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Isaac Piyãko deixa Dsei e encerra ciclo marcado por articulação e presença nos territórios

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Ao se despedir da coordenação do Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Juruá, na última semana, Isaac Piyãko fez um balanço do período em que esteve à frente da saúde indígena na regional e resumiu o momento como uma etapa de gratidão, reflexão e compromisso com a continuidade do trabalho. Na fala de despedida, ele agradece aos profissionais do distrito, às lideranças, aos povos indígenas e às instituições parceiras que estiveram ao lado da gestão. “Esse é o momento de gratidão, é o momento de muita reflexão sobre a minha passagem aqui pelo Dsei Alto Rio Juruá”, afirma Isaac.

A saída de Isaac encerra um ciclo iniciado oficialmente em maio de 2023, quando ele assumiu a coordenação distrital. Liderança do povo Ashaninka, Isaac chegou ao cargo trazendo uma trajetória já consolidada no movimento indígena, na educação e na vida pública. Em seu currículo, ele traz a formação como licenciado em Educação Escolar Indígena pela Universidade Federal do Acre (Ufac), professor indígena, ex-presidente do Conselhos Distritais de Saúde Indígena (Condisi) no Vale do Juruá e ex-prefeito de Marechal Thaumaturgo. 

O desafio que ele encontrou no Dsei era de grande escala. O Plano Distrital de Saúde Indígena 2024-2027 mostra que o Dsei Alto Rio Juruá atende mais de 20 mil indígenas, distribuídos em 163 aldeias, 30 territórios indígenas e oito municípios do Acre, numa área extensa e marcada por dificuldades logísticas, sobretudo no deslocamento fluvial. São sete polos-base, quatro UBSIs e uma estrutura que depende de articulação permanente para fazer o atendimento chegar às comunidades. 

Foi nesse cenário que a gestão de Isaac buscou organizar a rede, fortalecer contratos, ampliar diálogo com as lideranças e melhorar as condições de funcionamento da política de saúde no território. Em sua fala, ele resume essa linha de atuação ao dizer que procurou contribuir “com a política de saúde dos povos indígenas” e que trabalhou para “fazer com que a política de saúde, o sistema de saúde da regional tenha mais condição de chegar melhor nos territórios”. Em outro momento, acrescenta: “O que eu pude fazer, foi procurando acertar o melhor para a nossa população”.

Durante esse período, o distrito esteve presente em ações que reforçaram a assistência e a articulação com outros entes públicos. Entre elas, a participação em ações itinerantes de saúde em municípios do Juruá, o apoio à redução de filas para atendimento especializado e a condução do planejamento distrital, aprovado com participação de conselheiros, lideranças e entidades indígenas. O plano do Dsei também aponta indicadores como cobertura de pré-natal acima da meta pactuada para 2023 e projetos em todos os polos-base voltados à valorização das práticas tradicionais de cuidado em saúde. Esses dados ajudam a mostrar que, mesmo diante de um território de acesso difícil e demandas acumuladas, a gestão conseguiu manter frentes de organização e expansão da assistência. 

Na despedida, Isaac não esconde que o cenário segue exigindo muito esforço. “A gente sabe que existem muitas dificuldades, são muitas as necessidades”, afirmou. Ao mesmo tempo, definiu o período como uma experiência que valeu a pena: “Tudo isso foi uma luta que valeu a pena”. Na avaliação dele, o trabalho precisa continuar com atenção às crianças, aos idosos, aos territórios e às ações de saneamento e saúde ambiental, áreas que seguem centrais para a saúde indígena no Alto Rio Juruá.

As manifestações publicadas por colaboradores do Dsei ao longo da semana reforçam a imagem de uma gestão reconhecida internamente. Nas mensagens compartilhadas nas redes sociais, Isaac é descrito como uma liderança de “serenidade, firmeza, paciência, coragem e escuta ativa”, alguém que “fortaleceu o DSEI/ARJ” e deixou “um legado histórico de contribuição para a saúde indígena do Alto Rio Juruá”. Em outras homenagens, aparece como “mentor e líder exemplar”, além de receber agradecimentos pela “confiança e parceria”, pela “sabedoria e dedicação à saúde indígena” e pelo trabalho “marcado por compromisso, dedicação e respeito às comunidades”. O conjunto dessas mensagens ajuda a compor um retrato de reconhecimento construído dentro da própria equipe, fortalecendo o respeito e a união de uma liderança indígena com as mais diferentes populações.

Agora, Isaac passa a abrir uma nova frente de atuação na política partidária. O nome dele é citado pela direção do PT do Acre como um dos pré-candidatos do campo progressista para a disputa de uma vaga na Assembleia Legislativa do Acre em 2026. Em fevereiro e março deste ano, o presidente estadual do partido, André Kamai, apresentou Isaac entre os nomes trabalhados para a chapa de deputado estadual.

Isaac deixa a coordenação levando consigo uma experiência direta com a realidade da saúde indígena, com os limites estruturais da assistência na floresta e com a necessidade de articulação entre União, municípios, lideranças e profissionais de base. Ao encerrar a fala, ele próprio sinaliza que não está deixando a pauta para trás: “Meu muito obrigado, aqui me despeço e vou continuar na política de saúde, assim como em outras políticas públicas aqui na nossa região”.

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