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MEIO AMBIENTE

Acre avança com concessão de 213 mil hectares após STF barrar transferência de domínio de florestas

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Poucos meses depois de o Supremo Tribunal Federal derrubar uma regra do Acre que permitia transformar áreas de florestas públicas em propriedade definitiva de particulares, o governo estadual colocou em movimento uma nova etapa de exploração econômica de três dessas unidades. O modelo agora é outro: cerca de 213 mil hectares das florestas estaduais do Mogno, Rio Gregório e Rio Liberdade, em Tarauacá, estão no centro de um projeto de concessão florestal estruturado com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. A terra continuará pública, enquanto empresas poderão disputar, por licitação e por prazo determinado, o direito de explorar produtos e serviços autorizados no contrato.

A diferença jurídica é decisiva. O dispositivo derrubado pelo STF abria caminho para que o particular recebesse o título definitivo da área depois de dez anos de concessão de uso ou de posse enquadrada nas condições previstas pela legislação acreana. A concessão florestal prevista na Lei federal nº 11.284/2006 não transfere a titularidade do imóvel. A própria legislação proíbe expressamente entregar ao concessionário a propriedade da terra ou preferência para comprá-la e limita seus direitos àquilo que estiver escrito no contrato. A futura seleção das empresas também deverá ocorrer por concorrência e a título oneroso.

As três florestas incluídas no projeto com o BNDES estavam entre as áreas atingidas pela mudança legislativa julgada pelo Supremo. A Lei estadual nº 4.396, de agosto de 2024, alterou a legislação de gestão das florestas públicas e alcançou Rio Gregório, Rio Liberdade, Mogno, Antimary e Afluente do Complexo do Seringal Jurupari. O trecho mais controverso autorizava a emissão de título de domínio definitivo e a desafetação da área depois do prazo estabelecido.

O julgamento conjunto das ADIs 7.764, 7.767 e 7.769 foi concluído pelo plenário virtual do STF em 24 de fevereiro de 2026. A decisão foi divulgada pelo tribunal em 16 de março. Por unanimidade, os ministros consideraram inconstitucional a possibilidade de desafetar a floresta pública e transferir o domínio ao particular apenas com base em critérios de posse e tempo de ocupação. Embargos apresentados posteriormente também foram rejeitados.

O projeto de concessão, contudo, não nasceu depois dessa decisão. O governo do Acre trabalha há anos com a possibilidade de entregar o manejo econômico de partes dessas florestas à iniciativa privada sem vender o território. No Programa de Desenvolvimento Sustentável do Estado, o próprio governo registra 238.610 hectares de florestas públicas considerados prontos para concessão no Complexo do Rio Gregório, formado pelas unidades do Liberdade, Gregório e Mogno. Documentos anteriores já tratavam da preparação de estudos, editais e unidades de manejo voltadas à exploração privada.

Em 2026, essa preparação ganhou uma nova estrutura institucional. Antes mesmo da assinatura do contrato entre o Estado e o BNDES, o banco abriu a RFI nº 04/2026 para mapear empresas e consultorias com capacidade de trabalhar no projeto. A consulta buscou especialistas em modelagem econômico-financeira, assessoria jurídica, manejo florestal sustentável e outros serviços necessários à preparação das concessões. Também serviu para levantar preços que ajudariam a estimar o custo dos trabalhos técnicos.

A RFI mencionava expressamente as florestas estaduais do Mogno, Rio Gregório e Rio Liberdade e previa exploração de produtos madeireiros, não madeireiros e serviços florestais. Naquele momento, portanto, o banco ainda sondava o mercado de consultorias que poderiam executar parte dos levantamentos necessários para transformar a intenção política em um edital capaz de chegar à disputa empresarial.

Em junho, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente já colocava entre os atos previstos para o Mês do Meio Ambiente a formalização de um contrato de estruturação do projeto de concessão com o BNDES. O contrato acabou sendo assinado em agosto. Em 18 de setembro, uma reunião em Brasília com representantes do banco e do governo acreano marcou o início dos trabalhos de estruturação. Participaram o diretor de Planejamento e Relações Institucionais do BNDES, Nelson Barbosa, o secretário estadual de Meio Ambiente, Leonardo Carvalho, e a secretária adjunta de Planejamento, Kelly Cristina Lacerda.

O BNDES trabalha agora com uma área de aproximadamente 213 mil hectares destinada ao projeto, número inferior aos 238,6 mil hectares registrados anteriormente pelo governo como prontos para concessão. Os documentos pertencem a momentos e bases distintas do planejamento. Para a etapa atual, os 213 mil hectares são a referência apresentada pelo banco para o manejo a ser estruturado nas três unidades. A previsão é que estudos florestais, logísticos, jurídicos e econômico-financeiros, acompanhados das minutas dos editais, cheguem à consulta pública em 2027.

As dimensões totais das três florestas são maiores que a área destinada ao projeto. O Mogno possui cerca de 141 mil hectares; o Rio Gregório, aproximadamente 212 mil; e o Rio Liberdade, 76,7 mil. O recorte de 213 mil hectares corresponde à área que entra na estruturação para manejo, e não à soma integral das três unidades de conservação.

Ao anunciar o projeto, Nelson Barbosa afirmou que a iniciativa busca manter a floresta em pé, combinar conservação e produção e estimular atividades econômicas sustentáveis. “A iniciativa estimula o desenvolvimento sustentável na Amazônia, mantendo a floresta em pé com inclusão, conservação ambiental e fomento à produção verde”, declarou o diretor do BNDES.

A modelagem, porém, terá de enfrentar um limite estabelecido pelo próprio Supremo em outro julgamento concluído em março. Na ADI 7.394, o STF decidiu por unanimidade que a Lei federal de Gestão de Florestas Públicas não pode ser interpretada de maneira a permitir concessões privadas em áreas ocupadas por povos indígenas, comunidades quilombolas ou outras comunidades tradicionais. Os ministros Gilmar Mendes e Flávio Dino acompanharam o entendimento com ressalvas, sem alterar o resultado do julgamento.

Esse ponto toca diretamente a realidade das florestas acreanas. O Complexo do Rio Gregório não é um território vazio à espera de uma linha desenhada sobre o mapa. Há famílias e comunidades que vivem dentro das unidades e mantêm relações econômicas e sociais com a floresta. Em abril, durante reunião do conselho consultivo do complexo, a própria Secretaria de Meio Ambiente tratou de ações destinadas às populações residentes no Mogno, Rio Liberdade e Rio Gregório, incluindo atendimento de saúde, cidadania, prevenção a incêndios e políticas de gestão territorial.

Para essas famílias, a próxima etapa não será apenas uma discussão sobre quantos metros cúbicos de madeira poderão ser retirados ou quanto uma concessão poderá render. A delimitação dos futuros lotes terá de estabelecer até onde a operação privada poderá chegar sem avançar sobre áreas cuja ocupação tradicional esteja protegida pelo entendimento do Supremo. O julgamento de março excluiu justamente essa possibilidade do alcance das concessões florestais.

Isso transforma o mapeamento social e territorial em uma das partes centrais dos estudos. Não basta localizar árvores comercialmente aproveitáveis, calcular custos logísticos ou projetar receitas. A modelagem precisará identificar com precisão as áreas ocupadas pelas comunidades e separar aquilo que pode ser submetido à concessão daquilo que deve permanecer fora dos lotes destinados à iniciativa privada. A definição concreta desses limites ainda dependerá dos estudos que serão levados à consulta pública.

Outra questão permanece aberta: quanto custará ao Estado a estruturação do projeto conduzida pelo BNDES e pelas consultorias que participarão dos estudos. A contratação feita pela Secretaria de Meio Ambiente está vinculada ao processo SEI nº 0820.013312.00016/2026-71 e aparece em registros que reproduzem dados do Portal Nacional de Contratações Públicas como uma inexigibilidade para serviços técnicos de apoio, avaliação, estruturação e implementação do projeto.

A inexigibilidade registrada nesse processo não deve ser confundida com a futura escolha das empresas que explorarão as florestas. Ela trata da contratação dos serviços técnicos de estruturação. A concessão florestal propriamente dita terá de seguir o regime previsto na Lei nº 11.284, que exige concorrência para selecionar os concessionários e proíbe inexigibilidade na licitação da concessão.

O Acre chega, assim, a uma nova etapa de uma discussão que atravessa diferentes governos e modelos de uso econômico da floresta. O território é praticamente o mesmo que esteve no centro da controvérsia analisada pelo Supremo, mas o instrumento jurídico mudou. A norma de 2024 permitia que áreas públicas chegassem ao patrimônio privado. A concessão agora estruturada preserva formalmente o domínio estatal e entrega temporariamente direitos específicos de exploração.

Essa diferença afasta o projeto do mecanismo diretamente derrubado nas ADIs do Acre, mas não encerra as questões jurídicas, ambientais e sociais que cercam as três florestas. O tamanho exato dos lotes, a presença das comunidades, as atividades econômicas autorizadas, os mecanismos de fiscalização, os valores cobrados dos concessionários e o custo da própria estruturação ainda passarão pela modelagem. Quando as minutas forem levadas à consulta pública, prevista para 2027, esses pontos deixarão o campo das intenções e aparecerão, finalmente, nas regras que poderão definir como 213 mil hectares de floresta pública acreana serão explorados pela iniciativa privada.

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Oxfam revela que 1% mais rico responde por 20% do aquecimento global e lucra com desastres climáticos

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Relatório mostra que grandes fortunas concentram parcela expressiva das emissões de carbono, enquanto populações pobres enfrentam os maiores prejuízos provocados pelas mudanças climáticas.

O 1% mais rico da população mundial é responsável por 20% do aquecimento global registrado desde 1990. O dado faz parte de um relatório divulgado pela organização internacional Oxfam, em outubro de 2026, que também denuncia como grandes investidores conseguem obter lucros tanto em atividades que contribuem para a crise climática quanto em negócios ligados à reconstrução de áreas atingidas por desastres naturais.

Intitulado O Fosso das Catástrofes, o estudo foi apresentado às vésperas da 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), marcada para novembro, na Turquia. A pesquisa relaciona a concentração de riqueza às emissões de carbono e aos impactos econômicos e sociais de fenômenos extremos, como enchentes, secas, incêndios florestais e ondas de calor.

Segundo a Oxfam, os 0,1% mais ricos da humanidade, aproximadamente 8 milhões de pessoas, produzem mais poluição por carbono do que os 3,5 bilhões de habitantes mais pobres do planeta somados. A diferença considera não apenas o consumo individual, mas também as emissões associadas aos investimentos financeiros dos grupos de maior renda.

O levantamento calcula que uma pessoa pertencente a essa parcela extremamente rica contribuiu quase 400 vezes mais para as atuais ondas de calor extremo do que alguém situado entre os 50% mais pobres da população mundial.

Os efeitos dessa desigualdade também aparecem nas projeções de mortalidade. A Oxfam estima que as emissões produzidas em apenas um ano pelo 1% mais rico poderão provocar, ao longo do tempo, cerca de 1,9 milhão de mortes adicionais relacionadas ao calor extremo. Aproximadamente 78% dessas mortes ocorreriam em países de renda baixa e média-baixa, que respondem por apenas 8% das emissões globais.

Na economia, os prejuízos associados às emissões desse grupo poderão alcançar US$ 53 trilhões até 2050. Os danos atingem principalmente regiões com menor capacidade financeira para construir sistemas de proteção, recuperar infraestrutura e atender famílias afetadas.

O relatório também examina os interesses econômicos envolvidos na crise ambiental. A organização identificou 217 empresas com atividades relacionadas tanto a setores que contribuem para o aquecimento global quanto a mercados de preparação, resposta e recuperação de desastres.

Entre os grandes investidores dessas companhias estão as gestoras financeiras BlackRock e Vanguard, que possuem participações em 92% das empresas analisadas. Os investimentos conjuntos ultrapassam US$ 1 trilhão.

A Oxfam calcula que o mercado mundial de recuperação de desastres, atualmente estimado em US$ 70 bilhões anuais, poderá movimentar US$ 92 bilhões por ano até 2029. O crescimento está relacionado à demanda por reconstrução de estradas, redes elétricas, sistemas de abastecimento, moradias e outros serviços essenciais após eventos climáticos extremos.

A crítica da organização está na possibilidade de um mesmo grupo de investidores obter rendimentos em empresas ligadas à exploração de combustíveis fósseis e em negócios que oferecem serviços para enfrentar as consequências do aquecimento global. Embora a reconstrução seja necessária, a sobreposição desses interesses levanta questionamentos sobre a distribuição dos ganhos e dos prejuízos.

O diretor executivo internacional da Oxfam, Amitabh Behar, criticou essa dinâmica ao afirmar que grandes agentes econômicos conseguem lucrar com a poluição, com os desastres e novamente com os processos de reconstrução.

Na Amazônia brasileira, as consequências das mudanças climáticas fazem parte da realidade de populações que dependem diretamente dos rios, das florestas e da produção rural. No Acre, as enchentes e os períodos de estiagem severa comprometem o transporte, o abastecimento de água, a agricultura familiar e o acesso de comunidades isoladas aos serviços públicos.

Em 2026, o estado enfrentou situações de emergência relacionadas às cheias dos rios e à seca. Em abril, seis municípios tiveram emergência declarada em razão das enchentes, que atingiram direta ou indiretamente mais de 40 mil pessoas. Em julho, a estiagem levou à declaração de emergência em todo o território acreano.

Os impactos são especialmente graves para famílias ribeirinhas, agricultores familiares, povos indígenas e moradores de áreas vulneráveis. A perda de plantações, a dificuldade de navegação e os danos às moradias afetam diretamente a renda e as condições de vida dessas populações.

Embora não seja possível atribuir um episódio isolado de enchente ou seca exclusivamente às emissões dos grupos mais ricos, o aquecimento provocado pelas atividades humanas contribui para modificar a frequência e a intensidade de determinados fenômenos climáticos. A desigualdade econômica amplia os riscos, principalmente onde faltam infraestrutura, saneamento e acesso adequado aos serviços públicos.

Diante desse cenário, a Oxfam defende a tributação das grandes fortunas, dos lucros das empresas de combustíveis fósseis e de bens de luxo com elevadas emissões de carbono, como jatos particulares. A organização também cobra maior participação dos países ricos no financiamento de medidas de adaptação climática nas regiões mais vulneráveis.

Entre as propostas está a ampliação de recursos públicos internacionais destinados à prevenção de desastres, à proteção das comunidades e à recuperação de áreas atingidas, sem aumentar o endividamento dos países de baixa renda.

A discussão chega à COP31 com uma questão que ultrapassa as metas de redução de carbono: quem deve arcar com os custos da crise climática. Para a Oxfam, enfrentar o aquecimento global exige responsabilizar proporcionalmente os maiores emissores e garantir que os recursos necessários à proteção da população não recaiam sobre aqueles que menos contribuíram para o problema.

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Sul do Brasil registra três tornados, destruição e uma morte em semana de tempestades extremas

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Fenômenos atingiram Paraná e Santa Catarina, enquanto vendavais, granizo e chuvas intensas provocaram estragos no Rio Grande do Sul. Órgãos meteorológicos mantêm alertas para novos temporais e risco de enchentes.

A primeira semana de novembro de 2026 está sendo marcada por uma sequência de desastres naturais na Região Sul do Brasil. Entre domingo (1º) e esta quinta-feira (5), tempestades provocaram destruição em centenas de municípios, deixaram milhares de famílias afetadas e causaram pelo menos uma morte. Três tornados foram confirmados no período, um no Paraná e dois em Santa Catarina. A combinação de calor, umidade, sistemas de baixa pressão e frentes frias criou condições favoráveis à formação de tempestades severas.

Um dos episódios mais intensos ocorreu na madrugada de segunda-feira (2), em Maringá, no noroeste do Paraná. O Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) confirmou que a cidade foi atingida por um tornado de categoria F2 na escala Fujita, com ventos estimados entre 180 e 250 quilômetros por hora. O fenômeno percorreu aproximadamente 15 quilômetros, arrancou telhados, derrubou árvores, destruiu estruturas e provocou interrupções no fornecimento de energia elétrica.

A força do tornado foi suficiente para arremessar telhas a mais de 1.300 metros de distância. A avaliação da intensidade foi realizada a partir de imagens de radar, registros dos danos e inspeções de campo feitas por meteorologistas. Até quarta-feira (4), 38 municípios paranaenses haviam comunicado ocorrências relacionadas a vendavais, granizo, enxurradas e alagamentos.

Em Santa Catarina, outros dois tornados foram confirmados pela Defesa Civil na manhã de quarta-feira (4). O primeiro atingiu Chapecó, por volta das 10h30, e provocou danos ao Aeroporto Serafim Enoss Bertaso, comprometendo estruturas metálicas, vidraças e áreas do terminal. As operações aéreas foram suspensas. Uma estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou rajadas de 126 quilômetros por hora na cidade.

Poucos minutos depois, às 10h48, um segundo tornado atingiu a região de Xanxerê, também no oeste catarinense. O fenômeno provocou destelhamentos, quedas de árvores, danos à rede elétrica e transtornos no trânsito. Em outras localidades de Santa Catarina, as rajadas chegaram a 131 quilômetros por hora em Caçador e 128 quilômetros por hora em Palmitos.

O balanço divulgado pela Defesa Civil catarinense na noite de quarta-feira apontava 98 municípios atingidos, 4.796 residências afetadas e 23 cidades em situação de emergência. Havia 56 pessoas desabrigadas e outras 208 desalojadas.

A tragédia mais grave registrada no estado ocorreu em Rio Negrinho, no Planalto Norte. Um trabalhador de 20 anos morreu após a cobertura de um posto de combustíveis desabar durante o temporal. O rapaz chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos.

As tempestades também provocaram enchentes e mobilizaram equipes de resgate. Em Rio do Sul, bombeiros retiraram 30 pessoas que ficaram ilhadas em uma escola. Em Lages, outras 76 pessoas precisaram ser resgatadas depois que a água avançou sobre diferentes pontos da cidade.

No Rio Grande do Sul, os temporais atingiram principalmente as regiões Norte, Noroeste e Central. Até a noite de quarta-feira, a Defesa Civil contabilizava 47.096 pessoas afetadas, 24 feridos e danos humanos ou materiais em 102 municípios. O levantamento registrava ainda 93 desabrigados e 234 desalojados.

Nova Prata esteve entre as cidades mais prejudicadas, com 15 feridos e aproximadamente 2.700 residências danificadas. Em Espumoso, as tempestades atingiram milhares de moradores, enquanto Passo Fundo enfrentou chuva intensa, granizo, interrupções no fornecimento de energia e bloqueios de ruas.

O volume de precipitação também chamou a atenção dos meteorologistas. Em Paim Filho, no Rio Grande do Sul, o acumulado chegou a 175,4 milímetros em aproximadamente 24 horas. Em diversas cidades gaúchas e catarinenses, a chuva ultrapassou os 100 milímetros em um único dia, quantidade suficiente para provocar enxurradas, transbordamento de córregos e elevação rápida do nível dos rios.

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) classificou como alto o risco de ocorrências hidrológicas nas regiões de Ijuí e Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e Chapecó, em Santa Catarina. O órgão também alertou para a possibilidade de deslizamentos em áreas de encosta, especialmente nas regiões de Blumenau e Lages, onde a chuva intensa pode comprometer a estabilidade do solo.

A explicação para a sucessão de tempestades está nas condições atmosféricas que se formaram sobre o centro-sul da América do Sul. Uma corrente de ar quente e úmido, transportada das regiões tropicais em direção ao Sul do Brasil, encontrou condições associadas à aproximação de ar mais frio. Ao mesmo tempo, a intensificação de sistemas de baixa pressão e a passagem de frentes frias favoreceram o desenvolvimento de nuvens de tempestade.

Outro fator importante foi a diferença de velocidade e direção dos ventos entre as camadas mais baixas e mais altas da atmosfera, fenômeno conhecido como cisalhamento do vento. Essa condição pode favorecer a rotação de tempestades organizadas, chamadas de supercélulas, capazes de produzir tornados, granizo de grande tamanho e rajadas destrutivas.

A formação de um ciclone extratropical na costa da Região Sul, entre quarta-feira (4) e quinta-feira (5), também integra o cenário de instabilidade previsto pelos meteorologistas. A presença desse sistema, porém, não significa que todos os tornados tenham sido provocados diretamente pelo ciclone. Cada ocorrência depende das condições específicas da tempestade que a originou.

Diante da gravidade das previsões, o Inmet emitiu aviso vermelho, de grande perigo, para áreas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e sul do Paraná na quarta-feira. O alerta previa chuva superior a 60 milímetros por hora ou 100 milímetros por dia, ventos acima de 100 quilômetros por hora e queda de granizo.

Nesta quinta-feira (5), a instabilidade mais intensa tende a se concentrar no Paraná, onde permanece o risco de pancadas de chuva acompanhadas de trovoadas. Em Santa Catarina, a previsão aponta melhora gradual do tempo, mas a preocupação continua nas áreas afetadas por alagamentos e pela elevação dos rios.

A trégua pode ser curta. A Epagri/Ciram prevê novas condições de temporais isolados em Santa Catarina entre sexta-feira (6) e sábado (7), com a formação de outra frente fria. No sábado, as rajadas podem alcançar entre 50 e 80 quilômetros por hora em áreas do litoral catarinense.

A Defesa Civil recomenda que moradores de regiões sob alerta evitem deslocamentos durante tempestades, não atravessem ruas alagadas e procurem abrigo em locais seguros, longe de janelas, árvores, postes e estruturas metálicas. Em situações de risco de tornado, a orientação é permanecer em um cômodo interno de uma construção resistente. Moradores de encostas também devem observar sinais de movimentação do terreno e deixar imediatamente o local diante de ameaça de deslizamento.

Os alertas podem ser recebidos gratuitamente pelo celular, mediante cadastro do CEP por mensagem de texto para o número 40199. Em caso de emergência, a população deve procurar a Defesa Civil pelo telefone 199 ou o Corpo de Bombeiros pelo 193.

A sequência de tornados, vendavais e enchentes reforça a necessidade de monitoramento meteorológico permanente, sistemas eficientes de alerta e planejamento das cidades para reduzir a exposição da população aos desastres. Embora tempestades severas façam parte da dinâmica atmosférica do Sul do Brasil, os prejuízos desta semana mostram a dimensão dos riscos enfrentados pelas comunidades atingidas.

Foto: Ari Dias/AEN

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Pesquisa descobre duas novas espécies de bugios na Amazônia e alerta para risco de extinção

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Uma pesquisa internacional identificou duas novas espécies de bugios na Amazônia brasileira e ampliou o conhecimento sobre a diversidade desses primatas na América Latina. O estudo, publicado em 30 de outubro na revista científica Communications Biology, utilizou análises genéticas para diferenciar populações que até então não eram reconhecidas como espécies distintas.

As novas espécies são o bugio-vermelho-do-Pantepui (Alouatta iroi) e o bugio-vermelho-do-Mato-Grosso (Alouatta matogrossensis). A descoberta faz parte de uma investigação conduzida por 41 pesquisadores de diferentes países, sob a liderança de cientistas da Universidade de Salford, na Inglaterra.

O bugio-vermelho-do-Pantepui habita uma região do Escudo das Guianas, entre o norte do Amazonas, a Venezuela e a Guiana. Sua distribuição está associada a áreas delimitadas pelos rios Negro, Branco e Cauaburi, onde as características geográficas contribuíram para o isolamento e a diferenciação genética dos animais.

Já o bugio-vermelho-do-Mato-Grosso ocorre entre os rios Madeira e Teles Pires, em uma faixa que se estende de Rondônia a Mato Grosso, alcançando áreas de transição entre a Amazônia e o Cerrado.

A localização dessa segunda espécie preocupa os pesquisadores. Parte de seu território está no chamado Arco do Desmatamento, região marcada pela expansão da agropecuária e pela perda de cobertura florestal. Os cientistas consideram possível que o animal seja classificado como criticamente em perigo de extinção, embora ainda seja necessária uma avaliação formal de seu estado de conservação.

O primatólogo Fabiano Melo, professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e um dos autores da pesquisa, defende medidas urgentes para proteger a espécie. A prioridade é avaliar o tamanho das populações e estabelecer estratégias para evitar que a destruição do habitat comprometa sua sobrevivência.

O bugio-vermelho-do-Pantepui também enfrenta riscos, apesar de viver em uma região relativamente preservada. Entre as preocupações estão os possíveis impactos da implantação da Usina Hidrelétrica Bem-Querer, no Rio Branco, em Roraima, além das consequências futuras das mudanças climáticas.

Para chegar aos resultados, os cientistas combinaram o sequenciamento completo do genoma dos animais com estudos sobre características físicas e distribuição geográfica. O trabalho também investigou como grandes rios amazônicos e mudanças na vegetação contribuíram para separar populações ao longo da evolução.

Com a revisão, o gênero Alouatta, que reúne os bugios, passa a contar com 16 espécies e duas subespécies reconhecidas na América Central e na América do Sul. A pesquisa também deixou de reconhecer o bugio-vermelho-do-rio-purus (Alouatta puruensis) como uma espécie independente.

Conhecidos também como guaribas ou barbados, os bugios estão entre os primatas mais característicos das florestas brasileiras, especialmente por suas vocalizações, que podem ser ouvidas a grandes distâncias.

A descoberta reforça a necessidade de ampliar os estudos sobre a biodiversidade amazônica. Além de identificar espécies até então desconhecidas pela classificação científica, o levantamento oferece informações para orientar políticas de conservação em regiões pressionadas pelo desmatamento e por outras alterações ambientais.

Fonte: O Eco – Foto: Bruno Rennó

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