regularidade ambiental. Para o MPF, diferenças na disponibilidade e na qualidade dessas bases interferem diretamente na capacidade de rastrear os animais.

Os resultados mantêm a pressão sobre frigoríficos e produtores para ampliar a rastreabilidade do gado na Amazônia. O controle da cadeia é considerado uma das principais ferramentas para impedir que animais criados em áreas com desmatamento ilegal ou outras violações cheguem ao mercado consumidor brasileiro e às exportações.

Fonte: ((o))eco

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