Matéria especial
Acre • 22 de março de 2026
No coração do Rio Moa, a escuta de Vitória Rodrigues encontra o Povo Nukini e transforma cuidado em presença
No chão da Aldeia Isã, o cuidado aparece sem pressa: conversa partilhada, infância em roda, alimento como memória e uma psicologia que volta ao território para construir vínculo com a própria gente.
No dia 13 de março, na Aldeia Isã, em Mâncio Lima, a psicóloga clínica Vitória Rodrigues sentou no chão com crianças do povo Nukini para conversar sobre corpo, limites e respeito, e ali o cuidado ganhou a forma que a floresta entende: palavra dita sem pressa, presença partilhada e confiança construída no ritmo da comunidade. A cena não nasceu de uma visita apressada, dessas que entram, falam e vão embora. Nasceu de um retorno. Vitória saiu do Juruá para estudar Psicologia na Bahia, atravessou o peso da distância, enfrentou o susto acadêmico de quem percebe que o Brasil também cobra caro de quem vem das bordas, e voltou porque compreendeu que sua profissão só faria sentido inteiro perto da própria gente, dos rios, dos avós, das histórias e das urgências que moldaram sua formação humana antes mesmo da universidade.
Nas imagens que a jovem profissional compartilha em suas redes sociais, a aldeia aparece com a força tranquila de quem segue em pé. As crianças descem a escadaria que leva ao barranco do rio com o corpo solto de quem conhece o chão onde pisa. Mais adiante, as casas de madeira se alinham diante da mata fechada, com placas solares captando luz no meio do verde pesado do Moa. Sob uma árvore frondosa, meninos e meninas se juntam como se a comunidade inteira coubesse naquele círculo de sombra. Em outro canto, o terreiro abre espaço para o respiro largo do céu e para o tempo da convivência. Não há nada de exótico ali. Há vida organizada, infância correndo livre, tecnologia combinada com tradição e uma paisagem onde o cotidiano continua sendo a primeira escola.
Voltar para perto
Foi para esse chão que Vitória decidiu voltar. “Esse retorno é também um reencontro comigo mesma”, diz ela, numa frase que ajuda a entender que sua escolha profissional não nasceu apenas do diploma, mas da vida vivida antes dele. Ao sair do Acre para estudar, levou junto a memória da família, a experiência de quem cresceu atravessada pelos rios do Juruá e a consciência de que a distância também ensina. Na Bahia, encontrou outro Brasil, rompeu preconceitos e percebeu que a formação acadêmica, por si só, não bastava. O que ela buscava tinha outro tamanho. “Compreendo o cuidado psicológico como um espaço de presença e construção conjunta”, afirma. Nessa formulação, não cabe a psicologia isolada do mundo, fechada em consultório e apartada da vida concreta. O que existe é uma escuta que pisa no território e se deixa afetar por ele.
Esse entendimento ganha mais densidade quando ela própria nomeia o que a orienta. “Acredito que toda psicologia é, antes de tudo, social”, afirma. A frase, quando chega ao centro da Aldeia Isã, deixa de ser princípio abstrato e ganha corpo. Ali, cada conversa com uma mulher, cada roda com crianças, cada permanência ao lado das famílias pede que o cuidado considere o que atravessa uma comunidade indígena do alto Juruá: a memória coletiva, a relação com a terra, os modos de criação, a história da resistência, a delicadeza das infâncias e o direito de viver sem violência. Vitória também fala da base que sustenta sua prática: “Minha escuta se constrói a partir dessa compreensão, buscando acolher a singularidade de cada trajetória sem desconsiderar os cenários que a atravessam”. O que ela oferece, então, não é só atendimento. É presença ética onde a vida acontece.
Na Aldeia Isã, essa presença se espalhou de forma orgânica. A roda com as crianças sobre corpo, limites e respeito ocorreu sem o peso do tabu e sem a rigidez de quem fala de cima para baixo. Houve escuta, troca e cuidado com a linguagem. Pais e mães acompanharam de perto, atentos, como quem sabe que proteger também passa por aprender a conversar. Entre as mulheres, o trabalho seguiu pela mesma vereda: fortalecer a palavra, abrir espaço para o que muitas vezes fica represado no cotidiano e lembrar que saúde mental não é luxo de cidade, mas necessidade humana em qualquer latitude da floresta. Vitória não aparece como alguém que chega para ensinar tudo. Ela se coloca como quem constrói junto. “Ofereço um espaço ético e acolhedor para quem busca se aproximar de si, elaborar sofrimentos, fortalecer recursos internos e ampliar a compreensão sobre suas vivências”, resume.
Comer também é território
Essa maneira de estar transforma até o que parece lateral em parte central da narrativa. A comida, por exemplo, que encanta quem sente saudade da própria casa, não entra como curiosidade de passagem. Ela entra como território. Quando Vitória posta a imagem de um buriti aberto na mão, com a polpa alaranjada e a casca escura, a imagem traz a textura dessa convivência. O prato de caranguejo servido com banana-da-terra, fumegando sobre a mesa de madeira, também diz muito sobre esse encontro e da experiência única que é viver na Amazônia. Comer ali é partilhar tempo. É admitir que a confiança não nasce só da conversa formal, mas do cotidiano.
Até a cuia cheia de larvas, alimento ancestral em muitos contextos amazônicos, ajuda a desmontar o olhar apressado de fora. Na floresta, comer é saber. Comer é memória. Comer é pertencimento. “Esses alimentos são entendidos como presentes da natureza e carregam a história de resistência do povo Nukini”, explica.
“Sentar junto para preparar alimentos, usar artesanato, brincar e conversar ajuda a construir o vínculo terapêutico.”
Para Vitória, é no cotidiano compartilhado que a relação profissional deixa de soar impositiva e passa a ser reconhecida como confiança, proximidade e aprendizado mútuo.
Um povo vivo no alto Rio Moa
O espaço amplo, o céu pesado de chuva, a grama curta e as casas tradicionais compõem uma paisagem em que a vida corre sem apartar cultura, trabalho, espiritualidade e convivência. A aldeia não é cenário. É organismo vivo. E é justamente por isso que a presença de uma psicóloga que conhece o peso simbólico desse território pode produzir outro tipo de vínculo. Vitória não fala em neutralidade. Sua caminhada deixa claro que cuidar também é reconhecer história, desigualdade, pertencimento e potência.
“Hoje, eles estão organizados em seis aldeias: Haka, Pãna, Abacateral, Recanto Verde, Maloquinha e Inu Isã, sendo a sede a Aldeia Vaka Visu, localizada próxima à Serra do Divisor. São conhecidos como ‘povo da montanha’ ou ‘povo da onça’, e mantêm forte relação com a terra por meio do plantio e das práticas tradicionais”, diz Vitória. A fala dela abre a porteira certa para compreender quem são os Nukini. No alto rio Moa, no extremo oeste do Acre, no município de Mâncio Lima, esse povo carrega uma história marcada pela permanência. Os Nukini pertencem à família linguística Pano e seguem fincados num território onde floresta, água, roçado, memória e parentesco não vivem separados. A terra, ali, é caminho de transmissão entre os mais velhos e os mais novos, é o lugar onde a cultura não se apresenta em vitrine, mas respira no dia a dia.
A caminhada do povo Nukini atravessou a violência das frentes extrativistas, a pressão sobre o território, o peso dos antigos seringais e as muitas tentativas de apagar modos próprios de existir. Ainda assim, a comunidade seguiu de pé. Seguiu no modo de organizar a vida comunitária e no esforço cotidiano de proteger o que é seu. Quando Vitória se aproxima das mulheres e das crianças da Aldeia Isã com escuta e cuidado, ela não encontra um povo parado no tempo. Encontra um povo vivo, organizado, atravessado por desafios contemporâneos e, ao mesmo tempo, profundamente enraizado em saberes que não nasceram ontem.
É por isso que aquelas crianças sorrindo na beira do Moa dizem tanto. Elas não são apenas a imagem bonita de uma visita. Elas são a prova de continuidade de um povo que segue fazendo da floresta uma casa habitada. Entre a Serra do Divisor e o curso barrento do rio, o que se vê é uma forma de existência onde o futuro depende da memória e onde a memória só permanece viva porque ainda há território, comunidade e luta. Nesse chão, a volta de Vitória Rodrigues ganha outra dimensão. Não é somente o retorno de uma psicóloga ao Acre. É o encontro entre cuidado, identidade e resistência no coração de um povo que continua escrevendo sua própria história.

