Bocalom não está tentando parecer novo; está tentando parecer viável. Seu movimento recente não foi o do simbolismo, dos ataques ou das desculpas, mas o da perseverança: renunciou, filiou-se, assumiu partido e passou a dialogar com setores que ajudam a dar densidade social e econômica a uma candidatura estadual.
Tião Bocalom decidiu abandonar de vez a condição de hipótese. Em poucas semanas, fez quatro movimentos que não combinam com hesitação: anunciou a pré-candidatura ao governo, filiou-se ao PSDB, formalizou a renúncia à Prefeitura de Rio Branco e assumiu a reorganização partidária da nova legenda no estado. Não é um gesto para produzir encanto. É um movimento para produzir nitidez.
O dado político mais relevante não está na retórica, mas na escolha do caminho. Durante meses, havia quem apostasse que Bocalom não teria partido, ou que tentaria prolongar ao máximo a ambiguidade de sua candidatura. O que ocorreu foi o contrário: buscou abrigo formal, aceitou o custo de deixar o cargo e passou a construir uma candidatura com base partidária e interlocução objetiva com setores do empresariado, do agro e do empreendedorismo urbano. Pode-se discordar da direção desse projeto. O que não parece razoável é tratá-lo como improviso.
Bocalom talvez não ofereça, neste momento, a imagem mais sedutora da política acreana. Mas oferece outra coisa, que também pesa numa disputa majoritária: método. Ao trocar a proteção do mandato pela exposição da disputa, a incerteza partidária por um endereço político claro e o isolamento por articulação com setores organizados da sociedade, deixa de ser apenas um prefeito em fim de ciclo e passa a se apresentar como candidato em construção. Porque, em política, ninguém se viabiliza sozinho e até aqui Bocalom dá sinais de que entendeu isso.
Num cenário em que parte dos pré-candidatos ainda testa discurso, mede conveniência e espera que a eleição se resolva por inércia, Bocalom fez o oposto: assumiu ônus, escolheu lado e começou a construir base. Alan Rick aparece como um dos nomes mais competitivos nas pesquisas, e Mailza Assis tenta se firmar como herdeira do campo governista; justamente por isso, o movimento de Bocalom ganha relevância, porque ele não ficou esperando a política lhe entregar uma vaga aberta, foi tentar ocupá-la. No Acre de 2026, isso já o distingue dos que ainda parecem mais interessados em calcular a disputa do que em enfrentá-la.
E, em política, às vezes é justamente essa nitidez, e não o brilho, que reorganiza o jogo.
A impossibilidade de Binho Marques permanecer como primeiro suplente abre uma nova etapa na composição da chapa de Jorge Viana. A definição de quem ocupará a vaga passa a se relacionar com o discurso de futuro apresentado pelo candidato. Entre os nomes que circulam nos bastidores estão Naluy Macedo, Nazaré Araújo e Aníbal Diniz.
Naluy Macedo levaria para a chapa a participação do PCdoB, dos movimentos de mulheres e de uma geração que busca espaço nas decisões. Vice-presidente do partido em Rio Branco e presidente da União Brasileira de Mulheres no Acre, atua na defesa do SUS, da educação pública e de políticas para as mulheres e para a juventude negra e periférica. Importante pontuar que Naluy se torna um nome para o futuro, pois ela atualmente é concursada no Estado.
Nazaré Araújo acrescentaria experiência na administração estadual. Foi vice-governadora, exerceu o governo e participou de ações nas áreas de assistência social e políticas para as mulheres. Na primeira suplência, levaria à chapa conhecimento sobre o funcionamento do Executivo estadual.
Aníbal Diniz levaria para a chapa o conhecimento do Senado e da organização política do grupo. Foi secretário de Comunicação nos governos de Jorge Viana e Binho Marques e exerceu mandato de senador. Sua indicação manteria a relação da suplência com a trajetória do projeto.
Binho continuará na coordenação das campanhas de Jorge Viana e Thor Dantas. Sua participação preserva o vínculo com a chapa e permite que contribua na formulação de propostas, na articulação com os partidos e no diálogo com setores da sociedade.
Jorge tem defendido a participação de Binho nas discussões sobre o futuro do Acre e sobre as próximas disputas. A permanência dele na campanha mostra que a mudança na suplência não representa afastamento do projeto, mas o exercício de outra função dentro da mesma construção.
Carla Brito permanece como segunda suplente, mantendo na composição a presença feminina e a representação do Podemos e do Vale do Juruá. A definição da primeira suplência pode incluir o PCdoB e os movimentos sociais, por meio de Naluy; a experiência de governo de Nazaré; ou a passagem de Aníbal pelo Senado.
A palavra política pertence a Jorge Viana, em diálogo com os partidos da Frente Ampla. Os nomes apresentados nos bastidores possuem atuação pública e relação com o projeto. A coerência estará em escolher quem poderá representar a aliança e assumir as responsabilidades da função.
A grande regra de uma campanha é repetir uma mensagem simples, clara e consistente até que ela seja facilmente reconhecida pelo público.
Isso não significa falar exatamente a mesma coisa todos os dias. Significa reforçar a mesma ideia central por diferentes ângulos, formatos e exemplos.
Existe, inclusive, um fenômeno estudado pela psicologia chamado efeito da verdade ilusória. Ele mostra que, quando uma afirmação é repetida várias vezes, ela se torna mais familiar e, por isso, tende a parecer mais plausível para as pessoas.
É justamente por isso que a repetição é uma ferramenta tão poderosa.
Mas há uma diferença fundamental: em uma comunicação ética, a repetição serve para fixar uma mensagem verdadeira, útil e verificável, nunca para fabricar uma “verdade”.
Se você muda sua mensagem a cada postagem, o público dificilmente saberá pelo que você quer ser lembrado. A consistência constrói reconhecimento, confiança e posicionamento.
Na política, essa lógica também está presente. Toda campanha procura estabelecer uma narrativa, um slogan, uma identidade e uma mensagem capaz de ser facilmente reconhecida pelo eleitor. Isso faz parte da estratégia de comunicação.
O problema começa quando o eleitor passa a confundir reconhecimento com capacidade.
Uma campanha eficiente pode fazer com que um candidato seja lembrado. Mas ser lembrado não responde, por si só, à pergunta mais importante de uma eleição para o Poder Executivo: quem está preparado para governar?
Governar um Estado é diferente de legislar. Também é diferente de atuar como gestor técnico. O governador administra um orçamento bilionário, coordena secretarias, lidera milhares de servidores, executa políticas públicas e responde diretamente pelos resultados da administração estadual. Já deputados e senadores exercem funções constitucionais voltadas à elaboração de leis, fiscalização e representação política. Gestores técnicos, por sua vez, podem acumular grande experiência administrativa sem, necessariamente, terem exercido a chefia do Poder Executivo.
Essa distinção não estabelece uma hierarquia entre as funções. Apenas demonstra que são experiências institucionais diferentes, com responsabilidades distintas.
No Acre, os nomes que se apresentam para a disputa de 2026 refletem exatamente essa diversidade de trajetórias.
A atual governadora Mailza Assis chegou ao comando do Estado após exercer a vice-governadoria, assumindo o governo em razão da desincompatibilização do então governador Gladson Cameli. Antes disso, exerceu mandato de senadora na condição de suplente. A eleição de 2026 será a primeira em que disputa a chefia do Poder Executivo estadual como cabeça de chapa, submetendo diretamente seu nome e sua gestão, pouco mais de 3 meses, ao julgamento do eleitor.
O senador Alan Rick construiu sua trajetória política no Poder Legislativo, tendo exercido mandato de deputado federal e, atualmente, de senador. Sua experiência pública está concentrada na atividade parlamentar.
Tião Bocalom possui uma trajetória consolidada no Poder Executivo. Foi prefeito de Acrelândia por três mandatos e prefeito de Rio Branco por dois mandatos. No segundo mandato na capital, renunciou ao cargo para disputar o Governo do Acre nas eleições de 2026. Sua experiência pública está concentrada na administração municipal, com atuação direta na gestão do Poder Executivo.
Já Thor Dantas tem sua atuação ligada à gestão técnica e ao serviço público, tendo coordenado equipes e projetos, inclusive durante a pandemia. Sua experiência, entretanto, não inclui a chefia de um Poder Executivo estadual ou municipal.
Esses fatos ajudam a responder uma pergunta que toda democracia madura deveria fazer: quais experiências cada candidato traz para o cargo que pretende ocupar?
A comunicação continuará sendo decisiva. Os slogans serão repetidos. Os vídeos serão compartilhados. As redes sociais amplificarão mensagens todos os dias.
Mas, quando as urnas se abrirem, talvez a pergunta mais importante não seja quem conseguiu repetir melhor uma mensagem, e sim qual trajetória demonstra maior aderência às responsabilidades do cargo em disputa.
A estratégia de comunicação pode apresentar um candidato. A história de vida e a experiência pública permitem ao eleitor compreender quem ele é.
No fim, campanhas podem tornar uma mensagem conhecida. A trajetória é que oferece elementos concretos para que cada cidadão forme o seu próprio julgamento.
A ausência de uma candidatura identificada com a esquerda expõe uma crise de representação. O PT foi, por mais de três décadas, o único partido competitivo desse campo.
No Acre, nas eleições para o governo estadual, a esquerda nunca construiu uma alternativa eleitoral relevante fora do PT. A frase pode soar dura, mas a série histórica de 1990 a 2022 demonstra claramente e lhe dá sustentação. Não se trata de negar a existência de outros partidos, militantes ou tradições progressistas. Trata-se de reconhecer que, na disputa pelo Palácio Rio Branco, somente o PT conseguiu transformar identidade de esquerda em voto competitivo, organização duradoura e vitória.
O movimento começou antes da primeira vitória. Em 1990, Jorge Viana recebeu 28,34% dos votos válidos no primeiro turno, avançou à etapa decisiva e terminou com 45,39%. Quatro anos depois, Tião Viana alcançou 24,68%. O PT ainda não governava, mas já ocupava um espaço político reconhecível. Havia nome, partido, oposição e um eleitorado capaz de identificar quem representava aquele campo.
A virada veio em 1998, quando Jorge Viana venceu no primeiro turno com 57,70%. Em 2002, chegou a 63,58%, o ponto mais alto da série. Depois vieram Binho Marques, em 2006, e duas vitórias de Tião Viana, em 2010 e 2014. Foram cinco eleições consecutivas vencidas por candidatos do PT e vinte anos de governo. Todas as vitórias classificadas pelo relatório como de esquerda tiveram a mesma sigla.
Reprodução do gráfico “Esquerda x centro/direita”, do relatório Eleições para o Governo do Acre — análise histórica e ideológica, 1990 a 2022. (Elaborado por André Cajarana) O levantamento mostra a participação dos dois campos nos votos válidos do primeiro turno ao longo de 32 anos.
A dependência fica ainda mais clara quando se observam as demais candidaturas desse campo. O PSOL obteve 0,34% em 2006, 0,56% em 2014 e 0,26% em 2022. A REDE registrou 0,66% em 2018. Em 2022, Jorge Viana teve 24,21%, enquanto a soma de todas as candidaturas classificadas como de esquerda foi de 24,47%. Por cálculo, o PT respondeu por aproximadamente 98,9% desse voto. Eleitoralmente, na disputa pelo governo, o PT não foi apenas o maior partido da esquerda acreana: foi quase toda a sua expressão.
A série histórica pode ser resumida em quatro números: cinco vitórias consecutivas do PT, vinte anos de governo, um pico de 63,58% em 2002 e uma participação de 24,47% em 2022.
Isso não significa que a identidade petista permaneceu intacta. Depois do auge de 2002, a curva recuou. O campo de esquerda somou 50,29% no primeiro turno de 2014, caiu para 35,21% em 2018 e chegou a 24,47% em 2022, uma perda de 39,11 pontos percentuais desde o pico. A retração também foi territorial: em 2002, a esquerda superava 50% em 19 municípios; em 2022, não alcançou maioria agregada em nenhum. Naquele último pleito, ficou abaixo de 26% tanto em Rio Branco quanto no conjunto do interior.
Há, portanto, uma corrente histórica de eleitores que votou na esquerda, ou naquilo que reconhecia como esquerda, durante mais de três décadas. Essa corrente não surgiu de uma abstração. Ela foi organizada por candidaturas, símbolos, lideranças e uma narrativa de pertencimento. Pode ter diminuído, mas não pode ser declarada extinta apenas porque deixou de encontrar uma oferta eleitoral equivalente.
É justamente aí que 2026 adquire importância. No cenário político apresentado até agora, o PT não pretende lançar candidatura ao governo, e nenhum outro partido de esquerda ocupa esse espaço. Thor Dantas, por sua vez, não reivindica a representação desse campo e afirma não se alinhar nem à esquerda nem à direita. Se esse quadro chegar às urnas, a eleição não terá apenas uma esquerda enfraquecida: terá uma esquerda sem candidato que se apresente como tal.
A pesquisa Delta encomendada pela TV Gazeta, divulgada nesta sexta-feira, 17 de julho, registra o senador Alan Rick com 38,27% no cenário estimulado. A Governadora Mailza Assis aparece com 19,48% e Tião Bocalom com 19,28%, tecnicamente empatados. Thor Dantas tem 1,79%; brancos e nulos somam 4,08%, e 17,10% não sabem ou não responderam. Na espontânea, Thor é citado por 0,10%, enquanto 71,37% não sabem ou não respondem. O levantamento ouviu 1.006 pessoas nos municípios acreanos entre 11 e 15 de julho, com margem de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
Esses números não provam que Thor tem baixo desempenho porque rejeita uma identidade ideológica. A pesquisa mede intenção de voto, não as causas de cada escolha. Seria imprudente transformar correlação em explicação. Mas o levantamento permite uma pergunta legítima: quem conversa hoje com o eleitor que, em 2022, ainda entregou quase um quarto dos votos válidos às candidaturas classificadas como de esquerda?
Dizer que não se é de esquerda nem de direita pode parecer uma tentativa de ampliar o eleitorado. Contudo, neutralizar a identidade não cria automaticamente uma síntese; às vezes apenas deixa órfãos os que procuravam representação. Eleição não é um seminário de teoria política, mas tampouco é uma disputa sem memória. O eleitor vota em pessoas, governos e circunstâncias, porém também vota em pertencimentos acumulados ao longo do tempo.
Identidade ideológica, sozinha, não garante vitória. O próprio declínio do PT demonstra isso. São necessários liderança, estrutura, credibilidade, programa e capacidade de interpretar o presente. Mas a ausência de identidade cobra um preço: dificulta explicar a razão de existir de uma candidatura, distingui-la das demais e conservar uma base quando o ambiente se torna adverso. Sem identidade, uma força política pode até receber votos; dificilmente constrói continuidade.
Para o PT, abrir mão da candidatura ao governo não seria apenas uma decisão tática. Significaria renunciar ao principal palco em que o partido construiu sua história no Acre. Um partido pode apoiar aliados, disputar cargos proporcionais e sobreviver institucionalmente. Ainda assim, quando deixa de apresentar ao eleitor uma interpretação própria do Estado, perde centralidade, voz e capacidade de formar novas lideranças.
Por isso, falar agora em fim definitivo do PT seria precipitado. Mas é possível dizer que politicamente: o ciclo iniciado em 1998 já terminou, e 2026 pode marcar o desaparecimento do PT como competitivo na eleição para o Governo do Acre.
A possível pá de cal não está apenas na derrota passada, mas na ausência presente. Em 2018 e 2022, a esquerda perdeu nas urnas; em 2026, corre o risco de nem disputar sua própria identidade. Para um campo político que já governou o Acre por vinte anos e chegou a reunir 63,58% dos votos válidos, esse vazio merece mais do que silêncio.
Merece uma reflexão direta: quando uma corrente de eleitores continua existindo, mas ninguém aceita representá-la pelo nome, o problema não é somente eleitoral. É uma crise de identidade, organização e futuro.