O governo Lula, por meio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), anunciou a criação de seis novos assentamentos no Acre, revitalizando a política de reforma agrária e impulsionando a agricultura familiar na região. Esses projetos assentam cerca de 1.200 famílias e abrangem uma área de aproximadamente 142 mil hectares, distribuídos em seis municípios.
Entre os assentamentos criados em 2023 e 2024, destacam-se o PA Alto Purus e o PA Afluente, em Manoel Urbano; o PA Arez e o PA Hermano Filho, em Sena Madureira; o PA Hermenegildo Jucá, em Cruzeiro do Sul; e o PDS Mississipe, em Marechal Thaumaturgo. Este último, oficializado em portaria, conta com uma área de 9.109 hectares, destinada a 242 famílias .
O superintendente do Incra no Acre, Márcio Alecio, enfatizou a importância dessa ação: “Fazia mais de 8 anos que o Incra não criava assentamento no Acre, e no governo do presidente Lula essa ação tão importante para fomentar a agricultura familiar foi retomada. Em menos de dois anos já criamos seis assentamentos. Até o final de 2024, criaremos mais dois ou três, e até 2026 serão cerca de 20 novos projetos.”
Além da criação de assentamentos, o Incra regularizou cerca de 4 mil famílias entre 2023 e 2024 e destinou uma área histórica de 100 mil hectares em 2024, priorizando a agricultura familiar. Alecio destacou que o esforço visa “potencializar a agricultura familiar”, e que os assentamentos criados permitirão uma maior segurança alimentar e desenvolvimento econômico para as famílias envolvidas.
O ex-prefeito de Rio Branco e pré-candidato ao governo do Acre, Tião Bocalom, apresentou suas diretrizes políticas e econômicas para o estado durante o podcast Papo Informal #158, conduzido pelo apresentador Luciano Tavares. A consolidação do municipalismo, a expansão da produção rural e a descentralização de investimentos formam a base do seu projeto para a próxima disputa majoritária. A estratégia concentra-se na transferência de suporte técnico e de recursos financeiros para as gestões das cidades do interior como principal engrenagem de desenvolvimento regional.
O fortalecimento das 22 prefeituras acreanas passa pela criação de consórcios intermunicipais e pela reestruturação dos serviços básicos. Um estudo de viabilidade, atualmente financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em parceria com o governo estadual, formulará um novo plano de ação para a destinação de resíduos sólidos, abastecimento de água e tratamento de esgoto. A experiência administrativa implementada na capital, que projeta elevar a capacidade de tratamento de esgoto de 2,2% para 50% até o fim do ano, fundamenta a proposta de expansão do saneamento básico para os demais municípios.
A segurança pública integra o planejamento estratégico estadual com foco no uso intensivo de tecnologia. A operação de um centro de controle equipado com milhares de câmeras de monitoramento e a formalização de um convênio de inteligência com a Polícia Federal em Rio Branco atuarão como modelos operacionais para o interior. No setor econômico, a produção agrícola orienta o esforço para a substituição de produtos importados. “O Acre não tem minério, não tem petróleo. Por que não pegamos a nossa terra, com o melhor clima do Brasil, e fazemos acontecer?”, indagou. O cultivo do café robusta amazônico e da soja assume protagonismo na balança comercial, enquanto a indústria frigorífica local organiza o aumento do abate diário de 30 mil para 150 mil aves, injetando capital e fomentando novas cadeias de fornecedores rurais.
A gestão de infraestrutura exigirá revisão rígida de parâmetros técnicos após o desabamento da ponte Frei Paulino Baldassar, localizada sobre o rio Iaco. A falha estrutural originou-se no projeto executivo formulado pela construtora responsável, que desconsiderou características geológicas fundamentais da região. O solo amazônico, composto por extensas camadas de tabatinga e material poroso, retém água subterrânea e provoca o escorregamento físico da base de sustentação. “Qualquer projeto que tiver que ser feito para uma ponte tem que levar em consideração o solo falso do Acre”, explicou, defendendo a exigência de fundações de alta profundidade para evitar novos colapsos na malha viária.
O cenário político estadual e a corrida eleitoral dividem espaço com a montagem dos palanques partidários. A atual filiação ao PSDB, sigla posicionada na centro-direita, mantém o alinhamento ideológico irrestrito com o ex-presidente Jair Bolsonaro. A prioridade do diretório local é ampliar a representatividade na Câmara dos Deputados com a eleição de até dois parlamentares no próximo pleito. As pesquisas de intenção de voto divulgadas neste período não alteram o roteiro da pré-campanha, baseando-se no histórico de pleitos anteriores nos quais os números das sondagens iniciais não refletiram a decisão final das urnas.
Thor Dantas reconhece legado da Frente Popular, mas diz que quer discutir “o Acre de hoje”
Em entrevista ao Bar do Vaz, pré-candidato do PSB afirmou que o grupo teve méritos e erros, citou transformações no Estado e defendeu que o debate eleitoral olhe para o futuro
O médico infectologista Thor Dantas, pré-candidato ao governo do Acre pelo PSB, adotou um tom de reconhecimento ao falar sobre a Frente Popular durante entrevista ao programa Bar do Vaz, mas procurou direcionar a discussão para os desafios atuais do Estado.
Questionado pelo jornalista Roberto Vaz sobre se assumiria o legado do grupo político que governou o Acre por duas décadas, Thor afirmou que sua pré-candidatura não pretende se concentrar em debates sobre o passado.
“Eu venho para falar do Acre de hoje e para falar do Acre do nosso futuro”
Segundo ele, o foco deve estar nos problemas enfrentados atualmente pelo Estado e nas propostas para os próximos anos. “Eu estou me colocando à disposição dessa candidatura para falar dos problemas que o nosso Acre tem hoje e dizer que eu tenho a minha visão sobre os problemas do Acre”, disse.
Ao ser perguntado se a presença de aliados históricos, como Jorge Viana e Binho Marques, representaria apenas uma nova versão da Frente Popular, Thor respondeu que o grupo deixou um legado na história acreana. “Eu acho que a Frente Popular tem o seu legado”, declarou. “A história é capaz de falar por si só.”
Na entrevista, o pré-candidato relembrou sua chegada ao Acre, em 1999, após passar mais de uma década fora do Estado durante sua formação médica. Segundo ele, naquele período o Acre enfrentava dificuldades em áreas como infraestrutura e saúde.
Thor afirmou ter acompanhado mudanças importantes ao longo dos anos e citou avanços em setores como educação, saúde e infraestrutura. Para ele, esse legado é reconhecido até mesmo por adversários políticos.
“O legado da Frente Popular não sou eu que tenho que defender”, afirmou. “Os opositores da Frente Popular reconhecem o legado que a Frente Popular entregou.”
Ele também mencionou nomes como Jorge Viana, Binho Marques, Raimundo Angelim, Marcos Alexandre, Tião Viana e Gilberto Siqueira como personagens centrais desse período da política acreana.
Apesar do reconhecimento, Thor afirmou que os governos da Frente Popular também cometeram erros. “Essas pessoas fizeram a transformação que o Acre experimentou, tiveram seus méritos e tiveram erros, como todas as pessoas têm erros e acertos”, disse.
Ao ser questionado sobre quais teriam sido esses erros, o pré-candidato evitou apontar episódios específicos e voltou a enfatizar a necessidade de discutir o futuro.
“Eu quero falar do futuro”, respondeu.
Thor também avaliou que o desgaste político enfrentado pelo grupo ao longo dos anos foi resultado de uma combinação entre fatores internos e externos. “Todo processo de gestão política, uma hora se esgota. Tem a fadiga natural do poder”, afirmou.
Além do tempo de permanência no governo, ele citou a crise econômica nacional, o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a chegada das facções criminosas ao Acre durante o segundo mandato de Tião Viana como elementos que contribuíram para o cenário vivido naquele período.
Ao longo da entrevista, Thor procurou construir uma posição que reconhece a importância histórica da Frente Popular, sem transformar sua pré-candidatura em uma defesa dos governos passados. A estratégia, segundo suas próprias declarações, é concentrar o debate nos desafios atuais do Acre e nas perspectivas para o futuro do Estado.
Entre acertos e erros, o povo do Acre sempre viveu uma espécie de gangorra política, econômica e social. Muita gente foi embora, muita gente chegou, muitos projetos nasceram, outros ficaram pelo caminho. Agora, mais do que revisitar o que a Frente Popular foi ou deixou de ser, a pergunta que deve atravessar a eleição é outra: afinal, o que o Acre de hoje quer para o próprio futuro?
Foto: Sérgio Vale – Segue ele no Instagram @sergiovaleac
A queda da ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira, entrou no centro do debate político na Assembleia Legislativa do Acre nesta terça-feira, 9, a partir de uma questão que o ÉPop também já havia colocado como ponto decisivo para a perícia: as diferenças entre o anteprojeto apresentado pelo Deracre e o projeto executivo que levou à construção da obra sobre o Rio Iaco. Em discurso no plenário, o deputado Edvaldo Magalhães cobrou respostas sobre a possível redução de estacas, mudanças nas dimensões da fundação, substituição de elementos previstos originalmente e autorização para alterações em uma estrutura erguida em área de risco conhecido de erosão e “terra caída”.
A fala do parlamentar reforça o eixo principal da apuração publicada pelo ÉPop: a ponte não pode ser analisada apenas como vítima de um fenômeno natural. O Rio Iaco tem histórico de erosão nas margens, e o próprio projeto da obra reconhecia esse risco. Por isso, a investigação precisa confrontar o que foi previsto, o que foi aprovado, o que foi executado e o que foi efetivamente fiscalizado pelo poder público. A pergunta central deixou de ser apenas por que a ponte caiu. Agora, a questão é saber se ela foi construída exatamente como deveria para resistir ao local onde foi implantada.
Edvaldo tratou desse ponto ao explicar o modelo de contratação usado na obra. Segundo ele, no regime de contratação integrada, o governo apresenta um anteprojeto, licita a obra e a empresa vencedora elabora o projeto executivo. A fiscalização do contratante, nesse caso o Deracre, teria de verificar se o projeto final respeitava as premissas do anteprojeto. Foi nesse trecho que o deputado levantou a primeira cobrança direta: “Por que que o projeto executivo está bem diferente do que o anteprojeto apresentado pelo Deracre? Quem foi que deu o de acordo para essas mudanças?”
A pergunta dialoga diretamente com a apuração técnica feita pelo ÉPop. O anteprojeto da ponte tratava a margem esquerda, no lado do Centro de Sena Madureira, como uma área vulnerável, com necessidade de soluções específicas de fundação, drenagem e proteção contra a erosão. As pranchas analisadas pela reportagem apontavam estacas escavadas de concreto armado com diâmetros de 1,20 metro e 1,40 metro, além de profundidades que chegavam a 20 e 30 metros, conforme o ponto da estrutura. Essa informação se tornou ainda mais relevante depois do colapso, porque a queda ocorreu justamente em um ambiente de margem instável, onde a fundação deveria cumprir papel decisivo.
No plenário, Edvaldo também cobrou explicações sobre possível redução das peças estruturais. “As estacas tinham uma extensão maior e uma circunferência também maior, de volume de concretagem maior. Por que diminuíram? Por que substituíram as estacas? Das estacas, os anéis de aço que constavam do anteprojeto, por quê? Para baratear a obra? Quem concordou com isso? Quem atestou isso? Quem deu de acordo para isso?”, questionou.
Esse é o ponto mais sensível da apuração. Uma ponte pode sofrer com a movimentação da margem de um rio amazônico, mas a engenharia existe justamente para prever esse tipo de comportamento. Em Sena Madureira, o fenômeno das terras caídas não era surpresa. O barranco do Rio Iaco já aparecia como fator de risco antes da inauguração. Se houve alteração nas fundações, se as estacas executadas ficaram menores ou diferentes das previstas, se houve retirada de camisas de aço ou mudança de solução sem justificativa técnica robusta, a perícia terá de dizer quem tomou essa decisão e quem a aceitou dentro do Estado.
A reportagem do ÉPop já havia apontado que a análise não deve ficar restrita à imagem da ponte rompida. A investigação precisa chegar às sondagens, aos memoriais de cálculo, às pranchas do projeto executivo, aos boletins de medição, aos relatórios de fiscalização, aos diários de obra, às notas de pagamento e ao chamado “as built”, documento que mostra como a estrutura ficou depois de executada. Sem essa comparação, qualquer resposta sobre a queda será incompleta.
Edvaldo também rejeitou a tentativa de apresentar o desbarrancamento como explicação suficiente. Ele lembrou que o fenômeno é conhecido no Acre e faz parte da experiência de quem vive às margens dos rios. “Todo e qualquer engenheiro, toda e qualquer empresa que minimamente se preze ao construir na beira dos barrancos sabe que tem que ter um cuidado especial com as chamadas sondagens, com as fundações. Porque o barranco pode levar. Imagine um construtor de ponte, aí que a tecnologia tem que ser avançada”, afirmou.
A ponte Frei Paolino Baldassari foi entregue como obra de ligação entre o Centro e o Segundo Distrito de Sena Madureira. Para a cidade, ela representava uma solução esperada havia décadas. Por isso, a queda produziu um impacto que vai além do prejuízo material. O colapso interrompeu uma promessa de mobilidade urbana, expôs dúvidas sobre a qualidade da obra e abriu uma crise de confiança sobre a capacidade do Estado de contratar, acompanhar e receber estruturas públicas em áreas ambientalmente complexas.
O deputado também levou ao debate o valor pago pela obra. Edvaldo afirmou que a planilha de pagamentos superou R$ 45 milhões, conforme apuração também do ÉPop, embora a obra tenha sido anunciada inicialmente em valores menores. Ele cobrou transparência sobre a origem dos recursos e levantou a possibilidade de haver dinheiro federal na execução. “Houve recursos federais nesta obra? Porque se houve, tem que chamar a Polícia Federal também para investigar”, disse.
Documentos do projeto já apontavam erosão, escorregamentos, fundações profundas e drenagem especial na área da ponte.
Esse ponto amplia o alcance da apuração. Se a obra teve recursos exclusivamente estaduais, a investigação tende a ficar concentrada nos órgãos locais de controle, no Ministério Público Estadual, no Tribunal de Contas e na própria Assembleia. Se houve verba federal, ainda que repassada ao Tesouro estadual por emendas ou outros mecanismos, a Polícia Federal e órgãos federais de controle podem entrar no caso. A resposta depende da rastreabilidade dos pagamentos e da origem efetiva do dinheiro usado na ponte.
No segundo momento em que voltou ao assunto, Edvaldo endureceu a cobrança sobre a qualidade da execução. Ele citou imagens em que parte do tabuleiro teria sido perfurada por uma estaca durante o colapso e disse que a engenharia precisa verificar a cura do concreto, a profundidade das estacas e a conformidade da estrutura. “A engenharia pode comprovar se a cura tava correta. A engenharia pode comprovar a profundidade da estaca. Porque o fenômeno da terra caída, pelo amor de Deus, todo ano acontece”, afirmou.
As perguntas feitas por Edvaldo Magalhães no plenário reforçam o caminho já apontado pelo ÉPop: a investigação precisa sair da superfície do desabamento e chegar ao subsolo da obra, onde estavam as fundações, as escolhas de engenharia e as assinaturas que autorizaram cada mudança.