A fumaça preta subiu sobre o rio Nanay na quinta-feira, 30 de julho de 2026, depois que um grupo instalado em sete dragas impediu uma operação da Marinha do Peru nos arredores de Puca Urco, distrito de Alto Nanay, na região amazônica de Loreto. A ata da ocorrência atribui aos ocupantes das embarcações agressões com pedaços de madeira e o lançamento de um recipiente de combustível incendiado contra os militares, que receberam ordem para recuar. Mulheres e menores de idade estavam no local. O confronto, ocorrido dois dias depois das festas de independência do Peru, expôs a perda de controle sobre uma área onde a mineração ilegal passou a combinar ouro, dinheiro, armas e resistência organizada à fiscalização.
O fogo aparece entre estruturas flutuantes cobertas por lonas. Homens, mulheres e crianças permanecem sobre balsas e embarcações amarradas umas às outras. A cena não se parece com uma frente de mineração isolada, montada às pressas para desaparecer ao primeiro ruído de motor militar. Há moradia, cozinha, combustível, comunicação e gente suficiente para formar uma barreira humana diante da operação. Essa estrutura transforma o rio em território ocupado e aumenta o risco de uma tragédia sempre que as forças de segurança tentam chegar às dragas.
Um dos supostos participantes do ataque já havia sido investigado por outra ocorrência em Puca Urco, em 15 de junho de 2023. O caso, aberto por resistência ou desobediência à autoridade, acabou arquivado. A nova acusação ainda precisa passar por investigação, identificação formal dos envolvidos e direito de defesa. A repetição de confrontos no mesmo lugar, porém, ajuda a compreender por que integrantes do Ministério Público peruano passaram a defender a declaração de estado de emergência e uma intervenção permanente das forças policiais e militares no Alto Nanay.
Entre janeiro e abril de 2026, a Fiscalía peruana registrou 29 pontos de mineração ilegal em Iquitos, Maynas e Nauta. O número cobre apenas ocorrências que chegaram aos órgãos públicos. Em rios extensos, com canais escondidos pela floresta e longas distâncias entre as comunidades, parte das dragas pode funcionar durante semanas sem ser alcançada por qualquer fiscalização.
Puca Urco já havia recebido uma grande operação em junho. A Marinha peruana apreendeu e destruiu balsas, motores, geradores, compressores, bombas, combustível, equipamentos de internet via satélite e outros materiais avaliados em 411.830 soles. Ao longo daquele mês, quatro operações nos rios Nanay, Amazonas, Marañón e Tigre terminaram com 20 dragas destruídas e bens avaliados em mais de 800 mil soles. De janeiro a maio, o governo peruano calculou em mais de 1,2 bilhão de soles o valor de máquinas e insumos destruídos em ações contra a mineração ilegal no país.
Menos de um mês depois, sete dragas estavam reunidas novamente na área. O intervalo curto entre a operação de junho e o confronto de julho expõe o limite das ações temporárias. O Estado chega, destrói equipamentos e parte. A engrenagem que sustenta a mineração continua funcionando por meio de fornecedores de combustível, motores, peças, antenas, alimentos, mercúrio e compradores dispostos a receber o ouro. Uma draga perdida pode ser substituída quando o lucro permanece alto e os financiadores continuam fora do alcance das operações fluviais.
O Nanay não é apenas um caminho para embarcações clandestinas. A bacia fornece água para Iquitos, a maior cidade da Amazônia peruana, e abastece comunidades que dependem diretamente do rio para beber, cozinhar e pescar. A mineração remove o fundo dos cursos d’água, espalha sedimentos e usa mercúrio para separar o ouro. Pesquisas realizadas na região encontraram concentrações do metal acima dos limites recomendados em peixes e em moradores da bacia. O veneno percorre a cadeia alimentar e se acumula no corpo, com riscos maiores para crianças e gestantes.
O confronto de Puca Urco ocorreu dentro de uma crise que já ultrapassou os órgãos ambientais do Peru. Comunidades indígenas e ribeirinhas levaram o país às instâncias da Comunidade Andina por falhas no combate ao garimpo e ao tráfico de mercúrio. Em julho de 2026, o Tribunal de Justiça da Comunidade Andina admitiu um caso contra o Estado peruano por possíveis violações das obrigações regionais de enfrentamento à mineração ilegal. A disputa pode obrigar o governo a rever leis, operações e mecanismos de rastreamento do ouro.
O rio Nanay fica ao norte do Acre e não atravessa a fronteira brasileira. Loreto se relaciona diretamente com o estado do Amazonas, enquanto o território acreano encontra os departamentos peruanos de Ucayali e Madre de Dios. A distância entre Puca Urco e as aldeias do Alto Juruá não quebra, contudo, a conexão entre os crimes. O ouro, a cocaína, a madeira, o combustível, o mercúrio e o dinheiro circulam por redes que atravessam rios, trilhas, estradas clandestinas, pistas de pouso e cidades dos dois países.
Essa ligação ganhou um rosto concreto no início de julho, quando a ameaça atravessou a linha internacional e entrou na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo, no Acre. Nos dias 5 e 6, homens armados invadiram o território do povo Ashaninka e percorreram a comunidade à procura de lideranças. A denúncia foi apresentada por Francisco Piyãko, coordenador-geral da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá e uma das principais vozes da comunidade Apiwtxa.
Na noite de 6 de julho, cinco homens encapuzados, armados com fuzis e falando espanhol chegaram à casa de uma liderança que não estava na aldeia. Era a segunda entrada do grupo em poucos dias. Famílias assustadas reuniram as crianças em um imóvel para protegê-las enquanto pediam socorro. Quando as forças de segurança chegaram, os invasores já haviam desaparecido pela floresta, deixando rastros no caminho.
Piyãko afirmou que os homens não entraram no território apenas para retirar madeira, caçar ou usar o rio como passagem. Eles procuravam pessoas específicas. A denúncia entregue às autoridades sustenta que as lideranças corriam risco de morte. “Eles nunca tinham entrado no nosso território. A gente acha isso muita audácia”, afirmou Francisco Piyãko.
A comunicação do caso levou ao envio de equipes do Grupo Especial de Operações em Fronteira, do Centro Integrado de Operações Aéreas, da Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Acre e do Exército. O primeiro contingente policial chegou à região no dia 7 de julho, e um novo grupo foi deslocado no dia 9. A presença armada trouxe uma resposta imediata, mas as lideranças Ashaninka cobraram proteção contínua, inteligência e cooperação com o Peru. Missões de alguns dias não acompanham organizações que conhecem os canais dos rios, mudam rotas e esperam a retirada das equipes públicas.
A invasão rompeu uma fronteira que a comunidade conseguiu defender durante décadas. Os Ashaninka do rio Amônia recuperaram áreas degradadas, organizaram sistemas próprios de vigilância, fortaleceram a produção comunitária e impediram a instalação de atividades ilegais dentro da terra indígena. Essa resistência transformou Apiwtxa em barreira contra a ocupação criminosa, mas também colocou suas lideranças no caminho de grupos interessados em abrir rotas entre o Peru e o Brasil.
A conexão está na estrutura que permite aos negócios ilegais crescerem dos dois lados da fronteira: pouca presença permanente do Estado, rios difíceis de vigiar, estradas abertas sem controle, circulação de armas, comunicação por satélite, lavagem de dinheiro e comunidades que se tornam o primeiro obstáculo à passagem dos criminosos.
No lado peruano próximo ao Acre, o departamento de Ucayali concentra uma extensa rede de estradas ilegais usadas por atividades ligadas à retirada clandestina de madeira, ao cultivo de coca, ao tráfico de drogas e a outros crimes ambientais. A abertura ou reativação de ramais aproxima esses negócios das cabeceiras dos rios que entram no Brasil. Desde 2021, Francisco Piyãko já alertava para a reabertura ilegal da estrada UC-105, projetada para ligar Nuevo Italia a Puerto Breu e capaz de pressionar territórios Ashaninka nos dois países.
O avanço das organizações criminosas também mudou a natureza da ameaça. Durante anos, muitas comunidades enfrentaram madeireiros, caçadores e invasores interessados em retirar recursos naturais. Agora, lideranças descrevem grupos que reúnem narcotráfico, mineração ilegal, exploração de madeira, armas e lavagem de dinheiro. As mesmas rotas podem transportar cocaína em uma viagem, combustível em outra e ouro sem origem comprovada no retorno.
Para os Ashaninka, a fronteira política não divide famílias, língua, memória ou território ancestral. Há comunidades no Acre e no Peru, unidas por relações de parentesco e circulação tradicional. Para as organizações criminosas, a linha internacional também perde importância, mas por outra razão: ela cria duas jurisdições, diferentes estruturas policiais e brechas que permitem escapar de uma operação atravessando rios ou caminhos na mata.
A fumaça sobre as balsas do Peru e o medo dentro das casas de Apiwtxa pertencem à mesma crise amazônica, embora não tenham os mesmos responsáveis comprovados. O crime avança onde encontra território, lucro e silêncio. A população local permanece na linha de frente, espremida entre homens armados e operações que chegam depois da denúncia.
Combater essa estrutura exige mais do que destruir dragas ou mandar patrulhas por alguns dias. Brasil e Peru precisam compartilhar inteligência, vigiar o comércio de combustível e mercúrio, rastrear o ouro, bloquear pistas e estradas clandestinas, investigar financiadores, proteger lideranças ameaçadas e manter equipes nas áreas críticas. Sem essa presença, o custo recai sobre quem vive à margem dos rios.
Fonte: OjoPúblico