Em agosto de 2021, os membros da comunidade Sawawo receberam um alerta de que madeireiros planejavam entrar em Yurúa, passando com segurança por sua comunidade. A guardiã da floresta, como é conhecida no Peru, Maria Elena e os membros da comunidade logo detectaram um caminho, uma estrada florestal que cruzava sua comunidade, Sawawo Hito 40. A comunidade fica na fronteira com o Brasil, na Hito 40, e fica na bacia do rio Amônia, que nasceu no Peru e percorre os territórios também Asháninka de Apiwtxa, no país vizinho na cidade de Marechal Thaumaturgo (AC).
Quando María Elena Paredes começou a treinar para ser guardiã florestal, ou seja, guardiã oficial de suas florestas comunais, ela já sabia o que queria. Ela revisou a história de seus compatriotas, as histórias de seus avós e ex-líderes comunitários. Eles fugiram da selva central, fugindo do “progresso”: das estradas, dos engenheiros que favoreceram os colonos, dos colonos que se apropriaram de suas terras, dos madeireiros, plantadores de coca e terroristas.
Com pouco ou nenhum entusiasmo, os comunitários saíram de seus territórios tradicionais, em Pasco e Junín, no Peru e buscaram novas terras, com a oferta de um madeireiro de que os ajudaria a obter títulos se aceitassem vender-lhe as valiosas madeiras do que seria sua nova casa. Com o tempo, algumas promessas foram cumpridas e eles tiveram seu título, mas a empresa exigia cada vez mais, então finalmente resolveram encerrar o negócio. A empresa logo caiu em desgraça e deixou a área. Ao longo dos anos, María Elena e seus companheiros de comunidade aprenderam que a tranquilidade de viver longe da agitação da cidade, mesmo com as deficiências do isolamento, era melhor do que viver sempre sob a pressão dos vícios que o dinheiro traz.
Há alguns meses, há pouco mais de um ano, com o apoio de uma ONG, Maria Elena recebeu capacitação, recebeu equipamentos e aprimorou seus conhecimentos sobre seus direitos e deveres como indígena. Seu desempenho foi tão bom que sua comunidade a elegeu como Coordenadora do Comitê de Vigilância Comunitária. “Para mim é uma grande responsabilidade representar e defender a minha comunidade”, conta.
Assim como Maria Elena, mulheres de várias partes de Ucayali estão cada vez mais envolvidas no desenvolvimento de ações comunitárias de vigilância e controle das atividades extrativistas, incluindo, é claro, as atividades florestais. Carmelina, comunitária de Junín Pablo, em Imiría, sente orgulho de fazer parte de seu comitê comunitário. “Nós também conhecemos a floresta, não apenas os meninos. Além disso, temos mais responsabilidade, porque cuidamos dos nossos filhos, não apenas para aproveitar o momento…”, diz ela com um sorriso.
As mulheres estão abandonando o papel passivo que lhes foi erroneamente atribuído por décadas, assumindo o centro das atenções e a liderança, mesmo diante de situações de grande exigência ou pressão.
Uma batalha anunciada
Os maiores temores da comunidade estavam se concretizando com a entrada de uma madeireira. Maria Elena e seu grupo não hesitaram um minuto. Após o treinamento, eles percorreram a área, documentaram os danos, relataram à ProPurús, a ONG que os apóia, e ao mesmo tempo à sua federação. ProEtica, EIA, Alto Amazonas, Associação Apiwtxa do Brasil e outros aliados logo se juntaram.
Os alertas foram rápidos, aproveitando a conexão de internet disponível para a comunidade. Alguns dias depois, um promotor da FEMA chegou à área e encontrou a comunidade organizada em grupos, vigiando maquinário pesado da empresa florestal que havia entrado ilegalmente em suas terras. O procurador viu desde o início a organização e determinação da Comissão de Fiscalização.
Mais de um ano se passou desde o início da disputa judicial com Juan Simón Mendoza, proprietário da Inversiones Forestales JS EIRL, empresa que invadiu as terras de Sawawo, Shawaya e El Dorado. Apesar das investigações, perícias e esforços, a promotoria ainda não acusou o responsável, apesar de todas as evidências o implicarem em um crime que pode levá-lo a 8 anos de prisão. No entanto, Mendoza parece estar mais calmo e apoiado. As recentes eleições municipais e regionais tiveram resultados desagradáveis para os membros da comunidade de Sawawo.
Coisas de família
O tio paterno de Juan Simón Mendoza Pérez, Francisco “Pacho” Mendoza de Souza, foi eleito prefeito da província de Atalaya, à qual pertence o distrito de Yurúa, onde estão localizadas as comunidades afetadas. Pacho Mendoza não é um personagem qualquer. Já foi prefeito três vezes e tem um rosário de reclamações bastante graves.
Antes de ocupar o cargo de Gerente da Sub-Região de Atalaya em 2003, para depois se tornar prefeito da província, Mendoza de Souza se dedicou aos negócios florestais. Pessoas próximas ao Governo Regional de Ucayali, consultadas, indicaram que, sendo um cargo de confiança, não importava que Mendoza de Souza mal tivesse concluído o ensino médio, pois nunca concluiu seus estudos de direito.
Desde 2010, Mendoza de Souza responde pelos crimes de tráfico ilícito de drogas e lavagem de dinheiro, peculato, contaminação, falsidade, usurpação, usurpação agravada e negociação incompatível. Segundo relatos da mídia Ucayali, em 2013, Francisco Mendoza de Souza foi acusado pelo Ministério Público de desviar mais de um milhão de soles da receita da venda do gás de Camisea e de emitir cheques sem fundos para obras.
A Promotoria Anticorrupção de Ucayali tem 17 processos contra o prefeito eleito, 29 processos como réu no Distrito Fiscal de Ucayali, 2 no Distrito Fiscal Central Selva e 2 em Ayacucho, onde foi denunciado por questões relacionadas a narcotráfico e dinheiro lavagem . 50 processos no total.
Embora Francisco Mendoza não tenha nenhuma empresa em seu nome, sua esposa, Rocío Castro de Mendoza, e seus cunhados mantinham algumas empresas madeireiras, Trozas SA e El Roble Industrial Forestal EIRL. Adicionalmente, a estas empresas juntou-se um casal dedicado à promoção do motocross.
O irmão de Francisco Mendoza, o falecido Juan Simón Víctor Mendoza de Souza, pai do madeireiro que construiu ilegalmente a estrada em Sawawo, tinha uma empresa ainda ativa chamada Forestal Mendoza EIRL. É a concessão florestal desta última empresa que serviu de base de operações para os trabalhadores de Juan Simón Mendoza Pérez, proprietário da Forestal JS EIRL, iniciarem a invasão dos territórios indígenas.
ROTEIRO ILEGAL CORTESIA PROJETO MAAP – ACCA
O filho de Francisco Mendoza, Juan Antonio Mendoza Castro, também esteve ligado a, no mínimo, estranhos acontecimentos. Em julho de 2022, a polícia invadiu a casa que Mendoza Castro alugou de uma quadrilha criminosa . A quadrilha praticava extorsão e tráfico de drogas e, no momento da intervenção, foram apreendidos dois fuzis R15, uma pistola Glock 9 mm, uma pistola Tanfoglio 380 ACP, um carregador de culatra, uma espingarda e treze caixas de munição calibre 12 .-70, de 10 cartuchos cada, perfazendo um total de 130 cartuchos e muito mais munições de diversos calibres. Não se pode dizer que Mendoza Castro sabia o que seus inquilinos faziam, mas são curiosas as coincidências com as acusações feitas contra seu pai.
Juan Simón Mendoza Pérez, por sua vez, não está isento de investigações. Este empresário acumula denúncias por violência familiar, lavagem de dinheiro, tráfico ilegal de produtos florestais, afetação de formações florestais e outros, desde 2017, segundo fontes do Ministério Público. São ao todo 12 inquéritos entre cíveis e criminais em que ele aparece como réu. O que ninguém pode explicar é como Juan Simón Mendoza, com tantos processos penais em andamento, não recebeu nenhuma sentença e continua livre para continuar cometendo crimes. O que acontece com seu tio também é inexplicável.
Justiça que leva
Embora o procurador Raúl Huaroc, da Procuradoria Especializada em Meio Ambiente (FEMA) de Atalaya, tenha realizado vários procedimentos no campo, os prazos das investigações estão dolorosamente prolongados. A trilha aberta pelos madeireiros vem fechando, mas o risco de invasão permanece. Os rumores de um novo ataque, aproveitando outras rotas, são cada vez mais frequentes.
Neste ano de 2022, foram consolidados os Comitês Comunitários de Vigilância, reconhecidos pela autoridade florestal de Ucayali. Várias comunidades estão em alerta para a possível entrada de empresas como Juan Simón Mendoza Pérez e se preparam para uma defesa cerrada de seus territórios. Outros, poucos, influenciados pelo abandono do Estado e pela falta de rendimentos económicos, especulam sobre a bonança que traria a “madereada”, uma nova onda de depredação das florestas comunais.
No entanto, em Sawawo, os membros da comunidade já assumiram uma posição firme e consistente com seus ideais de desenvolvimento. Maria Elena e seu grupo de vigilância comunitária ainda estão lá, enfrentando uma empresa mafiosa, com a determinação que o conhecimento e o espírito guerreiro lhes deram. Apesar dos reconhecimentos que começa a receber, como o da International Conservation Foundation , Maria Elena não abandonará o cargo.
Relatório mostra que grandes fortunas concentram parcela expressiva das emissões de carbono, enquanto populações pobres enfrentam os maiores prejuízos provocados pelas mudanças climáticas.
O 1% mais rico da população mundial é responsável por 20% do aquecimento global registrado desde 1990. O dado faz parte de um relatório divulgado pela organização internacional Oxfam, em outubro de 2026, que também denuncia como grandes investidores conseguem obter lucros tanto em atividades que contribuem para a crise climática quanto em negócios ligados à reconstrução de áreas atingidas por desastres naturais.
Intitulado O Fosso das Catástrofes, o estudo foi apresentado às vésperas da 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), marcada para novembro, na Turquia. A pesquisa relaciona a concentração de riqueza às emissões de carbono e aos impactos econômicos e sociais de fenômenos extremos, como enchentes, secas, incêndios florestais e ondas de calor.
Segundo a Oxfam, os 0,1% mais ricos da humanidade, aproximadamente 8 milhões de pessoas, produzem mais poluição por carbono do que os 3,5 bilhões de habitantes mais pobres do planeta somados. A diferença considera não apenas o consumo individual, mas também as emissões associadas aos investimentos financeiros dos grupos de maior renda.
O levantamento calcula que uma pessoa pertencente a essa parcela extremamente rica contribuiu quase 400 vezes mais para as atuais ondas de calor extremo do que alguém situado entre os 50% mais pobres da população mundial.
Os efeitos dessa desigualdade também aparecem nas projeções de mortalidade. A Oxfam estima que as emissões produzidas em apenas um ano pelo 1% mais rico poderão provocar, ao longo do tempo, cerca de 1,9 milhão de mortes adicionais relacionadas ao calor extremo. Aproximadamente 78% dessas mortes ocorreriam em países de renda baixa e média-baixa, que respondem por apenas 8% das emissões globais.
Na economia, os prejuízos associados às emissões desse grupo poderão alcançar US$ 53 trilhões até 2050. Os danos atingem principalmente regiões com menor capacidade financeira para construir sistemas de proteção, recuperar infraestrutura e atender famílias afetadas.
O relatório também examina os interesses econômicos envolvidos na crise ambiental. A organização identificou 217 empresas com atividades relacionadas tanto a setores que contribuem para o aquecimento global quanto a mercados de preparação, resposta e recuperação de desastres.
Entre os grandes investidores dessas companhias estão as gestoras financeiras BlackRock e Vanguard, que possuem participações em 92% das empresas analisadas. Os investimentos conjuntos ultrapassam US$ 1 trilhão.
A Oxfam calcula que o mercado mundial de recuperação de desastres, atualmente estimado em US$ 70 bilhões anuais, poderá movimentar US$ 92 bilhões por ano até 2029. O crescimento está relacionado à demanda por reconstrução de estradas, redes elétricas, sistemas de abastecimento, moradias e outros serviços essenciais após eventos climáticos extremos.
A crítica da organização está na possibilidade de um mesmo grupo de investidores obter rendimentos em empresas ligadas à exploração de combustíveis fósseis e em negócios que oferecem serviços para enfrentar as consequências do aquecimento global. Embora a reconstrução seja necessária, a sobreposição desses interesses levanta questionamentos sobre a distribuição dos ganhos e dos prejuízos.
O diretor executivo internacional da Oxfam, Amitabh Behar, criticou essa dinâmica ao afirmar que grandes agentes econômicos conseguem lucrar com a poluição, com os desastres e novamente com os processos de reconstrução.
Na Amazônia brasileira, as consequências das mudanças climáticas fazem parte da realidade de populações que dependem diretamente dos rios, das florestas e da produção rural. No Acre, as enchentes e os períodos de estiagem severa comprometem o transporte, o abastecimento de água, a agricultura familiar e o acesso de comunidades isoladas aos serviços públicos.
Em 2026, o estado enfrentou situações de emergência relacionadas às cheias dos rios e à seca. Em abril, seis municípios tiveram emergência declarada em razão das enchentes, que atingiram direta ou indiretamente mais de 40 mil pessoas. Em julho, a estiagem levou à declaração de emergência em todo o território acreano.
Os impactos são especialmente graves para famílias ribeirinhas, agricultores familiares, povos indígenas e moradores de áreas vulneráveis. A perda de plantações, a dificuldade de navegação e os danos às moradias afetam diretamente a renda e as condições de vida dessas populações.
Embora não seja possível atribuir um episódio isolado de enchente ou seca exclusivamente às emissões dos grupos mais ricos, o aquecimento provocado pelas atividades humanas contribui para modificar a frequência e a intensidade de determinados fenômenos climáticos. A desigualdade econômica amplia os riscos, principalmente onde faltam infraestrutura, saneamento e acesso adequado aos serviços públicos.
Diante desse cenário, a Oxfam defende a tributação das grandes fortunas, dos lucros das empresas de combustíveis fósseis e de bens de luxo com elevadas emissões de carbono, como jatos particulares. A organização também cobra maior participação dos países ricos no financiamento de medidas de adaptação climática nas regiões mais vulneráveis.
Entre as propostas está a ampliação de recursos públicos internacionais destinados à prevenção de desastres, à proteção das comunidades e à recuperação de áreas atingidas, sem aumentar o endividamento dos países de baixa renda.
A discussão chega à COP31 com uma questão que ultrapassa as metas de redução de carbono: quem deve arcar com os custos da crise climática. Para a Oxfam, enfrentar o aquecimento global exige responsabilizar proporcionalmente os maiores emissores e garantir que os recursos necessários à proteção da população não recaiam sobre aqueles que menos contribuíram para o problema.
Fenômenos atingiram Paraná e Santa Catarina, enquanto vendavais, granizo e chuvas intensas provocaram estragos no Rio Grande do Sul. Órgãos meteorológicos mantêm alertas para novos temporais e risco de enchentes.
A primeira semana de novembro de 2026 está sendo marcada por uma sequência de desastres naturais na Região Sul do Brasil. Entre domingo (1º) e esta quinta-feira (5), tempestades provocaram destruição em centenas de municípios, deixaram milhares de famílias afetadas e causaram pelo menos uma morte. Três tornados foram confirmados no período, um no Paraná e dois em Santa Catarina. A combinação de calor, umidade, sistemas de baixa pressão e frentes frias criou condições favoráveis à formação de tempestades severas.
Um dos episódios mais intensos ocorreu na madrugada de segunda-feira (2), em Maringá, no noroeste do Paraná. O Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) confirmou que a cidade foi atingida por um tornado de categoria F2 na escala Fujita, com ventos estimados entre 180 e 250 quilômetros por hora. O fenômeno percorreu aproximadamente 15 quilômetros, arrancou telhados, derrubou árvores, destruiu estruturas e provocou interrupções no fornecimento de energia elétrica.
A força do tornado foi suficiente para arremessar telhas a mais de 1.300 metros de distância. A avaliação da intensidade foi realizada a partir de imagens de radar, registros dos danos e inspeções de campo feitas por meteorologistas. Até quarta-feira (4), 38 municípios paranaenses haviam comunicado ocorrências relacionadas a vendavais, granizo, enxurradas e alagamentos.
Em Santa Catarina, outros dois tornados foram confirmados pela Defesa Civil na manhã de quarta-feira (4). O primeiro atingiu Chapecó, por volta das 10h30, e provocou danos ao Aeroporto Serafim Enoss Bertaso, comprometendo estruturas metálicas, vidraças e áreas do terminal. As operações aéreas foram suspensas. Uma estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou rajadas de 126 quilômetros por hora na cidade.
Poucos minutos depois, às 10h48, um segundo tornado atingiu a região de Xanxerê, também no oeste catarinense. O fenômeno provocou destelhamentos, quedas de árvores, danos à rede elétrica e transtornos no trânsito. Em outras localidades de Santa Catarina, as rajadas chegaram a 131 quilômetros por hora em Caçador e 128 quilômetros por hora em Palmitos.
O balanço divulgado pela Defesa Civil catarinense na noite de quarta-feira apontava 98 municípios atingidos, 4.796 residências afetadas e 23 cidades em situação de emergência. Havia 56 pessoas desabrigadas e outras 208 desalojadas.
A tragédia mais grave registrada no estado ocorreu em Rio Negrinho, no Planalto Norte. Um trabalhador de 20 anos morreu após a cobertura de um posto de combustíveis desabar durante o temporal. O rapaz chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos.
As tempestades também provocaram enchentes e mobilizaram equipes de resgate. Em Rio do Sul, bombeiros retiraram 30 pessoas que ficaram ilhadas em uma escola. Em Lages, outras 76 pessoas precisaram ser resgatadas depois que a água avançou sobre diferentes pontos da cidade.
No Rio Grande do Sul, os temporais atingiram principalmente as regiões Norte, Noroeste e Central. Até a noite de quarta-feira, a Defesa Civil contabilizava 47.096 pessoas afetadas, 24 feridos e danos humanos ou materiais em 102 municípios. O levantamento registrava ainda 93 desabrigados e 234 desalojados.
Nova Prata esteve entre as cidades mais prejudicadas, com 15 feridos e aproximadamente 2.700 residências danificadas. Em Espumoso, as tempestades atingiram milhares de moradores, enquanto Passo Fundo enfrentou chuva intensa, granizo, interrupções no fornecimento de energia e bloqueios de ruas.
O volume de precipitação também chamou a atenção dos meteorologistas. Em Paim Filho, no Rio Grande do Sul, o acumulado chegou a 175,4 milímetros em aproximadamente 24 horas. Em diversas cidades gaúchas e catarinenses, a chuva ultrapassou os 100 milímetros em um único dia, quantidade suficiente para provocar enxurradas, transbordamento de córregos e elevação rápida do nível dos rios.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) classificou como alto o risco de ocorrências hidrológicas nas regiões de Ijuí e Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e Chapecó, em Santa Catarina. O órgão também alertou para a possibilidade de deslizamentos em áreas de encosta, especialmente nas regiões de Blumenau e Lages, onde a chuva intensa pode comprometer a estabilidade do solo.
A explicação para a sucessão de tempestades está nas condições atmosféricas que se formaram sobre o centro-sul da América do Sul. Uma corrente de ar quente e úmido, transportada das regiões tropicais em direção ao Sul do Brasil, encontrou condições associadas à aproximação de ar mais frio. Ao mesmo tempo, a intensificação de sistemas de baixa pressão e a passagem de frentes frias favoreceram o desenvolvimento de nuvens de tempestade.
Outro fator importante foi a diferença de velocidade e direção dos ventos entre as camadas mais baixas e mais altas da atmosfera, fenômeno conhecido como cisalhamento do vento. Essa condição pode favorecer a rotação de tempestades organizadas, chamadas de supercélulas, capazes de produzir tornados, granizo de grande tamanho e rajadas destrutivas.
A formação de um ciclone extratropical na costa da Região Sul, entre quarta-feira (4) e quinta-feira (5), também integra o cenário de instabilidade previsto pelos meteorologistas. A presença desse sistema, porém, não significa que todos os tornados tenham sido provocados diretamente pelo ciclone. Cada ocorrência depende das condições específicas da tempestade que a originou.
Diante da gravidade das previsões, o Inmet emitiu aviso vermelho, de grande perigo, para áreas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e sul do Paraná na quarta-feira. O alerta previa chuva superior a 60 milímetros por hora ou 100 milímetros por dia, ventos acima de 100 quilômetros por hora e queda de granizo.
Nesta quinta-feira (5), a instabilidade mais intensa tende a se concentrar no Paraná, onde permanece o risco de pancadas de chuva acompanhadas de trovoadas. Em Santa Catarina, a previsão aponta melhora gradual do tempo, mas a preocupação continua nas áreas afetadas por alagamentos e pela elevação dos rios.
A trégua pode ser curta. A Epagri/Ciram prevê novas condições de temporais isolados em Santa Catarina entre sexta-feira (6) e sábado (7), com a formação de outra frente fria. No sábado, as rajadas podem alcançar entre 50 e 80 quilômetros por hora em áreas do litoral catarinense.
A Defesa Civil recomenda que moradores de regiões sob alerta evitem deslocamentos durante tempestades, não atravessem ruas alagadas e procurem abrigo em locais seguros, longe de janelas, árvores, postes e estruturas metálicas. Em situações de risco de tornado, a orientação é permanecer em um cômodo interno de uma construção resistente. Moradores de encostas também devem observar sinais de movimentação do terreno e deixar imediatamente o local diante de ameaça de deslizamento.
Os alertas podem ser recebidos gratuitamente pelo celular, mediante cadastro do CEP por mensagem de texto para o número 40199. Em caso de emergência, a população deve procurar a Defesa Civil pelo telefone 199 ou o Corpo de Bombeiros pelo 193.
A sequência de tornados, vendavais e enchentes reforça a necessidade de monitoramento meteorológico permanente, sistemas eficientes de alerta e planejamento das cidades para reduzir a exposição da população aos desastres. Embora tempestades severas façam parte da dinâmica atmosférica do Sul do Brasil, os prejuízos desta semana mostram a dimensão dos riscos enfrentados pelas comunidades atingidas.
Uma pesquisa internacional identificou duas novas espécies de bugios na Amazônia brasileira e ampliou o conhecimento sobre a diversidade desses primatas na América Latina. O estudo, publicado em 30 de outubro na revista científica Communications Biology, utilizou análises genéticas para diferenciar populações que até então não eram reconhecidas como espécies distintas.
As novas espécies são o bugio-vermelho-do-Pantepui (Alouatta iroi) e o bugio-vermelho-do-Mato-Grosso (Alouatta matogrossensis). A descoberta faz parte de uma investigação conduzida por 41 pesquisadores de diferentes países, sob a liderança de cientistas da Universidade de Salford, na Inglaterra.
O bugio-vermelho-do-Pantepui habita uma região do Escudo das Guianas, entre o norte do Amazonas, a Venezuela e a Guiana. Sua distribuição está associada a áreas delimitadas pelos rios Negro, Branco e Cauaburi, onde as características geográficas contribuíram para o isolamento e a diferenciação genética dos animais.
Já o bugio-vermelho-do-Mato-Grosso ocorre entre os rios Madeira e Teles Pires, em uma faixa que se estende de Rondônia a Mato Grosso, alcançando áreas de transição entre a Amazônia e o Cerrado.
A localização dessa segunda espécie preocupa os pesquisadores. Parte de seu território está no chamado Arco do Desmatamento, região marcada pela expansão da agropecuária e pela perda de cobertura florestal. Os cientistas consideram possível que o animal seja classificado como criticamente em perigo de extinção, embora ainda seja necessária uma avaliação formal de seu estado de conservação.
O primatólogo Fabiano Melo, professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e um dos autores da pesquisa, defende medidas urgentes para proteger a espécie. A prioridade é avaliar o tamanho das populações e estabelecer estratégias para evitar que a destruição do habitat comprometa sua sobrevivência.
O bugio-vermelho-do-Pantepui também enfrenta riscos, apesar de viver em uma região relativamente preservada. Entre as preocupações estão os possíveis impactos da implantação da Usina Hidrelétrica Bem-Querer, no Rio Branco, em Roraima, além das consequências futuras das mudanças climáticas.
Para chegar aos resultados, os cientistas combinaram o sequenciamento completo do genoma dos animais com estudos sobre características físicas e distribuição geográfica. O trabalho também investigou como grandes rios amazônicos e mudanças na vegetação contribuíram para separar populações ao longo da evolução.
Com a revisão, o gênero Alouatta, que reúne os bugios, passa a contar com 16 espécies e duas subespécies reconhecidas na América Central e na América do Sul. A pesquisa também deixou de reconhecer o bugio-vermelho-do-rio-purus (Alouatta puruensis) como uma espécie independente.
Conhecidos também como guaribas ou barbados, os bugios estão entre os primatas mais característicos das florestas brasileiras, especialmente por suas vocalizações, que podem ser ouvidas a grandes distâncias.
A descoberta reforça a necessidade de ampliar os estudos sobre a biodiversidade amazônica. Além de identificar espécies até então desconhecidas pela classificação científica, o levantamento oferece informações para orientar políticas de conservação em regiões pressionadas pelo desmatamento e por outras alterações ambientais.