A possibilidade de Binho Marques compor, como suplente, uma eventual chapa de Jorge Viana ao Senado pelo PT coloca no debate um nome importante da história política recente do Acre. A hipótese foi noticiada pelo ContilNet, a partir da presença de Binho em agendas recentes do partido e de sua citação como possível suplente na chapa petista de 2026.
Caso seja confirmado, não se tratará apenas de uma fotografia de campanha nem de um aceno à memória da Frente Popular. A suplência ao Senado tem peso político real: os suplentes integram a chapa e podem assumir o mandato em caso de afastamento ou impedimento do titular.
Antes que a discussão seja reduzida ao domicílio eleitoral, é preciso evitar simplificações. Para disputar pelo Acre, o ponto central não é morar cotidianamente em Rio Branco, mas possuir domicílio eleitoral na circunscrição exigida pela legislação. A própria Justiça Eleitoral reconhece que esse conceito é mais amplo do que residência civil e pode considerar vínculos familiares, profissionais, sociais, afetivos ou políticos.
Mas a política não se encerra na formalidade jurídica. Mesmo que todos os requisitos legais estejam preenchidos, permanece uma pergunta legítima: qual é, hoje, o vínculo concreto de Binho Marques com o Acre real, com seus problemas atuais e com a agenda que o Estado precisa construir para os próximos anos?
Binho tem história. Foi governador, educador, gestor público e participou de um ciclo em que a educação ocupou lugar central no projeto político acreano. Essa trajetória não precisa ser apagada nem diminuída. Mas também não deve ser usada apenas como memória.
Foto Gleilson Miranda/Gestao Escolar
O Acre de 2026 não é o Acre dos anos 1990 nem dos anos 2000. Os desafios mudaram. A educação já não pode ser discutida apenas em termos de acesso, matrícula, prédios escolares ou reorganização administrativa. A nova agenda passa por aprendizagem real, alfabetização na idade certa, permanência dos estudantes, ensino médio conectado ao mundo do trabalho, formação técnica, tecnologia, valorização dos professores e capacidade de preparar uma geração para viver, produzir e inovar no próprio Estado.
É nesse ponto que a presença de Binho no debate pode ganhar relevância pública. A pergunta não é apenas se ele pode ser suplente. A pergunta mais importante é: o que ele tem a dizer sobre o futuro do Acre?
Se Binho vier apenas para recompor uma chapa, a discussão será pequena. Se vier para ajudar a formular uma nova agenda para a educação, para a juventude e para o desenvolvimento do Estado, a conversa muda de nível.
O mesmo vale para Jorge Viana e para o PT. Reunir nomes históricos pode ter força eleitoral, mas também traz uma cobrança inevitável: o que essa geração ainda tem a oferecer ao Acre de agora?
O debate, portanto, não é sobre nostalgia.
A presença de Binho Marques como suplente de Jorge Viana só terá densidade política se vier acompanhada de respostas. Que diagnóstico ele traz? Que pontes pode construir? Que projeto ajuda a formular? Que Acre ele enxerga para os próximos dez anos? (FUTURO) e esse futuro começa hoje!
A legalidade de uma eventual candidatura será examinada pela Justiça Eleitoral, se houver registro e questionamento. A pertinência política será julgada pelo eleitor.
Binho tem passado no Acre. Isso é fato. A questão, agora, é saber se sua volta ao centro da política acreana aponta para uma nova agenda ou apenas para a repetição de uma antiga fotografia.
Todo ciclo eleitoral tem suas etapas. Há a das filiações, a das pesquisas, a das convenções e, antes de todas elas, a mais divertida: a temporada dos profetas eleitorais.
É quando surgem as análises definitivas, as sentenças irrefutáveis e as certezas absolutas sobre uma eleição que ainda nem começou de verdade. Basta um café, uma roda de conversa ou um artigo mais inspirado para decretar: “a eleição será decidida em Cruzeiro do Sul.” Ainda mais quando decisões recentes entram no roteiro, como o anúncio de apoio de Zequinha Lima a Alan Rick e as movimentações que colocam Jéssica Sales como provável vice na chapa de Mailza, como se essas definições fossem suficientes para encerrar o debate antes mesmo de ele começar.
Será?
Cruzeiro do Sul é, sem dúvida, um dos maiores colégios eleitorais do Acre. Tem peso político, tradição e lideranças influentes. Mas reduzir o resultado de uma eleição à vontade de um único município é uma simplificação que nem a matemática eleitoral consegue explicar.
Aliás, se a tese estiver correta, surge um pequeno problema: quem exatamente influencia e decide em Cruzeiro do Sul? Zequinha Lima e Jéssica Sales?
E Nicolau Júnior? E Gladson Cameli? E Delcimar Leite? E Clodoaldo Rodrigues?
E a vereadora Valéria Lima, a mais votada da última eleição municipal? E o presidente da Câmara, Elter Nóbrega? Eles deixaram de influenciar o eleitorado? Ou simplesmente desapareceram porque alguém resolveu resumir a política de Cruzeiro do Sul a um ou dois sobrenomes?
A verdade é que Cruzeiro do Sul não tem uma única liderança. Tem um alfabeto inteiro delas. Deputados, vereadores, ex-parlamentares, lideranças comunitárias, empresariais, religiosas e políticas formam um mosaico que nunca coube em uma manchete.
Quem enxerga apenas uma letra provavelmente ainda não aprendeu a ler a política do Juruá.
E isso vale para qualquer município do Acre. Toda eleição produz a tentação de encontrar um “dono” dos votos, um “grande eleitor” ou um atalho para explicar o comportamento do eleitorado. Mas a política real é muito menos conveniente do que as teorias prontas.
As eleições de 2026 não serão decididas por um artigo, por uma pesquisa isolada, por uma roda de conversa ou pela vontade de um único grupo político. Serão decididas nas urnas, voto a voto, em Rio Branco, Cruzeiro do Sul, Sena Madureira, Tarauacá, Brasileia, Feijó, Xapuri, Mâncio Lima, Rodrigues Alves e em todos os demais municípios acreanos.
Existe um detalhe que continua escapando a todas as profecias: o eleitor acreano não usa cabresto, não gosta de “já ganhou” e costuma reagir mal a qualquer tentativa de traição ou imposição.
Até lá, os profetas continuarão fazendo previsões. Faz parte do jogo. Só esqueceram de combinar com o eleitor.
O MDB voltou a fazer o que já virou rotina: anunciar apoio à pré-candidatura de Mailza Assis e garantir que Jéssica Sales será a vice-governadora.
O anúncio foi feito novamente por Vagner Sales, durante o café da manhã promovido pelo Progressistas. A convicção foi a mesma das outras ocasiões.
O detalhe é que a principal personagem dessa história continua sem assumir publicamente o papel que seu partido insiste em anunciar. Jéssica Sales segue distante desses encontros e, quando tratou do assunto em entrevista ao Bar do Vaz, preferiu não confirmar a condição de vice, deixando a definição para as articulações políticas.
Na política, quem anuncia uma candidatura costuma ser o próprio candidato. Neste caso, o anúncio continua sendo feito por terceiros.
O encontro ainda reservou outro momento que merece reflexão. Em vez de concentrar o discurso na construção de um projeto para o Acre, Vagner Sales preferiu subir o tom contra o prefeito de Cruzeiro do Sul, Zequinha Lima, chamando-o de traidor e defendendo sua expulsão do Progressistas.
A crítica política faz parte da democracia. Mas, se Zequinha precisa prestar contas, que seja principalmente pela gestão que entrega à população.
Cruzeiro do Sul, a segunda maior cidade do Acre, convive com problemas conhecidos, obras que demoram a sair do papel, reclamações constantes sobre serviços públicos e uma sensação crescente de estagnação. Para muitos moradores, a cidade parece presa ao ciclo do “mais do mesmo”, enquanto as respostas seguem lentas e insuficientes.
Nos bastidores, também cresce a percepção de que as principais decisões da administração estão concentradas em um grupo cada vez menor de auxiliares, reduzindo o diálogo político e administrativo. Se essa leitura não corresponde à realidade, cabe ao próprio prefeito Zequinha demonstrar o contrário por meio de resultados, transparência e maior abertura.
No fim, a troca de acusações produz manchetes, mas não resolve os problemas de Cruzeiro do Sul. A população espera menos conflitos pessoais e mais soluções concretas.
E quanto ao MDB, permanece a mesma pergunta que acompanha todos esses encontros: se a candidatura de Jéssica Sales à vice está realmente definida, por que a única confirmação que ainda falta é justamente a da própria anunciada?
Depois de meses oferecendo apoio a todos os lados, o partido chega às convenções sem protagonismo, sem rumo e correndo o risco de aceitar o papel que lhe restar.
Na feira, a xepa é o momento em que se vende o que sobrou. Na política, a lógica não é muito diferente. E, às vésperas das convenções de 2026, o MDB do Acre parece ter aceitado esse papel: o de quem espera que alguém, por conveniência, resolva levá-lo para casa.
Durante meses, o partido transitou entre o governo e a oposição. Conversou com Mailza Assis, alimentou expectativas de indicar o vice, abriu diálogo com Alan Rick, voltou a conversar com o governo, retomou as tratativas com a oposição e, ao final desse longo processo, conseguiu um feito raro: deixou de ser disputado para passar a ser visto como um problema pelos dois lados da disputa.
A política segue uma regra simples: quem tem convicção escolhe; quem não escolhe acaba sendo escolhido. E, pior, nas condições impostas pelos outros. O MDB desperdiçou meses tentando aumentar seu poder de barganha e terminou reduzindo seu próprio valor político.
A situação ficou tão constrangedora que a indefinição já não está apenas entre permanecer com Mailza ou migrar para Alan Rick. Nem dentro da própria legenda parece existir unidade. Enquanto uma ala sinaliza em uma direção, outra aponta para o caminho oposto. O partido transmite a imagem de uma embarcação sem leme, incapaz de definir o próprio destino.
O mais irônico é que o MDB ainda possui história, estrutura e tempo de televisão. Mas nenhum desses ativos substitui aquilo que o partido perdeu ao longo dessa negociação interminável: autoridade política. Autoridade não se mede apenas pelo tamanho da legenda, mas pela capacidade de tomar decisões e inspirar confiança.
Hoje, em vez de ser cortejado, o MDB espera ser chamado. Em vez de estabelecer condições, aguarda que alguém lhe diga quais condições aceita oferecer. Em vez de protagonizar a eleição, tornou-se personagem secundário de uma novela que ele próprio escreveu.
Talvez ainda embarque em uma chapa competitiva. Mas isso já não altera a percepção construída ao longo dos últimos meses. Na política, reputação também é patrimônio. E patrimônio se desvaloriza quando é colocado em liquidação.
No fim, resta uma lição tão antiga quanto a própria atividade política: quem passa tempo demais oferecendo o próprio apoio acaba descobrindo que, no encerramento da feira, sobra apenas o espaço reservado à xepa.