Enquanto Rio Branco encerrou 2025 com o dezembro mais chuvoso de sua história recente, cidades do interior do Amazonas iniciaram 2026 enfrentando uma seca fora de época que compromete a navegação e o abastecimento, dois fenômenos registrados no mesmo período do inverno amazônico e que evidenciam alterações no regime de chuvas ao longo da bacia amazônica.
Na capital acreana, dezembro acumulou 561,6 milímetros de chuva, mais que o dobro da média esperada para o mês, segundo dados da Defesa Civil Municipal. O volume elevado provocou alagações, fez igarapés urbanos e o Rio Acre transbordarem e atingiu mais de 20 mil pessoas, em um cenário que não se repetia há cerca de cinco décadas para o período. A média diária de precipitação ficou em 18,1 milímetros, quando o esperado seria entre 8 e 9 milímetros por dia. Em alguns episódios, como o registrado no dia 6 de dezembro, choveu em 24 horas o equivalente a oito dias da média histórica, provocando uma elevação rápida do nível do Rio Acre e exigindo ações emergenciais do poder público.
De acordo com o coordenador da Defesa Civil de Rio Branco, coronel Cláudio Falcão, o comportamento das chuvas foi determinante para o cenário observado. “A média diária do mês de dezembro, se chovesse todos os dias, seria 8 ou 9 mm. Dessa vez deu quase 20 [milímetros] por dia. Então, mais do que o dobro”, afirmou. Mesmo com o rio entrando em vazante após os picos de cheia, o órgão manteve o estado de alerta diante da possibilidade de novas precipitações intensas nos primeiros meses de 2026, período em que o inverno amazônico costuma se manter ativo.
A explicação para a cheia atípica em Rio Branco está associada à atuação de um sistema atmosférico incomum na região. O meteorologista e professor da Universidade Federal do Acre, Rafael Coll Delgado, apontou que as chuvas extremas foram influenciadas por um Vórtice Ciclônico de Altos Níveis, mais frequente no Nordeste do país, mas que se deslocou de forma atípica para o oeste, alcançando o Acre. Segundo ele, a vanguarda desse sistema favoreceu a formação de nuvens profundas e tempestades severas, com alto volume de precipitação concentrado em curtos intervalos de tempo.
No sentido oposto, cidades do Amazonas registraram, no mesmo período, uma redução incomum no nível dos rios. Em municípios do Alto Solimões, como Tabatinga e Coari, portos ficaram parcialmente secos em pleno mês de janeiro, quando tradicionalmente os rios estariam em processo de cheia. Em Tabatinga, embarcações deixaram de atracar diretamente no porto, obrigando passageiros e trabalhadores a percorrer trechos que normalmente estariam submersos. “Para o viajante, para comprar o cimento, alguma coisa para carregar no porto é longe”, relatou o professor Izaque Silva. Representantes do transporte fluvial também alertaram para riscos operacionais, com balsas e flutuantes ficando encalhados em áreas que perderam volume de água.
Especialistas apontam que a seca fora de época no Amazonas está relacionada a temperaturas acima da média e baixa umidade, que dificultaram a formação de chuvas nas cabeceiras dos rios. A superintendente regional do Serviço Geológico do Brasil em Manaus, Jussara Cury, explicou que o impacto já é percebido em rios de grande porte, como o Rio Negro, que nesta época do ano costuma subir cerca de 10 centímetros por dia, mas atualmente registra elevação de apenas 1 centímetro diário. “O acumulado indica chuvas muito abaixo do normal em dezembro, o que manteve a recessão no Alto Solimões, que agora já ocorre também no Médio Solimões”, afirmou.
As previsões indicam que chuvas podem retornar gradualmente ao Amazonas nos próximos dias, o que tende a aliviar a situação em áreas mais afetadas pela seca. No Acre, a expectativa é de manutenção de episódios de chuva ao longo do primeiro trimestre de 2026, o que mantém órgãos de monitoramento em atenção permanente. Os dois eventos, observados em um curto intervalo de tempo, ampliam o debate sobre a variabilidade climática na Amazônia e os desafios de adaptação de cidades e comunidades que dependem diretamente do regime de chuvas e do comportamento dos rios.
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