A entrega de um Núcleo Indígena de Gestão Integrada não começa no corte de uma fita, nem termina quando a chave passa de uma mão para outra. No Juruá, onde a distância se mede por rio, ramal, tempo de viagem e articulação coletiva, a chegada de uma casa equipada com internet, energia solar, computadores, cozinha, banheiros e salas de reunião tem outro peso. É estrutura, mas também é mensagem: a gestão do território precisa estar dentro do território.
Foi com esse sentido que a Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ) avançou, em abril, em uma nova etapa de entrega dos NIGIs em comunidades indígenas do Acre. A agenda integra o projeto Gestão Territorial OPIRJ, com apoio do Fundo Amazônia, e alcança territórios em municípios como Tarauacá, Mâncio Lima e Marechal Thaumaturgo, onde estão concentradas parte das estruturas implantadas para reuniões, formações, planejamento, articulação institucional e decisões coletivas.
Na Terra Indígena Rio Gregório, território do povo Yawanawa, a entrega chegou à Aldeia Mutum no dia 22 de abril. No dia seguinte, a OPIRJ realizou nova entrega na Aldeia Nova Esperança, também território Yawanawa. Nos dois momentos, o que estava em jogo era mais do que a inauguração de uma estrutura física: era a criação de uma base permanente para que lideranças, jovens, famílias e comunidade possam organizar documentos, discutir projetos, guardar a memória do povo e conduzir suas próprias agendas de gestão territorial.
Francisco Piyãko, coordenador da OPIRJ, resumiu o sentido da entrega na Aldeia Nova Esperança como “uma mensagem de dar autonomia pros territórios”. Para ele, o NIGI funciona como “um escritório avançado dentro do seu território”, com internet, sistema solar, banheiros, salas para reuniões, auditório, computadores, material de escritório e estrutura de cozinha. O espaço, disse, serve para “reunir a história do povo”, arquivar documentos, discutir projetos, organizar agendas internas e “se posicionar num tempo novo”.
A fala de Piyãko ajuda a entender por que os NIGIs aparecem como uma das frentes centrais da agenda da OPIRJ. Em regiões onde o deslocamento até a cidade pode exigir horas ou dias de viagem, ter uma estrutura de trabalho no próprio território muda a forma de fazer gestão. O núcleo vira lugar de reunião, mas também de escrita, arquivo, planejamento, comunicação e defesa de direitos. Na leitura do coordenador, não se trata apenas de um prédio novo. É um espaço para reconectar os mais jovens ao compromisso de cuidar da memória, da história e do território como lugar coletivo.
Na Aldeia Nova Esperança, quem recebeu o núcleo também falou a partir desse lugar. Biraci Júnior, o cacique Iskukua, apresentou o NIGI como “um marco” para os territórios que passam a contar com esse instrumento de trabalho. Ele descreveu a estrutura como uma casa “totalmente apropriada”, equipada com internet e energia solar, e afirmou que ela chega como “uma nova ferramenta de luta, de resistência dos nossos povos, do nosso território”.
A frase mais forte veio quando Biraci Júnior Iskukua colocou a tecnologia no vocabulário da luta indígena: “Hoje, nossas armas são a tecnologia, o papel, a caneta, o computador e a internet — instrumentos fundamentais na luta pelos nossos direitos.” É uma síntese direta do que a entrega representa. A defesa do território continua ligada à floresta, à memória, à espiritualidade e à organização comunitária, mas passa também pela capacidade de produzir documentos, acessar informações, escrever projetos, responder a demandas públicas e dialogar com instituições sem depender sempre da cidade.
A agenda também chegou ao povo Kuntanawa, em Marechal Thaumaturgo, dentro da Reserva Extrativista Alto Juruá. Os Kuntanawa vivem às margens do alto rio Tejo, no interior da Resex, no extremo oeste do Acre, com a Aldeia Sete Estrelas como uma de suas principais referências comunitárias. Trata-se de um povo de família linguística Pano, marcado por um processo de retomada e afirmação identitária após as violências das correrias e da formação dos seringais no Acre.
No território Kuntanawa, a entrega do NIGI ocorreu no dia 27 de abril e marcou também o encerramento da oficina de elaboração do Plano de Gestão Territorial e Ambiental Kuntanawa. A presença de Haru Kuntanawa, presidente da associação, e do cacique geral Osmildo Kuntanawa reforçou o vínculo entre a nova estrutura e o planejamento político do povo. Ali, a casa não chega como peça isolada. Ela se conecta à discussão do PGTA, à proteção do território, à organização das comunidades e à construção de caminhos próprios dentro da Resex Alto Juruá.
Em Marechal Thaumaturgo, a rota dos NIGIs também alcança os territórios Kampa do Rio Amônia, Arara do Rio Amônia e Kuntanawa, conforme a agenda de implantação citada pela OPIRJ. A região concentra parte das entregas no Alto Juruá e ajuda a mostrar a escala do desafio: levar estrutura para dentro de áreas onde a logística depende de rio, tempo, transporte de equipamentos e diálogo com cada povo.
No território Arara do Rio Amônia, Antônia Damiana, da Aldeia Nordestino, deu outra dimensão ao significado do núcleo. Ela afirmou que o espaço é importante porque reúne equipamentos, internet, cozinha e refeitório para o trabalho com projetos voltados à melhoria da vida do povo. E fez uma correção política essencial: “Esse NIGI não é só da Aldeia Nordestino, esse NIGI é do povo Arara”.
Essa ideia atravessa toda a agenda. O núcleo não pertence a uma liderança, a uma diretoria ou a uma gestão passageira. Pertence ao povo, ao território, à comunidade que vai usar o espaço para reunir, decidir, escrever, guardar, planejar e cobrar. Por isso, quando Francisco Piyãko afirma que “o povo é dono”, a frase não funciona como slogan. Ela traduz uma prática de gestão territorial em que a infraestrutura precisa estar a serviço da autonomia, e não o contrário.
No Juruá, onde os povos indígenas enfrentam pressões sobre seus territórios, dificuldades de acesso a políticas públicas e longas distâncias até os centros urbanos, os NIGIs chegam como uma ferramenta concreta de permanência. São casas de trabalho, mas também de memória. São escritórios, mas também espaços de escuta. São estruturas com computador e internet, mas nascem de uma lógica anterior à tecnologia: a decisão coletiva de que a gestão do território deve ser feita por quem vive, protege e conhece esse território.
Municípios destacados na matéria da OPIRJ como áreas de implantação dos NIGIs. A localização das aldeias não está indicada ponto a ponto.
Gestão territorial no Juruá
A entrega começa antes da inauguração
Móveis, materiais, equipamentos e estruturas de apoio saem por estrada e rio para dar forma aos Núcleos Indígenas de Gestão Integrada e aos tanques manuais nas Terras Indígenas do Juruá.
Mâncio Lima: Território Nukini e Território Puyanawa.
Tarauacá: Terra Indígena Rio Gregório.
Marechal Thaumaturgo: Kampa do Rio Amônia, Arara do Rio Amônia e Kuntanawa.
3municípios aparecem como áreas de implantação dos Núcleos Indígenas de Gestão Integrada.
6territórios são citados na etapa de estruturação dos NIGIs pela OPIRJ.
4Terras Indígenas recebem equipamentos e materiais para tanques manuais.
O que chega aos territórios
Segundo a OPIRJ, os NIGIs foram pensados como espaços multifuncionais para reuniões, formações, planejamento e articulação institucional. Cada núcleo reúne salas de reunião e capacitação, escritório com computador e internet, mobiliário, materiais de escritório, área para armazenamento da produção comunitária e cozinha equipada.
Mâncio LimaTerritórios Nukini e Puyanawa entram na rota dos NIGIs, com estruturas voltadas à organização local e à gestão comunitária.
TarauacáA Terra Indígena Rio Gregório aparece entre os territórios contemplados na implantação dos núcleos.
Marechal ThaumaturgoKampa do Rio Amônia, Arara do Rio Amônia e Kuntanawa concentram entregas no Alto Juruá.
1
Compra e separação
Móveis, equipamentos e materiais são organizados conforme as demandas de cada território.
2
Transporte pelo rio
Parte das entregas segue em embarcações, com materiais chegando às comunidades por via fluvial.
3
Montagem dos espaços
Os NIGIs passam a reunir infraestrutura para reuniões, formações e decisões coletivas.
4
Produção e vigilância
Tanques manuais, casas de passagem e casas de vigilância ampliam a proteção territorial e a segurança alimentar.
Equipe descarrega móveis e materiais: a estruturação dos núcleos depende de uma logística que atravessa rios e comunidades.
Materiais para tanques manuais seguem por via fluvial.Estrutura no território Arara do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo.
Estruturas específicas, como casas de passagem e vigilância, são construídas conforme a demanda de cada povo.
Para que serve: os NIGIs funcionam como base de organização dos territórios, com condições para reuniões, oficinas, planejamento, articulação com parceiros e tomada de decisão coletiva. A ação integra o projeto Gestão Territorial OPIRJ, apoiado pelo Fundo Amazônia.
A educadora, pesquisadora e comunicadora Matsiani Shanenawa, liderança do povo Shanenawa no Acre, foi selecionada nesta quinta-feira, 18, para receber uma bolsa internacional da 6ª edição do Programa de Mulheres Indígenas da Amazônia, iniciativa voltada ao fortalecimento de projetos conduzidos por mulheres indígenas em seus territórios. Moradora da aldeia Morada Nova, na Terra Indígena Katukina/Kaxinawá, em Feijó, ela vai desenvolver ações de educação, comunicação comunitária e preservação da memória de seu povo.
O projeto aprovado tem como eixo o fortalecimento da língua Shanenawa, dos saberes tradicionais e da formação de jovens indígenas. A proposta prevê a criação de um sistema de memória digital indígena, com registros da história, da cultura e dos conhecimentos transmitidos entre gerações na comunidade.
Matsiani é graduada em Pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional e mestre em Linguagem e Identidade pela Universidade Federal do Acre. Professora da Escola Tekahayne Shanenawa, ela atua na valorização da educação indígena e na preservação dos saberes ancestrais. A liderança também ocupa a vice-presidência da Associação Comunitária Shanenawa de Morada Nova.
Na comunicação, Matsiani está entre as fundadoras do coletivo Tetepawa Comunica, formado por jovens comunicadores indígenas de diferentes terras indígenas do Acre. O grupo trabalha com produção de conteúdo, registros audiovisuais e valorização dos conhecimentos tradicionais, ampliando a presença das narrativas indígenas nos meios digitais.
A secretária dos Povos Indígenas do Acre, Francisca Arara, afirmou que a conquista fortalece não apenas a trajetória individual de Matsiani, mas também sua comunidade. Para ela, oportunidades como essa permitem que novas ferramentas e experiências retornem às aldeias e contribuam para a educação indígena, a comunicação comunitária e a autonomia dos povos.
A trajetória de Matsiani reúne educação, pesquisa, cultura, comunicação e liderança social. Ela é autora e coautora de publicações acadêmicas sobre ancestralidade, educação indígena e identidade cultural. Em 2024, recebeu o Prêmio Mestre da Lei Paulo Gustavo, na categoria Contos e História. Em 2025, o coletivo Tetepawa Comunica recebeu o Prêmio Ciências do Podali.
Com a bolsa internacional, Matsiani Shanenawa pretende ampliar o registro das memórias do povo Shanenawa, fortalecer a língua materna e contribuir para a formação das novas gerações, mantendo vivos os ensinamentos ancestrais e a identidade cultural da comunidade.
O Ministério Público Federal acionou a Justiça nesta terça-feira, 16 de junho de 2026, para obrigar a União e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas a concluir a atualização e publicar o Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra Indígena Alto Rio Purus, no Acre. A medida foi tomada porque o documento em vigor, elaborado em 2012, passou a ser considerado defasado diante das mudanças no território e do avanço de novas ameaças na região de fronteira com o Peru.
A área indígena tem cerca de 236 mil hectares, fica entre Santa Rosa do Purus e Manoel Urbano e é habitada pelos povos Madija e Huni Kuĩ. Para o MPF, a terra integra um corredor estratégico de conservação da Amazônia acreana e exige proteção reforçada por reunir floresta preservada, presença indígena e pressão crescente de atividades com potencial de impacto sobre a região.
Na ação, o órgão aponta que o plano deixou de responder ao cenário atual. Entre os problemas citados estão projetos de abertura de estradas nas proximidades da terra indígena, a presença de missionários, o avanço de atividades ilegais ligadas à faixa de fronteira e a atuação de facções criminosas. O entendimento do MPF é que, sem um plano atualizado, as comunidades perdem capacidade de planejamento e ficam mais expostas a conflitos, falhas de monitoramento ambiental e dificuldade de articulação com políticas públicas.
O Ministério Público afirma que tentou resolver o caso fora da Justiça. Houve inquérito civil, articulações com a Funai, o Ministério dos Povos Indígenas, a Comissão Pró-Indígenas do Acre e outros órgãos, além da elaboração de um plano de trabalho que previa a atualização em oito meses. Ainda assim, a execução não saiu do papel por depender de providências administrativas e de recursos orçamentários.
Na ação civil pública, o MPF pede que a Justiça determine a apresentação, em até 60 dias, de um plano detalhado com etapas, responsáveis, cronograma, previsão de orçamento e mecanismos de participação das comunidades indígenas. O órgão também quer que sejam feitas consultas e oficinas com os povos Huni Kuĩ e Madijá, para que a revisão reflita as mudanças ocorridas desde a elaboração original do documento.
Outro pedido é para que o plano atualizado seja concluído, validado pelas comunidades e publicado em até 12 meses. O MPF também solicitou multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento das medidas que vierem a ser impostas pela Justiça.
A Justiça Federal determinou que a União e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas apresentem, em até 180 dias, um plano de reestruturação da Coordenação Regional do Juruá e de suas unidades técnicas no Acre. A decisão atende a uma ação civil pública e mira a falta de pessoal, a deficiência logística e a precariedade da estrutura usada no atendimento às comunidades indígenas da região.
A sentença reconhece que o problema afeta a execução da política indigenista em uma das áreas mais extensas e isoladas da Amazônia. A coordenação regional é responsável por mais de 22 mil indígenas, distribuídos em 28 terras indígenas e dezenas de aldeias em áreas de difícil acesso, o que amplia o impacto da falta de servidores e de estrutura operacional.
Entre os principais entraves estão a carência de servidores permanentes, a limitação de veículos, embarcações, motores e outros meios de transporte, além de unidades que funcionam em imóveis precários ou dependem de apoio de prefeituras para manter atividades básicas. Esse quadro compromete ações como fiscalização, proteção territorial, acompanhamento de comunidades e articulação de políticas públicas.
Durante a tramitação da ação, houve regularização de internet, comunicação via satélite, combustível, limpeza, motoristas e apoio administrativo. Mesmo assim, a Justiça entendeu que as medidas não resolveram o problema estrutural e determinou a apresentação de um plano com diagnóstico da força de trabalho, estratégias para recompor o quadro, avaliação das unidades em Feijó, Tarauacá, Jordão, Marechal Thaumaturgo e Mâncio Lima, além de medidas para reforçar a logística e a capacidade administrativa da coordenação regional.