Cantor, compositor, comunicador e psicólogo, Anderson Liguth carrega no corpo e na voz a força das tradições afro-brasileiras
No Dia da Consciência Negra, o Acre reencontra uma de suas vozes mais consistentes: Anderson Liguth, cantor, compositor, pandeirista, radialista, psicólogo e militante da cultura afro-brasileira. Sua trajetória reúne música, espiritualidade, comunicação, pesquisa e vivência comunitária, mas sobretudo reúne história, a história do povo negro que construiu este país, que resiste todos os dias e que encontra no samba um território de identidade e sobrevivência. Trocamos uma ideia que não poderia seguir outro caminho: uma conversa profunda, generosa e cheia de ancestralidade. Nela, Anderson revisita suas origens, seus mestres, suas descobertas e a potência simbólica do 20 de Novembro.
Ele nasceu em um ambiente familiar amplo, amoroso e ruidoso do jeito mais bonito: o barulho da família grande misturado aos sons de samba, de cozinha, de festa e de convivência. Cresceu na Mangabeira, cercado pelos avós, pelas tias e tios, pelas primas e primos e pela presença marcante de um comércio que atravessou gerações, fundado ainda na década de 1970 por seu avô. Desse território afetivo veio também a música. O pai, percussionista e compositor; a mãe, fã de Clara Nunes e de sambas que ecoavam pela casa; a vizinhança, que se encontrava em rodas de samba onde o menino Anderson já percebia que ali havia algo maior. “Foi amor à primeira vista”, recorda. O pandeiro veio como destino. E o samba, como futuro.
Formado inicialmente dentro do catolicismo, ele conta que a espiritualidade afro-brasileira entrou em seu caminho exatamente pela porta do samba. Ao se aprofundar nas letras, nas histórias e nos nomes que surgiam nas canções, Ogum, Xangô, Iansã, Zé Pelintra, percebeu que aquela musicalidade era linguagem ancestral, memória viva de um povo que criou, no Brasil, um dos mais importantes patrimônios culturais do mundo. Foi através de mestres como o historiador e ogan Arimatéia e o ogan Ed que Liguth compreendeu a dimensão histórica e religiosa do samba e das tradições afro-brasileiras. Ali se reconectou com algo que, segundo ele, sua família não viveu diretamente, mas que encontrou nele um terreno fértil: a espiritualidade como força de mundo, como ampliação de consciência e como elemento inseparável da cultura negra.
Artista, psicólogo e comunicador, ele diz que seu olhar sobre o mundo é moldado por esse entrelaçamento de referências: os valores familiares de amor e solidariedade, a prática do samba enquanto linguagem coletiva e filosófica, a vivência afro-brasileira e a formação acadêmica que lhe deu instrumentos para compreender pessoas e territórios. “Tudo foi se somando”, afirma. O samba ampliou sua visão de mundo e o conduziu a um lugar de pertencimento, identidade e responsabilidade.
No campo artístico, suas composições refletem essa travessia. Uma das músicas que mais o representam é “PAO”, De saudade se faz um samba, parceria com Alexandre Nunes Nobre e Julie Messias. A canção nasce do sagrado: o paó é o som das palmas que, junto aos atabaques, desperta os ancestrais. Na letra, as referências negras, familiares e culturais se misturam. É autobiografia poética, e é marco de sua trajetória.
“O samba é uma ferramenta de transformação”
A comunicação chegou pela porta natural da pesquisa musical. Apaixonado por mergulhar na história do samba, de seus compositores e de seus movimentos, Anderson foi convidado a integrar a Rádio Aldeia primeiro como voluntário e, depois, como comunicador nos programas jornalísticos. Ali aprendeu técnica, narrativa e responsabilidade. Ali formou o comunicador que hoje se reconhece como tal. Foi também a partir dessa vivência que participou de movimentos fundamentais na comunicação e na cultura do Acre, como o programa Quilombo Livre, idealizado por Ogan Arimatéia e Ogan Ed, dedicado à cultura negra, à história afro-brasileira, à religião de matriz africana, à música, à educação e à luta política do movimento negro.
Sua militância, entretanto, não se restringiu aos microfones. Anderson foi um dos idealizadores do Clube do Samba, movimento que transformou a cidade ao reunir músicos, pesquisadores, lideranças comunitárias e jovens artistas em rodas, encontros e oficinas. “Era uma confraria do conhecimento e da tradição”, lembra. Dali nasceram ações de formação, rodas temáticas, filantropia e o impulsionamento de novas vozes, como o grupo Moças do Samba, hoje presente e ativo na cena acreana. Anos depois, quando retornou a Rio Branco após uma temporada no interior, ajudou a fundar o Samba Popular Livre, que ocupou ruas e praças com samba gratuito, feiras solidárias e cultura comunitária.
Para Anderson, o samba é mais do que ritmo: é estrutura social. “O samba é um organismo vivo”, diz. É onde famílias vivem, onde jovens encontram caminhos, onde empreendedores circulam, onde tradições são passadas adiante. É, sobretudo, ferramenta política. A música, para ele, tem papel fundamental na denúncia das desigualdades e na reivindicação de direitos. Ele cita sambas-enredo como o da Mangueira, “História para ninar gente grande”, que rasgam o véu da história oficial e expõem o que foi silenciado: o sangue negro, a luta negra, o Brasil construído pelos que nunca foram celebrados.
É por isso que o Dia 20 de Novembro, para ele, é uma data de luta, e não de festa. Anderson afirma que, apesar dos avanços, o racismo segue modelando a sociedade brasileira. O povo negro, embora seja maioria numérica, segue sendo minoria nos espaços de poder, nas profissões prestigiadas, na política. “É preciso letramento racial, consciência de classe, organização, movimento. É preciso nomear o racismo e enfrentá-lo”, declara. A data, segundo ele, é memória dos que vieram antes, das conquistas e das perdas, mas também é chamado ao presente: chamado à responsabilidade coletiva, à resistência e à continuidade da luta.
“20 de Novembro não é comemoração, é resistência.”
Anderson deseja que o 20 de Novembro seja vivido como consciência ativa. Que se honre quem abriu caminhos. Que a luta ancestral siga sendo trilha para as novas gerações. Que a música, a arte e a cultura negra continuem a despertar o que há de mais profundo: identidade, dignidade, força e vida.
No Acre, no Brasil e no mundo, o samba segue ecoando como ferramenta de resistência e como voz do povo negro. E, pela palavra e pela caminhada de Anderson Martins, essa certeza se faz ainda mais forte.
Realização Bari Comunicação – Texto: Alexandre N Nobre Fotos: Arison Jardim
Por trás da neblina da manhã acreana e do peso secular da castanha, uma nova juventude seringueira recusa o êxodo e empunha a tecnologia para transformar o legado de sangue dos empates em orçamento e política pública.
O silêncio absoluto da Amazônia é um mito urbano. A floresta é barulhenta, viva, um motor biológico que não desliga. Mas na Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, há um novo ruído se misturando ao canto dos pássaros e ao estalo dos ouriços de castanha caindo no chão úmido: o som das notificações de celular.
Para quem assiste de longe, acomodado na imagem romântica (e muitas vezes engessada) do seringueiro isolado no tempo, a cena pode parecer um choque de realidades. Para Rian Barros, é apenas a sobrevivência mudando de marcha. Filho de Raimundão Mendes de Barros — lenda viva dos históricos empates que, na base do corpo a corpo, frearam as motosserras ao lado do primo Chico Mendes —, Rian carrega um sobrenome que pesa como a própria história do estado.
Hoje, como Secretário da Juventude do PT e liderança que não arreda o pé do chão de terra, ele personifica a ponte entre a trincheira do passado e as batalhas do século XXI.
“Ser filho do Raimundão aqui dentro da Resex não é só orgulho, é uma responsabilidade muito grande”, ele me diz. A voz carrega a firmeza de quem não aprendeu política nos livros, mas na poeira dos ramais. “Eu cresci ouvindo história de resistência, de enfrentamento, de gente que peitou fazendeiro pra garantir esse chão que a gente pisa hoje. Essa terra não foi de graça. Foi conquistada na luta, com suor, sangue e vidas.”
Essa memória, no entanto, é uma planta que exige rega diária. Rian sabe que o esquecimento é o primeiro sintoma da perda de direitos. A juventude da floresta entende parte da dimensão histórica de onde pisa, mas, nas palavras dele, “resgatar essa memória é manter a chama acesa e a luta mais viva do que nunca”.
A Gênese de Sangue: O Preço de Quase 1 Milhão de Hectares
Criada em março de 1990, a Reserva Extrativista Chico Mendes não foi uma concessão diplomática do Estado, mas o resultado de mais de uma década de sangue derramado.
Com 970 mil hectares abraçando sete municípios do Acre, ela nasceu da luta de Chico Mendes e seus companheiros, com a carne e a coragem dos “empates” — barricadas humanas onde seringueiros davam as mãos para formar escudos contra tratores e motosserras.
O objetivo era frear o trator da ditadura que vendia a Amazônia para a agropecuária do Sul. A Resex foi concebida sob uma premissa revolucionária: provar que as populações tradicionais poderiam prosperar mantendo a floresta de pé. Uma utopia que, trinta anos depois, colide com a dureza do mercado.
Resex Chico Mendes, entre Brasileia e Assis Brasil (Foto: Arison Jardim)
O peso do ouriço e a borracha que pisa em Paris
A modernidade não apagou a dureza do ofício. O extrativismo não é um passeio no parque; é uma coreografia bruta com a natureza. A coleta da castanha-do-brasil dita o ritmo econômico e o desgaste físico de quem vive sob a copa das árvores.
Rian, durante a coleta da castanha neste ano (Foto: Arquivo Pessoal)
“Quem tá no mato sabe que a castanha não é fácil. É peso nas costas, é chuva, é risco de cobra, é andar muito dentro da mata, é trabalho duro”, descreve Rian, dissipando qualquer verniz poético sobre a lida diária.
A saída para não ser esmagado pela engrenagem do mercado contínua sendo a mesma cartilha escrita por seus antecessores: o associativismo. A cooperativa funciona como um escudo.
“Sozinho o produtor é pequeno, mas juntos a gente fica forte. A organização coletiva ainda é nossa melhor defesa contra atravessador que quer pagar mixaria.”
Mas a economia da floresta se ramificou. A borracha, o ouro branco que já definiu os rumos do Acre, ressurge não mais como commodity de exploração desenfreada, mas como artigo de luxo ético. “A borracha continua viva, é nossa tradição. Hoje ela ganha força de novo porque o mundo começa a entender que a floresta em pé vale mais do que derrubada”, reflete. A prova material disso calça os pés de europeus: a parceria da comunidade com a marca francesa Vert (Veja) transformou o látex acreano em tênis de alto valor agregado, numa relação que finalmente remunera a conservação.
Quem é Raimundão: O Corpo que Parou a Motosserra
Para entender o peso dos passos de Rian, é preciso olhar para as pegadas de seu pai. Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, não é apenas o primo de Chico Mendes; ele é a memória viva e pulsante de uma época em que a defesa da Amazônia não era feita em conferências internacionais, mas com o próprio corpo na frente de tratores.
Nas décadas de 1970 e 1980, Raimundão foi um dos grandes fiadores dos “empates” — a tática desesperada e corajosa em que famílias de seringueiros davam as mãos para formar escudos humanos contra o avanço das motosserras e da pistolagem.
Sobrevivente de uma geração de líderes rurais que pagou com a vida pela ousadia de defender a floresta em pé, ele viu a Reserva Extrativista nascer do luto e da luta. Hoje, como um dos maiores guardiões do território, Raimundão é o patriarca da Resex, a ponte histórica que ensina a nova geração a não esquecer o preço do chão que pisam.
Guardião da memória: Raimundão resistiu na linha de frente dos empates e segue como uma das maiores referências da Resex Chico Mendes (Foto: Arison Jardim)
O Ciberespaço e o Ecoturismo como Trincheiras
O grande paradoxo que Rian ajuda a desconstruir é a falsa ideia de que a preservação exige isolamento. A nova geração de extrativistas recusa o papel de peça de museu antropológico. Eles querem a floresta intacta, mas querem Wi-Fi debaixo da sumaúma.
“Tem gente que acha que viver na reserva é viver atrasado, isso não é verdade. A gente tem celular, internet, usa rede social e continua sendo extrativista. Uma coisa não apaga a outra”, decreta. A conexão não dilui a identidade; ela a amplifica.
“Ser moderno não é deixar de ser seringueiro, é usar o que tem hoje pra defender o que é nosso. A tecnologia ajuda a vender melhor, denunciar injustiças e organizar a nossa juventude.”
Essa mesma lente pragmática é apontada para o turismo. O ecoturismo que desponta na Resex Chico Mendes é recebido pelos jovens não apenas como um complemento ao balanço financeiro no fim do mês, mas como uma vitrine ideológica. “Trazer gente de fora pra conhecer a Resex não é só dinheiro. É mostrar nossa realidade, nossa luta, nosso jeito de viver. Pra juventude, é renda, mas também é consciência.”
Operação Suçuarana (2025): Táticas de Guerrilha na Mata
A tensão entre a preservação e o avanço da ilegalidade atingiu um ponto de ruptura histórico em meados de 2025. O ICMBio, amparado por decisões judiciais, deflagrou a “Operação Suçuarana” para a retirada de centenas de cabeças de gado irregulares do interior da reserva.
A resposta dos invasores foi inédita e assustadora: agentes de fiscalização enfrentaram táticas de guerrilha. Criminosos incendiaram pontes, bloquearam ramais, cortaram cercas e atacaram acampamentos oficiais.
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O episódio escancarou para o país uma nova e sombria realidade acreana: a simbiose violenta entre o crime ambiental, a grilagem de terras e o avanço do crime organizado nos territórios de floresta.
Amar, Mudar e Permanecer
Nada disso, contudo, blinda a reserva do fenômeno silencioso que esvazia o interior do Brasil: o êxodo rural. Os jovens partem. Vão inchar as periferias de Rio Branco ou de cidades menores, seduzidos pela promessa de uma vida menos ríspida. Mas Rian faz uma correção cirúrgica nessa narrativa: “O jovem não sai porque quer, infelizmente ele sai porque precisa.”
A cura para o êxodo não é o discurso, é o asfalto, o cabo de fibra ótica, o preço justo. “A boa maioria não quer trocar sua terra pra ir morar na cidade. O que falta muitas vezes não é vontade, é política pública chegando de verdade”, pontua.
Em seu perfil digital, Rian empunha um verso clássico de Belchior: “Amar e mudar as coisas me interessa mais”. Na boca de um político urbano, seria apenas marketing. No chão da Resex, é um manifesto de sobrevivência.
“Não é só frase de efeito, é uma postura”, explica Rian, destrinchando sua visão de futuro para a próxima década.
“Amar a floresta não é romantizar, é defender, é cobrar e se organizar. Porque amar sem mudar é acomodação, e mudar sem amar vira política fria, que não entende o povo.”
Seu sonho para os próximos dez anos passa longe de utopias inatingíveis. Ele quer o básico bem feito: cooperativas transparentes, turismo estruturado, ramais trafegáveis e uma juventude que escolha ficar por ter oportunidade.
No fim da conversa, a mensagem que ecoa de Rian Barros é um recado direto a quem olha para a Amazônia apenas como um santuário intocável. “Isso não vai acontecer na base do discurso bonito, mas sim quando a gente transformar amor pelo nosso território em pressão, em projeto, em orçamento, em política pública concreta.” O filho de Raimundão sabe melhor do que ninguém: a floresta só fica em pé se quem vive sob a sombra de suas árvores também estiver de pé. E com dignidade.
Conheça Rian em suas redes
Acompanhe o dia a dia na Resex Chico Mendes, o trabalho da juventude extrativista e o turismo de base comunitária.
Uma história, quando ganha o mundo, tem o poder de transformar quem toca, quem ouve, quem sente, mesmo que por alguns minutos, a dor do outro. Vozes do Silêncio é uma dessas histórias. Nasce para jogar luz em um mundo inteiro de dores, mas também de esperança.
Quando comecei essa jornada, eu sabia que seria um trabalho difícil. Mas não imaginava que ele me atravessaria tão profundamente, nem que transformaria toda a equipe da maneira como aconteceu. O documentário nasceu do desejo sincero de dar visibilidade a sentimentos e experiências que, por tanto tempo, ficaram aprisionados no silêncio.
Quando comecei essa jornada, eu sabia que seria um trabalho difícil. Mas não imaginava que ele me atravessaria tão profundamente, nem que transformaria toda a equipe da maneira como aconteceu. O documentário nasceu do desejo sincero de dar visibilidade a sentimentos e experiências que, por tanto tempo, ficaram aprisionados no silêncio.
Durante as gravações, encontramos mulheres que resistiram ao que parecia impossível. Mulheres que reinventaram suas vidas depois da violência, que reconstruíram a própria existência sobre os escombros do que a dor tentou destruir. Cada palavra dita diante da câmera era uma ferida exposta, mas também um gesto de cura. E foi nesse processo que entendi: dirigir Vozes do Silêncio era, acima de tudo, um exercício de escuta.
“Vozes do Silêncio é um filme que denuncia, mas também acolhe”
A escuta é o que sustenta esse filme. Ela é o fio invisível que costura todas as histórias. Aprendi, com cada depoimento, que o silêncio pode ser violento, e que ouvir o outro — de verdade — é um gesto político. Essa compreensão mudou minha forma de estar no mundo. Não era mais sobre filmar o outro, mas sobre permitir que o outro existisse na imagem com sua própria verdade.
Quando o filme ficou pronto, percebi que ele já não nos pertencia. Ele é das mulheres que falaram, das pessoas que se reconheceram nas histórias, de todos que acreditam que a arte pode ajudar a transformar a realidade. A cada exibição, sinto que a história volta a nascer, que ela segue encontrando novos ouvidos, novos corações.
“A Lei Paulo Gustavo, o apoio da Fundação Elias Mansur e do Governo do Estado do Acre foram fundamentais para que Vozes do Silêncio saísse do papel”
Acredito que a arte tem essa força — a de construir pontes entre o individual e o coletivo, entre o que somos e o que podemos ser. E é por isso que as políticas culturais são tão importantes. Porque é através delas que essas pontes se tornam possíveis. A Lei Paulo Gustavo, o apoio da Fundação Elias Mansur e do Governo do Estado do Acre foram fundamentais para que Vozes do Silêncio saísse do papel. A arte precisa de estrutura, de investimento, de visão. Quando a cultura é tratada como direito, e não como privilégio, ela floresce — e o que nasce disso toca vidas.
Vozes do Silêncio é um filme que denuncia, mas também acolhe. Que provoca, mas oferece esperança. Misturamos jornalismo, poesia e música para criar um espaço de sensibilidade, onde o público pudesse refletir, se emocionar e se reconhecer. Essa mistura nasceu da vontade de não fazer apenas um registro, mas uma escuta coletiva, uma travessia compartilhada.
Hoje, olhando para tudo o que vivemos, percebo que esse documentário não mudou apenas meu trabalho no audiovisual, mas minha forma de estar presente no mundo. Ele me fez repensar o papel do homem, do artista, do cidadão.
Se Vozes do Silêncio conseguir tocar as pessoas como tocou todos nós, já terá cumprido o seu propósito. Porque, no fim, o que o filme nos ensina é simples e imenso: toda história tem um eco, e escutar é, talvez, o primeiro passo para transformar o silêncio em vida.
Alexandre Nunes, diretor do documentário Vozes do Silêncio
A história de Medusa
Por fim, a história deste documentário é sobre a força de Medusa.
Medusa é o grito que virou palavra. É a mulher que transformou a dor em poesia e o silêncio em revolução. Nascida nas margens, ergueu-se gigante carregando em sua voz o eco de todas que vieram antes, mães, tias, meninas que aprenderam a suportar. Sua arte é ferida e cura, lágrima e resistência. Medusa fala do que muitos não ousam dizer, pensar, e ao fazê-lo, abre caminhos de esperança. Em Cada verso, ela devolve dignidade às histórias caladas e mostra que a força da mulheres não está em SUPORTAR, mas em transformar. Medusa não é só uma artista: é símbolo de renascimento, é o rosto da coragem que insiste em florescer mesmo entre ruínas.
“A poesia veio para a minha vida para me curar de todas as minhas dores…”
Medusa AK
Uma jovem e gigante mulher que transforma dor em palavra e palavra em cura.
Sua voz nasce da periferia de Rio Branco, entre o barulho das ruas e o silêncio das casas onde as mulheres aprenderam a suportar.
Como disse Lula “Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a chegada da primavera” Parafraseando Lula: Podem cortar as rosas, mas não podem deter o vento que anuncia a primavera. E Medusa é esse vento, firme, doce e impossível de CALAR.
Esse trabalho é para todos que florescem mesmo entre as ruínas… Enquanto Medusa dá voz à dor e à poesia das mulheres, Dra Louise Kristina transforma a palavra em tutela, para que o grito não seja apenas ouvido, mas acolhido e protegido.
A cada história, o documentário constrói um retrato coletivo de resistência, onde Medusa e a juíza Louise Kristina revelam que o silêncio nunca é o fim.
“Quando aplicamos a Lei Maria da Penha, reafirmamos que a vida das mulheres importa e que a violência não pode ser naturalizada.”
Louise Kristina Lopes de Oliveira Santana
Gravado no Acre e produzido com apoio da Lei Paulo Gustavo, o filme convida o público a sentir, pensar e agir.
O sol do Acre não perdoa. Brilha firme sobre o asfalto quente da Avenida Ceará, onde o tempo parece se dividir entre o barulho das máquinas e o passo apressado de quem passa. Ali, no coração de Rio Branco, a cidade muda. Cada novo metro de via é um traço de modernidade. Cada rosto suado, uma história.
Entre eles, a de Wesley da Silva de Oliveira, 26 anos. Filho de uma doméstica e de um pedreiro, ele aprendeu com o pai que trabalho é mais do que sustento, é um modo de existir. “Meu pai era pedreiro, minha mãe doméstica. Eu segui o rumo do meu pai, porque era o que tinha em casa”, diz, olhando para o canteiro de obra que ajuda a erguer, com as mãos marcadas e um olhar que mistura força, cansaço e orgulho.
A obra da Avenida Ceará, executada pelo Governo do Estado do Acre, por meio da Secretaria de Estado de Obras Públicas (SEOP), é uma dessas transformações que se enxergam de perto. Não é só sobre concreto e máquinas. É sobre o movimento de uma cidade que cresce, de pessoas que voltam a sonhar. É sobre um governo que escolheu fazer da infraestrutura um caminho de dignidade.
“É bom ver o governo dando oportunidade. A gente se anima, tem renda, melhora a condição da família”, conta Wesley. Atrás dele, outros homens e mulheres dividem a mesma rotina e o mesmo sentimento. São vozes que o Acre às vezes não ouve, mas que constroem, em silêncio, o futuro de todos nós.
O engenheiro civil Ítalo Almeida Lopes, secretário de Estado de Obras, caminha entre o barulho das máquinas e o calor do asfalto. Ele fala com o orgulho de quem também põe a mão no trabalho que conduz. “É um sentimento de realização e de responsabilidade muito grande”, diz. “Sou engenheiro formado na Universidade Federal do Acre e hoje trabalho com profissionais que são referência para o Estado todo. Essa obra vai muito além da técnica. Mobilidade urbana é qualidade de vida. É garantir que quem sai de casa cedo para trabalhar ou estudar tenha menos tempo no trânsito e mais tempo com a família.”
A Avenida Ceará é mais do que uma via em obras. É o símbolo de um Estado que se refaz, que investe na sua gente, que transforma o chão em esperança. “Eu me imagino nessa cidade daqui a um ano, tudo diferente. E já fico emocionado, porque participei disso”, diz Wesley, com um sorriso tímido. “O coração fica doido.”
No fim da tarde, o sol se despede em tons alaranjados e o reflexo do asfalto novo devolve à cidade um brilho que parecia esquecido. Wesley observa o que está ajudando a construir. “Nosso Acre não é excluído. A gente existe e tem força pra trabalhar”, diz, mais pra si do que pra quem ouve.
Talvez ele não perceba, mas sua frase carrega o sentido exato daquela obra, e de tantas outras que nascem do trabalho e da vontade de um governo que acredita nas pessoas. Porque, no fim das contas, o que se constrói ali não é apenas uma avenida. São sonhos que constroem o futuro.
“Nosso Acre não é excluído. A gente existe e tem força pra trabalhar” – Wesley da Silva de Oliveira
‘Vozes que o Acre às vezes não ouve, mas que constroem, em silêncio, o futuro de todos nós.’
Governo do Estado e trabalhadores unidos na revitalização da Avenida Ceará. Engenharia, força e esperança transformando Rio Branco. – Foto: Sérgio Vale
“Mobilidade urbana é qualidade de vida. Cada desafio de hoje é parte de um investimento que vai beneficiar gerações de acreanos.” Ítalo Almeida Lopes, secretário de Estado de Obras. – Foto: Sérgio Vale