Em agosto de 2021, os membros da comunidade Sawawo receberam um alerta de que madeireiros planejavam entrar em Yurúa, passando com segurança por sua comunidade. A guardiã da floresta, como é conhecida no Peru, Maria Elena e os membros da comunidade logo detectaram um caminho, uma estrada florestal que cruzava sua comunidade, Sawawo Hito 40. A comunidade fica na fronteira com o Brasil, na Hito 40, e fica na bacia do rio Amônia, que nasceu no Peru e percorre os territórios também Asháninka de Apiwtxa, no país vizinho na cidade de Marechal Thaumaturgo (AC).
Quando María Elena Paredes começou a treinar para ser guardiã florestal, ou seja, guardiã oficial de suas florestas comunais, ela já sabia o que queria. Ela revisou a história de seus compatriotas, as histórias de seus avós e ex-líderes comunitários. Eles fugiram da selva central, fugindo do “progresso”: das estradas, dos engenheiros que favoreceram os colonos, dos colonos que se apropriaram de suas terras, dos madeireiros, plantadores de coca e terroristas.
Com pouco ou nenhum entusiasmo, os comunitários saíram de seus territórios tradicionais, em Pasco e Junín, no Peru e buscaram novas terras, com a oferta de um madeireiro de que os ajudaria a obter títulos se aceitassem vender-lhe as valiosas madeiras do que seria sua nova casa. Com o tempo, algumas promessas foram cumpridas e eles tiveram seu título, mas a empresa exigia cada vez mais, então finalmente resolveram encerrar o negócio. A empresa logo caiu em desgraça e deixou a área. Ao longo dos anos, María Elena e seus companheiros de comunidade aprenderam que a tranquilidade de viver longe da agitação da cidade, mesmo com as deficiências do isolamento, era melhor do que viver sempre sob a pressão dos vícios que o dinheiro traz.
Há alguns meses, há pouco mais de um ano, com o apoio de uma ONG, Maria Elena recebeu capacitação, recebeu equipamentos e aprimorou seus conhecimentos sobre seus direitos e deveres como indígena. Seu desempenho foi tão bom que sua comunidade a elegeu como Coordenadora do Comitê de Vigilância Comunitária. “Para mim é uma grande responsabilidade representar e defender a minha comunidade”, conta.
Assim como Maria Elena, mulheres de várias partes de Ucayali estão cada vez mais envolvidas no desenvolvimento de ações comunitárias de vigilância e controle das atividades extrativistas, incluindo, é claro, as atividades florestais. Carmelina, comunitária de Junín Pablo, em Imiría, sente orgulho de fazer parte de seu comitê comunitário. “Nós também conhecemos a floresta, não apenas os meninos. Além disso, temos mais responsabilidade, porque cuidamos dos nossos filhos, não apenas para aproveitar o momento…”, diz ela com um sorriso.
As mulheres estão abandonando o papel passivo que lhes foi erroneamente atribuído por décadas, assumindo o centro das atenções e a liderança, mesmo diante de situações de grande exigência ou pressão.
Uma batalha anunciada
Os maiores temores da comunidade estavam se concretizando com a entrada de uma madeireira. Maria Elena e seu grupo não hesitaram um minuto. Após o treinamento, eles percorreram a área, documentaram os danos, relataram à ProPurús, a ONG que os apóia, e ao mesmo tempo à sua federação. ProEtica, EIA, Alto Amazonas, Associação Apiwtxa do Brasil e outros aliados logo se juntaram.
Os alertas foram rápidos, aproveitando a conexão de internet disponível para a comunidade. Alguns dias depois, um promotor da FEMA chegou à área e encontrou a comunidade organizada em grupos, vigiando maquinário pesado da empresa florestal que havia entrado ilegalmente em suas terras. O procurador viu desde o início a organização e determinação da Comissão de Fiscalização.
Mais de um ano se passou desde o início da disputa judicial com Juan Simón Mendoza, proprietário da Inversiones Forestales JS EIRL, empresa que invadiu as terras de Sawawo, Shawaya e El Dorado. Apesar das investigações, perícias e esforços, a promotoria ainda não acusou o responsável, apesar de todas as evidências o implicarem em um crime que pode levá-lo a 8 anos de prisão. No entanto, Mendoza parece estar mais calmo e apoiado. As recentes eleições municipais e regionais tiveram resultados desagradáveis para os membros da comunidade de Sawawo.
Coisas de família
O tio paterno de Juan Simón Mendoza Pérez, Francisco “Pacho” Mendoza de Souza, foi eleito prefeito da província de Atalaya, à qual pertence o distrito de Yurúa, onde estão localizadas as comunidades afetadas. Pacho Mendoza não é um personagem qualquer. Já foi prefeito três vezes e tem um rosário de reclamações bastante graves.
Antes de ocupar o cargo de Gerente da Sub-Região de Atalaya em 2003, para depois se tornar prefeito da província, Mendoza de Souza se dedicou aos negócios florestais. Pessoas próximas ao Governo Regional de Ucayali, consultadas, indicaram que, sendo um cargo de confiança, não importava que Mendoza de Souza mal tivesse concluído o ensino médio, pois nunca concluiu seus estudos de direito.
Desde 2010, Mendoza de Souza responde pelos crimes de tráfico ilícito de drogas e lavagem de dinheiro, peculato, contaminação, falsidade, usurpação, usurpação agravada e negociação incompatível. Segundo relatos da mídia Ucayali, em 2013, Francisco Mendoza de Souza foi acusado pelo Ministério Público de desviar mais de um milhão de soles da receita da venda do gás de Camisea e de emitir cheques sem fundos para obras.
A Promotoria Anticorrupção de Ucayali tem 17 processos contra o prefeito eleito, 29 processos como réu no Distrito Fiscal de Ucayali, 2 no Distrito Fiscal Central Selva e 2 em Ayacucho, onde foi denunciado por questões relacionadas a narcotráfico e dinheiro lavagem . 50 processos no total.
Embora Francisco Mendoza não tenha nenhuma empresa em seu nome, sua esposa, Rocío Castro de Mendoza, e seus cunhados mantinham algumas empresas madeireiras, Trozas SA e El Roble Industrial Forestal EIRL. Adicionalmente, a estas empresas juntou-se um casal dedicado à promoção do motocross.
O irmão de Francisco Mendoza, o falecido Juan Simón Víctor Mendoza de Souza, pai do madeireiro que construiu ilegalmente a estrada em Sawawo, tinha uma empresa ainda ativa chamada Forestal Mendoza EIRL. É a concessão florestal desta última empresa que serviu de base de operações para os trabalhadores de Juan Simón Mendoza Pérez, proprietário da Forestal JS EIRL, iniciarem a invasão dos territórios indígenas.
ROTEIRO ILEGAL CORTESIA PROJETO MAAP – ACCA
O filho de Francisco Mendoza, Juan Antonio Mendoza Castro, também esteve ligado a, no mínimo, estranhos acontecimentos. Em julho de 2022, a polícia invadiu a casa que Mendoza Castro alugou de uma quadrilha criminosa . A quadrilha praticava extorsão e tráfico de drogas e, no momento da intervenção, foram apreendidos dois fuzis R15, uma pistola Glock 9 mm, uma pistola Tanfoglio 380 ACP, um carregador de culatra, uma espingarda e treze caixas de munição calibre 12 .-70, de 10 cartuchos cada, perfazendo um total de 130 cartuchos e muito mais munições de diversos calibres. Não se pode dizer que Mendoza Castro sabia o que seus inquilinos faziam, mas são curiosas as coincidências com as acusações feitas contra seu pai.
Juan Simón Mendoza Pérez, por sua vez, não está isento de investigações. Este empresário acumula denúncias por violência familiar, lavagem de dinheiro, tráfico ilegal de produtos florestais, afetação de formações florestais e outros, desde 2017, segundo fontes do Ministério Público. São ao todo 12 inquéritos entre cíveis e criminais em que ele aparece como réu. O que ninguém pode explicar é como Juan Simón Mendoza, com tantos processos penais em andamento, não recebeu nenhuma sentença e continua livre para continuar cometendo crimes. O que acontece com seu tio também é inexplicável.
Justiça que leva
Embora o procurador Raúl Huaroc, da Procuradoria Especializada em Meio Ambiente (FEMA) de Atalaya, tenha realizado vários procedimentos no campo, os prazos das investigações estão dolorosamente prolongados. A trilha aberta pelos madeireiros vem fechando, mas o risco de invasão permanece. Os rumores de um novo ataque, aproveitando outras rotas, são cada vez mais frequentes.
Neste ano de 2022, foram consolidados os Comitês Comunitários de Vigilância, reconhecidos pela autoridade florestal de Ucayali. Várias comunidades estão em alerta para a possível entrada de empresas como Juan Simón Mendoza Pérez e se preparam para uma defesa cerrada de seus territórios. Outros, poucos, influenciados pelo abandono do Estado e pela falta de rendimentos económicos, especulam sobre a bonança que traria a “madereada”, uma nova onda de depredação das florestas comunais.
No entanto, em Sawawo, os membros da comunidade já assumiram uma posição firme e consistente com seus ideais de desenvolvimento. Maria Elena e seu grupo de vigilância comunitária ainda estão lá, enfrentando uma empresa mafiosa, com a determinação que o conhecimento e o espírito guerreiro lhes deram. Apesar dos reconhecimentos que começa a receber, como o da International Conservation Foundation , Maria Elena não abandonará o cargo.
O tripes-da-soja, inseto capaz de comprometer o desenvolvimento das plantas, foi registrado pela primeira vez em uma lavoura de soja no Acre. A espécie Caliothrips phaseoli foi encontrada durante a safra 2024/2025 em uma área agrícola de Rio Branco, próxima a um remanescente florestal, e levou pesquisadores a reforçarem a necessidade de monitoramento das plantações.
O registro foi resultado de um levantamento realizado pela Embrapa Acre em parceria com pesquisadores ligados à Universidade Federal do Acre (Ufac). O trabalho foi publicado em 2026 e documentou a presença do inseto tanto no cultivo de soja quanto no ambiente localizado nas proximidades da lavoura.
A ocorrência não representa o primeiro registro da espécie no território acreano. Em 2024, pesquisadores já haviam documentado o Caliothrips phaseoli em acessos de amendoim-forrageiro no estado. A novidade é a confirmação do inseto associado ao cultivo de soja no Acre.
Pequenos e difíceis de perceber sem auxílio de instrumentos, os tripes se alimentam dos tecidos das plantas. A infestação pode reduzir o desenvolvimento da cultura e provocar alterações nas folhas. Em algumas situações, insetos desse grupo também estão relacionados à transmissão de viroses de importância agrícola.
Entre os sinais que merecem atenção estão o prateamento ou bronzeamento das folhas e pequenas pontuações escuras. Os sintomas podem ser confundidos com deficiência nutricional ou fitotoxicidade, o que aumenta a importância da avaliação técnica antes da adoção de medidas de controle.
O acompanhamento deve começar nos primeiros estágios de desenvolvimento da soja, principalmente a partir das fases V1 e V2. A inspeção precisa incluir a parte inferior das folhas, onde os insetos podem passar despercebidos devido ao tamanho reduzido.
Bandejas brancas, panos de batida e lupas com aumento de 10 a 20 vezes podem auxiliar na identificação. Armadilhas adesivas azuis também podem ser utilizadas para detectar precocemente a presença dos tripes.
A atenção deve ser maior nas bordas das lavouras, especialmente em áreas próximas a remanescentes florestais. Períodos de tempo seco e temperaturas elevadas podem favorecer o aumento das populações do inseto e a ocorrência de surtos.
Com a confirmação da espécie em plantações de soja, a recomendação é ampliar o acompanhamento fitossanitário das áreas produtoras e buscar orientação especializada antes da aplicação de qualquer método de controle.
O Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) pediu à Justiça a suspensão de atividades consideradas irregulares na Fazenda União III, localizada na área do antigo Seringal São Bernardo, na zona rural de Rio Branco. A Ação Civil Pública reúne suspeitas de danos ambientais, conflitos fundiários e ameaças contra famílias extrativistas que vivem na região. Nesta terça-feira (22), o processo estava concluso para despacho e os pedidos ainda aguardavam análise judicial.
A ação tramita sob o número 5033726-62.2026.8.01.0001, na 2ª Vara da Fazenda Pública de Rio Branco, e foi protocolada em 11 de setembro. Entre os réus estão a Fazenda União Ltda., DBS Madeiras Ltda., Cooperativa Central de Comercialização Extrativista do Estado do Acre (Cooperacre), Cooperativa dos Produtores Agroextrativistas Santa Fé (Copasfe), Estado do Acre, Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal (Idaf) e Município de Rio Branco.
O MPAC sustenta que uma análise técnica encontrou 30,78 hectares de vegetação suprimida em Área de Preservação Permanente (APP). O levantamento também apontou uma estrada de aproximadamente 1,18 hectare sem licença, o que elevaria para cerca de 31,96 hectares a extensão das intervenções consideradas irregulares nesse recorte.
O Imac havia embargado 4,77 hectares. A área degradada encontrada posteriormente na análise técnica, porém, seria maior. Pelos cálculos apresentados na ação, cerca de 26 hectares de APP teriam ficado fora do embargo administrativo.
O levantamento também identificou 23,08 hectares de corte raso de floresta nativa e aproximadamente 11,38 quilômetros de acessos que podem não estar cobertos pelas autorizações existentes. O Ministério Público pediu perícias para verificar a extensão das intervenções e a regularidade das atividades florestais.
Os possíveis danos também atingem recursos utilizados pelas famílias para obtenção de renda e alimentação. Uma fiscalização registrou o abate de 11 árvores em APP, com volume de 50,63 metros cúbicos. Depoimentos reunidos no processo citam ainda derrubadas de castanheiras, seringueiras e mogno.
Uma das famílias relatou perda estimada em 180 latas de castanha, com prejuízo calculado em aproximadamente R$ 21,6 mil. A dimensão dos danos e a eventual responsabilidade pelos prejuízos ainda dependem da apuração prevista no processo.
Outra frente da investigação envolve denúncias sobre o uso de drones para lançar substâncias químicas sobre áreas de floresta, castanhais, seringais e APPs. Os relatos abrangem os seringais São Bernardo, Porongaba, São Sebastião e Sacado.
Até o momento, não há comprovação sobre qual produto teria sido aplicado, as doses utilizadas, as datas das possíveis pulverizações ou os responsáveis. O MPAC pediu a coleta urgente de amostras de água, solo, sedimentos e vegetação para verificar a eventual presença de resíduos químicos.
Antes do ajuizamento da ação, uma análise técnica realizada em julho havia identificado nove alertas de degradação florestal na Fazenda União III considerados compatíveis com dispersão aérea de produtos químicos. Na ocasião, aproximadamente 447 hectares estavam sob análise.
A ação também reúne relatos relacionados à segurança das famílias que vivem na região. Foram comunicados disparos nas proximidades de residências, circulação de homens armados, ameaças, destruição de bens e moradias, vigilância considerada intimidatória e desaparecimentos ainda sem esclarecimento.
O Ministério Público registra que essas ocorrências ainda precisam ser investigadas e que não está comprovada a atuação de organização criminosa ou de grupo com características de milícia. Mesmo sem uma conclusão sobre os episódios, o órgão considera necessário adotar medidas preventivas de proteção.
Entre os pedidos apresentados à Justiça está a determinação para que o Estado elabore um plano emergencial de segurança, com patrulhamento, canais protegidos para denúncias e avaliação de risco de moradores, lideranças, testemunhas, crianças e idosos.
Na área ambiental, o MPAC quer suspender corte e arraste de árvores, transporte de madeira recém-extraída, abertura de vias, marcação de árvores, supressão vegetal e atividades de manejo nos locais apontados como irregulares. A ação também pede medidas para impedir aplicações clandestinas de agrotóxicos, herbicidas ou outras substâncias químicas, inclusive por drones.
O processo requer ainda perícias ambiental, florestal, hídrica, toxicológica, fundiária e socioeconômica. O Ministério Público também pede a recuperação das áreas que tiverem degradação comprovada e indenização pelos danos ambientais e socioeconômicos que forem confirmados durante a apuração.
Poucos meses depois de o Supremo Tribunal Federal derrubar uma regra do Acre que permitia transformar áreas de florestas públicas em propriedade definitiva de particulares, o governo estadual colocou em movimento uma nova etapa de exploração econômica de três dessas unidades. O modelo agora é outro: cerca de 213 mil hectares das florestas estaduais do Mogno, Rio Gregório e Rio Liberdade, em Tarauacá, estão no centro de um projeto de concessão florestal estruturado com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. A terra continuará pública, enquanto empresas poderão disputar, por licitação e por prazo determinado, o direito de explorar produtos e serviços autorizados no contrato.
A diferença jurídica é decisiva. O dispositivo derrubado pelo STF abria caminho para que o particular recebesse o título definitivo da área depois de dez anos de concessão de uso ou de posse enquadrada nas condições previstas pela legislação acreana. A concessão florestal prevista na Lei federal nº 11.284/2006 não transfere a titularidade do imóvel. A própria legislação proíbe expressamente entregar ao concessionário a propriedade da terra ou preferência para comprá-la e limita seus direitos àquilo que estiver escrito no contrato. A futura seleção das empresas também deverá ocorrer por concorrência e a título oneroso.
As três florestas incluídas no projeto com o BNDES estavam entre as áreas atingidas pela mudança legislativa julgada pelo Supremo. A Lei estadual nº 4.396, de agosto de 2024, alterou a legislação de gestão das florestas públicas e alcançou Rio Gregório, Rio Liberdade, Mogno, Antimary e Afluente do Complexo do Seringal Jurupari. O trecho mais controverso autorizava a emissão de título de domínio definitivo e a desafetação da área depois do prazo estabelecido.
O julgamento conjunto das ADIs 7.764, 7.767 e 7.769 foi concluído pelo plenário virtual do STF em 24 de fevereiro de 2026. A decisão foi divulgada pelo tribunal em 16 de março. Por unanimidade, os ministros consideraram inconstitucional a possibilidade de desafetar a floresta pública e transferir o domínio ao particular apenas com base em critérios de posse e tempo de ocupação. Embargos apresentados posteriormente também foram rejeitados.
O projeto de concessão, contudo, não nasceu depois dessa decisão. O governo do Acre trabalha há anos com a possibilidade de entregar o manejo econômico de partes dessas florestas à iniciativa privada sem vender o território. No Programa de Desenvolvimento Sustentável do Estado, o próprio governo registra 238.610 hectares de florestas públicas considerados prontos para concessão no Complexo do Rio Gregório, formado pelas unidades do Liberdade, Gregório e Mogno. Documentos anteriores já tratavam da preparação de estudos, editais e unidades de manejo voltadas à exploração privada.
Em 2026, essa preparação ganhou uma nova estrutura institucional. Antes mesmo da assinatura do contrato entre o Estado e o BNDES, o banco abriu a RFI nº 04/2026 para mapear empresas e consultorias com capacidade de trabalhar no projeto. A consulta buscou especialistas em modelagem econômico-financeira, assessoria jurídica, manejo florestal sustentável e outros serviços necessários à preparação das concessões. Também serviu para levantar preços que ajudariam a estimar o custo dos trabalhos técnicos.
A RFI mencionava expressamente as florestas estaduais do Mogno, Rio Gregório e Rio Liberdade e previa exploração de produtos madeireiros, não madeireiros e serviços florestais. Naquele momento, portanto, o banco ainda sondava o mercado de consultorias que poderiam executar parte dos levantamentos necessários para transformar a intenção política em um edital capaz de chegar à disputa empresarial.
Em junho, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente já colocava entre os atos previstos para o Mês do Meio Ambiente a formalização de um contrato de estruturação do projeto de concessão com o BNDES. O contrato acabou sendo assinado em agosto. Em 18 de setembro, uma reunião em Brasília com representantes do banco e do governo acreano marcou o início dos trabalhos de estruturação. Participaram o diretor de Planejamento e Relações Institucionais do BNDES, Nelson Barbosa, o secretário estadual de Meio Ambiente, Leonardo Carvalho, e a secretária adjunta de Planejamento, Kelly Cristina Lacerda.
O BNDES trabalha agora com uma área de aproximadamente 213 mil hectares destinada ao projeto, número inferior aos 238,6 mil hectares registrados anteriormente pelo governo como prontos para concessão. Os documentos pertencem a momentos e bases distintas do planejamento. Para a etapa atual, os 213 mil hectares são a referência apresentada pelo banco para o manejo a ser estruturado nas três unidades. A previsão é que estudos florestais, logísticos, jurídicos e econômico-financeiros, acompanhados das minutas dos editais, cheguem à consulta pública em 2027.
As dimensões totais das três florestas são maiores que a área destinada ao projeto. O Mogno possui cerca de 141 mil hectares; o Rio Gregório, aproximadamente 212 mil; e o Rio Liberdade, 76,7 mil. O recorte de 213 mil hectares corresponde à área que entra na estruturação para manejo, e não à soma integral das três unidades de conservação.
Ao anunciar o projeto, Nelson Barbosa afirmou que a iniciativa busca manter a floresta em pé, combinar conservação e produção e estimular atividades econômicas sustentáveis. “A iniciativa estimula o desenvolvimento sustentável na Amazônia, mantendo a floresta em pé com inclusão, conservação ambiental e fomento à produção verde”, declarou o diretor do BNDES.
A modelagem, porém, terá de enfrentar um limite estabelecido pelo próprio Supremo em outro julgamento concluído em março. Na ADI 7.394, o STF decidiu por unanimidade que a Lei federal de Gestão de Florestas Públicas não pode ser interpretada de maneira a permitir concessões privadas em áreas ocupadas por povos indígenas, comunidades quilombolas ou outras comunidades tradicionais. Os ministros Gilmar Mendes e Flávio Dino acompanharam o entendimento com ressalvas, sem alterar o resultado do julgamento.
Esse ponto toca diretamente a realidade das florestas acreanas. O Complexo do Rio Gregório não é um território vazio à espera de uma linha desenhada sobre o mapa. Há famílias e comunidades que vivem dentro das unidades e mantêm relações econômicas e sociais com a floresta. Em abril, durante reunião do conselho consultivo do complexo, a própria Secretaria de Meio Ambiente tratou de ações destinadas às populações residentes no Mogno, Rio Liberdade e Rio Gregório, incluindo atendimento de saúde, cidadania, prevenção a incêndios e políticas de gestão territorial.
Para essas famílias, a próxima etapa não será apenas uma discussão sobre quantos metros cúbicos de madeira poderão ser retirados ou quanto uma concessão poderá render. A delimitação dos futuros lotes terá de estabelecer até onde a operação privada poderá chegar sem avançar sobre áreas cuja ocupação tradicional esteja protegida pelo entendimento do Supremo. O julgamento de março excluiu justamente essa possibilidade do alcance das concessões florestais.
Isso transforma o mapeamento social e territorial em uma das partes centrais dos estudos. Não basta localizar árvores comercialmente aproveitáveis, calcular custos logísticos ou projetar receitas. A modelagem precisará identificar com precisão as áreas ocupadas pelas comunidades e separar aquilo que pode ser submetido à concessão daquilo que deve permanecer fora dos lotes destinados à iniciativa privada. A definição concreta desses limites ainda dependerá dos estudos que serão levados à consulta pública.
Outra questão permanece aberta: quanto custará ao Estado a estruturação do projeto conduzida pelo BNDES e pelas consultorias que participarão dos estudos. A contratação feita pela Secretaria de Meio Ambiente está vinculada ao processo SEI nº 0820.013312.00016/2026-71 e aparece em registros que reproduzem dados do Portal Nacional de Contratações Públicas como uma inexigibilidade para serviços técnicos de apoio, avaliação, estruturação e implementação do projeto.
A inexigibilidade registrada nesse processo não deve ser confundida com a futura escolha das empresas que explorarão as florestas. Ela trata da contratação dos serviços técnicos de estruturação. A concessão florestal propriamente dita terá de seguir o regime previsto na Lei nº 11.284, que exige concorrência para selecionar os concessionários e proíbe inexigibilidade na licitação da concessão.
O Acre chega, assim, a uma nova etapa de uma discussão que atravessa diferentes governos e modelos de uso econômico da floresta. O território é praticamente o mesmo que esteve no centro da controvérsia analisada pelo Supremo, mas o instrumento jurídico mudou. A norma de 2024 permitia que áreas públicas chegassem ao patrimônio privado. A concessão agora estruturada preserva formalmente o domínio estatal e entrega temporariamente direitos específicos de exploração.
Essa diferença afasta o projeto do mecanismo diretamente derrubado nas ADIs do Acre, mas não encerra as questões jurídicas, ambientais e sociais que cercam as três florestas. O tamanho exato dos lotes, a presença das comunidades, as atividades econômicas autorizadas, os mecanismos de fiscalização, os valores cobrados dos concessionários e o custo da própria estruturação ainda passarão pela modelagem. Quando as minutas forem levadas à consulta pública, prevista para 2027, esses pontos deixarão o campo das intenções e aparecerão, finalmente, nas regras que poderão definir como 213 mil hectares de floresta pública acreana serão explorados pela iniciativa privada.