A Agência Nacional de Vigilância Sanitária determinou nesta quinta-feira, 18 de junho, o recolhimento de dois lotes de antibióticos injetáveis após identificar desvio de qualidade nos produtos. A medida vale em todo o país e impede a venda, a distribuição e o uso dos medicamentos atingidos, os lotes 2519879 do Polycid, fabricado pela União Química, e 24101854 do fosfato de clindamicina 150 mg/ml, da Hypofarma.
No caso do Polycid, o recolhimento começou depois de a fabricante comunicar a presença de um fragmento de vidro dentro de um frasco do medicamento, usado no tratamento de infecções graves. Já no lote de fosfato de clindamicina, a Anvisa confirmou alteração na solução, com coloração amarelada, além da presença de corpos estranhos e precipitados no interior do frasco lacrado. Em nota, a Hypofarma afirmou que trata a resolução em conformidade com os protocolos regulatórios e mantém colaboração com os órgãos competentes.
A mesma ação da Anvisa também alcança o lote 2513588 da solução fisiológica de cloreto de sódio Equiplex 9 mg/ml, com validade até 30 de junho de 2027, igualmente proibido de ser vendido, distribuído ou utilizado. A agência ainda mandou recolher todas as preparações magistrais produzidas pela Farmácia J do Jabour, após apontar a comercialização de produtos manipulados padronizados e sem prescrição individualizada por profissional habilitado.
A Prefeitura de Rio Branco investe cerca de R$ 1,9 milhão na revitalização da Estação de Tratamento de Água I, responsável pelo abastecimento de aproximadamente 40% da cidade. A obra foi vistoriada nesta quinta-feira (18) pelo prefeito Alysson Bestene e busca reforçar a segurança operacional da unidade, reduzir riscos de interrupção no fornecimento e melhorar as condições de trabalho das equipes de manutenção.
As intervenções incluem melhorias na estrutura de captação, reforma da torre e instalação de novos equipamentos. A ETA I é uma das principais unidades do sistema de abastecimento da capital acreana e opera em uma área afetada pela ação natural do rio, que comprometeu o acesso à captação ao longo dos anos.
“Essa estação não pode parar, porque representa boa parte do abastecimento da cidade. São 40% da população atendida por essa unidade. Esse investimento é justamente para revitalizar a torre, colocar equipamentos adequados, dar mais acessibilidade aos profissionais que fazem a manutenção e garantir segurança para que a água chegue à casa das pessoas”, afirmou Alysson Bestene.
Com a revitalização, a estrutura passará a contar com quatro novos equipamentos: dois em operação e dois de reserva. O modelo permitirá que manutenções sejam feitas sem paralisar o sistema, o que deve dar mais estabilidade ao fornecimento de água.
O diretor-presidente do Serviço de Água e Esgoto de Rio Branco, Enoque Pereira, afirmou que a reforma vai retirar parte da operação de uma área vulnerável do rio e transferi-la para uma estrutura mais segura. “Se um equipamento apresentar problema, será possível fazer a retirada para manutenção sem parar o sistema de abastecimento. A nossa engenharia entende que, depois dessa reforma, a ETA I terá muito mais segurança para continuar funcionando”, disse.
A modernização da ETA I integra um conjunto de ações para melhorar a captação, o tratamento e a distribuição de água em Rio Branco. O sistema enfrenta dificuldades em períodos de baixa do rio e de acúmulo de balseiros, quando a operação fica mais sujeita a instabilidades.
Além da obra na estação, o município prepara novas intervenções na rede de abastecimento, principalmente na parte alta da cidade, região que historicamente registra mais dificuldade no fornecimento. Os próximos investimentos podem passar de R$ 3,5 milhões, com foco no reforço e na melhoria das redes.
A educadora, pesquisadora e comunicadora Matsiani Shanenawa, liderança do povo Shanenawa no Acre, foi selecionada nesta quinta-feira, 18, para receber uma bolsa internacional da 6ª edição do Programa de Mulheres Indígenas da Amazônia, iniciativa voltada ao fortalecimento de projetos conduzidos por mulheres indígenas em seus territórios. Moradora da aldeia Morada Nova, na Terra Indígena Katukina/Kaxinawá, em Feijó, ela vai desenvolver ações de educação, comunicação comunitária e preservação da memória de seu povo.
O projeto aprovado tem como eixo o fortalecimento da língua Shanenawa, dos saberes tradicionais e da formação de jovens indígenas. A proposta prevê a criação de um sistema de memória digital indígena, com registros da história, da cultura e dos conhecimentos transmitidos entre gerações na comunidade.
Matsiani é graduada em Pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional e mestre em Linguagem e Identidade pela Universidade Federal do Acre. Professora da Escola Tekahayne Shanenawa, ela atua na valorização da educação indígena e na preservação dos saberes ancestrais. A liderança também ocupa a vice-presidência da Associação Comunitária Shanenawa de Morada Nova.
Na comunicação, Matsiani está entre as fundadoras do coletivo Tetepawa Comunica, formado por jovens comunicadores indígenas de diferentes terras indígenas do Acre. O grupo trabalha com produção de conteúdo, registros audiovisuais e valorização dos conhecimentos tradicionais, ampliando a presença das narrativas indígenas nos meios digitais.
A secretária dos Povos Indígenas do Acre, Francisca Arara, afirmou que a conquista fortalece não apenas a trajetória individual de Matsiani, mas também sua comunidade. Para ela, oportunidades como essa permitem que novas ferramentas e experiências retornem às aldeias e contribuam para a educação indígena, a comunicação comunitária e a autonomia dos povos.
A trajetória de Matsiani reúne educação, pesquisa, cultura, comunicação e liderança social. Ela é autora e coautora de publicações acadêmicas sobre ancestralidade, educação indígena e identidade cultural. Em 2024, recebeu o Prêmio Mestre da Lei Paulo Gustavo, na categoria Contos e História. Em 2025, o coletivo Tetepawa Comunica recebeu o Prêmio Ciências do Podali.
Com a bolsa internacional, Matsiani Shanenawa pretende ampliar o registro das memórias do povo Shanenawa, fortalecer a língua materna e contribuir para a formação das novas gerações, mantendo vivos os ensinamentos ancestrais e a identidade cultural da comunidade.
A visita de Seu Jorge à Reserva Extrativista Chico Mendes, em Xapuri, nesta quarta-feira (17), ganhou força política e simbólica ao reunir o artista com Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, primo de Chico Mendes e uma das vozes históricas da defesa da floresta no Acre. O encontro, acompanhado por Rogério Mendes, filho de Raimundão e fundador do Eco Tour Resex, transformou uma noite de música, conversa e fotografia em vitrine para o turismo de base comunitária, a produção de borracha nativa e a permanência das famílias extrativistas dentro do território.
“Tem encontros que parecem acontecer no tempo certo. E essas fotos guardam exatamente isso”, escreveu Rogério, ao tentar traduzir o que havia diante dele: de um lado, um artista reconhecido no Brasil e fora dele; do outro, um homem que atravessou décadas de luta pela floresta em pé sem abandonar a colocação, a memória dos empates e o modo de vida seringueiro. “Receber o Seu Jorge aqui, no coração da Reserva Extrativista Chico Mendes, não foi apenas receber um artista. Foi abrir as portas da nossa casa, da nossa história e da nossa forma de viver para mostrar que existe um outro caminho possível: um caminho onde floresta em pé, cultura e dignidade caminham juntas.”
Rogério sabe que, dentro da Resex, uma visita nunca é só uma visita. Quem chega ali pisa em um território criado em 1990, depois do assassinato de Chico Mendes, como resposta concreta à luta dos seringueiros contra o avanço da derrubada e da pecuária sobre a floresta. A reserva tem pouco mais de 970 mil hectares, atravessa sete municípios do Acre e abriga cerca de duas mil famílias extrativistas, aproximadamente dez mil pessoas que vivem entre seringais, castanhais, roçados, rios, varadouros e memórias.
É nesse chão que o Eco Tour Resex tenta fazer do turismo uma forma de renda sem expulsar ninguém do próprio lugar. Rogério apresentou a visita como parte de uma caminhada que já dura cerca de quatro anos e ganhou estrutura mais recente com investimentos, chalés e acolhimento para quem deseja conhecer a rotina das comunidades tradicionais por dentro, sem transformar a floresta em cenário vazio. A passagem de Seu Jorge incluiu convivência com moradores, música e agenda voltada à produção de borracha, à conservação ambiental e à visibilidade do território.
“Receber o Seu Jorge reforça algo que a gente já sabe: apoiar o turismo de base comunitária não é um detalhe, é uma urgência”, escreveu Rogério. “É criar oportunidades para que as famílias locais possam viver com dignidade, gerar renda, permanecer em seus territórios e continuar mantendo a floresta de pé.” A frase carrega uma disputa antiga no Acre: a floresta só permanece em pé quando quem vive nela encontra trabalho, preço justo, estrada possível, comunicação, escola, saúde e respeito. Sem isso, a conservação vira discurso distante da cozinha, do roçado e da conta do mês.
O encontro ganha ainda mais peso pela presença de Raimundão. Aos olhos de Rogério, o pai não aparece apenas como parente de Chico Mendes, mas como um guardião de uma história construída com o corpo. “Ao lado dele está Raimundão, primo de Chico Mendes, homem da floresta, guardião de uma história construída com resistência, trabalho e amor por esse território. Em cada conversa, em cada lembrança e em cada gesto existe um legado que atravessa gerações: o entendimento de que proteger a floresta também significa cuidar de quem vive dentro dela.”
Raimundão já foi descrito como um “sábio ancião da floresta” pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas. Na Comunidade Rio Branco, no Seringal Floresta, ele manteve produção de látex, roçado, plantio de seringueiras, fruteiras e outras espécies, numa experiência concreta de viver da floresta sem destruí-la. A liderança dele vem das lutas dos anos 1970 e 1980, quando seringueiros, ribeirinhos, agricultores e povos indígenas enfrentaram o avanço da devastação no Acre.
Essa liderança continua custando caro. Em 2025, Raimundão voltou ao centro das tensões na Resex após ataques virtuais ligados a conflitos sobre gado ilegal e desmatamento dentro da unidade. Mesmo sob ameaça, ele respondeu com a firmeza de quem não aprendeu a recuar: “Eu não paro, eu não paro porque eu não tenho como parar. Eu não parei quando eu era novo, porque agora na velhice eu vou parar? Vou continuar fazendo o meu trabalho.”
A fotografia com Seu Jorge, por isso, não funciona apenas como registro afetivo. Ela aproxima duas formas de voz. Rogério leu a cena dessa maneira: “Essa imagem fala de encontro entre mundos. De um lado, a voz que ecoa para o Brasil e para o mundo. Do outro, a voz silenciosa e diária de quem mantém viva a Amazônia todos os dias.” A potência da imagem está justamente nessa inversão: a celebridade entra na floresta, mas o protagonismo pertence a quem ficou quando a câmera vai embora.
A presença da Veja amplia esse sentido. A marca trabalha com borracha nativa do Acre desde os primeiros anos de sua criação, em parceria com cooperativas e associações como a CAPEB, a CAEX e a Amopreab. O modelo busca pagar valor diferenciado às famílias, garantir compra com contratos de longo prazo, apoiar a organização da produção e manter a borracha como alternativa econômica para quem vive na floresta.
No projeto da borracha, a Veja afirma atuar desde 2007 com a Amopreab na Reserva Chico Mendes. Hoje, mais de 2.500 famílias, representadas por 22 associações, participam da cadeia. A empresa também criou, com apoio do Partnership For Forests, um protocolo de borracha sustentável, com monitoramento de desmatamento e pagamentos de bônus para estimular a conservação.
Para Rogério, a chegada da equipe da Veja ao território ajuda a romper uma barreira histórica: a floresta costuma ser lembrada pelo conflito, pela morte e pela ameaça, mas menos pelas soluções que já nascem dentro dela. “Nosso agradecimento especial à Veja por ter vindo até aqui e por ajudar a mostrar que dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes existem famílias, sonhos, trabalho e soluções reais para o futuro”, escreveu. “Mostrar essas histórias é também fortalecer a luta de tantas pessoas que acreditam que desenvolvimento e conservação podem andar juntos.”
Essa é a camada mais importante da visita. O artista não chegou a um palco convencional. Chegou a um território onde a economia da floresta precisa disputar espaço com a pecuária, com a grilagem, com o fogo e com a sensação de abandono que tantas vezes empurra jovens para fora da comunidade. Quando o turismo de base comunitária, a borracha nativa, o ateliê de madeira caída, a castanha, o café e a comunicação comunitária aparecem juntos, a Resex deixa de ser tratada como paisagem distante e passa a ser entendida como lugar de trabalho, inteligência e futuro.
“Que esse momento fique marcado não só como uma visita, mas como um símbolo: quando a arte encontra a floresta, quando a memória encontra o futuro e quando as pessoas enxergam que aqui existe vida, potência e um legado que continua sendo escrito”, escreveu Rogério. A frase resume a ambição de quem não quer transformar a Reserva Chico Mendes em peça de museu. Quer fazer dela uma escola viva, onde o visitante chegue para ouvir, comer, caminhar, dormir, aprender e sair carregando outra ideia de Amazônia.
Naquela noite, Seu Jorge cantou, conversou e encontrou Raimundão. Mas a cena maior estava ao redor: a casa aberta, a floresta respirando no escuro, a família recebendo visitantes, a história de Chico Mendes atravessando gerações e um jovem ambientalista tentando provar que turismo comunitário não é ornamento de projeto, é uma política de permanência. “Uma noite. Uma conversa. Uma fotografia. Uma memória para o resto da vida”, escreveu Rogério. Na Resex Chico Mendes, às vezes uma fotografia guarda mais que uma lembrança. Guarda um caminho.