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MEIO AMBIENTE

Como os acordos internacionais influenciam a construção das políticas públicas ambientais do Acre abrindo janelas de oportunidades econômicas

Desenvolvimento Sustentável na Amazônia: Integrando Políticas Ambientais para a Recuperação da Vegetação Nativa

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*Por Julie Messias
Estamos diante de um cenário mundial que, evidenciado pelas mudanças climáticas, tem moldado os padrões de consumo e, consequentemente, a economia global. A nível regional, os impactos batem à porta, uma vez que o Estado é o responsável, em mais de 90%, pela implementação das políticas ambientais, ou seja, a primeira porta dos problemas, como também das soluções mais consistentes pelo olhar da realidade local.

Frente a esse desafio, adicionada à dimensão geopolítica, os países buscam convergir sobre a necessidade de frear o aquecimento global e a perda de biodiversidade, a partir das negociações nas grandes Conferências do Clima e da Biodiversidade, no marco da Organização das Nações Unidas (ONU). A COP Clima e a COP da Biodiversidade, possuem a finalidade de estabelecer compromissos e obrigações claras para os países nos temas específicos.

Resultado da COP Clima, o Acordo de Paris, assinado em 2015, foi um marco ao definir que cada país estabelecesse a sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês). Atualizada em 2023, a NDC brasileira estabelece a redução das emissões do país em 48% até 2025 e 53% até 2030, em relação às emissões de 2005. Além disso, reiterou seu compromisso de alcançar emissões líquidas neutras até 2050, ou seja, tudo que o país emitir deverá ser compensado com fontes de captura de carbono, como plantio de florestas, recuperação de biomas e outras tecnologias. Nessa, temos o compromisso assumido de restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas.

Já a COP da Biodiversidade, realizada em Montreal, no Canadá, em dezembro de 2022, resultou o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, com 23 metas que buscam orientar um novo padrão na relação da sociedade com a biodiversidade. Das metas, a restauração de pelo menos 30% do território terrestre, marinho e costeiro, degradado até 2030. Destacam-se, ainda, o aumento das áreas protegidas para 30% do território terrestre, o aporte de US$ 200 bilhões anuais para a proteção da natureza e redução em US$ 500 bilhões anuais os subsídios para atividades que ameaçam as espécies e seus habitats.

Para dar apoio aos países em desenvolvimento, no âmbito das COPs, foram estabelecidos mecanismos de financiamento climático como o Fundo Verde para o Clima (GCF), o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e o Fundo de Adaptação (AF), bem como outras fontes públicas bilaterais ou multilaterais.

É importante ressaltar que os acordos internacionais são construídos, a partir do reconhecimento da necessidade do trabalho cooperativo, a partir das condições necessárias para uma resposta eficaz a um problema comum às partes. Cada país, a respeito das suas particularidades, é o responsável pelo desenvolvimento dos devidos mecanismos para o cumprimento dos pactos estabelecidos. E, de fato, aos estados compete uma grande parcela de contribuição direta.

Ambiente favorável para o desenvolvimento da cadeia da recuperação da vegetação nativa 

Primeiro é importante reconhecer o potencial do desenvolvimento social e econômico da agenda da recuperação da vegetação nativa, observados os desafios de estabelecer um ambiente atrativo – legal, de investimentos e de estruturação da cadeia, da necessidade de metas objetivas, da regularização e integridade ambiental, da recuperação de ecossistemas e da biodiversidade, do reconhecimento da vocação local, da tradicionalidade, e outros.

Especialmente no Brasil, há um arcabouço de políticas públicas e recursos disponíveis associados às iniciativas voltadas à estratégia para a redução do desmatamento, recuperação e agricultura de baixo carbono. São alguns exemplos a Lei Nº 12.651/2012, que dispõe sobre a Proteção da Vegetação Nativa; a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO); o Plano de Agricultura de Baixas Emissões de Carbono (Plano ABC); o Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf); a Lei Nº 14.119/2021, que institui a Política Nacional de Pagamentos por Serviços Ambientais (PNPSA); o Programa de Aquisições de Alimentos (PAA); o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE); a Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Proveg); o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg); e outros.

Sob o olhar local, o Estado do Acre estruturou suas políticas públicas ambientais que o qualifica diante das grandes discussões e iniciativas como essa. São alguns exemplos a Lei Estadual nº 1.903/2007, que institui o Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado do Acre, ZEE; o Decreto Estadual nº 1.904/2007, que regulamenta o Cadastro Ambiental Rural, CAR; o Decreto Estadual nº 9.025/2018, que instituiu o Programa de Regularização Ambiental das propriedades e posses rurais no âmbito do Estado do Acre, PRA Acre, a Lei Estadual nº 2.308/2010, que cria o Sistema de Incentivo aos Serviços Ambientais, SISA; o Decreto nº 11.372/2023, que instituiu o Plano Estadual de Prevenção e Controle de Desmata- mento e Queimadas no Acre – PPCDQ-AC. e outras.

O desafio é integrar todas essas políticas sob o viés da recuperação da vegetação nativa. Nesse contexto, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Acre (Sema) vem estabelecendo os estudos e procedimentos necessários para a elaboração do Plano Estadual da Recuperação da Vegetação Nativa (Peveg). 

A iniciativa de desenvolver um Plano de Recuperação em âmbito estadual surge como uma oportunidade valiosa para coordenar ações e estabelecer metas alinhadas às particularidades locais, prioridades emergentes e recursos disponíveis.

Esse processo se configura como uma política transversal que atravessa a questão ambiental, buscando promover uma eficaz adaptação dos proprietários rurais às normas ambientais, atendendo a um mercado consumidor cada vez mais consciente da sustentabilidade, da política de baixo carbono, e da necessidade de redução das emissões de gases do efeito estufa. Além disso, contribui para a mitigação dos impactos sobre o ciclo hidrológico e a biodiversidade, resultando no aumento e diversificação da produção de alimentos, maior rentabilidade econômica, geração de empregos e, consequentemente, na melhoria da qualidade de vida em resposta aos benefícios dos serviços ambientais.

Existe uma janela de oportunidades e com ela o desafio de integrar os vários esforços para dar escala à restauração de paisagens e florestas. Existe um movimento de colaboração dos diferentes setores para o desenvolvimento de novas áreas de negócios voltados à recuperação da vegetação nativa. O governo brasileiro anunciou R$ 1 bilhão para o arco da restauração, com R$ 450 milhões aprovados do Fundo Amazônia. A Salesforce se comprometeu a disponibilizar cerca de US$ 6 milhões até 2025, já o BNDES vem executando o Floresta Viva, com meta de investir 823 milhões ao longo de sete anos. Para além, novos mecanismos de financiamentos estão sendo desenvolvidos para promover a restauração, como o Fundo Fiduciário Multi-Parceiros e o Mecanismo de Capital Semente para Restauração.

Um estudo recente da Vitrine da Restauração da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (Sobre) mostrou que a cadeia produtiva da restauração gerou 8.223 empregos diretos no Brasil em 2020, sendo 43% permanentes e 57% temporários. Os empregadores eram principalmente organizações sem fins lucrativos (48%) e empresas privadas (37%). Ainda de acordo com o estudo, comparativamente, na cadeia da soja é gerado um emprego a cada dez hectares, e a restauração pode criar até 0,42 empregos por hectare, a depender do método usado.

Ainda é importante reconhecer que não há incompatibilidade entre a produção agrícola e a conservação e restauração de ecossistemas nativos. Não se trata apenas de uma obrigação legal ou um ônus financeiro, pois há uma relação de serviços que os ecossistemas fornecem, na escala local, regional e até nacional.

Temos o necessário dever legal quanto ao meio ambiente, de protegê-lo e preservá-lo para as gerações presentes e futuras. Estabelecer um ambiente legal e atrativo para recuperação da vegetação nativa é parte do cumprimento deste dever, e o Acre tem buscado aplicar seu potencial inovador em prol do meio ambiente, da economia e da sociedade.

*Julie Messias é secretária de Estado de Meio Ambiente do Acre, presidente do Fórum de Secretários da Amazônia Legal e presidente da Força Tarefa dos Governadores pelo Clima e Florestas (GCF TF – Brasil)

Amazônia

Crime organizado transforma a Amazônia em território de exploração humana e desafia acordo histórico da ONU

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Trabalhadores submetidos a condições semelhantes à escravidão, mulheres exploradas sexualmente e comunidades indígenas ameaçadas por organizações criminosas fazem parte de uma realidade que vai muito além da destruição das florestas. Uma reportagem do jornalista ambiental peruano Iván Brehaut, publicada em 31 de outubro na plataforma La Mula, expõe como o garimpo ilegal, o narcotráfico e a exploração clandestina dos recursos naturais estão associados à violência e ao controle de territórios amazônicos. O trabalho também questiona se a recente vitória diplomática obtida em Viena, na Áustria, será capaz de mudar a situação enfrentada por essas populações.

A reportagem, intitulada Delitos ambientais transnacionais: o que vem depois da vitória de Viena?, parte de uma contradição que acompanha há décadas o debate internacional sobre a Amazônia. Enquanto governos e organismos multilaterais discutem o avanço do desmatamento, a perda da biodiversidade e a exploração ilegal de minerais, milhares de pessoas convivem com formas de violência que nem sempre aparecem nas estatísticas ambientais.

Brehaut chama atenção para uma dimensão frequentemente esquecida: por trás das máquinas que revolvem os leitos dos rios e das redes que transportam madeira, ouro e drogas, existem trabalhadores submetidos a condições degradantes, famílias ameaçadas e comunidades que perderam parte do controle sobre seus próprios territórios.

Uma das formas de exploração começa com ofertas de emprego dirigidas a moradores de regiões pobres. Ao chegar aos acampamentos clandestinos, os trabalhadores passam a acumular dívidas pelo transporte, alimentação e equipamentos utilizados. Os valores cobrados podem tornar impossível o desligamento da atividade, enquanto ameaças e a presença de homens armados impedem a saída.

É uma forma contemporânea de servidão por dívida, associada a práticas históricas de exploração na Amazônia. Em vez de contratos regulares e relações de trabalho protegidas pela legislação, essas organizações estabelecem mecanismos de dependência econômica e coerção.

A violência também atinge mulheres e adolescentes. Nas proximidades das áreas de mineração clandestina, estabelecimentos comerciais podem funcionar como pontos de aliciamento para exploração sexual e outras formas de submissão. O isolamento geográfico, a precariedade dos serviços públicos e a influência das organizações criminosas dificultam denúncias e a proteção das vítimas.

O problema não termina quando as forças de segurança realizam operações contra os acampamentos. A destruição de equipamentos e estruturas ilegais pode interromper temporariamente a atividade, mas, sem alternativas econômicas e proteção às pessoas exploradas, as redes criminosas conseguem reorganizar suas operações. Trabalhadores submetidos à coerção ainda correm o risco de ser tratados como responsáveis pelos delitos dos quais também são vítimas.

A dimensão dessa crise ultrapassa as fronteiras de um único país. No Peru, na Colômbia, no Equador e no Brasil, o avanço das atividades ilícitas combina mineração clandestina, desmatamento, tráfico de drogas e ocupação de terras indígenas. Em diferentes regiões, esses mercados compartilham corredores logísticos, financiadores, estruturas de corrupção e mecanismos de lavagem de dinheiro.

Os impactos também aparecem nos números apresentados por Brehaut. Na Colômbia, o cultivo de coca alcançou 261 mil hectares, enquanto a mineração aluvial não autorizada atingiu mais de 118 mil hectares. No Peru, a pressão do narcotráfico sobre territórios indígenas convive com o avanço da mineração de ouro sobre rios e florestas.

Mas a violência não se resume às dimensões das áreas ocupadas. O povo Kakataibo, na Amazônia peruana, convive há anos com ameaças de organizações ligadas ao narcotráfico e à exploração ilegal de madeira. Segundo os levantamentos reunidos na reportagem, seis lideranças indígenas foram assassinadas em um período de sete anos.

Entre os casos documentados está o de Mariano Isacama Feliciano, liderança Kakataibo encontrada morta em julho de 2024, após denunciar atividades relacionadas ao narcotráfico em seu território. O caso provocou manifestações de organizações indígenas peruanas e novos pedidos de investigação e proteção aos defensores ambientais.

Diante da insuficiência da presença estatal, comunidades indígenas passaram a organizar sistemas próprios de vigilância e proteção. A Guarda Kakataibo realiza patrulhamentos territoriais e ações de identificação de atividades ilícitas em áreas de floresta onde a chegada das autoridades pode exigir dias de deslocamento.

Marcelo Odicio, presidente da Federação Nativa de Comunidades Kakataibo (FENACOKA), relatou a Brehaut a atuação de homens e mulheres na proteção das aldeias, mesmo diante de grupos criminosos com maior capacidade de armamento.

Outra experiência apresentada na reportagem é a utilização de tecnologia pelas organizações indígenas. A Organização Regional Aidesep Ucayali (ORAU) desenvolveu a plataforma Imenko Tsiroti, utilizada para reunir informações territoriais e registros sobre ameaças e atividades ilegais.

Jamer López, presidente da entidade, explicou que os dados permitem às comunidades procurar as autoridades com informações produzidas diretamente nas áreas de conflito. O monitoramento combina conhecimento do território, registros de campo e ferramentas tecnológicas, oferecendo subsídios para identificar pistas clandestinas, invasões e novas frentes de desmatamento.

No território do povo Wampís, na região amazônica peruana, a organização de defesa territorial conhecida como Charip, palavra associada ao relâmpago, também realiza atividades de vigilância. Galois Flores, representante do Governo Territorial Autônomo da Nação Wampís, levou essa experiência às discussões internacionais sobre o combate aos crimes ambientais.

Essas iniciativas enfrentam uma contradição. As comunidades possuem conhecimento detalhado dos rios, caminhos e áreas utilizadas pelas organizações ilegais, mas frequentemente não dispõem de recursos, garantias de segurança e respaldo institucional compatíveis com os riscos assumidos.

A discussão ganhou dimensão internacional durante a 13ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, realizada de 19 a 23 de outubro de 2026, em Viena.

Em uma votação considerada histórica, 83 países apoiaram a abertura de negociações para elaborar um protocolo internacional específico sobre crimes ambientais. Outros 12 votaram contra e 27 se abstiveram. A iniciativa foi impulsionada pelo Brasil, com participação de países amazônicos e de outras regiões.

O objetivo é ampliar os instrumentos jurídicos utilizados no enfrentamento de organizações que atuam simultaneamente em diferentes países, especialmente no tráfico de animais e plantas silvestres, na exploração ilegal de minerais, no comércio clandestino de madeira e no tráfico de resíduos.

A Convenção de Palermo, adotada em 2000, possui protocolos específicos para combater o tráfico de pessoas, o contrabando de migrantes e o tráfico ilícito de armas de fogo. A proposta discutida em Viena busca acrescentar um instrumento voltado às atividades criminosas que afetam o meio ambiente.

Para Álvaro Másquez, advogado do Instituto de Defesa Legal do Peru e assessor jurídico da Guarda Indígena Kakataibo, a decisão representa um avanço importante no reconhecimento internacional da gravidade desses delitos.

Entrevistado por Brehaut, Másquez valoriza principalmente o protagonismo de países amazônicos como Brasil, Peru e Colômbia na construção da proposta. Ele também defende que a participação indígena seja incorporada ao processo de elaboração do novo instrumento.

O papel das lideranças indígenas foi uma das características da mobilização em Viena. Uma delegação formada por representantes de povos do Brasil, Peru, Colômbia e Equador participou das discussões e manteve encontros com autoridades e organismos internacionais.

De acordo com a organização Amazon Watch, dez lideranças indígenas integraram a mobilização que contribuiu para a aprovação da resolução. Ao longo da conferência, defenderam uma estratégia de segurança capaz de alcançar os financiadores e compradores das mercadorias ilegais, e não apenas os trabalhadores encontrados nas áreas de extração.

Entre as reivindicações estão o fortalecimento dos mecanismos de rastreabilidade do ouro e da madeira, o combate à lavagem de dinheiro, a recuperação de recursos provenientes de atividades criminosas e o apoio institucional às organizações indígenas responsáveis pela vigilância territorial.

As lideranças também defendem que as decisões sobre segurança na Amazônia sejam construídas com a participação das populações diretamente afetadas. Essa posição não elimina a responsabilidade dos Estados pela proteção dos territórios, mas exige que os governos reconheçam os conhecimentos e as organizações locais.

Durante a conferência, o relator especial das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, Albert Barume, tratou da relação entre segurança e autodeterminação. Para o representante da ONU, a capacidade de uma comunidade decidir sobre o próprio futuro fica comprometida quando organizações externas controlam seu território pela violência.

A discussão alcança diretamente a realidade das regiões de fronteira da Amazônia brasileira. No Acre, sobretudo no Vale do Juruá, povos indígenas compartilham relações históricas, culturais e territoriais com comunidades do Peru. Rios e caminhos tradicionais atravessam áreas onde a fiscalização estatal enfrenta dificuldades logísticas.

Na conferência, a experiência de cooperação entre povos indígenas da fronteira também esteve representada. Francisco Piyãko, liderança Ashaninka do Acre, apresentou iniciativas de articulação transfronteiriça envolvendo comunidades indígenas do Brasil e do Peru, segundo a Amazon Watch. Essas experiências mostram que a proteção territorial exige comunicação e cooperação entre populações separadas por limites nacionais, mas conectadas pela mesma floresta.

A perspectiva apresentada por Brehaut amplia o debate sobre segurança pública na Amazônia. O enfrentamento das organizações criminosas não depende exclusivamente da presença de tropas e de operações policiais. Envolve a investigação das estruturas financeiras, a proteção das vítimas de exploração, o controle das cadeias comerciais e a capacidade de impedir que atividades ilegais se restabeleçam depois das ações repressivas.

O acordo de Viena, entretanto, ainda está distante de produzir efeitos concretos. A decisão aprovada pelos países não criou imediatamente um novo tratado internacional, mas autorizou sua negociação.

Um comitê especial deverá realizar quatro sessões para preparar uma proposta de protocolo, com expectativa de apresentação na próxima Conferência das Partes, prevista para outubro de 2028. Posteriormente, ainda serão necessárias decisões sobre sua adoção e os procedimentos de adesão e implementação pelos países.

O processo também enfrentará disputas sobre o alcance das obrigações internacionais, os mecanismos de cooperação jurídica e a participação das organizações indígenas. Embora a resolução reconheça a contribuição dos povos originários no combate aos crimes ambientais, ainda não estabelece um mecanismo definitivo para garantir sua presença nas negociações.

Essa diferença entre reconhecimento político e participação efetiva constitui um dos principais desafios levantados pela mobilização indígena. As comunidades que diariamente registram invasões, enfrentam ameaças e produzem informações sobre a presença de organizações criminosas querem participar da definição das medidas que poderão afetar diretamente suas vidas.

A reportagem de Iván Brehaut coloca esse impasse no centro do debate. A vitória diplomática representa uma oportunidade para fortalecer o combate internacional aos crimes ambientais, mas não resolve, por si só, os problemas de violência, desigualdade e ausência de proteção estatal que sustentam a expansão das economias ilegais.

A possibilidade de responsabilizar grandes financiadores, identificar a origem de mercadorias e ampliar a cooperação entre autoridades poderá modificar a capacidade de enfrentamento dessas organizações. Porém, os resultados dependerão da execução das medidas e da disposição dos governos de alcançar os interesses econômicos que mantêm essas atividades.

Para os povos indígenas da Amazônia, a urgência é diferente do calendário diplomático. Enquanto os países negociam novos instrumentos jurídicos, comunidades continuam expostas às ameaças de grupos armados, à contaminação dos rios e à ocupação ilegal de seus territórios.

A questão que permanece depois de Viena, portanto, não é apenas quando o novo protocolo será aprovado, mas se ele conseguirá transformar compromissos internacionais em medidas capazes de proteger a floresta e as pessoas que vivem nela.

Fonte: La Mula

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MEIO AMBIENTE

Brasil avança em negociações da COP17 sobre biodiversidade, mas financiamento ainda é desafio

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O Brasil conseguiu incluir propostas voltadas ao uso sustentável dos recursos naturais nas decisões da 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17), encerrada neste sábado (31), em Yerevan, na Armênia. O encontro terminou com a aprovação de um acordo internacional para ampliar a proteção da biodiversidade e acelerar o cumprimento de 23 metas ambientais previstas até 2030.

O documento final, chamado de Caminho de Yerevan, foi aprovado após negociações entre os países participantes. As novas medidas buscam corrigir os rumos das políticas de conservação, depois que uma avaliação internacional apontou que os esforços atuais são insuficientes para conter a perda de espécies e a degradação dos ecossistemas.

Uma das contribuições brasileiras foi a inclusão de medidas para fortalecer o uso sustentável da biodiversidade e garantir uma distribuição mais justa dos benefícios econômicos provenientes dos recursos genéticos. A proposta prevê consultas aos governos, povos indígenas e comunidades tradicionais, além da elaboração de alternativas para ampliar a aplicação dessas medidas.

A delegação brasileira também defendeu a criação de corredores ecológicos terrestres e aquáticos, capazes de conectar áreas de conservação e permitir a circulação das espécies. Embora a proposta não tenha sido incorporada como um novo eixo do programa internacional de áreas protegidas, o tema passou a constar no documento final, mantendo aberta a possibilidade de novos acordos.

Na área financeira, os compromissos anunciados durante a conferência ultrapassaram US$ 1,8 bilhão, reunindo recursos de governos, instituições internacionais, organizações filantrópicas e empresas. Os países também concordaram em discutir mudanças nos mecanismos globais de financiamento ambiental e ampliar voluntariamente a participação de nações doadoras, incluindo economias emergentes.

Apesar dos avanços, questões importantes permaneceram sem solução. Uma delas é a reforma dos subsídios que favorecem atividades prejudiciais ao meio ambiente. Foi criado um grupo de trabalho para discutir a transformação de pelo menos US$ 500 bilhões desses incentivos em mecanismos que contribuam para a conservação da natureza.

Outro impasse envolve o Fundo de Cali, criado em 2024 para receber contribuições de empresas que utilizam informações genéticas da biodiversidade no desenvolvimento de produtos, especialmente nos setores farmacêutico e de cosméticos. O funcionamento efetivo do mecanismo continua sem consenso entre os países.

Para organizações ambientais que acompanharam as negociações, as decisões representam avanços, mas ainda não garantem os recursos necessários para cumprir os compromissos internacionais. A avaliação é que será preciso ampliar o financiamento, mudar práticas econômicas prejudiciais à natureza e estabelecer mecanismos mais eficientes de acompanhamento dos resultados.

As decisões da COP17 também reforçam a importância da participação dos povos indígenas e das comunidades tradicionais nas políticas de conservação, especialmente em países com grande diversidade biológica, como o Brasil.

Fonte e foto: Agência Brasil

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MEIO AMBIENTE

Liderança indígena do Juruá participa de avanço histórico na ONU contra crimes ambientais

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A participação de lideranças indígenas da Amazônia, entre elas Francisco Piyãko, do povo Ashaninka e ligado à Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ), contribuiu para um avanço internacional no combate aos crimes ambientais. Durante a COP13, realizada em outubro, em Viena, na Áustria, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma resolução que abre caminho para a criação de um protocolo internacional contra crimes ambientais transnacionais.

A decisão representa um passo importante para fortalecer a cooperação entre países no enfrentamento à mineração ilegal, ao tráfico de madeira, à exploração clandestina de recursos naturais e a outras atividades criminosas que ameaçam a Amazônia e seus povos.

Francisco Piyãko participou das mobilizações ao lado de Jamer Shipibo Konibo, representante da Organização Regional Aidesep Ucayali (ORAU), do Peru. A articulação ocorreu por meio da campanha internacional Stop Amazon Crime, coordenada pela Amazon Watch, com a participação de organizações indígenas de diferentes países amazônicos.

Durante as discussões, as lideranças defenderam que os povos indígenas tenham participação direta na construção das políticas internacionais de combate aos crimes ambientais, especialmente porque suas comunidades estão entre as mais afetadas pela atuação de organizações criminosas nos territórios.

Francisco Piyãko reforçou a necessidade de garantir que o futuro protocolo respeite os direitos territoriais, a autonomia e a segurança das comunidades indígenas, assegurando sua presença nas negociações.

A resolução aprovada ainda não representa a criação definitiva do protocolo. O documento autoriza o início das negociações internacionais para estabelecer mecanismos de cooperação e responsabilização pelos crimes ambientais.

Para os povos indígenas do Vale do Juruá, o avanço amplia a possibilidade de participação nas decisões internacionais que afetam diretamente seus territórios, especialmente nas regiões de fronteira entre Brasil e Peru.

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