


“Rio Branco se constrói vivendo e sonhando junto com seu povo”
“Aqui é meu lugar”: Angelim e o sonho de uma Rio Branco para todos
Raimundo Angelim ficou oito anos à frente da Prefeitura de Rio Branco, entre 2005 e 2012, sem escolher uma ponte, uma rua, uma rodoviária, uma escola ou uma obra de concreto para resumir o próprio governo. Ao revisitar àquele tempo, o ex-prefeito prefere apontar para algo menos fotografável e mais difícil de medir: a tentativa de fazer a capital acreana olhar para si mesma e reconhecer que a cidade não terminava no Centro, nem nas avenidas mais bem cuidadas, nem nos bairros onde o poder público chegava primeiro. Para Angelim, a obra maior foi política e afetiva: criar condições para que o morador da periferia, da beira do igarapé, da rua de barro, da regional esquecida e da comunidade organizada pudesse dizer, com algum sentido concreto, que Rio Branco também era seu lugar.
“Quando olho para os oito anos de gestão, destaco a abertura da administração à participação popular como elemento central do projeto de cidade”, diz Angelim. A frase, dita sem esforço e com simplicidade, abre uma janela para entender o lugar que ele ocupa na memória política recente do Acre. Economista, professor aposentado da Universidade Federal do Acre, gestor formado no planejamento público, na universidade, no Sebrae, na Casa Civil, na Assembleia Legislativa, na Câmara Federal e em diferentes engrenagens do Estado, Angelim chegou à Prefeitura com a marca de um técnico-político. Mas o que ele reivindica agora não é apenas a racionalidade da planilha. É o encontro entre método e escuta, orçamento e bairro, diretriz urbana e vida cotidiana.
“Quando olho para os oito anos de gestão, destaco a abertura da administração à participação popular como elemento central do projeto de cidade.”
Raimundo Angelim
Rio Branco, naquele começo dos anos 2000, ainda carregava no corpo uma velha ferida amazônica: crescia rápido, empurrava famílias para áreas frágeis, convivia com igarapés pressionados, ruas sem drenagem, ocupações irregulares, ausência de saneamento, transporte difícil e uma sensação de que a cidade pertencia a poucos. O asfalto, quando chegava, parecia favor. A praça, quando nascia, virava acontecimento. A sede comunitária, a quadra, a creche, o posto de saúde reformado e a rua com drenagem mudavam mais do que a paisagem; mexiam na autoestima de quem durante décadas aprendeu a esperar pouco do poder público.
Angelim leu esse mapa como quem vinha do planejamento, mas também como quem sabia que cidade nenhuma se governa apenas de dentro do gabinete. “Havia, naquela época e ainda hoje, creio, uma necessidade de superar uma lógica de cidade pouco inclusiva, em que parte da população não se reconhecia como integrante do espaço urbano”, afirma. A palavra pertencimento, tão repetida hoje nos debates urbanos, aparece na fala dele como lembrança de um tempo em que o desafio era mais bruto: fazer a Prefeitura pisar o chão dos bairros e aceitar que a periferia também pensava a cidade.



O slogan “Aqui é meu lugar” não funcionava apenas como peça de campanha ou frase de gestão. Na narrativa de Angelim, era uma tentativa de reorganizar a relação entre população e espaço urbano. “A gestão priorizou o fazer com as pessoas, criando condições para que elas se vissem na cidade e participassem de sua construção”, diz. Angelim não quer ser lembrado como o prefeito de uma obra isolada, mas como alguém que tentou dar forma administrativa a uma ideia de cidade compartilhada.
O seu modo de governar ganhou corpo nos conselhos das regionais, no Fórum da Cidade, nas conferências municipais, nas reuniões comunitárias e no Programa de Gestão Participativa, o PGP. Ali, lideranças de bairro, moradores, servidores e gestores cruzavam demandas, urgências e possibilidades. Uma quadra, uma praça, uma sede comunitária, uma rua, uma drenagem, uma intervenção de lazer ou cultura podiam nascer da pressão organizada de quem conhecia a lama, a poeira, o ônibus atrasado e a falta de equipamento público não como conceito, mas como rotina.
“Dentro do gabinete, isso se traduzia em processos de decisão mais abertos, com escuta ativa e articulação com diferentes setores da sociedade”, diz Angelim. “O planejamento urbano não era tratado apenas como instrumento técnico, mas como ferramenta de organização social.” A frase carrega a síntese de uma gestão que buscava transformar demanda popular em programa, e programa em obra, serviço ou política pública. Nem sempre com a velocidade esperada, é verdade. Nem sempre com a permanência necessária, também é verdade. Mas com uma intuição rara na administração pública, Angelim sabe que o bairro não é problema a ser corrigido, é ponto de partida para pensar a cidade.
As Zonas de Atendimento Prioritário, as ZAPs, talvez sejam o exemplo mais visível dessa leitura territorial. Em parceria com o Governo do Acre, a sua gestão organizou intervenções que combinavam saneamento, pavimentação, urbanização, remoção de famílias de áreas de risco, recuperação ambiental, arborização e projetos sociais. Registros do período apontam oito ZAPs, cerca de 8 mil famílias beneficiadas e 12 bairros populares alcançados por esse modelo de ação integrada.



A ZAP Chico Mendes permanece como uma dessas marcas. A área reunia problemas conhecidos de tantas periferias amazônicas: ocupação irregular, moradias comprimidas perto de igarapés, ausência de saneamento, ruas difíceis, risco ambiental e abandono acumulado. A intervenção previa rede de água, esgoto, pavimentação, recuperação de áreas degradadas e parque linear. Por trás dos números, havia uma escolha e decisão social política: tratar a pobreza urbana não como falha moral do morador, mas como resultado de uma cidade que durante muito tempo cresceu sem reconhecer todos os seus habitantes.
Essa compreensão aproximou e/ou aproxima a gestão Angelim de uma questão central para Rio Branco: a relação entre urbanização e ambiente. Na Amazônia acreana, o igarapé não é detalhe da paisagem. Ele corta bairros, carrega memória, drena chuvas, recebe agressões, transborda descaso. Quando uma família ocupa a beira de um curso d’água, o problema não cabe numa frase simples. Há ali ausência de moradia, desigualdade, omissão histórica, pressão econômica, risco sanitário e destruição ambiental. Angelim diz que o Plano Diretor, a política habitacional e a regularização fundiária foram pensados dentro dessa tensão entre crescimento urbano, preservação e inclusão.
“Essas medidas foram concebidas como uma combinação entre decisão técnica e escolha política”, afirma. “Do ponto de vista técnico, houve a definição de diretrizes claras para o crescimento urbano, a proteção de áreas de preservação permanente e a segurança dos igarapés, elementos fundamentais para a sustentabilidade da cidade.” O ex-prefeito cita estudos sobre ocupação do território, áreas de desenvolvimento urbano e rural, levantamento de reservas de água subterrânea e ordenamento do crescimento. Mas o centro da sua fala volta sempre ao direito à cidade. “Do ponto de vista político, essas medidas representaram uma opção pela inclusão urbana, ao reconhecer o direito à cidade e à moradia digna.”
A regularização fundiária aparece nesse ponto como uma fronteira inacabada. Angelim reconhece que a política não se encerra em um mandato, nem se resolve com decreto, discurso ou mutirão isolado. Para famílias de baixa renda, receber segurança jurídica sobre o lugar onde se mora altera a relação com a casa, com a rua e com o futuro dos filhos. Mas a engrenagem é lenta, jurídica, técnica, administrativa e politicamente vulnerável. “O principal avanço foi a consolidação do conceito de regularização fundiária como política pública estruturante no município”, diz. “A regularização fundiária não se encerra em um ciclo de governo, mas demanda um esforço contínuo e integrado ao planejamento urbano.”



A mesma lógica atravessa a agenda dos resíduos sólidos. A criação da Unidade de Tratamento de Resíduos de Rio Branco, a UTRE, nasceu como resposta a um problema que crescia com a própria cidade. Lixo, saúde pública, contaminação, descarte irregular e gestão ambiental formavam uma só questão. “A agenda de resíduos sólidos surgiu da necessidade de enfrentar de forma estruturada um problema urbano crescente”, afirma Angelim. A UTRE, para ele, foi uma tentativa de dar solução técnica a uma ferida urbana que não podia continuar sendo empurrada para longe dos olhos da população.
Na educação, o ex-prefeito lembra construção e reforma de escolas, melhoria da merenda escolar, ampliação de creches e avanços em indicadores. Na saúde, fala de cobertura vacinal infantil, fortalecimento da atenção básica, serviços essenciais e políticas voltadas aos idosos. No campo social, menciona mulheres, pessoas em vulnerabilidade, redes de inclusão e equipamentos públicos. Na produção, cita agricultura familiar, mulheres produtoras, empreendedorismo, Ceasa e geração de trabalho e renda. Tudo entra, na leitura dele, dentro de uma mesma arquitetura: elevar a autoestima coletiva e fazer a cidade funcionar para mais gente.
Não se trata, porém, de uma história sem engrenagem política. Angelim não separa sua gestão do ciclo da Frente Popular do Acre. Ele reconhece que a sintonia entre Prefeitura, Governo do Acre e Governo Federal ampliou a escala das entregas, facilitou o acesso a recursos e deu força a políticas que talvez não tivessem avançado no mesmo ritmo sem essa convergência. “Sem esse alinhamento, é possível que os resultados fossem diferentes, especialmente em termos de escala e velocidade de entrega”, afirma. Ainda assim, procura marcar uma diferença: a gestão municipal tinha rosto próprio na forma de executar, dialogar e organizar prioridades por território.
Esse ponto é importante para retirar Angelim da caricatura do gestor apenas técnico ou apenas beneficiário de um momento político favorável. Sua administração fazia parte de um projeto coletivo, mas operava num terreno específico: Rio Branco, com suas regionais, seus bairros populares, seus igarapés pressionados, suas associações comunitárias, suas demandas antigas e suas lideranças de base. “A ênfase na participação popular, na construção do planejamento urbano e na articulação com diferentes segmentos sociais refletiu uma identidade de gestão que dialogava com o projeto coletivo, mas que também buscava responder às especificidades de Rio Branco”, diz.
“A comunidade nos ensinou muito, nos fez quebrar ritos e protocolos para rever muitas das nossas ações.”
Raimundo Angelim



Houve decisões difíceis. Angelim cita o rigor na aplicação do Plano Diretor como uma das mais desafiadoras. Em uma cidade onde a pressão por ocupação urbana sem planejamento sempre foi intensa, ordenar o uso do solo significa contrariar interesses, criar resistências e enfrentar a velha cultura do improviso. “Essa postura, embora necessária do ponto de vista técnico e ambiental, gerou resistências, especialmente em contextos onde há pressão por ocupação urbana sem planejamento”, afirma. Para ele, não havia como defender a sustentabilidade urbana sem algum grau de conflito.
A política, na lembrança do ex-prefeito, também foi feita por personagens que raramente aparecem nas fotografias oficiais. Servidores da saúde, da educação, dos serviços urbanos, técnicos de planejamento, lideranças comunitárias, idosos, mulheres, esportistas, fazedores de cultura e moradores que levavam recados, cobravam obras, organizavam reuniões e sustentavam a ponte entre Prefeitura e território. “Quantas lideranças, quantos idosos, mulheres, fazedores de cultura, esportistas levaram nossas mensagens para as ruas. Essas pessoas se sentiram, em algum momento, parte integrante da gestão”, diz.
Isso talvez revele mais sobre Angelim do que qualquer balanço administrativo. Para ele, a cidade não foi apenas administrada; foi negociada, debatida, tensionada e construída com gente que conhecia o chão. A Prefeitura, nesse desenho, não aparecia como uma torre distante. Era uma máquina pública tentando se abrir, com todos os limites, contradições e disputas que acompanham qualquer governo. “A comunidade nos ensinou muito, nos fez quebrar ritos e protocolos para rever muitas das nossas ações”, lembra.
Por isso, Angelim considera limitada a leitura que reduz sua administração às obras físicas. Não porque infraestrutura seja menor. Em Rio Branco, uma rua pavimentada com drenagem pode mudar a vida de uma família tanto quanto uma política social. Mas, na avaliação dele, o concreto era parte de uma trama maior. “Embora a infraestrutura seja importante, houve um conjunto mais amplo de políticas estruturantes voltadas à inclusão social, ao planejamento urbano e fortalecimento institucional administrativo”, afirma. A obra, sozinha, não explica o projeto. O que ele quer preservar é o modo de fazer.
Podemos falar e conversar sem filtros ou qualquer restrição o que levou a entrevista ganhar densidade pessoal quando Angelim fala do que a política lhe deu e do que lhe tirou. O tom deixa de ser apenas administrativo e entra numa região mais íntima, onde a vida pública cobra sua conta. “A política proporcionou aprendizado, experiência e reconhecimento”, diz. “Quantas pessoas tocamos, quantas ajudamos e que saíram do anonimato social.” Depois, vem o preço: o tempo retirado da família, a dedicação intensa, a vida pessoal comprimida pela agenda pública. “Mas não me arrependo, isso me tornou mais digno de ter a família que tenho.”

Hoje, Angelim diz não buscar novos mandatos. A participação, para ele, pode existir fora do cargo, na conversa, na formação, no conselho, na memória e na disposição de continuar pensando a cidade. “A participação política não se limita ao exercício de cargos, podendo ocorrer também no campo das ideias e da orientação, do se colocar disposto para pensar, chorar e sorrir com as pessoas”, afirma. Afirmação que carrega um traço do homem que atravessou a política sem abandonar completamente o professor.
Ao falar do futuro, ele olha para uma nova geração e deseja lideranças capazes de conversar com o mundo sem perder o pé no Acre. Esse é um dilema antigo da política amazônica: inovar sem virar cópia, crescer sem destruir, modernizar sem apagar os povos, planejar sem expulsar os pobres, dialogar globalmente sem abandonar a realidade local. “A juventude precisa ser incentivada a inovar, a valorizar o conhecimento e a construir soluções adaptadas às necessidades da região”, diz. Para Angelim, também é preciso aprender com experiências anteriores, porque política pública sem continuidade vira sempre recomeço, e recomeço permanente custa caro para quem mais precisa do Estado.
Quando perguntamos sobre a história política recente do Acre, Angelim não foge das perdas do campo progressista. Ele reconhece que a esquerda acreana acertou ao colocar inclusão social, meio ambiente, floresta e povos tradicionais no centro de um projeto de governo, mas também admite que perdeu diálogo com a sociedade em momentos decisivos. “A esquerda perdeu a narrativa de que as pessoas estavam no centro das nossas ações”, afirma. A análise vem sem triunfalismo. Para ele, o aprendizado está na escuta, na adaptação e no replanejamento permanente.
No fim, Angelim volta ao começo. Gostaria de ser lembrado como alguém que contribuiu para uma gestão baseada na participação, no planejamento e no compromisso com a vida da cidade. Não fala em monumento, nem em avenida, nem em marca pessoal acima da experiência coletiva. Fala de processo, de capacidade pública, de gente comum e de uma cidade onde a vida acontece. “Mais do que ações isoladas, a intenção foi fortalecer processos e ampliar a capacidade de atuação da gestão pública, pensando na cidade como o lugar onde a vida acontece, onde as pessoas sonham em ser felizes.”


A memória de Raimundo Angelim permanece ligada a essa disputa sobre o sentido de Rio Branco. Para seus defensores, ele ajudou a fazer a Prefeitura sair do gabinete e chegar aos bairros com planejamento, obra, serviço e escuta. Para a análise histórica, seu ciclo ainda pede cruzamento entre memória, dados, continuidade, manutenção das políticas e voz dos moradores atingidos por aquelas intervenções. Mas, na narrativa que ele constrói sobre si, há uma coerência clara: a cidade não podia ser apenas espaço de circulação, arrecadação e obra. Precisava ser lugar de pertencimento.
“Não se faz política distante das pessoas, se faz política vivendo juntos, sonhando, decepcionando e comemorando juntos”, diz Angelim. Nessa frase cabe o prefeito, o professor, o gestor e o homem que hoje olha para trás sem escolher uma peça de concreto como troféu. Sua maior obra, na versão que entrega à memória pública, foi tentar convencer Rio Branco de que a cidade também se constrói quando o morador da periferia deixa de pedir licença para existir nela.
