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O Abrigo

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Mais um corpo estendido no chão de Rio Branco, não morto fisicamente, mas com a morte social decretada. O instinto de Sérgio Vale raspa a lente nas pedras irregulares da calçada para nos jogar na cara a falência do modelo de cidade, convertendo uma caixa de papelão esmagada em um monumento à exclusão. A fita adesiva azul tenta segurar os pedaços de um abrigo frágil, onde respira um homem de camisa amarela carimbada com números nas costas, tratado como sobra de uma lógica de consumo que o mastigou e cuspiu. A ausência de um rosto universaliza a tragédia diária dos invisíveis. Bem na porta dessa moradia efêmera, as sandálias verdes sujas de lama repousam milimetricamente alinhadas, guardando a decência dolorosa de quem ainda preserva o ritual de tirar os calçados para entrar em casa. Um pacote de biscoitos pela metade e um maço de papéis resumem os bens de uma vida inteira engolida pelo descaso das ruas.

Foto de Sérgio Vale – @sergiovaleac

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Queimada não é paisagem. É denúncia.

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Na foto de Sérgio Vale, o sol parece uma bola de fogo pendurada no céu do Acre.

A fumaça das queimadas cobre a paisagem, apaga a mata, esconde o horizonte e entra sem pedir licença: Olhos ardendo, garganta seca, tosse, falta de ar e aumento dos casos respiratórios… A floresta queima. O céu muda de cor. A cidade respira pior.

Proteger a Amazônia é proteger o ar, a saúde e a vida de quem mora aqui.

Foto: Sérgio Vale Segue ele no Instagram @sergiovaleac

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“O rio torto que não ver o mar”

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A mata acompanha o rio de perto, quase encostada na água, como se guardasse seus segredos. …O rio, a floresta e o silêncio de uma paisagem amazônica ancestral, onde a natureza segue seu próprio tempo.

Sinuoso, estranho e belo… que contorna, insiste, desvia e permanece. Um caminho, uma memória atravessando o coração verde do Acre.

Fotografia do Sérgio Vale, em um diálogo com a canção “Rio Estranho”, de Pia Vila, Felipe Jardim e Romerito Aquino.

Segue ele no Instagram @sergiovaleac

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Fotógrafo Sérgio Vale homenageia mães amazônicas em ensaio no Dia das Mães

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O fotógrafo Sérgio Vale publicou neste Dia das Mães uma homenagem às mulheres da Amazônia, reunindo imagens de amanheceres, entardeceres, árvores em silhueta e canoas riscando a água para aproximar a maternidade da força antiga que sustenta a floresta, os rios e a vida nas comunidades ribeirinhas, nos seringais, nas aldeias, nos ramais e nas cidades da região. A publicação transforma a paisagem amazônica em linguagem de afeto e coloca as mães como guardiãs de uma rotina feita de cuidado, travessia, alimento, coragem e permanência.

Nas fotografias, o sol aparece baixo, quase encostando na linha escura das árvores, como se a própria mata respirasse devagar antes de mais um dia. Em uma das cenas, a canoa corta o rio sob uma luz dourada, levando pessoas pequenas diante da imensidão da água. Em outra, árvores se erguem contra o céu carregado de tons quentes, lembrando que, na Amazônia, o tempo da natureza também marca o tempo das famílias. É nesse encontro entre luz, água e sombra que Sérgio Vale constrói sua homenagem.

A mensagem associa a maternidade ao trabalho que começa antes do sol, quando muitas mulheres já estão de pé para cuidar da casa, preparar comida, acompanhar filhos, enfrentar ramais, esperar a rabeta, atravessar igarapés, puxar da memória os saberes herdados e manter acesa a vida onde quase sempre o Estado chega tarde ou chega pouco. Vale escreve que essas mulheres “atravessam a vida como quem rema contra a correnteza” e “ainda encontram força para fazer nascer cuidado, comida, abrigo e esperança”.

A homenagem também aproxima a mãe humana da mãe natureza. A floresta aparece como fonte de sustento e abrigo, alimentando pelo peixe, pela castanha, pela macaxeira, pelo açaí, pelo leite branco da seringa e pela sombra da mata em pé. A imagem não é apenas poética. Na Amazônia, a vida de milhares de famílias depende dessa relação cotidiana com os ciclos dos rios, com o tempo da chuva, com a fertilidade da terra e com os produtos que brotam quando a floresta permanece viva.

Ao celebrar as mães amazônicas, Sérgio Vale também toca em uma verdade maior: cuidar das mulheres que sustentam famílias e comunidades é cuidar do futuro da própria região. A maternidade, nas beiras de rio e nos caminhos de mata, não cabe apenas na palavra afeto. Ela é trabalho, resistência, memória, proteção e continuidade. É a mãe que ensina o filho a respeitar a água grande, a reconhecer o tempo da colheita, a dividir o pouco, a não esquecer de onde veio.

A publicação termina com uma frase que amarra a homenagem à defesa da vida: “proteger uma mãe é proteger o futuro”. Em seguida, Vale completa: “proteger a natureza é honrar a maior mãe que temos”. Entre o vermelho do entardecer, o silêncio das árvores e o risco fino das canoas sobre o rio, a mensagem permanece como um chamado simples e profundo: na Amazônia, toda mãe carrega um pedaço de floresta dentro de si, e toda floresta guarda, em sua grandeza, o gesto primeiro de uma mãe.

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