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Direto ao ponto

Comunicação pública é a voz da sociedade que não pode ser propriedade de governos

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A democracia não se sustenta apenas pelo direito de votar. Ela exige participação, acesso à informação, respeito às diferenças e, sobretudo, a possibilidade de que todas as vozes sejam ouvidas. Não existe cidadania plena quando a sociedade não tem condições de se reconhecer, de se expressar e de participar da construção das decisões que afetam sua própria vida.

Ao longo do tempo, tenho defendido que nenhuma transformação verdadeira acontece sem compromisso com o coletivo. É preciso reconhecer nossa história, nossas diferenças e compreender que os instrumentos públicos devem estar a serviço das pessoas, e não dos interesses passageiros de quem ocupa o poder. Incentivado por colegas e amigos, busquei escrever e contribuir para essa reflexão.

É nessa perspectiva que a comunicação pública precisa ser compreendida. Não como instrumento de propaganda de governos, tampouco como alternativa menor à comunicação comercial, mas como um direito da sociedade e um espaço fundamental para o exercício da democracia.

Existe uma diferença essencial entre comunicação pública e comunicação governamental. O governo tem o dever de informar, prestar contas e garantir transparência. A comunicação pública possui uma missão mais ampla: assegurar informação de interesse coletivo, promover a diversidade cultural, contribuir para a educação e abrir espaço à pluralidade de opiniões.

Também não basta que uma emissora seja mantida com recursos públicos para cumprir essa missão. Seu caráter público deve estar presente na programação, na independência editorial, na participação social e na capacidade de representar a população em sua diversidade.

O Brasil é um país de muitas vozes, culturas e realidades. Entretanto, nem sempre essa diversidade encontra espaço nos grandes meios de comunicação. Povos indígenas, comunidades tradicionais, populações periféricas, artistas regionais e tantas outras expressões da nossa identidade ainda enfrentam dificuldades para se fazer ouvir. Uma comunicação verdadeiramente pública deve ajudar a enfrentar essa desigualdade de representação.

No Acre, a construção do Sistema Público de Comunicação buscou aproximar regiões, valorizar a identidade acreana e ampliar o acesso à informação, à cultura e à educação.

Nesse processo, merece especial reconhecimento o jornalista e ex-senador Aníbal Diniz, que, à frente da Secretaria de Estado de Comunicação, teve papel fundamental na estruturação e consolidação da rede pública de rádio e televisão do Acre, fortalecendo uma concepção de comunicação integrada à educação, à cultura e à valorização das identidades regionais.

A criação da Fundação Aldeia de Comunicação (Fundac), em 2011, durante o governo de Tião Viana, marcou uma nova etapa dessa construção. Merece destaque o protagonismo da jornalista Mariama Moreno e do jornalista Leonildo Rosas na criação, estruturação e consolidação do projeto, que também contou com a contribuição de Andrea Zilio e de diversos profissionais comprometidos com o interesse público.

Segundo Leonildo Rosas, ex-secretário estadual de Comunicação, a intenção era construir um sistema conectado às transformações tecnológicas e, sobretudo, à participação popular.

“A ideia era criar uma comunicação pública no Acre que dialogasse com as novas mídias e, sobretudo, que fosse ferramenta de transformação e voz da sociedade”, afirma Leonildo.

Apesar das resistências políticas que, segundo ele, o projeto enfrentou, a experiência procurou ampliar o diálogo com estudantes, poetas, artistas e músicos. A programação aproximou o rádio da televisão, levou atrações populares da Rádio Difusora Acreana às telas da TV Aldeia, como o Show de Calouros, e criou espaços de diálogo com a administração pública, como o Fala Secretário.

Leonildo também destaca o uso, que considera pioneiro, de plataformas como Facebook e Twitter para distribuir conteúdos e mobilizar o público, além do fortalecimento da programação da Aldeia FM.

“Uma programação que tinha o compromisso de informar, entreter e dar voz à comunidade”, resume.

Entretanto, reconhecer essa trajetória exige olhar criticamente para o presente. Nos últimos oito anos, o Sistema Público de Comunicação do Acre enfrentou dificuldades para avançar e consolidar o projeto que inspirou sua criação. Não se pode negar a sensibilidade e os esforços da então secretária de Comunicação Nayara Lessa, nem o compromisso dos profissionais que mantiveram as emissoras funcionando. Mas a falta de investimentos contínuos e de prioridade política, orçamentária e financeira limitou seu desenvolvimento.

Relatórios oficiais registram metas não executadas e dificuldades para modernizar a infraestrutura. A retomada da TV Aldeia, em parceria com a EBC e a Universidade Federal do Acre, representa um movimento importante, mas também evidencia um período de descontinuidade vivido pela televisão pública acreana.

O sistema resistiu, muitas vezes sustentado pelo legado de sua construção e pelo esforço dos servidores. Mas resistir não é o mesmo que avançar. Uma política pública dessa importância não pode depender apenas da sensibilidade de gestores ou sobreviver com as sobras do orçamento. Precisa de planejamento, investimentos permanentes, autonomia e compromisso de Estado.

Esse debate ganha ainda mais relevância diante das transformações tecnológicas, da concentração das plataformas digitais e da disputa pela atenção das pessoas. Nunca se produziu tanta informação, mas isso não significa necessariamente que a sociedade esteja mais bem informada ou que exista maior diversidade de vozes.

O desafio da comunicação pública não é simplesmente alcançar audiência. É conquistar relevância social, credibilidade e legitimidade, fazendo com que cada cidadão reconheça naquele espaço algo que também lhe pertence.

Há onze anos, ao escrever sobre comunicação pública, democratização, protagonismo e cidadania, recorri a uma frase de Nelson Breve, então presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que ouvi durante um encontro em Brasília: “Temos que encontrar a unidade da diversidade e tornar interessante o que é de interesse público”.

Aquela reflexão continua atual. A criação da EBC, no governo Lula, e a construção da Rede Nacional de Comunicação Pública, fortalecida também durante o governo Dilma Rousseff, representaram passos importantes para integrar experiências, ampliar vozes e reconhecer a diversidade de um país que não cabe nas narrativas dos grandes meios comerciais.

Mas, onze anos depois, é preciso ir além das lembranças. Não basta criar instituições, inaugurar emissoras ou celebrar conquistas do passado. É necessário assegurar continuidade, investimentos, independência editorial e participação efetiva da sociedade. Afinal, a comunicação pública não se consolida apenas pela vontade de quem a defende, mas pela capacidade de transformá-la em uma política permanente de Estado.

A experiência do Acre mostra que é possível aproximar a comunicação das pessoas e valorizar nossas identidades. Também revela que conquistas importantes podem perder força quando não encontram sustentação política, institucional e financeira.

Continuo acreditando que comunicar também é ouvir. É reconhecer a diversidade, abrir espaço para o diálogo e compreender que a sociedade não pode ser apenas espectadora, mas protagonista de suas próprias histórias.

Onze anos depois, a convicção permanece, mas a cobrança precisa ser maior. Não basta reconhecer o que construímos ou lamentar aquilo que deixamos de fazer. É preciso fortalecer nossas instituições e compreender que a comunicação pública é tão necessária à democracia quanto a educação e a cultura.

Porque comunicar é mais do que informar. É reconhecer identidades, aproximar pessoas, construir cidadania e transformar realidades.

Uma comunicação verdadeiramente pública só cumpre sua missão quando a sociedade se reconhece nela, participa de sua construção e a compreende como um direito que também lhe pertence.

Alexandre N. Nobre é formado em ADM/Marketing, pós graduado em Comunicação Digital pela FASB, MBA pela Gama Filho. CRA RO/AC nº 3804 e RP/MTE nº 0000218AC

Conexão Amazônica

É Pop lança coluna Conexão Amazônica com notícias e bastidores de Brasília e da Região Norte

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Com Alexandre Nunes Nobre, Arison Jardim, Zé Américo Silva e convidados, novo espaço vai reunir informação, análise política, cultura, economia e histórias do cotidiano amazônico.

O que acontece em Brasília tem reflexos diretos na vida de quem mora no Acre e nos demais estados da Região Norte. Da política aos investimentos públicos, das decisões do Congresso Nacional às oportunidades de negócios e às manifestações culturais, são muitos os assuntos que conectam a Amazônia ao restante do país. É com esse olhar que o portal É Pop lança a coluna Conexão Amazônica, um novo espaço de notícias, análises, entrevistas e bastidores.

A proposta é acompanhar os principais acontecimentos da política e da economia nacional sem perder de vista a realidade amazônica. A coluna também abrirá espaço para o empreendedorismo, a cultura, o comportamento, a inovação e as histórias de pessoas que movimentam o cotidiano da região.

O novo espaço contará com a participação dos jornalistas Alexandre Nunes Nobre, Arison Jardim e o Zé Américo, além de convidados que vão contribuir com diferentes perspectivas sobre os assuntos em destaque.

Alexandre N Nobre

Com mais de 36 anos de atuação na comunicação, Alexandre Nunes Nobre é jornalista, publicitário e especialista em Marketing e Comunicação Digital. Sua trajetória passa pela televisão, publicidade, produção audiovisual e comunicação política. Atuou na TV União e, durante 16 anos, esteve à frente da direção de produção e programação da Rede Pública de Comunicação do Acre, que reúne a TV Aldeia, a Rádio Difusora e a Rádio Aldeia FM. Desde a década de 1990, também participa de projetos e campanhas políticas na Região Norte, experiência que amplia seu olhar sobre os bastidores do poder e a comunicação institucional.

Arison Jardim

Arison Jardim é jornalista, fotógrafo e documentarista com trajetória ligada à cobertura da realidade acreana. Seu trabalho reúne jornalismo, fotografia e produção audiovisual, com atenção especial aos direitos humanos, meio ambiente, povos indígenas e comunidades tradicionais. Entre suas produções estão documentários como Povos do Juruá e Opirj – A luta na defesa dos direitos e da floresta. Neto do jornalista Foch Jardim, Arison carrega uma ligação familiar com a história da imprensa acreana e uma experiência profissional marcada pelo contato com as pessoas e os territórios da Amazônia.

Zé Américo

Já Zé Américo, traz para a coluna sua experiência no jornalismo, na publicidade e no marketing político. Com atuação em campanhas eleitorais para diferentes cargos, incluindo disputas presidenciais, governos estaduais, prefeituras, Senado e Câmara dos Deputados, acompanha os movimentos da política nacional e as estratégias de comunicação dos principais atores do cenário brasileiro. Também escreve artigos e análises para veículos como o ContilNet Notícias e o Metrópoles, abordando eleições, comunicação política e conjuntura nacional.

A reunião desses profissionais permitirá que a Conexão Amazônica transite entre os corredores do poder em Brasília e as ruas, comunidades, empresas e espaços culturais da Região Norte. A ideia é oferecer informação contextualizada, com espaço para diferentes interpretações e para assuntos que nem sempre encontram destaque no noticiário nacional.

A coluna também receberá contribuições de jornalistas, especialistas, pesquisadores, empreendedores e personalidades convidadas. O objetivo é ampliar o debate sobre os desafios e as oportunidades da Amazônia, acompanhando desde as grandes decisões políticas até iniciativas locais capazes de transformar a realidade das comunidades.

Questões como infraestrutura, desenvolvimento econômico, investimentos, meio ambiente, turismo, economia criativa e empreendedorismo estarão presentes na cobertura, ao lado de pautas culturais e histórias do cotidiano. A política terá atenção permanente, tanto nos acontecimentos do Acre quanto nas articulações de Brasília que influenciam os rumos dos estados amazônicos.

A estreia da Conexão Amazônica amplia o espaço de informação e análise do É Pop, fortalecendo a proposta de um jornalismo atento à realidade regional, mas conectado aos acontecimentos do Brasil.

Porque entender a Amazônia também exige acompanhar Brasília. E compreender o Brasil passa, cada vez mais, por ouvir o que a Amazônia tem a dizer.

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Direto ao ponto

Radicalismo, só na defesa dos mais necessitados e na luta por dias melhores

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Qual Acre queremos em 2030? Entre a continuidade política e os desafios de uma sociedade em transformação, o novo exige mais do que administrar o presente. É preciso pensar o futuro.

Mailza Assis venceu a eleição com uma votação expressiva. Conquistou legitimidade nas urnas, consolidou sua força política e terá mais quatro anos para governar o Acre. Mas a vitória, por maior que seja, não responde à questão que realmente importa: que estado os povos do Acre encontrarão em 2030?

O Acre precisa olhar para a frente. Não pode continuar limitado às disputas ideológicas, à acomodação de aliados e à administração dos problemas de sempre. O desafio é maior. Exige compreender o presente, enfrentar dificuldades históricas e, sobretudo, construir uma visão real de futuro.

A governadora Mailza Assis já sinalizou que pretende manter uma relação institucional com o presidente Lula, apesar das diferenças políticas. É uma posição necessária diante da realidade acreana. O estado precisa de investimentos federais, de políticas públicas e de articulação com Brasília. Os interesses da população não podem ficar submetidos às divergências partidárias, muito menos às resistências de setores de qualquer aliança política.

Mas o diálogo com o governo federal, por si só, não constitui um projeto de desenvolvimento. É um instrumento para realizá-lo.

Acredito que é nesse ponto que o próximo governo precisará mostrar sua dimensão.

O Acre de 2030 começa a ser definido nas salas de aula, nas oportunidades oferecidas à juventude, na qualidade do ensino público e na capacidade de formar uma geração que não encontre como única perspectiva procurar futuro longe daqui.

O mundo está mudando em velocidade impressionante. A inteligência artificial transforma profissões, a economia e a educação. As redes sociais redefinem a circulação da informação, o debate público e a relação entre governantes e cidadãos. O Acre não está fora desse processo, ainda que muitas vezes pareça distante das decisões que moldam essas transformações.

Pensar o futuro exige compreender esse novo tempo. Tecnologia não pode ser apenas discurso de modernização ou equipamento novo numa repartição ou sala de aula. É também conhecimento, oportunidade e inclusão.

Há igualmente uma expectativa especial sobre um governo conduzido por duas mulheres. Mailza e Jéssica Sales representam uma presença feminina importante no comando do estado. Mas o significado dessa conquista será percebido principalmente na vida das acreanas que enfrentam violência, desigualdade, dificuldades de acesso ao trabalho e obstáculos para conquistar autonomia.

Na saúde pública, o futuro se mede de maneira ainda mais concreta: no atendimento que chega, no exame que não demora, na cirurgia realizada e no respeito a quem depende do SUS. Para a população do interior, essas dificuldades frequentemente se somam às distâncias e ao isolamento.

E há um campo que merece atenção particular nessa discussão: a comunicação pública.

A Fundação Aldeia de Comunicação, com suas emissoras de rádio e televisão, representa um patrimônio que ultrapassa governos. Sua importância está na informação, na educação, na cultura e na integração de um estado marcado por distâncias geográficas e diferentes realidades sociais.

Num tempo de inteligência artificial, algoritmos e redes sociais, o papel da comunicação pública ganha novas dimensões. A Fundação Aldeia precisa ser compreendida dentro desse cenário, preservando sua finalidade social e sua capacidade de representar a diversidade acreana.

Comunicação pública não é propaganda governamental. É um compromisso com a sociedade. A maneira como o próximo governo tratar essa distinção também revelará sua compreensão sobre democracia, informação e cidadania.

Naturalmente, o desenvolvimento do Acre envolve muito mais. Passa pela produção rural, pela infraestrutura, pela economia, pela preservação ambiental e pela capacidade de transformar as riquezas do estado em oportunidades para sua população.

Esses desafios não são novos. E Mailza também não chega como alguém de fora da administração. Participa do grupo político que governa o Acre e carrega, portanto, responsabilidades sobre o que foi realizado, sobre o que não avançou e sobre o que precisa mudar.

A continuidade pode preservar conquistas. Mas não deve servir de justificativa para repetir limitações.

Governar exige escolhas, prioridades e capacidade de execução. Mais do que anunciar obras ou programas, significa compreender que o desenvolvimento precisa chegar à vida cotidiana das pessoas.

Mailza Assis terá condições políticas de imprimir sua marca. O que ainda precisa ganhar clareza é a dimensão dessa marca: se ficará restrita à gestão de mais um mandato ou se representará uma visão de estado capaz de ultrapassar o calendário eleitoral.

O Acre não precisa de soluções mágicas nem de promessas grandiosas. Precisa de planejamento, estratégia, direção. Compromisso com uma sociedade que muda, envelhece, se conecta, produz, deseja oportunidades e precisa de cuidado.

A eleição definiu quem governará. Os próximos quatro anos mostrarão para quem se governa e que futuro está sendo construído.

Mailza Assis tem a legitimidade das urnas. Agora tem diante de si uma responsabilidade maior, fazer com que o Acre de 2030 seja mais do que uma data no calendário político.

Porque o futuro do estado não pode ser apenas assunto da próxima eleição. Precisa começar a fazer parte das decisões de hoje.

O debate sobre o Acre de 2030 deve começar por compromissos concretos, com políticas públicas para as mulheres e a juventude, incentivo ao empreendedorismo, à economia solidária e criativa, valorização da comunicação pública e abertura às transformações tecnológicas. Uma agenda capaz de dialogar com o Brasil e com o mundo, sem perder de vista a realidade acreana. São caminhos que merecem espaço no próximo governo, com prioridades definidas, recursos e resultados que a sociedade possa acompanhar.

Foto: Sérgio Vale/Vale Comunicação

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Direto ao ponto

As bets saíram de campo, mas a dívida continua jogando

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Com o fim das apostas on-line, o dinheiro pode voltar a render no orçamento das famílias. Mas as dívidas e os problemas de saúde não desaparecem da noite para o dia.

No Acre, como em qualquer lugar para quem vive do salário, ele costuma terminar antes do mês, surgiu uma expectativa: com o fim das bets, quem sabe o dinheiro volte a aparecer no supermercado e, principalmente, a sobrar no bolso do trabalhador.

A conta é simples. Os cinquenta reais, que antes desapareciam na aposta de um escanteio podem agora comprar arroz, feijão ou ajudar a pagar a conta de luz.

Os primeiros números após a proibição das bets mostram crescimento nas vendas dos supermercados. Segundo levantamento da NielsenIQ, divulgado pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o faturamento do setor cresceu 7,4% entre 5 e 11 de outubro, em comparação com o mesmo período de 2025. 

Sai o bilhete da aposta, entra a lista de compras.

Só que a vida não se resolve tão facilmente.

Em setembro, o governo federal editou uma medida provisória proibindo a exploração das bets. Em outubro, as plataformas autorizadas saíram do ar. A proibição chegou. As dívidas, naturalmente, não receberam o mesmo comunicado.

O banco continua cobrando, o cartão não esqueceu a fatura e o empréstimo feito na esperança de recuperar o dinheiro perdido segue firme, com juros e vencimento.

Durante muito tempo, as apostas foram apresentadas como diversão, emoção e possibilidade de ganho. Para muita gente, porém, a promessa de dinheiro fácil acabou se transformando numa armadilha.

Começava com dez reais. Depois vinte. Mais cinquenta para tentar recuperar o prejuízo. Quando o cidadão percebia, já não jogava por diversão. Apostava na esperança de recuperar o que havia perdido.

E o problema não ficava restrito ao celular.

Chegava à mesa da família, nas compras reduzidas, nas contas atrasadas e nas discussões dentro de casa. Afinal, quando o dinheiro da alimentação vira aposta, quem perde não é apenas quem apertou o botão.

Existe ainda uma questão que não pode ficar de fora dessa discussão: a saúde pública.

O jogo compulsivo não é simplesmente falta de juízo. É um problema de saúde que pode exigir acompanhamento profissional e comprometer a vida emocional, familiar e financeira. Tirar as plataformas do ar não elimina a dependência, assim como parar de apostar não apaga os prejuízos acumulados.

Mas é um grande começo.

Quem deixa de apostar interrompe uma sequência de possíveis perdas. Aqueles cinquenta reais que antes desapareciam podem permanecer na conta, ajudar nas despesas ou até virar uma pequena reserva.

É assim que o dinheiro começa a render. Não pela promessa de multiplicação milagrosa, mas porque simplesmente deixou de desaparecer.

O comércio também pode sentir essa mudança. Dinheiro que permanece com as famílias tem mais chance de circular nas compras do dia a dia. Ainda é cedo, porém, para saber quanto disso chegará aos caixas dos supermercados.

E não podemos esquecer que as apostas clandestinas continuam sendo um risco. Combater o problema exige fiscalização, educação financeira e atendimento para quem desenvolveu dependência.

No futebol, uma derrota pode ser esquecida na rodada seguinte. Na vida real, o prejuízo pode durar anos.

A ironia é que, depois de tanta gente tentar fazer o dinheiro render apostando, talvez a melhor maneira de preservar o salário seja justamente parar de jogar.

Porque as bets podem ter saído de campo, mas o boleto continua escalado como titular absoluto.

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