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MEIO AMBIENTE

Acre em Estado de Alerta: Medidas preventivas contra enchentes são implementadas

Gladson Cameli destaca ações emergenciais e plano de contingência para enfrentar as intensas chuvas nos próximos meses

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Antecipando-se ao risco de enchentes devido às intensas chuvas que atingiram o Acre, o governador Gladson Cameli assinou, nesta sexta-feira, 23, um decreto que estabelece estado de alerta no estado. O decreto, válido para os meses de fevereiro a abril, organiza equipes multidisciplinares para atuar na articulação, coordenação e execução de ações emergenciais causadas pelo período chuvoso.

Durante a assinatura do decreto, Gladson Cameli destacou a necessidade de ação precoce para evitar maiores consequências das enchentes. “Vamos tomar providências antes que o rio suba mais e desabrigue as pessoas. Não podemos politizar essa situação, pois estamos falando da vida das pessoas. Já acompanhamos de perto, dando o suporte e realizando ações em Assis Brasil, por exemplo”, declarou o governador.

Foto: Diego Gurgel/Secom

O decreto visa também agilizar processos burocráticos para permitir uma resposta rápida do estado, além de facilitar o apoio do governo federal.

O coordenador da Defesa Civil estadual, coronel Carlos Batista, informou que já foram tomadas medidas preventivas, como a remoção de famílias em áreas de risco. “Foram retiradas 60 famílias em Assis Brasil, e a subida do Rio já está chegando em Brasileia e Epitaciolândia. Já estamos em contato com a Defesa Civil desses municípios para antecipar ações, visando mitigar os prejuízos. Em Rio Branco, algumas famílias já estão sendo retiradas, onde os igarapés encheram muito”, disse Batista.

Durante a apresentação do decreto, foi também divulgado um plano de contingência contra enchentes, elaborado em colaboração com todas as secretarias e autarquias do estado. Este plano direciona as ações que devem ser tomadas para uma resposta eficaz à situação.

Além disso, a Secretaria do Meio Ambiente (Sema), através do Centro Integrado de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental (Cigma), emitiu um alerta para a continuidade das chuvas no estado. Luiz Alves dos Santos Neto, meteorologista do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia – Centro Regional de Porto Velho (Censipam-CR/PV), prevê chuvas com volume acumulado entre 20 mm e 90 mm entre os dias 22 e 28 de fevereiro, variando de acordo com a região.

Foto Rio Acre: Alexandre Noronha/SemaAC

MEIO AMBIENTE

MPF cobra fiscalização mais rígida da Marinha contra garimpo ilegal na Amazônia

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O Ministério Público Federal recomendou nesta terça-feira (21) aos comandos da Marinha na Amazônia Ocidental e Oriental o endurecimento da fiscalização sobre dragas, balsas e outras embarcações usadas no garimpo ilegal. As medidas abrangem os nove estados da Amazônia Legal e tentam impedir que estruturas clandestinas obtenham registro marítimo e sejam usadas na extração de minérios sem licença ambiental.

A Marinha terá prazo de 60 dias para iniciar as providências. A recomendação vale para Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

Uma das principais mudanças propostas é a exigência de licença ambiental e de título de mineração emitido pela Agência Nacional de Mineração antes da autorização para operar embarcações destinadas à extração mineral. Atualmente, o registro inicial na autoridade marítima pode ser feito sem a apresentação desses documentos.

A brecha permite que dragas e balsas sejam registradas e adquiram aparência de regularidade, mesmo quando empregadas na mineração clandestina. Algumas embarcações também voltam aos rios depois de operações contra crimes ambientais.

A recomendação prevê ainda a criação de um procedimento administrativo para o uso de provas indiretas na aplicação de multas e outras sanções. Fotografias, vídeos, relatórios de inteligência e informações de localização por satélite poderão sustentar processos mesmo quando as embarcações ou os equipamentos forem destruídos durante as operações.

A medida tenta evitar o arquivamento de casos por falta do maquinário apreendido. Em ações contra o garimpo, dragas e balsas podem ser inutilizadas no próprio local, o que dificulta a continuidade dos processos administrativos contra os responsáveis.

O MPF também quer fiscalizações preventivas em oficinas e estaleiros instalados nas margens dos rios. A proposta é identificar e embargar embarcações clandestinas ainda durante a construção ou reforma, antes que sejam lançadas na água.

Outra medida envolve estudos para tornar obrigatório o uso de rastreadores por satélite em todas as dragas que operam na Amazônia Legal. O monitoramento permitiria acompanhar os deslocamentos em tempo real e identificar entradas em áreas sem autorização, incluindo terras indígenas.

Os dados poderão ser cruzados com informações do Sistema de Proteção da Amazônia para localizar embarcações que desligam intencionalmente os equipamentos de rastreamento ao se aproximarem de áreas de garimpo.

A recomendação foi elaborada pelo 2º Ofício da Amazônia Ocidental, responsável por ações contra a mineração ilegal no Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima. O avanço do garimpo nos rios amazônicos está associado à degradação ambiental, a violações de direitos humanos e à contaminação de comunidades e ecossistemas por mercúrio.

Fonte: Ministério Público Federal – Foto: Agência Brasil

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MEIO AMBIENTE

Branqueamento de corais mata 88% em Maragogi e expõe crise no litoral brasileiro

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Em Maragogi, no litoral de Alagoas, o calor atravessou a superfície do mar e atingiu um dos ecossistemas mais importantes do país. Entre janeiro e junho de 2024, 96% dos corais acompanhados por pesquisadores perderam a cor e 88% morreram. O desastre ocorreu durante o quarto evento global de branqueamento, provocado pela permanência da água em temperaturas acima do limite suportado pelos organismos. O dano não termina no fundo do oceano: alcança a pesca, o turismo, a alimentação das comunidades costeiras e a proteção das praias contra a força das ondas.

Debaixo d’água, o branqueamento começa com o rompimento de uma relação que mantém o coral vivo. O calor prolongado leva o organismo a expulsar as algas microscópicas que vivem em seus tecidos e fornecem grande parte da energia necessária à sua sobrevivência. Sem essas algas, a estrutura perde a coloração, enfraquece e passa a consumir as próprias reservas. Um coral branqueado ainda pode se recuperar caso a temperatura caia rapidamente. Quando o estresse continua ou retorna em intervalos curtos, a morte passa a ocupar o lugar onde antes havia abrigo, alimento e reprodução para outras espécies.

A dimensão do que aconteceu em Maragogi apareceu dentro do mais amplo levantamento já realizado sobre o branqueamento de corais no Brasil. Pesquisadores acompanharam 18 recifes distribuídos por nove estados, do Ceará a Santa Catarina, em uma faixa superior a quatro mil quilômetros entre a costa e ilhas oceânicas. Ao todo, 36% dos corais avaliados sofreram branqueamento. O trabalho reuniu o Instituto Coral Vivo, órgãos ambientais e 20 instituições brasileiras e estrangeiras, com métodos padronizados que permitiram comparar regiões submetidas a diferentes intensidades de calor.

O mapa brasileiro foi dividido pelo tempo de exposição. Em Caucaia, no Ceará, os recifes permaneceram 147 dias sob temperaturas anormais e acumularam 21,3 graus Celsius-semana, medida usada para calcular a intensidade e a duração do estresse térmico. Rio Grande do Norte, Pernambuco e Alagoas também passaram de 20 graus Celsius-semana e enfrentaram mais de quatro meses de calor excessivo. A média nacional chegou a 88 dias. No Rio de Janeiro e em São Paulo, o período ficou abaixo de dois meses e não houve perda de cobertura coralínea durante o levantamento.

A diferença entre os extremos ajuda a compreender por que o norte do Nordeste concentrou a maior mortalidade. A Costa dos Corais, unidade de conservação que se estende entre Pernambuco e Alagoas, sofreu o impacto mais severo. A Bahia e a parte central do litoral tiveram danos intermediários. O Sul e o Sudeste resistiram melhor naquele episódio, mas essa resistência não autoriza tranquilidade. Nessas regiões, a diversidade natural de corais já é menor, enquanto novas ondas de calor podem alcançar organismos que escaparam do evento anterior.

Duas espécies essenciais para a arquitetura dos recifes estiveram entre as maiores vítimas. O coral-de-fogo perdeu 54% de sua cobertura. O coral-vela, encontrado apenas em águas brasileiras e ameaçado de extinção, sofreu uma redução de 28%. São organismos que dão volume e complexidade ao recife. Nas cavidades formadas por suas estruturas, peixes encontram refúgio, pequenos animais se reproduzem e cadeias alimentares inteiras ganham sustentação. Quando essas espécies desaparecem, não morre apenas uma colônia. O recife perde parte da forma que permitia a existência de outras vidas.

Os números brasileiros fazem parte de uma crise planetária. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, calculou que o estresse térmico capaz de provocar branqueamento alcançou 84% das áreas de recifes do mundo entre o início de 2023 e meados de 2025. O fenômeno atingiu pelo menos 83 países e territórios nos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico. Em junho de 2026, a agência considerou que o quarto evento global provavelmente havia terminado em meados de 2025, mas deixou um aviso mais grave: os recifes entraram em uma época na qual o branqueamento poderá ocorrer quase todos os anos.

O encerramento formal de um evento global não devolve aos recifes o que foi perdido. Corais crescem lentamente, e a recuperação de uma estrutura destruída pode levar décadas. Antes que uma colônia consiga se recompor, uma nova onda de calor pode atingir a mesma área. A repetição encurta o intervalo disponível para reprodução, crescimento e renovação. O oceano permanece mais quente do que estava entre 25 e 30 anos atrás, quando ocorreu o primeiro branqueamento global registrado.

A crise também desmonta a ideia de que o oceano é um território distante, separado da rotina das cidades. Ele absorve aproximadamente 30% do dióxido de carbono liberado pelas atividades humanas, reduzindo a parcela que permanece na atmosfera. Esse serviço tem um preço: a água fica mais ácida, sua composição química muda e organismos que constroem esqueletos e conchas de carbonato de cálcio encontram condições cada vez mais difíceis para crescer. O aquecimento, a acidificação e a perda de oxigênio atuam ao mesmo tempo sobre ecossistemas já pressionados pela pesca excessiva, pela poluição e pela destruição de habitats costeiros.

Os recifes ocupam menos de 1% do fundo oceânico, mas abrigam aproximadamente um quarto da biodiversidade marinha conhecida. Funcionam como berçários, áreas de alimentação e refúgio para milhares de espécies. Também reduzem a energia das ondas antes que elas alcancem as praias, sustentam atividades pesqueiras e movimentam economias ligadas ao turismo. Em regiões como Abrolhos, no sul da Bahia, a formação recifal reúne espécies encontradas somente no Brasil e ocupa posição estratégica para a conservação do Atlântico Sul.

É nesse ponto que o coral morto deixa de ser apenas uma perda ambiental. Uma estrutura recifal degradada abriga menos peixes, oferece menor proteção ao litoral e perde capacidade de atrair visitantes. A queda da pesca pode alcançar famílias que dependem da captura diária para comer ou vender. A retração do turismo pode atingir barqueiros, guias, pousadas, restaurantes e vendedores que vivem da circulação de pessoas nas praias. A perda da barreira natural aumenta a exposição de casas, ruas e equipamentos públicos à erosão e às tempestades. O levantamento ecológico não calcula sozinho todo esse prejuízo econômico, mas delimita o tamanho da ameaça sobre atividades construídas ao redor dos recifes.

A oceanógrafa Flávia Guebert, diretora do Projeto Coral Vivo, resume o impasse em uma frase: “a ciência, sozinha, não é suficiente”. O conhecimento produzido nos mergulhos, laboratórios e imagens de satélite precisa chegar ao orçamento público, ao planejamento urbano, ao tratamento de esgoto, à fiscalização do turismo, ao controle da poluição e às políticas de redução das emissões. Sem essa passagem, o monitoramento registra a morte com precisão, mas não impede que o próximo verão repita o desastre.

A responsabilidade também alcança quem vive longe do litoral. No Acre, onde o mar parece uma realidade remota, a saúde do oceano interfere na regulação do clima que sustenta chuvas, rios, florestas e produção de alimentos. As emissões liberadas pelo uso de combustíveis fósseis e pela destruição da vegetação não respeitam fronteiras estaduais. O carbono lançado na atmosfera contribui para o aquecimento global; parte dele termina absorvida pelo oceano, alterando a temperatura e a química da água. A distância entre Rio Branco e os recifes do Nordeste não rompe essa ligação.

A resposta brasileira começou a ganhar recursos, embora o tamanho da crise exija continuidade. Em maio de 2026, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social aprovou R$ 6,6 milhões em recursos não reembolsáveis para o Coral Vivo Regenera, projeto com investimento total de R$ 14 milhões. As ações previstas alcançam nove unidades de conservação e áreas prioritárias entre a Bahia e o Ceará, incluindo Abrolhos, Fernando de Noronha e a Costa dos Corais. O programa reúne monitoramento, regeneração de corais, educação ambiental, turismo sustentável e alternativas de renda para comunidades tradicionais.

A restauração, porém, não substitui o combate às causas do aquecimento. Técnicas de cultivo e reintrodução podem ajudar populações atingidas, preservar diversidade genética e localizar organismos mais resistentes. Nenhum laboratório consegue reconstruir na velocidade necessária milhares de quilômetros de recifes submetidos continuamente a temperaturas extremas. Sem redução das emissões, saneamento, controle da ocupação costeira e proteção das unidades de conservação, projetos locais correm o risco de trabalhar contra uma corrente cada vez mais quente.

O pesquisador Miguel Mies, coordenador de pesquisa do Projeto Coral Vivo, afirma que o país se preparou depois da mortalidade registrada em 2019. Quando o calor retornou em 2024, a rede estava pronta para acompanhar o impacto em tempo real. O avanço permitiu saber onde os corais morreram, quais espécies sofreram mais e quais áreas resistiram. Também expôs uma pergunta que não pode permanecer no fundo do mar: o que o poder público fará antes da próxima onda de calor?

Em Maragogi, a resposta já não pode ser medida apenas pela beleza perdida. De cada cem corais acompanhados, 88 morreram. O vazio deixado por eles começa embaixo d’água, mas sobe até a praia, alcança a rede do pescador, o trabalho de quem recebe turistas, a casa protegida pelas formações recifais e a comida servida à mesa. O coral branco é o retrato visível de um oceano levado ao limite. Quando sua cor desaparece, o país recebe um aviso sobre o futuro das pessoas que dependem dele — inclusive aquelas que nunca viram o mar.

Fonte: O Eco – Foto: Agência Brasil

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MEIO AMBIENTE

Super El Niño pressiona agro e cobra adaptação no Brasil

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O Brasil entra na segunda metade de 2026 com um alerta que atravessa o Oceano Pacífico e chega ao curral, ao roçado, aos rios amazônicos e ao preço dos alimentos. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos calcula em 81% a possibilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro, com 97% de chance de permanecer ativo até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte. Diante desse cenário, a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura levou aos candidatos das eleições deste ano uma agenda que reúne adaptação climática, produção rural, conservação da vegetação nativa e recuperação de terras degradadas.

A expressão “Super El Niño” ganhou espaço no debate público, mas não constitui uma categoria oficial. A NOAA trabalha com as classificações fraco, moderado, forte e muito forte. Para o trimestre de outubro a dezembro, a probabilidade de o fenômeno alcançar a faixa mais elevada chega a 81%, contra 16% de chance de permanecer forte e 3% de ficar moderado. A intensidade, porém, não funciona como uma sentença territorial. Um El Niño poderoso aumenta a possibilidade de determinados padrões de chuva e temperatura, mas não produz o mesmo impacto em todas as regiões.

No Acre, o debate não cabe apenas em mapas meteorológicos. Ele aparece quando o rio baixa e a embarcação deixa de passar, quando a bomba de captação encontra menos água, quando o pasto perde umidade e quando a fumaça ocupa o espaço das nuvens. Um decreto estadual publicado em agosto de 2025 classificou as crises hídricas de 2023 e 2024 entre as mais severas da história recente acreana. A falta de chuva reduziu o nível dos rios, dificultou o transporte para comunidades e aldeias indígenas, comprometeu o abastecimento, degradou pastagens e provocou perdas de lavouras e animais.

A relação entre o El Niño e a seca acreana, porém, exige precisão. O fenômeno costuma reduzir as chuvas principalmente no norte e no leste da Amazônia. No oeste e no sudoeste da região, onde estão Acre e Rondônia, as estiagens guardam ligação mais direta com o aquecimento do Atlântico Tropical Norte. O risco aumenta quando os sistemas oceânicos se combinam com uma atmosfera mais quente, florestas degradadas e territórios menos preparados para suportar longos períodos sem chuva. “O El Niño potencializa os eventos extremos provocados pelo aquecimento global”, afirmou o meteorologista Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

O Acre chega a essa nova temporada com um dado favorável, mas ainda provisório. Entre janeiro e junho de 2026, o estado registrou 41 focos de calor, o menor total para o primeiro semestre em sete anos e uma redução de 43% diante do mesmo período de 2025. O resultado nasceu de fiscalização, monitoramento por satélite, brigadas comunitárias e operações contra desmatamento e queimadas ilegais. O período mais perigoso, no entanto, concentra-se no segundo semestre, quando a vegetação perde umidade e qualquer fogo fora de controle encontra terreno para avançar.

É nesse ponto que a proposta apresentada aos presidenciáveis tenta mudar a lógica da resposta pública. Em vez de esperar a lavoura quebrar, o rebanho perder peso e o incêndio alcançar a floresta, a Coalizão defende que seguro e crédito rural sejam reorganizados para enfrentar riscos climáticos cada vez mais frequentes. O financiamento deveria favorecer produtores que cumprem a legislação ambiental, recuperam áreas degradadas e adotam técnicas capazes de conservar solo e água.

Para uma família que vive da produção rural, adaptação significa ter assistência técnica antes do plantio, crédito no tempo certo, sementes adequadas, cobertura contra perdas e condições para atravessar uma estação ruim sem abandonar a terra.

Entre as práticas propostas estão o plantio direto, os bioinsumos e a integração lavoura-pecuária-floresta. Não se trata apenas de trocar equipamentos ou insumos. O plantio direto reduz o revolvimento do solo e ajuda a conservar umidade. Sistemas integrados diversificam a produção e diminuem a dependência de uma única atividade. Árvores dentro de áreas produtivas oferecem sombra, matéria orgânica e proteção contra a erosão. A Coalizão também cobra mais recursos para assistência técnica, com atenção aos pequenos produtores e à agricultura familiar, justamente o grupo que possui menor margem financeira para absorver uma quebra de safra.

O Código Florestal ocupa outro ponto central. A execução dos Cadastros Ambientais Rurais e dos Programas de Regularização Ambiental aparece como parte de uma política de segurança produtiva, e não apenas como obrigação burocrática. Uma propriedade com reserva legal protegida, mata ciliar preservada e nascente recuperada possui mais condições de reter água, reduzir erosão e atravessar períodos de calor. A regularização também abre caminho para crédito, rastreabilidade e acesso a mercados que passaram a exigir comprovação da origem ambiental dos produtos.

A vegetação nativa entra nessa conta como infraestrutura econômica. A proposta enviada aos candidatos defende mercados de carbono, pagamento por serviços ambientais e uma economia florestal capaz de remunerar produtores, povos indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas e agricultores familiares que conservam seus territórios.

No Acre, onde floresta, produção e renda disputam o mesmo espaço político há décadas, essa discussão toca numa pergunta decisiva: quanto vale manter uma área em pé e quem recebe por esse serviço? Sem resposta financeira, a conservação continua cobrada de quem vive no território, enquanto os benefícios da água, do carbono e da estabilidade climática se espalham para toda a sociedade.

A Coalizão reúne representantes do agronegócio, do setor financeiro, da academia e de organizações socioambientais. Essa composição transforma a agenda climática em uma plataforma de desenvolvimento econômico, mas não elimina os conflitos. O próximo governo terá de decidir quanto dinheiro será destinado à adaptação, quais exigências ambientais acompanharão o crédito, como os pequenos produtores terão acesso às políticas e de que forma serão combatidos os crimes que avançam sobre florestas públicas e territórios tradicionais. Sem orçamento, fiscalização e presença do Estado no interior, compromissos ambientais podem permanecer restritos às campanhas eleitorais.

“Não podemos mais tratar eventos extremos como exceções; precisamos de um planejamento territorial robusto”, afirmou Leila Harfuch, integrante do grupo estratégico da Coalizão. A frase resume uma mudança que o país adiou por tempo demais. Enchente, seca, incêndio e perda agrícola já não podem ser enfrentados como acidentes isolados. Cada desastre expõe decisões anteriores sobre ocupação da terra, proteção de rios, acesso ao crédito, assistência aos produtores e capacidade dos governos de agir antes da emergência.

O El Niño passará, como outros passaram. O desafio maior continuará na terra. A lavoura plantada em solo degradado permanecerá vulnerável. O rio sem mata ciliar continuará perdendo proteção. A comunidade sem transporte ficará isolada quando a água baixar. O agricultor sem seguro seguirá carregando sozinho o prejuízo de uma crise produzida por fatores muito maiores que sua propriedade.

A previsão de um fenômeno muito forte oferece ao Brasil uma oportunidade rara: preparar-se antes que a estatística meteorológica se transforme em fumaça, escassez e comida mais cara.

Coalizão Brasil apresenta propostas para produção sustentável e conservação

Documento reúne oito propostas sobre combate ao desmatamento ilegal, ordenamento fundiário, rastreabilidade socioambiental, financiamento rural, boas práticas agropecuárias, biocombustíveis e economia florestal.

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